fbpx

Escolhas do João Afonso Almeida

NENO– In memoriam

 

Muita gente, especialmente aqueles para quem o desporto-rei futebol não é um assunto de primordial importância, nem suscita grande  interesse, desde há já muitos anos atrás conhecia Neno pelo significativo cognome de Julio Iglésias português, não só por causa da sua grande paixão pelo celebre artista espanhol e pelas suas canções, mas também pela quase perfeita imitação que sempre dele fazia cada vez que actuava em festas de amigos, programas de TV ou mesmo em espectáculos de outros artistas; por isso mesmo, e daí, o apelido com que era, reconhecida e carinhosamente, tratado em qualquer lugar de Portugal.

Porém, este verdadeiro embaixador da alegria e da boa disposição, nativo de Cabo Verde, não se tornou só conhecido no mundo musical nacional onde chegou mesmo até a gravar um disco em 1996 para a então editora BMG, um projecto em que  emprestou a sua voz para interpretar sucessos de artistas espanhois  como José Maria Cano (do grupo  Mecano) e de Miguel Bosé, do brasileiro Roberto Carlos  e dos portugueses  Paulo de Carvalho,  Tó Zé Brito, Ramon Galarza, José  Cid e  Antonio Manuel Ribeiro, entre outros, pois era muito mais conhecido e verdadeiramente famoso e idolatrado no mundo do futebol nacional onde se consagrou como um dos melhores guarda-redes dos últimos anos, defendendo as cores e as balizas de clubes como o Barreirense, o Vitoria de Setubal, o Benfica (onde conquistou os maiores triunfos da sua carreira desportiva que incluiram campeonatos e Taças de Portugal) e o Vitória de Guimarães, emblema onde nos últimos tempos era uma espécie de embaixador do clube, isto já depois de posteriormente, após terminar a sua carreira como jogador, ter exercido lá na cidade-berço as funções de treinador-adjunto, preparador dos guarda-redes, relações publicas, etc. ; como corolário das suas grandes capacidades e qualidades como atleta e jogador de eleição chegou também a defender por diversas vezes também as cores da Selecção Nacional portuguesa,  sendo por todos os companheiros de profissão reconhecido como o grande animador de serviço dos mais diversos balneários por onde passou quer nos dos clubes, quer no da própria selecção, pela sua maneira de ser única, alegre, franca, jovial, por vezes até um pouco apalhaçada e divertida com que sempre se apresentava e que constituía mesmo a sua grande e inconfundível imagem de marca pessoal!

Amigo de toda a gente, verdadeiro galã à moda antiga, chegando mesmo muitas vezes a ser confundido com alguns actores de cinema tal o seu carisma e beleza, sempre extremamente simpático, era um verdadeiro gentleman, super educado e gentil e era também para muita gente, em especial para muitos desfavorecidos da sorte, que nunca deixava sem uma palavra ou uma oferta monetária e também muitos miúdos sem recursos, quer de Portugal, quer da sua terra natal, um verdadeiro ídolo e acima de tudo um grande e contínuo benfeitor; recordo por exemplo os primeiros tempos da nossa longa amizade, quando durante anos fui “speaker” no antigo Estádio da Luz ( onde a equipa do Benfica treinava e jogava)  essa sua pessoal faceta de benemerência e em certo sentido de sempre se constituir como um ser humano muito especial e por vezes despojado de bens materiais, pois muitas vezes, e aquando de renovação do seu contrato de publicidade e exclusividade desportiva (tinha contrato salvo erro  com a Adidas), prescindir do dinheiro a que tinha legitimamente  direito para que a importância que lhe era devida fosse transformada em material desportivo, o  actualmente chamado merchandising, especialmente algum daquele com pequeniníssimos defeitos  e por isso mesmo muito menos valioso tal como luvas,  camisolas, meias, calções, etc. que ele quando o recebia, de imediato enviava  para Cabo Verde para ser distribuído pela população mais pobre e desse modo assim conseguir presentear muita da miudagem local, sem possibilidades económicas para comprar o material desportivo com o qual pudesse praticar o seu sonho:- jogar futebol.

A nossa amizade prolongou-se por muitos e muitos anos, tendo nós feito até, e a nível de casais, férias em Maceió e algumas zonas limítrofes, no Brasil, afinal o país de naturalidade de sua esposa – a nordestina Simone; e essa amizade era tal, que raramente em viagens do Benfica ao estrangeiro, esta não significava a adição de um novo elefante para a minha colecção particular (actualmente  já quase nos dois mil exemplares), que o Neno fazia sempre questão de adquirir, em cerâmica, marfim ou madeira para cá me depois me oferecer…

Por causa da sua referida adoração por Júlio Iglesias, ( que curiosamente e antes de ser cantor foi guarda-redes júnior do Real Madrid) um dos seus sonhos maiores era conhecer pessoalmente o próprio artista espanhol e por isso mesmo foi com imenso prazer e para grande surpresa sua, que eu lhe consegui proporcionar a realização desse sonho quando um dia o levei a conhecê-lo, pois tinha possibilidades para isso porque na altura trabalhava como director de promoção na CBS, mais tarde Sony Music e era eu próprio que tinha a responsabilidade de organizar a agenda promocional do cantor em termos de rádio, imprensa e TV, enquanto ele estivesse em Portugal para lançar discos ou para actuar ao vivo; à concretização desse primeiro sonho tive a possibilidade mais tarde de conseguir concretizar-lhe outro:- a hipótese de Neno cantar com Júlio Iglesis num mesmo palco e esse sonho acabou por tornar-se realidade até por duas vezes distintas:- uma primeira vez no Estádio do Bessa, no Porto e uma segunda no Estádio Dr. Mário Vieira de Carvalho, na Maia, no ano seguinte, tendo neste concerto a dupla tido um “reforço” no palco:- a companhia do radiofónico António Sala, trio que acabou por interpretar em conjunto a conhecida “Coimbra” do grande Raul Ferrão; dois momentos que Neno, visivelmente feliz e realizado,  considerava únicos e dos melhores e mais inesquecíveis da sua vida…

Num desses concertos Júlio Iglésias presenteou-o no final, já no camarim, com um casaco seu e com um par de sapatos, estes especialmente feitos de encomenda em Espanha de pele super fina e macia; e o que fez o bom do Neno após esta verdadeira dádiva, caída dos céus?

Pois, passados uns dias mandou fazer uma série de cópias desse mesmo par de sapatos, cópias com as quais passou a presentear de vez em quando, alguns dos seus amigos mais chegados! Eu próprio acabei contemplado, pese embora o facto de ele saber que eu tinha também dois pares oferecidos anteriormente pelo próprio cantor espanhol…

Mas a nossa amizade prolongou-se para lá do Benfica e durante muitos anos, sendo inclusivamente habitual tomarmos um café juntos, ou mesmo o pequeno almoço até, nas manhãs de sábado ou de domingo, consoante o dia do jogo, no hotel em que habitualmente se hospedava a comitiva do Guimarães sempre que a equipa vinha jogar a Lisboa, momentos que ele muitas vezes aproveitava para me presentear geralmente com camisolas do clube que representava; foi até um momento extremamente sensibilizador para mim, quando um dia me ofereceu o seu disco, que  até hoje guardo religiosamente na minha colecção, em ele colocou a seguinte dedicatória:- “…Para o mano João Afonso, com um abração muito forte deste mano que te adora- Neno”!!!

Pois foi este mesmo  genuíno e inesquecível e Neno, de seu verdadeiro nome Adelino Augusto Graça Barbosa Barros, nascido na cidade da Praia, em Cabo Verde há 59 anos, o atleta exemplar, o comunicador nato, o homem que habitualmente se apresentava impecavelmente vestido e perfumado, sempre armado de sorriso nos lábios e de uma palavra amiga e que actualmente se confundia mesmo com a terra onde escolhera viver, tal a sua identificação com a cidade-berço, com o clube local e especialmente com as suas gentes, que agora, repentinamente, nos deixou, vitimado por doença súbita ocorrida em sua casa, sem que, pelo menos entre nós os dois, nos tivéssemos poder despedir pessoalmente, nós que até tínhamos há dias combinado telefonicamente almoçar ainda antes do final do mês, uma vez que as limitações da pandemia se amenizaram um pouco, estadia essa que ele iria aproveitar para tratar de vários assuntos pessoais e assinar uma série de camisolas que ele anteriormente envergara e agora são propriedade de um grande amigo meu (o Paulo José) que é também um dos maiores , ou até mesmo o maior, coleccionador de camisolas desportivas em Portugal…

Partiu um homem bom, possivelmente, e para além ainda do meu “irmão” espanhol Patxi Andion,  o melhor  ser humano que conheci na minha vida,   que fazia favor de se constituir o meu irmão africano vivo, tal como havia sido em vida o “rei” Eusébio, um ser humano de uma dimensão gigante,

estratosférica mesmo, sempre disponível, de uma grandeza brutal e que além de ter sido um personagem incontornável do futebol português, era um homem  de grande generosidade, partilha e  camaradagem que acabou por marcar de forma indelével todos aqueles que com ele tiveram a sorte e felicidade de privar e que por isso mesmo, estou certo, nos vai fazer falta, muita, muita falta!

Desaparecido este verdadeiro “príncipe de Cabo Verde”, resta-nos a lembrança do seu inconfundível sorriso, da sua gargalhada espontânea, leal e sincera, predicados que sempre foram apanágio deste proprietário de um coração do tamanho do cosmos ; e resta-nos também o disco que há anos gravou e onde  através de uma dúzia de composições deu largas à sua voz e às suas qualidades natas de interprete romântico, canções que afinal de contas acabam mesmo por constituir uma bela recordação e um valioso e raro testemunho vocal de um ser humano excepcionalmente exemplar, como há poucos na face de Terra e do qual todos já temos imensas, infinitas saudades; à sua querida esposa Simone e à sua filha Juliana e também ao Vitória de Guimarães, que se tem portado exemplarmente nas homenagens que lhe tem sabido prestar,  endereço  daqui as minhas mais sinceras e muito chorosas condolências!

O Neno morreu, mas no entanto vai continuar pela nossa vida fora vivo, bem vivo nos nossos corações! Paz á tua alma, meu irmão!

 

 

MÚSICAS – ESCOLHAS

ANA LAINS – em plena celebração

Parece que foi anteontem que encontrei, e me apresentaram pela primeira vez, Ana Lains, na altura uma fadista já com certo prestígio,  nos antigos escritórios do meu amigo Samuel Lopes, da então editora Música Alternativa, em Benfica, andavam os dois então em conversações com o Jorge Fernando para a eventualidade de poder vir a ser ele o produtor de um possível novo disco da fadista, projecto esse que no entanto acabou, por vários motivos, por não se concretizar; no entanto agora recordo que já se passaram vários anos sobre esse nosso primeiro encontro e hoje em dia, vamos poder encontrar a cantora atarefada e em alegre, e mais que justa comemoração dos seus nada menos de 20 anos de carreira, um percurso em que gravou poucos trabalhos de originais, mas durante o qual angariou e fez jus a muitas e elogiosas referencias…

Esta mesma celebração era um sonho que ela desde há muito acalentava e porque vinte anos não são propriamente vinte dias, um aniversário destes representa também ao mesmo tempo um longo, e muitas vezes sinuoso, percurso na música portuguesa  e acima de tudo uma pessoal dedicação à promoção da língua de Camões, Amália e Fernando Pessoa não só cá dentro, mas fora de portas também pois ao longo desses mesmos 20 anos de carreira a artista embarcou em inúmeras digressões internacionais que passaram, entre outros lugares, por cidades como Barcelona, Madrid, Sevilha, Saragoça, Zamora, Bucareste, Baku, com especial destaque para o Festival Internacional de Música de Izmir, na Turquia, um evento artistico que pela primeira vez recebeu uma cantora portuguesa em palco.

