Ercília Costa – A Santa do Fado
Ercília Costa, conhecida como “A Santa do Fado”, é uma das figuras fundamentais da história do Fado português e uma das grandes vozes femininas da primeira metade do século XX. As suas primeiras gravações datam de 1929 e 1930, quando a fadista tinha, respetivamente, 27 e 28 anos, permitindo-nos hoje escutar uma intérprete que já então conquistara considerável notoriedade nos palcos e nos ambientes fadistas de Lisboa.
Estas gravações constituem documentos preciosos de uma época em que o Fado atravessava um período decisivo da sua história. A indústria fonográfica permitia conservar vozes e interpretações que anteriormente dependiam quase exclusivamente da transmissão oral e das atuações ao vivo. Através destes discos podemos aproximar-nos da sonoridade do Fado no final da década de 1920 e compreender melhor a forma como era interpretado antes da grande expansão proporcionada pela rádio, pelo cinema e pela internacionalização dos seus principais artistas.
As primeiras gravações de Ercília Costa
Nas suas primeiras gravações, Ercília Costa canta, no Fado da Alfama, as “vielas tristes, lúgubres e desprezadas” e lamenta uma Lisboa em transformação, afirmando que “aos poucos minha Alfama vai morrendo”. Encontramos nestes versos alguns dos elementos que permaneceriam profundamente associados ao imaginário fadista: os bairros populares, as ruas estreitas, a saudade, a memória e uma cidade que parece desaparecer à medida que se moderniza.
No Fado do Passado, Ercília evoca nomes femininos como Severa, Cesária e Maria Vitória, estabelecendo uma ligação entre diferentes gerações de mulheres associadas à história do Fado. A memória ocupa, assim, um lugar central neste repertório. O Fado não canta apenas aquilo que acontece no presente: recorda personagens, lugares e formas de vida que progressivamente se transformam ou desaparecem.
Quando realizou estas gravações, Ercília encontrava-se no elenco da companhia do Teatro Maria Vitória e já tinha alcançado grande popularidade. A sua atividade demonstra também a estreita relação existente, naquele período, entre o Fado e o teatro de revista.
O Fado e a Revista à Portuguesa
Conhecida como “Santa do Fado”, Ercília Costa desempenhou um papel fundamental na consolidação da presença do género na Revista à Portuguesa, precisamente numa fase em que esta incorporava elementos associados à estética modernista, particularmente na sua dimensão visual.
O Fado deixava progressivamente de estar circunscrito às tabernas, retiros e espaços populares de Lisboa. A entrada nos teatros e nos grandes espetáculos proporcionou-lhe novos públicos e contribuiu para a profissionalização dos seus intérpretes.
Um dos momentos mais emblemáticos desta ligação ocorreu com a célebre cena “Lisboa Casta Princesa”, integrada na revista O Canto da Cigarra. Apresentada em 1931 no Teatro Variedades, a cena representava uma escadaria de Alfama ladeada por duas filas de coristas empunhando guitarras, enquanto Ercília cantava ao centro, supostamente acompanhando-se à guitarra.
Esta representação visual ajudou a consolidar uma determinada imagem de Lisboa e do Fado: a guitarra portuguesa, Alfama, as escadinhas, a fadista e a evocação sentimental da cidade passaram a constituir elementos imediatamente reconhecíveis pelo público.
Nesta edição, esse momento é recordado na faixa nove através do Fado de Lisboa.
Uma época decisiva para o Fado
O início da década de 1930 correspondeu a uma transformação profunda na divulgação do Fado. O género conquistava então o espaço do chamado “fim de festa” nos palcos do teatro musical lisboeta, ao mesmo tempo que a indústria discográfica aumentava a produção de gravações destinadas ao mercado português.
Também em 1931 ocorreu outro acontecimento determinante: a estreia de A Severa, de Leitão de Barros, considerado o primeiro filme sonoro português. A obra reforçou a construção de uma memória romântica em torno das origens do Fado e da figura lendária de Maria Severa.
Teatro, cinema e indústria fonográfica contribuíram, assim, para transformar uma prática musical inicialmente associada aos bairros populares de Lisboa num dos principais símbolos culturais portugueses.
Ercília Costa ocupou uma posição privilegiada nesta transformação. A sua carreira desenvolveu-se precisamente no momento em que o Fado começava a ultrapassar as fronteiras dos seus espaços tradicionais e a encontrar novos meios de divulgação.
Preservar a voz da “Santa do Fado”
Hoje, estas gravações possuem um valor que ultrapassa largamente o interesse musical. São documentos históricos que permitem estudar as formas de cantar, os acompanhamentos instrumentais, os repertórios, os poemas e até a maneira como Lisboa era representada durante as primeiras décadas do século XX.
A recuperação e reedição destes registos permite igualmente devolver visibilidade a intérpretes fundamentais para compreender a evolução do Fado feminino. Muito antes da internacionalização alcançada posteriormente por outras grandes vozes portuguesas, artistas como Ercília Costa contribuíram decisivamente para a profissionalização, popularização e dignificação artística do género.
Ercília Costa – A Santa do Fado constitui, por isso, uma viagem às primeiras décadas do Fado gravado e a uma Lisboa simultaneamente real e imaginada. Através destas gravações podemos voltar a ouvir uma das grandes protagonistas da história do género e compreender melhor o período em que o Fado conquistou o disco, o teatro e, progressivamente, o estatuto de expressão maior da cultura portuguesa.

