Falando ainda da citada celebração, sabe-se que a cantora resolveu que seria através de um espectáculo ao vivo, rodeada de amigos, que essa comemoração teria lugar, de preferência numa sala conceituada, cheia de público, onde houvesse inclusivamente a hipótese de registar para a posteridade o evento através da edição de um disco ao vivo.

Escolhida  a  data (20 de Janeiro de 2020), o local – o salão Preto e Prata do Casino Estoril – e  limadas uma série de arestas passou-se depois à fase de selecção de reportório e de convidados e posteriormente para a realização do concerto, que tal como estava inicialmente previsto foi gravado; o resultado de tudo isso podemos agora encontrar no disco

“20 Anos – Ana Laíns e convidados ao vivo no Casino Estoril”  recém editado em formato disco/livro que inclui o áudio completo do concerto assim como alguns registos fotográficos, únicos, dessa memorável noite de celebração de uma carreira inicialmente dedicada ao fado (afinal a sua origem) e também à música popular e tradicional portuguesas.

Sobre este lançamento, que em poucos dias atingiu o primeiro lugar da tabela oficial de vendas de discos em Portugal, Ana Laíns caracteriza este projecto, em termos pessoais,  como “…uma carta de amor; uma carta escrita com a pena da resiliência, mas também uma carta que comecei e rasguei muitas vezes no decorrer dos últimos vinte anos. Porquê? Porque não é fácil entregar um coração inteiro a um País, à condição de se ter nascido dele, e nele, sem obter, muitas vezes, a reciprocidade desejada.

Além de ser um disco/celebração de 20 anos da minha carreira e de dedicação à promoção da língua e à cultura tradicional portuguesas, este trabalho tem também a peculiaridade de não esquecer a nossa 2.ª língua oficial- o mirandês, uma vez que, em estreita colaboração com a Associação de Língua Mirandesa, todas as canções do alinhamento deste concerto foram traduzidas para esta língua do nosso Nordeste transmontano”

Falando do disco, há que dizer que a artista está a cantar melhor que nunca, denotando uma grande segurança e uma identidade vocal muito própria e bastante acentuada, predicados que sem dúvida a colocam, na actualidade, num lugar de destaque na lista das melhores vozes femininas nacionais da nossa riquíssima música popular, sendo de assinalar e de aplaudir também o apertado critério de selecção de reportório, que acabou por se transformar realmente numa escolha absolutamente “vintage”, pois é de facto uma selecção de composições de primeira água, diria mesmo como costumam afirmar os brasileiros:-“para ninguém botar defeito”; o duplo disco, afirma-se realmente peculiar, sonoramente brilhante, vocalmente sedutor e emocionalmente envolvente ao mesmo tempo que se assume também, indelevelmente, de uma grande honestidade e portugalidade e por isso mesmo não custa nada pressagiar que vai conquistar mesmo os ouvintes mais exigentes.

Contando na elaboração do espectáculo e sua consequente gravação com a participação de inúmeros convidados que ao longo dos anos foram fulcrais no percurso artistico da artista portuguesa, tais  como o “trovante” Luís Represas, o meu irmão verde-amarelo Ivan Lins, a fadista Mafalda Arnauth, Fernando Pereira, o guitarrista Silvestre Fonseca, Fernando A. Pereira (trovador) e ainda o Grupo Cantares de Évora e as Adufeiras de Idanha-a-Nova, o projecto acaba por resultar num disco marcado por uma forte identificação musical, onde se destacam a fusão de várias rítmicas e sonoridades, bem portuguesas, com as muitas influências culturais que se cruzam no dia-a-dia musical do nosso País , num crescendo de emoções e sentimentos, que transformam o projecto no melhor evento ao vivo que me foi dado ouvir nos óltimos tempos e que por isso mesmo merece uma especial e cuidada atenção sob pena de se deixar passar em claro uma belíssima obra de assinalável bom gosto e qualidade!

Com um disco, sob muitos aspectos, absolutamente brilhante que é um ao mesmo tempo um desfilar de grandes instrumentistas e uma verdadeira festa de colorido sonoro e rítmico bem portugueses, estão assim de parabéns o nosso fado e a nossa música popular e tradicional, que pela voz, cada vez mais acentuadamente característica, bonita e brilhante da multifacetada Ana Lains se transformaram através deste memorável “ao vivo” num grande momento musical de intenso prazer auditivo!!!          

 

2CDs/livro Tradisom

 

ZECA MEDEIROS

“A dúvida soberana” uma obra-prima

 

Desde há muitos anos que as belas ilhas do arquipélago dos Açores são, para além de um verdadeiro paraíso e um inacreditável deslumbramento paisagístico, um enorme viveiro musical, explicado pela existência de um grande caudal artístico, traduzido num crescente número de artistas e de grupos e por um espólio musical extenso e de altíssima qualidade, no que toca especialmente à área da música popular portuguesa e tradicional; quem não recorda por exemplo populares canções que desde há muitos anos fazem parte do espólio musical português e do nosso imaginário musical tais como “São Macaio”, “ A fofa”, “Eu fui à terra do bravo”, “Cantiga da terra”, “A charamba”, “Olhos pretos”, “Tempo de partir”, “Sapateia”, “Lira”, “Chamateia”, “O bailado da garça”, “Baleeiro”, “Pézinho”, “Chamarrita”, “O cantador” ou “ Hino do divino Espírito Santo” e uma série de artistas a solo ou colectivos como Zeca Medeiros, Carlos Alberto Moniz, Rimanço, Suzana Coelho, Fernando Machado Soares, Belaurora, Minela, Vera Quintanilha, Luís Bettencourt ou o irmão deste Nuno Bettencourt, que desde há muitos anos é parte integrante dos bem sucedidos Extreme, sediados nos EUA?

É na verdade um grande e quase infindável desfile de canções e de artistas, alguns já de certa nomeada, com que os Açores tem sobremaneira prestigiado a nossa música de texto e que vem comprovar não só uma grande vitalidade musical, mas também uma grande diversidade e pluralidade artística, aspectos que sem dúvida vão ajudando a enriquecer cada vez mais, e gradualmente, a nossa, por vezes esquecida, mas sempre  bem amada, música popular portuguesa…

Pois, este mesmo filão musical de origem açoriana é agora de novo notícia pela edição de um novel projecto autoral da responsabilidade de Zeca Medeiros, obra não só absolutamente singular, mas também pedra fundamental no combate contra um certo marasmo instalado e, convenhamos que  também, alguma falta de criatividade que tem invadido a nossa querida MPP, especialmente nos últimos tempos, em parte derivado não só da maldita pandemia que a todos assolou um pouco por todo o Globo, mas também, e acima de tudo, por uma certa falta de apoios e de compromissos editoriais por parte das companhias multinacionais sediadas entre nós, que à música popular e de texto quase nada tem na realidade ligado nos últimos anos, em detrimento de obras menores em língua estrangeira que cada vez mais vão tóxicamente poluindo o nosso ambiente radiofónico, televisivo e jornalístico; daí a proliferação das edições de autor, em que os seus mentores custeiam todos os gastos, limitando-se as chamadas majors a aproveitar o talento e trabalho alheios, ficando-se somente distribuir o produto, quase nada arriscando, isto monetariamente falando, é claro!

Com efeito, e depois de há meia dúzia de anos atrás ter editado o fabuloso trabalho “Aprendiz de feiticeiro”, o cantautor açoriano, também conhecido e conceituado realizador de cinema (O livreiro de Santiago, etc.) e de televisão (Mau tempo no canal, Gente feliz com lágrimas, Xailes negros, etc.), começou, ainda antes do inicio da  pandemia, a trabalhar em profundidade com tempo, dedicação, amor e sem dúvida muita inspiração, recuperando antigas canções, preparando, escrevendo e  gravando uma nova obra discográfica, terminada já depois em plena pandemia, que sem dúvida, e em face da sua altíssima qualidade, quer temática, quer sonora, quer mesmo instrumental vai por isso mesmo acabar por ficar para os anais da música popular portuguesa:- “A dúvida soberana” (CD +DVD).

Trata-se de  um projecto quase conceptual, onde o artista micaelense surge, na plenitude das suas reconhecidas qualidades de compositor, intérprete e instrumentista, rodeado de uma série de grandes instrumentistas como Davide Zaccaria, Luís Bettencourt, Carlos Guerreiro, Ricardo Parreira, Manuel Rocha, Miguel Quitério e Paulo Vicente, entre outros e de um excelente naipe de vozes, já de gabarito, tais como João Afonso, Katia Guerreiro, Filipa Pais, Maria Anadon, Marta Rocha Pereira, etc.

Abordando, profunda e profusamente a temática das viagens e navegações marítimas (até na composição de abertura do disco se celebra o “achamento” da Ilha de Sta. Maria) o autor fala-nos aqui de barcos e marinheiros, sonhos e inquietações, mistérios, aventuras e desventuras, mulheres cobertas de xailes negros, maresias, ondas alterosas e acalmias, náufragos e escravos, destinos atlânticos, arpões e baleeiros, relembra um velho livreiro (um açoriano emigrante que acabou por se tornar no  primeiro editor do gigante Pablo Neruda (vide o filme ”O livreiro de Santiago”), fala de rituais de sangue, ousadias e bravuras, prantos derramados à flor do mar e também à flor da terra, Ulisses, Itaca e bailados insulanos, sonhos sem rumos, brumas, latitudes, danças das ondas e de marés, ilusórias mas atractivas sereias, atlantes e utopias, carregadas trevas, bailados, âncoras de esperança e ilusão, enfim histórias reais e imaginárias de gente feliz com e sem lágrimas (aqui se relembra o meu querido amigo e escritor micaelense João de Melo) e de açorianos com destino traçado ou indefinido, na esperança adiada de um fado por descobrir, e quem sabe, até por desvendar, qual viajante da utopia em madrugadas de sal e de ilusões ou qual náufrago num circulo fechado rodeado de amazonas, feiticeiras, encantadores de serpentes, bruxos e profetas, à procura de uma imaginária roda da fortuna, e no entanto sentindo-se perdido em sobressaltos, quimeras,  ilusões e inquietações sem fim e, apesar dum grão na asa, sempre eternamente confiante numa possível redenção que lhe há-de ser outorgada  sob a bandeira do Divino, que no final há-de levá-lo de novo de regresso a casa, de volta ao aconchego, esperando assim que a volta da maré lhe permita fintar de novo a tristeza no relvado da sorte e na certeza de se ver de novo em jogos viciados, sob a luz de uma trémula candeia,  a ganhar aos matraquilhos, à bisca e ao dominó, sempre ao abrigo do sonho utópico de uma nova Grândola vila-morena e de uma doce fraternidade que lhe permitam um final feliz ao compasso de um coração inquieto, que no entanto o ajudará a vencer as muitas marés de uma certa e labiríntica assombração…

Está assim, portanto, de regresso, um notável artífice da palavra, um retratista de viagens marítimas e um peregrino de aventuras e grandes emoções, que  mais uma vez surpreende pela sua extraordinária veia criativa e pela excelência das suas propostas, ao mesmo tempo que se transforma de novo num romeiro de aventuras terrenas, marítimas e atlantes e, acima de tudo, num carismático e bem sucedido alquimista  da música popular portuguesa; um homem que nunca tendo tido necessidade de se colocar em bicos de pés para dar a conhecer o altíssimo nível da sua obra quer discográfica, quer cinematográfica, e que efectivamente tem sido, com muito raras excepções, pouco menos que injustamente ignorado pelos media nacionais que, apesar de tudo e tardiamente, ainda vão agora a tempo de reconhecer a altíssima qualidade e beleza do presente trabalho deste artesão musical açoriano, tranquilo e  injustiçado, a quem agora e perante a evidência desta obra, terão obrigatoriamente de pedir desculpas não só pelo crime de lesa cultura musical que desde há alguns anos a esta parte vêm praticando, mas especialmente por todo o ostracismo a que o têm votado, factos que os tornam cultural e  criminosamente culpados!!!

Este novo trabalho é um verdadeiro bordado musical, tecido artesanalmente sob as sonoridades da música popular portuguesa e recheado com sons de fado, laivos de música celta, ares sonoros de Buenos Aires e de Astor Piazolla e acima de tudo impregnado com perfumes musicais  e sonoros absolutamente soberbos e embriagadores, qual sublime aroma emanado das diversas ilhas pelos milhões de multi-coloridas hortênsias floridas, que no período compreendido entre Fevereiro e Maio de cada ano, alegram de modo quase orgasmico e para comum deleite, os nossos sentidos olfactivos, bem como os apurados narizes  de locais, turistas e dos incorrigíveis amantes da fotografia, que por lá sempre pululam como abelhas voando e zumbindo em volta do néctar das flores…

Contendo 14 canções discograficamente inéditas no CD e 24 videos, alguns de algumas composições agora revisitadas e outras talvez já esquecidas, bem como alguns inéditos, a obra  é luxuosamente apresentada com um libretto de 120 paginas, onde as ilustrações, de certo modo surpreendentes, sugestivas e apelativas são da autoria do próprio Zeca Medeiros, um trabalho que contém várias histórias centradas nas ilhas açorianas e especialmente no historial marítimo do belo arquipélago, no sofrimento, aventura, vida e descobertas das gentes locais; o projecto, recheado de grande sensibilidade poética, musical e sonora, é simultaneamente, um verdadeiro manancial de inspiração, de vitalidade e de grandes epopeias, de histórias de viajeiros e de marinheiros, mas acima de tudo é um livro aberto sobre as diversas ilhas, sobre aventuras e desventuras marítimas, não deixando no entanto de falar também, indelevelmente, sobre o amor.

Um disco brilhante, com uma grande produção de Tiago  Rosas (Palco de ilusões) que acaba por constituir-se ao mesmo tempo como um manancial de belas e inspiradas canções, que no seu âmago e na sua intrínseca qualidade, transformam ao mesmo tempo este notável projecto num verdadeiro acto de revolta, qual grito do Ipiranga dado à beira-mar de uma qualquer ilha, clamando por reconhecimento geral dos habitualmente “surdos” media nacionais; e se até agora era legítimo e habitual tomar-se como medida de comparação em termos de “o melhor disco da MPP” o notável  “Por este rio acima”, a partir de agora essa medida de comparação terá  forçosamente de mudar e ser transferida para esta obra-prima do cantautor micaelense (já  anteriormente agraciado com galardões como o “Prémio José Afonso” em 2005 para o disco “Torna-viagem”), pois este A dúvida soberana” é  simplesmente o melhor trabalho de sempre da nossa música popular portuguesa!!!

 

CD/DVD Tradisom

 

JOSÉ AFONSO e ADRIANO CORREIA DE  OLIVEIRA

dois livros / dois génios

José Afonso (Aveiro 1929 -Setubal 1987) e Adriano Correia de Oliveira (Porto 1942 -Avintes 1982) foram na nossa area musical duas das suas figuras máximas, preponderantes e também de vital importância na chamada música portuguesa de texto, que alguns poucos ainda teimam no entanto em apelidar de “música de intervenção”, mas qualquer um deles constituiu-se de crucal importância para o crescimento do movimento literário/musical de esquerda que “assolou”, positivamente,  os anos 60/70 e levou a um crescimento substancial do numero de interpretes e de cantautores que com eles, e especialmente mercê de todo o conteúdo veiculado pela  sua música, ganhou consciencia social e politica, sonhou e projectou um futuro , mas acima de tudo também consciencializou outras gentes da área musical que até ali não tinham ainda entrado de peito aberto na discussão e na luta e no consequente braço-de-ferro que então se desenhava, contra os podres poderes instituidos, contra o bolorento Estado Novo vigente e especialmente contra a arrepiante e brutal polícia politica de então– a maléfica PIDE/DGS, de más recordações, que era, infelizmente,  desde há muitos anos a base de sustentação e apoio desse mesmo Estado vigente, arcaico, neo-nazi, controlador, dominador e… espião de intimidades!

Em conjunto,  os dois artistas não só contabilizaram uns muitos largos milhares de discos apreendidos, quer nos armazens da distribuição, quer nos pontos de venda, como  foram  duas das maiores vítimas em termos de cancelamento de espectaculos e de proibição de letras de canções por parte da tristemente celebre e famigerada comissão de censura, que bastava não entender uma palavra de qualquer um dos textos ou dos poemas apresentados para visionamento prévio, para de imediato assinalarem a proibição com o célebérrimo lapis azul; e eu próprio pude confirmar isso em pelo menos duas ocasiões que me vêm assim de repente ao pensamento:-a primeira delas por causa de um concerto  de Patxi Andion em 1974, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, pouco antes da alvorada de Abril, no que dizia respeito ao conteúdo literário do tema “El maestro”( que eu propositadamente “esquecera” de levar à chamada “censura prévia”,o habitual controle do departamento censorial que ficava ali para os lados do largo da Misericórdia, em Lisboa) e que motivou a que no final desse mesmo (fabuloso) espectáculo eu próprio fosse questionado e acabasse detido pelos esbirros da  mesma polícia politica e o segundo caso prendeu-se com alguns artigos a publicar na altura, naquele que foi o primeiro jornal de música em Portugal- a Memória do Elefante, de que fui um dos co-proprietários juntamente com mais três amigos meus da altura, colegas de curso e de locução no antigo Rádio Clube Português, na Rua Tenente Valadim, no Porto, em especial  com vários textos do meu querido amigo e  saudoso nativo de Vinhais – Jorge Lima Barreto e ainda também com alguns dos artigos do jornalista, escritor e poeta José Viale Moutinho, sobre os quais regra geral se abatia sempre e irremediavelmente a temível tesoura censorial dos mangas de alpaca, uma mão cheia de elementos risiveis e hipocritas, mas crueis e salazarentos, da mesma tristemente célebre comissão de censura…

Pois esses mesmos dois cantautores portugueses são agora de novo notícia entre nós pela publicação de dois excelentes livros, que abordam, embora de forma suscinta, varias facetas da vida e obra desses dois “monstros sagrados” da musica popular portuguesa e que acabam por ser também, pela esclarecida pena e memória do autor das duas obras, testemunhos raros e fieis depositários de historias de vida e de obra da dupla, que o tempo já consagrou como dois fulcrais icones da MPP; os livros, onde se contam em geito de crónicas, histórias vivenciadas de viagens, de amizades, encontros com trabalhadores e até perseguições da policia politica,  se  recordam também experiencias de certa relevancia, social e politica, e retratam, em forma de excertos, parte de testemunhos e excertos de algumas entrevistas com varios personagens que conheceram de perto as duas figuras miticas da nossa musica popular , dupla  que tem sido ponto fulcral e base das edições surgidas até agora, são da autoria de Mário Correia, da editora Sons da Terra, de quem já anteriormente aqui falei aquando de outras duas anteriores edições:- “José Afonso em terras de Trás-os-Montes” e “Adriano Correia de Oliveira- Canções de Abril…depois de Abril”.

Duas obras que se constituem como dois fundamentais e importantes lançamentos da editora nortenha, sediada em Sendim, no belo Nordeste transmontano, e que  acabam por  nos ajudar a melhor compreender a verdadeira importância social, politica e musical que tiveram estes dois vultos da música popular portuguesa, que por toda a sua importancia social e corajosa luta de peito aberto, bem  mereciam estar no Panteão Nacional, no lugar de outras figures de somenos importancia que lá estacionam, acho que algumas imerecidamente, há muitos anos!

Para finalizar, recuando um pouco no tempo e em jeito de recordação histórica, sabe-se que o Centro de Música Tradicional Sons da Terra, teve origem já há cerca de duas dezenas de anos, mais concretamente no início de 2002 em Sendim, tem por objectivo essencial a promoção da cultura tradicional do Nordeste Transmontano e foi criado tendo em vista responder às necessidades das entidades e pessoas individuais que actuam na promoção e investigação da música tradicional do Nordeste Transmontano do nosso país – e que agora podem já assim encontrar neste local um conjunto de estruturas, estratégias e materiais para obter um melhor enquadramento.

O centro tem também na mira um vasto leque de actividades, que vão desde os cursos e a formação, passando pela organização de festivais, colóquios, conferências e concertos – sendo, contudo, uma das suas principais vocações o criterioso tratamento, catalogação e disponibilização de recolhas sobre as tradições transmontanas, através de um conjunto muito alargado de materiais, com destaque para tudo que se relacione com sons, filmes e documentação variada; a biblioteca do mesmo Centro (integrando cerca de 2000 volumes, directa ou  indirectamente consagrados à temática da música tradicional, portuguesa e europeia) e a fonoteca (integrando cerca de 4000 discos, mais de 200 horas de recolhas musicais da tradição oral, além de filmes e arquivos documentais fotográficos) têm sido frequentadas por estudiosos universitários e amantes das músicas tradicionais, tendo mesmo já sido iniciadas várias cooperações para estudos científicos sobre a matéria, tendo também, e para além de tudo isto, prosseguido um laborioso trabalho de recolhas musicais da tradição oral portuguesa         (incidindo fundamentalmente sobre o Nordeste Transmontano mas também pelas restantes regiões do Norte de Portugal ), bem como tem levado a cabo uma série de acções de grande dinamização das associações locais.

A edição de livros é no entanto, e também, um importante factor a ter em conta e a merecer um grande carinho, especialmente por parte do mesmo multifacetado Mário Correia, homem forte do habitual e anual Festival Intercéltico de Sendim, como aliás já o havia sido durante vários anos quando se constituiu como um dos elementos preponderantes na realização e organização  de um similar certame musical das Músicas do Mundo- o Festival Intercéltico do Porto, de boa e saudosa memória, que durante anos marcou presença e assentou arraiais em vários espaços (Coliseu, Teatro Rivoli, Jardim do Asilo do Terço…) na cidade do Porto.

 

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO-viveiro de recordações

Paralelamente com a sua actividade como líder incontestado de um dos dois mais antigos grupos do rock em português- os almadenses UHF, António Manuel Ribeiro tem dado largas à sua criatividade também como artista a solo revelando grandes capacidades não só no especifico campo da escrita, como também na área da composição musical e na restrita e especifica área da produção; até agora, assinou mesmo já uma mão cheia de grandes trabalhos em nome próprio onde tem revelado uma invulgar inspiração e uma grande criatividade especialmente na área  dos textos, onde geralmente se assume como um grande contador de histórias  e um cronista de mão cheia, especialmente quando traz à tona da agua, belas e memoráveis recordações, quer da sua infância, quer dos tempos de juventude que a esta se seguiram.

Nos últimos tempos, aproveitando o período pandémico e de obrigatório recolhimento caseiro, trabalhou pausadamente num novo disco e dando sentido a uma celebre frase onde se afirma que “recordar é viver” aí está ele outra vez embrenhado num novo projecto de índole pessoal – “As canções da casa escura” onde de novo puxa pela memória, desafiando por isso as suas recordações ainda presentes e mais marcantes, mesmo que algumas delas se saiba vem já da sua longínqua infância, presenteando-nos desse modo com mais uma verdadeira caderneta de “cromos pessoais”, afinal de contas uma série de retratos/lembranças, verdadeiramente fotográficas, que nos são proporcionadas sob a forma de um novo trabalho; e é até o próprio AMR que nos transporta agora, pela mão, até esses tempos antigos e passados e nos fala abertamente não só de algumas  das canções que desde há tempos  tinha escritas mas que estavam “estacionadas” em pessoal arquivo, ao mesmo tempo que relembra que foi sua mãe, que na tentativa de melhor o domesticar em termos de educação, criou na altura  duas distintas individualidades para melhor o persuadir a aceitar as suas regras:- um assustante “papão” e uma imaginária “casa escura”…

Ao mesmo tempo justifica e explica o porquê da abertura deste verdadeiro baú do tempo e esta recolha de um valioso conteúdo pessoal e memorial  a partir de imagens marcantes da sua infância quando declara que “…neste disco reúno canções que fui guardando para o tempo certo, espécie de colheita em repouso, sem barrica de carvalho! Chegaram até hoje; juntei-as agora e adoro a sua coerência, vindas de diferentes ilhas da inspiração e dos episódios que vamos visitando nesta fisicalidade.  Solitário gravei, num período de confinamento social por imposição sanitária…”

Agora, na audição desta nova proposta discográfica, onde AMR recebeu a especial e preciosa colaboração de alguns amigos tais  como Tim, Miguel Angelo, Manuel Faria, Fernando Delaere ou  Rui Padinha, entre outros mais, verifica-se que  o artista almadense está  vocalmente, em grande forma, cantando melhor que nunca, com a voz colocadíssima, dando um grande enfase às palavras que lhe servem de trampolim para através delas dar os seus recados, uma série de grandes canções de elevado recorte instrumental, onde se destaca uma evidente grande coerência estética e tudo isto através de uma  poética exemplarmente pessoal, profunda e inspirada;  dando mostras ao cantar de uma perfeita dicção, factor que aliás, e desde quase sempre, tem sido seu apanágio e também  uma das suas mais valias e legítimas bandeiras, o cantor dos UHF exprime-se aqui através da interpretação de uma mão cheia de belissímas baladas, todas elas servidas por inspiradas melodias, exemplarmente construídas, que servem também para permitir demonstrar a toda a gente,  não só o seu actual grande momento como interprete,  mas também a  sua evidente grande forma como compositor…

Para além das belas propostas que integram o disco, o meu pessoal destaque vai para a excelente produção  e em termos de repertório para as canções número nove e oito do alinhamento do projecto, a primeira destas uma engraçada ode ao futebol da autoria da dupla João Gobern/AMR e a segunda uma carismática, imaginativa, bem concebida e pessoalíssima versão do cantor para a célebre composição “Povo que lavas no rio”, que a diva Amália popularizou e eternizou, e cujo poema tem assinatura do meu querido e saudoso vizinho, amigo, companheiro de tertúlia e de pastelaria no Porto (a confeitaria Porto Rico, nas proximidades  da rotunda da Boavista e do Carvalhido) – o grande e imortal poeta e homem de letras – Pedro Homem de Mello…

Numa altura em que muitos artistas a solo, e alguns grupos  nacionais também, teimam (estupidamente e num autentico crime de lesa cultura) em cantar em língua estrangeira (vide por exemplo o flagrante péssimo exemplo da canção vencedora do ultimo Festival da Canção, interpretada sabe-se lá porquê e com que desígnios, na língua de Shakespeare), Antonio Manuel Ribeiro continua a sua cruzada pessoal de cantar (bem, diga-se de passagem) na língua de Pessoa, Camões e Amália e propõe-nos agora um outro grande trabalho em disco, que se assume sem dúvida e desde já como uma das melhores obras em língua portuguesa, editadas este ano; cumpre agora aos “media” nacionais (habitualmente surdos e geralmente de ouvidos só abertos para inenarráveis e sofríveis estrangeirisses) conceder-lhe  o “tempo de antena” que a qualidade intrínseca do trabalho amplamente justifica e merece!

CD  AMRA Discos ( com apoio da  Fundação GDA e da Antena 1)

 

CARLOS DO CARMO-o adeus final!

Deixou-nos fisicamente há algum tempo atrás –  a 1 de Janeiro deste ano, mas quis fazê-lo de uma maneira bem pensada e diferente de todos e do que é hábitual:- com um inédito trabalho de originais ( que esteve para ser lançado ainda em vida, mas que a maldita pandemia atirou por várias vezes para depois do seu passamento), um novo disco feito testamento e carta de despedida (iniciada conscientemente já por alturas do início de 2019) a amigos, admiradores, público e portugueses em geral, num pack duplo que inclui no primeiro disco as  tais novas composições originais, fruto e resultado da sua mais recente colheita literária e parte dele gravado quando já se encontrava nítida e fisicamente debilitado pela doença que haveria de o levar do nosso convívio, um novel projecto onde o artista continuou a manter a sua rigorosa e habitual linha de coerência selectiva e uma forte e tradicional exigência literária ( teimou até muitas vezes cantar obras de poetas que muitos nem sequer ousavam abordar) predicados com que ao longo da sua longa carreira nos foi brindando, onde o poder da palavra foi sempre  recuperado, sem no entanto abandonar o seu habitual humor inteligente q.b. e toda a elegância estética e simplicidade profissional que sempre foram seu apanágio e tambem uma pessoal característica; no segundo disco vamos poder encontrar o retrato sonoro de um derradeiro concerto de adeus aos palcos, evento que registou  produção da dupla Salvador Almeida/Alfredo Almeida e teve lugar no Coliseu dos Recreios, de Lisboa, há cerca de ano e meio, mais concretamente a 9 de Novembro de 2019.

O referido disco de originais certamente não foi aquele com que o artista sonhara e pretenderia deixar-nos , mas foi o projecto…possível, aquele em que Carlos do Carmo, apesar de tudo e de todas as vicissitudes e contrariedades e imagino que com um enorme sacrifício, se conseguiu suplantar a si próprio, sabe-se lá com que esforço sobrehumano, superando estoicamente contínuas dificuldades e uma iniludível fragilidade e debilidade aparentes que a doença já acentuava inexoravelmente…

Ora apesar de tudo, e tal como pretendia, o memorável fadista deixou-nos  com “E ainda…”, um legado discográfico de despedida, apesar de tudo,  absolutamente  brilhante e de grande selectividade literária, um trabalho de notável  resiliência e talento, dando nele vida, voz e eternidade a belas palavras de vultos de  enorme grandeza literária como são sem dúvida gente como Hélia Correia, Vasco Graça Moura, Júlio Pomar, Mia Couto( este, autor da frase com que se encerra o disco), Sofia de Mello Breyner, Jorge Palma, Herberto Helder ou José Saramago  e a inspiradas músicas de uma mão cheia de conceituados autores tais como Paulo de Carvalho, António Vitorino de Almeida, Jorge Palma, Joaquim Campos  ou Mário Pacheco, tudo isto sob umas belíssimas e eficientes camas musicais, de elevada qualidade, talentosa intuição e uma grande versatilidade, da autoria dos seus  três “mosqueteiros “do fado, que acabam afinal de contas por ser também os habituais e mais fieis “compagnons de route” do fadista dos últimos anos:- José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado) e José Marino Freitas (baixo acústico), afinal um trio de eleição e de indesmentível bom gosto, que assinou também os brilhantes arranjos musicais das novas e  derradeiras  composições originais do fadista…

Recuando um pouco no tempo, recordo que conheci pela primeira vez o Carlos do Carmo, salvo erro, há cerca de cinquenta anos atrás no saudoso João Sebastião Bar ( propriedade de um muito querido casal amigo – a Vera e o  Fernando Correia), o concorrente nocturno directo, em termos de intelectualidade do célebre Procópio e que era, cultural e politicamente, talvez o local mais “in” da Lisboa de então, habitual poiso e local preferido para etílicas viagens, algumas verdadeiramente épicas e de declamação de poesia,  de muitos políticos (de esquerda), escritores, realizadores de cinema e igualmente de muitas das “aves” raras artísticas, musicais  e noctivagas da altura, dentre as quais recordo assim de repente, entre outros, os nomes de Fernando Tordo, José Carlos Ary dos Santos, Paulo de Carvalho, António Victorino de Almeida, muita gente radialista das áreas da locução ou da técnica, umbilicalmente ligada ao Rádio Cube Português como por exemplo Luis Filipe Costa, José Ribeiro, Matos Maia, Orlando Dias Agudo ou Fernando Quinas, o grande  Adriano Correia de Oliveira ( a espaços e na procura de um jantar pois que “liquidez” já ele tinha consumido em demasia nessa altura tardia das noites), Mário Viegas, José Fonseca e Costa, também muita gente da  televisão como o meu querido  trio de “brothers” Fernando Balsinha, João Filipe Barbosa e Raul Durão  e o grande “charmoso”, é claro!

Ao longo dos anos eu e o fadista fomos de tempos a tempos convivendo, em jantares ou simplesmente  bebendo no JSBar, desenvolvendo desse modo uma amizade e admiração reciprocas, que se cimentaram mais tarde quando ele passou a ser artista do catalogo da editora Phonogram, mais tarde Polygram e hoje em dia Universal Music, onde fui seu director de promoção até ao início dos anos oitenta, quando então saí para a partir daí integrar os quadros da multinacional americana CBS, na sua filial em Portugal.

Durante o meu percurso na mesma CBS , hoje Sony Music, e após a minha reforma, fomos mantendo contacto e então, já como produtor executivo independente,  propus um dia ao Carlos trabalharmos em conjunto num projecto em que ele próprio escolheria os fados, que na sua opinião, tivessem sido os mais importantes na história do fado, disco esse que acabou por ser editado na então Som Livre sob o título de “As escolhas de Carlos do Carmo”; para isso andamos dias a fio em sua casa a trabalhar no projecto e foi por essa altura que um dia consegui ganhar coragem e levei para o nosso encontro de trabalho diário uma serie de discos meus -CDs e vinis, para serem autografados e também dois livros sobre ele.

Num deles, editado pela organização do prémio José Afonso, anual iniciativa da Camara da Amadora,  tive então a enorme surpresa de receber a prova da sua grande amizade e carinho para com a minha pessoa, sob a forma de uma  dedicatória pessoal (que mais tarde acabei por mandar emoldurar e tenho exposta na parede do escritório) e que rezava o seguinte:- “João, nesta viagem breve a que chamamos vida, às vezes há encontros que lhe dão mais sentido.Ter-te conhecido foi uma dádiva e ser teu amigo um privilégio. Um abraço do Carlos do Carmo – Novembro 2007”.

Confesso que chegado a casa, e ao ler a dedicatória, fiquei positivamente sem palavras não só pelo conteúdo da declaração em si, mas também por ela partir da mais importante personagem masculina fadista nacional, um homem de grandes pergaminhos, dotado de uma grande generosidade, saber, elegância, educação, humor, companheirismo e solidariedade, um verdadeiro gigante da canção nacional por excelência, um artista que sempre se constituiu como uma grande e viva referência e influência para todos os fadistas, mais antigos e mais novos também, um homem que partiu muito recentemente, mas nos  deixou  o seu adeus sob a forma de um disco de originais notável, ao mesmo tempo que se consagrava como uma figura mitica, inesquecivel e incontornável, de quem já temos, e eu em particular, muitas e eternas saudades !!!

E este seu derradeiro disco é a prova irrefutável de que o grande Carlos do Carmo, apesar de, bem à sua maneira,  nos ter dito adeus, continua e irá continuar  eternamente  vivo na nossa memória colectiva!

Lá em cima, onde agora se encontrar, imagino eu que épicas noites fadistas deve ele protagonizar,  na companhia de gente da sua área profissional que tanto admirava como sua mãe Lucilia do Carmo, Alfredo Marceneiro, Amália e  Celeste Rodrigues, Beatriz da Conceição, Argentina Santos, Armandinho e tantos, tantos mais…

2CDs  Universal Music

 

HUUN-HUUR-TU-sons ancestrais!

Recentemente tive ocasião de ver através da programação da RTP2, que é actualmente e sem dúvida alguma o meu canal televisivo preferido, não só pela exibição de alguns excelentes programas musicais, quer também de algumas series, nestas especialmente as de origem europeia, com destaque para as nórdicas, que confesso, algumas das que têm sido exibidas são realmente fabulosas, bem escritas e melhor interpretadas; e entre tudo que foi proposto recentemente aos telespectadores destaco um programa especial sobre as musicas e sonoridades de longínquas e remotas paragens do enigmático Oriente com que fiquei absolutamente siderado e fascinado – a música tuvana– o “khoomei” !

Essas sonoridades são originárias de Tuva, republica que se situa no sul da Sibéria, entre a Russia e a Mongólia, uma terra bem remota e de difícil acesso e cujas religiões– budismo tibetano e xamanismo  nativo, tem directamente muito a ver com a musica que se pratica não só localmente, mas nas paragens geográficas em redor também;  o cantar gutural khoomei distingue-se pelo facto de os seus vocalistas cantarem num tom difónico, fundamental e harmónico ao mesmo tempo, duplicidade que permite obter-se uma sonoridade simultaneamente bela e emotiva, contemplando às vezes quase sempre duas ou três notas de cada vez!

Os nativos de Tuva sempre se preocuparam em proteger e divulgar as suas tradições ancestrais e os sons próprios das suas paragens e por isso mesmo o cantar khoomei é hoje em dia já extraordinariamente popular naquelas paragens e também até no exterior, mercê sobretudo da popularidade que alguns artistas e grupos vão alcançando nos festivais das musicas do Mundo que vão abrilhantando os festivais um pouco por todo o Planeta; entre todos aqueles que já alcançaram certa notoriedade fora das fronteiras de Tuva sobressaem os  já nossos conhecidos Huun-huur-tu detentores de uma já razoável discografia de assinalável interesse musical e cultural, um quarteto de grandes músicos e grande vozes, que na sua história regista já muitas e importantes colaborações com gente famosa de várias áreas musicais tais como o mago Frank Zappa, Art Moscow trio, Johnny”guitar” Watson, as Bulgarian Voices, os reis japoneses dos tambores- Kodo, o Kronos quartet e os meus queridos amigos de longa data, de comezainas e de grandes lides etílicas- os irlandeses Chieftains.

Com efeito, já desde 1990 que o colectivo tuviniano começou a galgar fronteiras, a projectar, e a conseguir mesmo impor, as suas propostas para outras latitudes, que o mesmo será dizer a divulgar a historia de Tuva, a sua cultura e a sua natureza, raras e únicas, que afinal tem muito a ver com as terras ao seu redor, a paisagem,  vivências e  histórias locais, tendo  estas também igualmente muito a ver com a mãe Natureza  nomeadamente com a taiga do leste da Sibéria, com as infindáveis e gélidas estepes e os usos e costumes locais ancestrais; a musica por si só pode definir-se como de tradições nómadas centro asiáticas, única e singular que, e falando por mim próprio, face à sua extrema peculiariedade e invulgar sonoridade vocal e gutural não deixam ninguém indiferente!

Por isso mesmo proponho hoje aqui nas escolhas, a todos que fazem o favor de me ler, um trabalho do grupo já atrás citado que nos chega com um convidado especial Sainko no disco “Mother earth! Father sky!”, já datado de 2008, mas agora reeditado; trata-se de um projecto  fascinante e absolutamente  sublime de um colectivo excepcional que já por cá actuou em Sines e que merece, por parte dos amantes das músicas do Mundo, uma especial atenção pela sua invulgaridade, beleza vocal e instrumental, esta proveniente dos vários instrumentos tradicionais tuvinianos que o grupo só utiliza, e que na sua globalidade transformam este trabalho numa obra de rara intensidade, vocalmente estratosférica  e celestial, onde as vozes e os instrumentos se fundem até se atingir um verdadeiro orgasmo musical, espiritualmente envolvente, numa verdadeira invocação dos espíritos e dos deuses, profundamente melodiosa, relaxante e… impactante!!!

CD Jaro/Megamusica

 

SINIKKA LANGELAND – sonoridade celestial

Há projectos musicais que nos seduzem aos poucos, lentamente, consoante as suas audições se vão sucedendo umas atrás das outras,  enquanto outros há que não precisam ser ouvidos muitas vezes, pois nos conquistam de imediato, mal as primeiras notas repercutem nos nossos ouvidos!

É o caso de um notável disco – “Wolf rune”, projecto de uma fantástica  artista têxtil, pintora e cantora folk de origem norueguesa        (nasceu a 13 de Janeiro de 1961 em Grue, na Noruega) e que pouco a pouco se transformou numa exímia executante de kantele, um belo mas estranho instrumento de corda, parecido com uma citara, que ela domina a seu bel-prazer ao mesmo que utiliza nesse mesmo instrumento como uma perfeita e adequada cama musical, para colorir rítmica e sonoramente as palavras que a sua voz vai debitando e por vezes (quase sempre)nos provoca grandes arrepios de …prazer!

A sua voz, profunda e por vezes autenticamente celestial, evoca os fiordes da sua terra natal e logicamente também toda a bela e admirável natureza, que a rodeia, crua e rude, mas verdadeira e por vezes intocável, que vai fazendo as delicias dos mais variados fotógrafos…

Já com diversos trabalhos no activo, a solo ou em grupo, quase sempre e já por diversas vezes aclamados unanimemente, é simultaneamente compositora também e dona de uma voz única e fascinante, recheada de cambiantes sonoros invulgares; ao mesmo tempo, Snikka é também uma verdadeira mestra na execução do kantele, sob o som do qual emociona fortemente, especialmente ao interpretar canções, com textos de variadas origens poéticas, que falam de pensamentos filosóficos e reflexões sobre a natureza selvagem e da inter-relações das pessoas, canções que incidem muitas vezes, musicalmente, sobre hinos folclóricos, tradicionais, canções rústicas e xamânicas, preces e sobre danças tradicionais também.

Infelizmente ainda pouco divulgada entre nós, está na hora de com este ultimo disco, se tomar agora um contacto mais profundo com a linguagem oral, a voz e a magia de uma voz e uma instrumentista de eleição:- a  singela nórdica que dá pelo nome de Sinikka Langeland!

CD ECM /Distrijazz

 

20th CENTURY MASTERWORKS

históricos de colecção!

Há uma editora musical sediada em Barcelona, e com escritório permanente entre nós também, e onde pontifica a linda Carla Aranha, que de vez em quando gosta de surpreender todos os seus habituais seguidores, que aliás funcionam simultaneamente também como leais consumidores, com lançamentos especiais de obras de grande qualidade, alguns deles já anteriormente considerados pela critica como obras-primas e virados quase sempre para a área da grande música negra, em especial o jazz e os blues e para a MBP(música popular brasileira)  em termos de material mais antigo, editora essa que de facto tem dado cartas em termos de licenciamento, para posterior edição  própria e se tem também especializado na recuperação de obras esgotadas no mercado ou mesmo descatalogadas  há bastante tempo, isto numa altura em que as grandes editoras, as apelidadas de majors, já quase esqueceram ou não ligam muito ao seu riquíssimo back catalogue, que para eles funciona assim a modos que um imenso e silencioso arquivo ou um mero espólio, do qual, de tempos a tempos, lançam mão para algumas, poucas, eventuais edições, que quase sempre servem como que para marcar o ponto, para comemorar datas de aniversários de uma  primeira edição ou fazer periódicas campanhas que mais não servem senão para aumentar convenientemente as respectivas facturações mensais…

Falo concretamente da Distrijazz, empresa que tem sistematicamente, e a muito bom ritmo, lançado uma vasta selecção de soberbos discos, obras sobre as quais me tenho periodicamente, e, reconheço que com grande satisfação, debruçado aqui no espaço das minhas escolhas.

Agora, mais uma vez tenho de noticiar e salientar a excelência de uma série de discos de jazz que a mesma editora acaba de lançar no mercado ibérico e que constituem verdadeiras obras-primas de algumas das mais míticas figuras da mesma área, tais como efectivamente devem considerar-se vários geniais artistas como Miles Davis (Kind of blue), Billie Holiday (Lady in satin), Nina Simone (Forbidden fruit), Chet Baker (Sings), Nat King Cole (After midnight), Dave Brubeck (Time out), Django Reinhardt (Best of) ou Art Blakey com os seus famosos Jazz Messengers (Moanin´); por fim, e completando o brilhante ramalhete, saliento ainda mais cinco obras que incluem no mesmo projecto, seleccionado reportório de dois diferentes artistas, embora aqui actuando na mesma formação na altura, tal como sucedeu com a dupla Cannonball Adderley/Miles Davis (Something else ), com “ Louis Armstrong  meets Óscar Peterson”, com “Stan Getz meets Óscar Peterson”, com “Sarah Vaughan & Clifford Brown” e com a dupla de geniais saxofonistas “Cannonball Adderley & John  Coltrane”, (Quintet live in Chicago); todos estes magníficos discos, que mais uma vez vivamente recomendo, surgem  em edição totalmente remasterizada, incluindo também um novo e atraente booklet de 20 páginas onde os dados biográficos surgem devidamente  actualizados.

Uma mão cheia de discos que são peças musicais de enorme importância musical e histórica, algumas  delas verdadeiros retratos sonoros de grandes e épicos momentos, constituindo-se por isso mesmo também como alguns momentos únicos e discograficamente históricos da história da grande musica negra mundial!

CDs 20 century masterworks/Distrijaz

 

HOMENS DO SUL – surpreendentes

Apesar do confinamento e da crise que na música e seus derivados directos se instalou nos últimos meses, a música popular portuguesa continua de boa saúde e…recomenda-se; vejam-se por exemplo os últimos belos trabalhos publicados pelos Maré Nostrum, Carlos Alberto Moniz, Sérgio Godinho, El Sur ou por Pedro Barroso, sobre os quais aqui me debrucei há tempos atrás em termos de texto e também agora, nesta “edição” das escolhas, sobre o mais recente e arrebatador projecto do cantautor e realizador de cinema e televisão açoriano Zeca Medeiros – “ A dúvida soberana”, onde nele se reafirma mais uma vez como um genial compositor e interprete e juntando tudo isto confirme-se como a MPP afinal de contas e contra a opinião (bem pouco credível, convenhamos) de alguns detractores, dos maldizentes de profissão e até dos pseudo críticos habituais, aqueles que levianamente afirmam que sabem tudo e são os detentores da verdade suprema e absoluta, a MPP dizia eu, está bem viva e afinal de contas, contra ventos e marés, contra tudo e contra todos e até de poderes instituídos, jornais ( os subsdiados ou não) e televisões, em especial a RTP, a tal que é paga quase  principescamente pelo erário público, afirma-se em evidente grande forma!

Agora, de repente, muito de mansinho, acaba de me chegar às mãos, mais um exemplar e surpreendente trabalho, também no domínio da nossa MPP- “Crónicas da flor da laranjeira”,  proposta editorial originária de um novo colectivo musical- Homens do Sul, que para alem de outros integrantes no capitulo da instrumentação, contempla no seu seio também as vozes  dos dois responsáveis pelo projecto, cantores já com bastas provas dadas e de grande reputação artística e popularidade- Vitorino Salomé e Zé Francisco, sendo o primeiro o famoso interprete de hits como “Leitaria Garrett” ou “Menina estás à janela” e  antigo companheiro de lides musicais e politicas de gente como entre outros os saudosos Adriano Correia de Oliveira ou Zeca Afonso ou artistas como Fausto, Janita Salomé ou Sérgio Godinho, entre outros e o segundo, é o líder dos Flor do Sal e dos atrás já referidos Maré Nostrum, um conceituado cantautor algarvio que também, aqui e agora, se aventura assim num novíssimo projecto popular em colaboração com o conhecido artista alentejano do Redondo.

Este novel dueto nasceu como consequência lógica de uma amizade de longa data, para além é evidente de uma grande cumplicidade musical e temática que vem já também de há anos atrás quando na década de 90 o mesmo Zé Francisco foi chamado para actuar como convidado num concerto em Silves e depois noutras cidades algarvias com os Lua Extravagante, que era na altura o grupo onde se movimentava Vitorino; foi o início de uma colaboração extremamente frutuosa que haveria de se repetir em 2018 quando actuaram como dueto em auditórios e outras salas do Algarve e essa mesma acção foi o ponto de partida para que no ano seguinte avançasse a todo o vapor o projecto que agora viu a luz do dia e a posterior consequente gravação de um mini-CD com seis temas, onde interpretam não só duas canções da própria autoria de cada um, mas também quatro adaptações de algumas modas populares que falam do mar e de romances da serra algarvia, afinal áreas onde os dois estão como peixes na água!

A grande sintonia e afinidades quer temáticas, quer vocais e musicais entre os dois “compadres” são por demais evidentes e cada um à sua maneira dá um especial brilho às cantigas  que falam das gentes da planície, da faina do mar, de nostalgia e  claro de romances e do amor, afinal o sentimento que geralmente faz mover montanhas, vontades e decisões; para alem disso nesta sua viagem musical espraiam os seus recados através de memórias, contos e sítios num trabalho de grande densidade e forte identidade, que na linha da verdadeira tradição oral portuguesa sabe a interioridade, a gente simples, costumes e até a…bailaricos.

Um trabalho notável, de extremo bom gosto, que beneficiou de uma cuidada produção e de uma excelente cama musical proporcionada pela presença de uma série de bons instrumentistas, que, acima de tudo, traz à evidencia a grande riqueza da nossa musica popular e tradicional e serve também para que todos possamos matar saudades ( que já eram muitas) das grandes vozes destes dois interpretes de excepção que tanta falta tem feito à MPP.

E como este trabalho (mas que bela capa e cuidada apresentação!) é uma autêntica comemoração da música popular portuguesa, vamos lá então brindar condignamente com o lançamento de uma molhada de foguetes, ao som de uma banda filarmónica e, claro, regada com uns copos de bom tinto (ou branco), um naco de toucinho, pão saloio e azeitonas, à moda portanto das nossas bravas gentes alentejanas e algarvias!

E uma vez que, como tem infelizmente sido habitual nos últimos anos, as companhias majors de discos sediadas entre nós e com grandes e lógicas responsabilidades musicais e culturais  parece já não ligarem a ponta de um corno a este género de musica, especialmente aos que são em língua portuguesa, daqui vai um grande abraço para o “guerreiro” Alain Vachier,  que mais uma vez, a expensas suas, continua a apostar na edição de discos dos artistas que representa para espectáculos, qual autentico D. Quixote de la Mancha a lutar contra os moínhos de vento! Ah! Grande Alain!

Obrigado pela teimosia, pela luta pela perseverança, pela grande resiliencia e pelas tuas apostas editoriais; podes crer que o publico português e a música portuguesa popular e tradicional te agradecem…

CD Alain Vachier

CELINA DA PIEDADE – cancioneiro popular

Conhecia o seu nome, a sua voz e instrumento (acordeão) desde o ano de 2000 e mais concretamente do “Cinema Ensemble”, projecto/disco de Rodrigo Leão, meu amigo e também meu artista na editora, na altura designada por CBS, e desde logo fiquei admirador das suas qualidades artisticas e da sua autenticidade; mais tarde fui seguindo a sua carreira a par e passo, ao mesmo tempo que procurava não perder de vista as suas propostas adquirindo por isso mesmo os seus trabalhos a solo e com isso tudo confirmando  as suas inquestionáveis qualidades intrinsecas, sempre em acentuado crescendo.

Agora acaba de me chegar às mãos o seu mais recente disco– “Ao vivo na Casinha” ( o estúdio dos Xutos e Pontapés ), onde reconfirmei que Celina da Piedade continua, felizmente para o publico português e para os seus muitos admiradores, um incansável trabalho de investigação e divulgação do nosso património cultural e musical, continuando também  a desenvolver as suas ideias próprias, sem se preocupar com modernices ou modas vigentes e acima de tudo fazendo do seu instrumento e da sua voz os veículos perfeitos para levar ao maior numero possível de pessoas toda a riqueza do nosso património musical, que o mesmo será dizer a nossa música popular e tradicional e acima de tudo o gosto pelas nossas tradições, pelas nossas cantigas e pelos nossos autores.

As constantes solicitações para colaborações quer como instrumentista, quer como vocalista ( é verdadeiramente inesquecível a sua pessoal versão do brilhante “Pasion” de Rodrigo Leão ) para trabalhos ou espectaculos de gente conceituada do mundo musical e artistico como a minha amiga galega Uxia, Ludovico Einaudi, o meu correligionario do Benfica – Antonio Chaínho, Mayra Andrade, Amor electro, a minha querida Né Ladeiras ( que saudades!!!) , o meu grande  amigo basco, mago da trikitixa e fiel adepto do Atletico de Bilbau- Kepa Junkera ou os brilhantes Gaiteiros de Lisboa, são a prova irrefutável de que a sua

qualidade musical é reconhecida e apreciada aquém e além-fronteiras e portanto mais que merecida…

O novo disco, com uma belíssima apresentação gráfica onde sobressaem as belas fotos e o grafismo da minha  querida e genial Rita Carmo (alô jornal Blitz, de boa memória), registado ao vivo, em plena pandemia, acaba por ser, por um lado mais uma arrojada  aposta editorial da equipa dos Sons vadios e por outro um manancial de tradicionais do Alentejo (património musical e sonoro de que ela é há muito defensora acérrima) e de Trás-os-montes, composições às quais Celina juntou ainda um instrumental de Ana Santos; pelo reportorio e alinhamento escolhidos, bem pode afirmar-se que este projecto bem poderia, e até deveria ser, a banda sonora das inumeras festas, romarias e arraiais que todos os verões enchem este nosso Portugal de alegria e felicidade; e como este disco é acima de tudo uma verdadeira festa popular, vamos lá então também entrar na festança e beber, dançar e curtir até mais não!

Por isso, e como na realidade “tristezas não pagam dívidas”, haja alegria, haja comemoração, haja Celina da Piedade e o seu acordeão e músicos que a festa está desde já garantida!

photo Rita Carmo

CD Sons vadios

 

TONY BENNETT /COUNT BASIE

edição histórica

A grande orquestra de Count Basie dá o mote e fornece a cama musical ideal para fazer brilhar de modo intensivo a extraordinária voz do meu antigo artista na CBS e na Sony Music e  também querido amigo Tony Bennett, um interprete que até o mítico Frank Sinatra chegou mesmo a considerar o maior cantor do Mundo; assim, num projecto gravado em Nova Iorque no já longínquo ano de 1958 e intitulado genericamente “Swingin´together”, o “crooner” norte-americano canta alguns dos seus mais famosos e intemporais sucessos tais como “Chicago”, “I left my heart in S. Francisco”( sem duvida o cartão de visita de toda a sua vida artística), “Ol´man river”, “When I fall in love”, “Lullaby on Broadway”, “Life is a song” ou “The way you look tonight”, qualquer um deles peça integrante e importante do jazz vocal internacional de que Bennett é sem dúvida o maior expoente masculino ( ainda) vivo!

Grande amante de pintura, dos pinceis e dos guaches, reputado e consagrado pintor mundialmente bem sucedido, aqui sob o nome de Anthony Benedetto, afinal o seu verdadeiro nome, o cantor norte-americano, fã de Portugal, dos vinhos e da comida portuguesa ( tive a suprema honra de partilhar com ele momentos verdadeiramente inolvidaveis numa das varandas de uma suite do antigo Hotel Estoril Sol, quando ele lá pintou um quadro belíssimo sobre a baía de Cascais, que acabou por imortalizar num dos seus livros de pintura e  a mesa em vários almoços e jantares nas diversas vezes que nos visitou para actuar, quer no Casino do Estoril, quer em outras salas de concertos) e amante da cerâmica portuguesa que o seduzia sobremaneira e que sempre que cá vinha adquiria em grandes doses, é acima de tudo uma pessoa de contacto fácil e de grande sensibilidade, um artista simpático, conversador e acima de tudo um personagem extremamente humilde, isto apesar de se estar em presença da maior voz masculina do mundo do showbusiness!

Neste  seu disco onde canta nada menos de 26 composições, totalizando  uma hora e dez minutos de duração, surgem também dois “bonus tracks” e ainda, comparativamente com a edição original, nada menos de mais onze composições extras, facto que vem valorizar imenso a presente edição, classificada pela conceituada revista de jazz Down beat com nada menos de 5 estrelas ( num máximo possível de 5) e consagrá-la como um apetecível objecto de colecção, isto para além de ainda incluir um renovado booklet contendo 20 páginas com imensa e actualizada literatura, fotos, etc.

CD 20th Century masterworks/Distrijazz

 

LUIS BONFÁ – imortal da bossa nova

É um dos nomes mais conceituados do movimento musical  conhecido por bossa nova, mas infelizmente um dos interpretes menos divulgados entre nós , especialmente junto do grande publico, razão pela qual o recente lançamento de um projecto que agrupa dois dos seus belíssimos trabalhos a solo – “Plays and sings bossa nova” e “The gentle rain” é motivo de festa pois para além de cada um dos discos há muito se encontrar descatalogado,  esta actual junção dos dois trabalhos é também inédita e por isso mesmo rara e invulgar.

C0mpositor emérito e artista virtuoso, quer como executante de guitarra, quer como interprete de grandes méritos, as composições de Luis Bonfá (1922-2001) que figuram no  projecto tais como os exitos  “Manhã de Carnaval”, “O ganso”, “Quebra mar“,” Ilha de coral” ou “Chora tua tristeza”, merecem bem uma atenta escuta tanto mais que representam algumas das mais belas canções no domínio da MPB, composições que lhe permitiram a conquista sistemática de discos de ouro e platina bem como uma numerosa quantidade de outros galardões e prémios, entre os quais figura um Grammy, havendo ainda a salientar também que

“Almost in love”, composição de sua autoria foi a única musica brasileira gravada pelo “rei” Elvis Presley e que o seu disco “Jacarandá”, gravado nos EUA teve produção do grande Eumir Deodato, conceituado autor e interprete e  prolifero produtor, uma grande personalidade musical, extremamente selectiva e exigente nos trabalhos que aceitava, o que por si só diz bem da grande qualidade de que se revestiam as composições de Luis Bonfá um reconhecido autor que teve em Frank Sinatra, Elvis Presley, Sarah Vaughan, Julio Iglesias, Diana Krall, George Benson, Tony Bennett ou Luciano Pavarotti os interpretes ideais para projectar vocal e mundialmente as suas músicas, o seu talento e a sua grande e indesmentivel qualidade criativa; posto isto de que estão os leitores à espera para correr a ouvir  um compositor de incrível talento e  uma extraordinária personalidade musical que dá pelo nome de Luis Bonfá?

Vão ver que vai valer bem a pena a audição!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

DEXTER GORDON – a magia do saxofone

Falar-se do jazzman Deter Gordon (1923-1990) é sinónimo de se falar de um dos maiores saxofonistas de toda a história do jazz mundial, um instrumentista que apesar do seu desaparecimento continua ainda a influenciar toda uma pleiade de novos músicos, já para não se falar de todos aqueles que  foram por ele influenciados na altura, quando  ainda era vivo e destilava genialidade por todos os poros…

Com efeito, Dexter era um musico absolutamente impar e genial, dotado de um virtuosismo quase estonteante, que deslumbrava tudo e todos com a altíssima qualidade da sua música e pelo desempenho exemplar e único com que sacava notas e divinais sonoridades de qualquer um dos seus dois saxofones –tenor e soprano, instrumentos que ele dominava com prazer e paixão, afinal as duas grandes condicionantes para se ser um exemplar instrumentista como ele na realidade sempre foi; ficaram para a história alguns dos seus mais icónicos solos onde expunha toda a sua arte e virtuosismo, predicados que transformaram alguns dos seus discos em obras verdadeiramente históricas e de grande significado musical , jazzisticamente falando.

Pois este excepcional executante foi recentemente noticia quando através da Elemental music se descobriu, uma até aí desconhecida gravação com origem num fantástico concerto ocorrido num habitual festival de jazz de uma cidade francesa do sul no já longínquo ano de 1978 e no qual Dexter surge acompanhado de um trio de eleição constituido por Eddie Gladden, na bateria, George Cables, nas teclas e  Rufus Reid, no baixo,  para além claro do proprio Gordon nos dois saxofones; uma fantástica performance com o saxofonista no melhor da sua forma musical, tocando segura e divinalmente, soberbamente acompanhado pelo referido trio de notáveis musicos no Festival de Jazz de Châteauvallon, em França, a 8 de Novembro de 1978.

Uma gravação inédita e até agora desconhecida dos seus admiradores e do publico em geral, cuja recente edição recebeu ilustres contributos pois inclui um libretto de 16 paginas com fotos raras e textos actualizados especialmente concebidos e preparados por gente famosa da critica especializada e dos meandros do jazz como são sem dúvida o produtor de jazz Michael Cuscuna e o critico do Penguin guide to Jazz – Brian Morton; a acrescentar a estes dois nomes registe-se ainda  a colaboração em termos de texto e opinião da viúva do músico – Maxine Gordon.

O duplo disco, recheado de soberbas interpretações, cuja duração total é de cerca de duas horas e tem uma edição limitada a milhar e meio de exemplares e segundo alguns entendidos alcança mesmo o top dos melhores discos do músico, devendo situar-se provavelmente entre os seus cinco melhores trabalhos…

Perante isto chega-se à conclusão que Dexter Gordon, o imortal músico e actor na película “Round midnight”, filme através do qual foi candidato ao “oscar” de melhor actor pela sua magistral interpretação e também o inesquecível rei do bebop continua vivo, quanto mais não seja pelas belas lembranças que todos certamente recordamos dos seus magnificos concertos e também pela sua magistral obra, toda ela disponível  em disco!       

2CDs  Elemental music/Distrijazz

 

DUARTE – percurso notável

Tem seguido na sua vida artistica um caminho único e singular e faz mesmo questão ele mesmo de traçar o seu próprio percurso, fora de modas e de ditames com a consciencia tranquila quanto ao rumo traçado e ao que efectivamente pretende e se calhar por isso mesmo, até por andar, conscientemente, um pouco longe das luzes da ribalta, o fadista Duarte, apesar do seu crescente amadurecimento e notória progressão, não atingiu ainda a popularidade e o reconhecimento que , nesta altura do campeonato, já amplamente merecia junto do grande público, fama que algumas outras vozes masculinas com bem menos predicados, valor e e até mesmo capacidades, já conseguiram angariar, se bem que muitos deles à custa do inevitavel e incontrolavel  marketing.

Tranquilo, sereno, extremamente discreto e acima de tudo dono de uma grande  autênticidade, o fadista tem agora um novo projecto no mercado nacional  intitulado “No lugar dela”, onde como o proprio titulo deixa antever, assume nos seus textos  o lugar de várias mulheres, cada uma a seu tempo, colocando-se em termos literários no lugar dela(s), assumindo escolher, com uma certa dose de risco, caminhos, rotas e percursos de vida e assumindo toda uma problemática inerente ao sexo feminino, ao seu modus vivendi , relacionamentos amorosos, sentimentos, problemas intimos e emoções, contando de um modo muito pessoal diversas histórias e situações e desenhando ao mesmo tempo um universo delicado e vivencial, que afinal de contas acaba por ser o retrato fiel do dia-a-dia da generalidade delas, podendo até mais simplesmente resumir-se o disco como um roteiro em que se contam histórias com principio, meio e fim, histórias e peripécias essas que acabam afinal por se constituir em verdadeiras fotografias e flashes do quotidiano  feminino na actualidade…

O fadista beneficiou no inicio das operações para a elaboração deste disco da colaboração, em trabalho de pré-produção, do saudoso José Mário Branco que infelizmente acabaria por falecer repentinamente  poucos meses depois, e que curiosamente e em face do material que ouvira e já tinha começado a burilar, disse que haveria que ter em atenção que não se poderiam enganar as pessoas dizendo que se tratava de  um disco de fado, porque este efectivamente não iria sê-lo até porque na realidade só lá estariam  três fados própriamente ditos, mas seria isso sim um novo disco com um fadista a cantá-lo…

O resultado final é brilhante e apesar de, como dizia  o Zé Mário, não se tratar de um mero disco de fado, é no entanto, por outro lado, um manancial de grandes canções, servidas pela excelente voz do “fadista” que mesmo nos temas fora do seu habitual contexto fadista nos deslumbra e faz crescer água na boca para futuras aventuras canoras que venha a querer protagonizar; há ainda que referir também, que para além da belíssima voz de Duarte, da sua extensão vocal, pessoais capacidades  e maneira bem peculiar de interpretar, entoação, expressividade e da sua arreigada portugalidade, bem expressa no modo como entoa o português com extrema segurança e uma perfeita dicção, o disco (com uma grande apresentação gráfica onde não falta até um excelente libretto de muitas páginas, onde figura um belo  texto de apresentação da autoria de Teresa Muge) regista o crescimento gradual do artista na area da composição literária pois arrisca assinar aqui nada menos de nove de uma totalidade de onze composições, sendo as restantes, uma da autoria de Alvaro Duarte Simões e a que encerra o trabalho, uma versão muito bem conseguida de um tema popular português de nitida conotação alentejana…

Uma palavra final para nova leitura do célèbre tema “Algemas” já popularisado pela diva Amália, referencia pessoal do artista, e  que pela primeira é cantada pelo fadista e para a elaborada e bem conseguida cama instrumental e sonora das onze composições do disco, para as quais sem duvida muito contribuiram as presenças de um trio de fado e de um quarteto de cordas clássico, que em conjunto conseguiram uma base melódica de grande qualidade e intensidade que faz evidenciar mais e brilhar a grande altura a carismática e singular voz de Duarte, um cada vez mais expressivo cantor que com este trabalho se arrisca a ter assinado o melhor trabalho musical masculino deste estranho ano de pandemia e de confinamento!

CD Alain Vachier music editions

 

ARIANNA SAVALL – a arte da harpa

É usual dizer-se que “quem sai aos seus não degenera” e esta célèbre frase do domínio popular português é bem verdade, especialmente no caso da harpista catalã, embora nascida na Suiça, Arianna Saval, pois a sua filiação fala por sí:- é filha da saudosa artista e multi-instrumentista catalã Montserrat  Figueras, infelizmente já desaparecida do nosso convivio há poucos anos atrás e do brilhante musico Jordi Savall, um dos  maiores instrumentistas da viola de gamba, artista assíduo e habitual convidado, na programação anual da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa .

Depois de durante uma série de anos ter militado no seio do grupo fundado e liderado por seu pai- Hesperion XXI, em 2008 deu, como costuma dizer-se, o “grito do Ipiranga” e formou o seu próprio grupo– Hirundo Maris, na companhia de um notável musico norueguês de nome Petter Udland Johansen e com essa formação acaba de lançar há pouco tempo atrás aquele que constitui  o seu primeiro projecto a solo como cantora e como harpista – “Le labyrinthe d´Ariane”, um projecto em que nos propõe um maravilhoso reportório de época medieval e da época do barroco , onde se tocam nada menos de sete harpas antigas e diferentes; esse mesmo reportório que nos propõe é proveniente de três países que  tiveram um espaço de excelência na vida cultural de cada um deles- França, Itália e Espanha, locais onde a harpa sempre teve grande aceitação, destaque e preponderância e onde internamente se popularizou e floresceu imensamente.

Surpreendentemente dona de uma voz melodiosa, doce, estranhamente bela e de singular beleza Arianna, que foi responsavel por todos os arranjos,  lembra-nos  ao cantar o atractivo sincopado do mar, o soprar suave da aragem, da brisa e das ondas, bem como o doce chilrear de um bando de passaros cantando alegremente em liberdade na natureza…

Um surpreendente projecto de grande beleza melódia e vocal, que a todos certamente vai encantar e seduzir!

CD AliaVox/Megamúsica

 

WHITESNAKE – tempo de blues/rock

Atenção milhares de fans e admiradores do hard rock/metal pois os cada vez mais surpreendentes Whitesnake surgem com novo disco, desta vez com “The bues album” em jeito de revisitação, trabalho  que integra  a parte três da trilogia ”Red, white & blues”, uma verdadeira celebração dos blues que ajudaram a cimentar a carreira da banda, aqui em versões fabulosas de grandes canções na area dos blues/rock, uma mão cheia de exitos menos popularizados ou se quisermos,  menos conhecidos  do grande publico, excepto da parte dos fans como é evidente, temas esses surgidos no periodo entre 1984 e 2011 nos seis trabalhos de estudio do grupo e igualmente no disco a solo de David Coverdale, que foi para além de musico interveniente,  também o responsável pela produção executiva do projecto; a mistura foi da responsabilidade de Chris Coliier e a produção de Michael McIntire, qualquer um deles personagem conhecido e sonante em cada area.

Posto isto quem desdenhará reencontrar canções como “I steal your heart away”, “2 good to be bad”, “Woman trouble blues”, “Too many tears” ou “Lay down your love”, aqui em novas e mais atractivas versões – as já chamadas new 2021 mixes – que constituem pedaços de algum do melhor material escrito e editado pela banda hà tempos atrás?

CD Rhino/Warner Music

 

RICARDO AZEVEDO

a elegância do pop português

Há já muito tempo que não me surpreendia tanto com um mão cheia de composições de pop cantado em português, feitas com tanta actualidade temática,  surpreendente inspiração e acima de tudo  ilustradas por uma excelente produção geral ; e como se estes atributos não bastassem já, há que registar também, e acima de tudo, um evidente grande bom gosto com que o trabalho foi elaborado, nas suas mais diversas formas.

Ora de isso mesmo dei agora conta após a audição de uma dúzia de composições que completam – “Instinto de sobrevivência”, o mais  recente projecto de Ricardo Azevedo, o carismático interprete nacional nativo de Santa Maria da Feira de quem já algum tempo nada se sabia, pois se encontrava arredado dos títulos das noticias e, ao que parece, dos nossos estudios também.

Recuando um pouco no tempo sabe-se que Ricardo, depois de durante algum tempo ter integrado o grupo EZ Special, cometeu a “ousadia” de o abandonar numa altura em que a banda portuguesa se encontrava ainda na crista da onda, para prosseguir o seu percurso artistico arriscando numa carreira a solo, percurso esse já culminado até ao momento com uma serie de aventuras musicais não só com nacionais mas também  com gente de outras latitudes musicais, entre as quais merece relevo o facto de ter sido a estrela, como  convidado especial, para preencher as primeiras partes dos concertos portugueses da grande Anastacia,  mas  também como artista a solo no período de edição de quatro promissores trabalhos de originais – ”Daisy”, “O manual do amor”, “Frente a frente” e  “Kaizen”.

No novo trabalho, onde foi responsável pela produção de onze das doze composições do disco (a restante teve produção de Vitor Silva), o músico desempenhou também uma série de outras funções nomeadamente ao acentuar e desenvolver cada vez mais  a sua faceta de compositor e letrista, area em que se mostra cada vez mais ambicioso e atento às problemáticas actuais, demonstrando com isso uma acutilância e uma resiliência dignas de nota; um disco que certamente vai ficar para a história do ano discográfico em matéria de música pop portuguesa!

CD Fábrica de canções

 

HILARY HAHN – virtuosismo

Ainda não há muitos anos atrás, quando ainda militava nos quadros da antiga CBS, posteriormente Sony Music, fui esperar ao aeroporto de Lisboa uma jovem violinista, na altura integrante e recentemente chegada ao catalogo da label clássica da editora – a Sony Classical, artista que a própria discográfica e a critica estrangeira já anunciavam como uma das maiores revelações da música erudita de então; deparei-me na altura com uma jovem de cerca de quinze anos, simples, afável, introvertida, bonita, bem vestida, carismática e extremamente educada, felizmente sem nenhum sinal ou tiques de vedeta e que chegava de Londres acompanhada da sua mãe, que por causa da “tenra” idade da violinista, na altura ainda  de menor idade, fazia questão de a acompanhar para todo o lado sempre que as obrigações profissionais de concertos ou entrevistas com os media a obrigavam a viajar  para fora dos Estados Unidos, onde então vivia!

No dia seguinte no auditório da Gulbenkian percebi, ao vivo,  porque a instrumentista americana era apelidada de fenómeno pois o seu virtuosismo e a altíssima qualidade das suas interpretações não deixavam lugar a dúvidas:- era na realidade um autentico  meteoro musical, que já se projectava no futuro da música com  garrafais parangonas, rumo a uma  almejada celebridade, que já então se desenhava e se antevia!

Agora, muitos anos volvidos, aí está a notável instrumentista Hilary Hahn,  virtuosa, eclética, surpreendente, arrasadoramente criativa, já na invejável posição de verdadeira estrela da musica clássica contemporânea editando um novo álbum ao vivo, um disco onde assume o seu enorme amor pessoal à capital francesa, à Orquestra Filarmónica da Radio France e ao seu director musical – Mikko Franck , com quem  já havia trabalhado uma série de vezes anteriormente, conseguindo fazer desse mesmo disco ao vivo –“Paris”, uma das mais icónicas obras da sua já vasta discografia, um projecto onde espraia toda a sua classe e versatilidade na interpretação de belíssimas peças de  Ernest Chausson (1855-1899),  Sergei Prokofiev (1891-1953) e Einojuhani Rautavaara (1928-2016), concedendo-lhes um notável colorido rítmico e sonoro e com isso proporcionando aos seus, agora já numerosos, admiradores um prazer auditivo sem limites!

O projecto apresenta-nos no entanto outras curiosidades e uma grande valoração :- o belo concerto para violino de Prokofiev regista neste trabalho a sua premiere e a composição “Deux serenades” de Rautavara, alem de ter sido escrita propositadamente para a violinista americana, igualmente teve nesta apresentação de Paris a sua premiere absoluta…

Afinal de contas são duas mais valias que vem valorizar ainda mais o já de si ambicioso projecto, e transformam este disco numa verdadeira obra-prima de uma instrumentista impar e absolutamente genial!

CD Deutsche Grammophon/Universal Music

 

BILL EVANS – a magia de um piano

Dentre o grande número de pianistas de jazz que mundialmente se popularizou, fez escola, marcou épocas e faz mesmo parte integrante da história da grande música negra um deles sobressai- o de Bill Evans, não só pela sua altíssima qualidade, versatilidade e estilo, mas também pelos grandes discos que gravou e pelos extraordinários grupos que formou, alguns deles verdadeiramente lendários como foi o caso do tridente que integrou juntamente com  o baixista Scott LaFaro e com 0 baterista Paul Motian, trio esse que deslumbrou, especialmente nas celebres sessões no Village Vanguard, concertos que ainda hoje são recordados por muitos dos melomanos e por toda a critica de então, com especial destaque para os eventos que tiveram lugar nos fabulosos anos 60.

Por isso é verdadeiramente histórico o disco agora reeditado intitulado

“The Village Vanguard sessions”, que reune alguns dos melhores momentos das sessões, até porque pouco tempo depois do concerto  o baixista faleceu num acidente de carro  a 6 de Julho de 1961 e esse seu prematuro desaparecimento ocasionou um grande hiato até que Evans decidisse avançar para a  formação de uma nova formação .

Album verdadeiramente empolgante com o trio de instrumentistas no melhor da sua forma e a tocar de modo quase divinal, tornou-se mais tarde um verdadeiro disco de estudo a vários níveis, tanto mais que nos traz de novo incriveis sensações de prazer até pela grande simbiose musical que então existia entre os elementos do célebre trio…

Um projecto que sendo um dos mais brilhantes e surpreendentes exemplos da arte do piano sem dúvida marca o ano corrente em matéria de grandes reedições!

CD American jazz classics/Distrijazz

 

JOHNNY SHINES & ROBERT JR.LOCKWOOD “monstros” dos blues

Quando num só projecto discográfico se  conseguem incluir dois  discos originalmente publicados há muitos anos atrás no formato vinil de uma dupla de verdadeiros monstros sagrados dos blues electricos, o resultado só pode ser  avassalador; para além disso o raro conteúdo constitui um manancial de criatividade e uma verdadeira torrente de musica ritmicamente apelativa; é o que se verificou agora com a junção de dois trabalhos originais de  dois dos mais famosos instrumentistas dos blues  do Delta -Johnny Shines e Robert Jr. Lockwood.

O primeiro destes – Shines,  ficou famoso, para além do seu próprio valor, qualidade, estilo inconfundível e  virtudes musicais, atributos que lhe permitiram ser considerado uma das mais brilhantes figuras dos “delta blues”, também por ser o mais famoso companheiro de estrada do incontestável  “pai” dos blues- Robert Johnson; o segundo –Robert Jr., ainda aparentado em termos familiares com o mesmo  Robert Johnson, constituiu-se como um dos mais notaveis executantes de guitarra e um dos legítimos herdeiros musicais do mesmo RJ, um homem que é uma verdadeira lenda da grande música negra de todos os tempos, sendo até mesmo considerado pelo público, critica e “compagnons de route” como o verdadeiro “pai” dos blues e uma inspiração permanente para antigos e  novos artistas das mais diversas areas musicais…

Curiosamente o material que neste projecto se conseguiu reunir não contempla nenhuma  musica em que participem os dois em conjunto, antes  constitui o espólio completo das famosas gravações – the  J.O.B. recordings, na editora do mesmo nome, que tiveram lugar durante o período de 1951 a 1955, gravações essas que ajudaram sobremaneira a projectar estes dois incriveis guitarristas e vocalistas para os píncaros da fama e a solidificá-los com o estatuto de verdadeiras estrelas e porta-bandeiras da musica de Sua Alteza Real – Robert Johnson…

Ao mesmo tempo, o projecto -“No name blues”, para além, de se constituir como uma valiosa e  extraordinária colecção de 24 belas composições, é também um raro objecto de colecção, que por isso mesmo se recomenda sem reservas não só aos melomanos, mas tambem a todos aqueles para quem os blues são reconhecidamente a base, essência e o verdadeiro ponto de partida para todas as outras areas musicais, onde o rock indubitavelmente se inclui.

Beneficiando de cuidada resmasterização e da inclusão de um novo  booklet contem também ampla e profunda informação surgindo em editação limitada no formato digipack.   

CD Soul Jam- Distrijazz

 

LESTER YOUNG – um jazz genial

Embora nos ultimos anos de vida do grande saxofonista Lester Young, as gravações tivessem sido raras e espaçadas, em grande parte motivado pelo uso e abuso do alcool, que acabaria por destrui-lo e ser o grande responsável pelo seu prematuro desaparecimento pois morreu em 1959 com apenas 49 anos de idade, o que é certo é que apesar de tudo há ainda a registar alguns discos de grande nível e de elevada qualidade como é o caso por exemplo de “Collates”, em que a sua inspiração de compositor continuou bem latente,  bem como a sua criteriosa e sábia escolha de musicos acompanhantes continuou a ser exemplar, ele, que como era por todos reconhecido, tinha um dedo especial para descobrir e angariar novos talentos e companheiros que fizessem brilhar as suas belíssimas e habitualmente inspiradas composições ; a  constituição do seu quarteto, neste trabalho e também noutras sessões de gravação que tiveram lugar para Norman Granz entre os anos de 1949 e 1951, demonstra a existência desse mesmo dedo especial para a escolha dos instrumentistas que haveriam de gravar com ele e acabariam por conseguir transformar a sua música em algo especial , vibrante e inesquecível.

Ao tocar, sempre na forma de quarteto, nessas várias e inesquecíveis sessões atrás citadas, lado a lado com outras incontornáveis figuras da história do jazz como John  Lewis  e  Hank Jones (piano), Ray Brown, Joe Shulman e Gene Ramey (baixo)  e  Jo Jones, Bill Clark e Buddy Rich (bateria), que entre si vão alternando a tocar, consoante os desígnios de Lester, o brilhante e mítico instrumentista projectava assim a sua musica para elevados patamares de exigencia e qualidade, padrões que fizeram dele uma das  mais insígnes figuras da história da grande música negra; a presente edição, editada em formato digipack  e contendo um novo booklet , contempla para além das duas sessões de “Collates”, na sua totalidade constituidas pelas 16 composições originais, ainda nada menos de nove temas extra também, lógicamente,  gravados nessas mesmas sessões, mas que na realidade haviam ficado de fora dos alinhamentos iniciais dos dois discos e que acabam agora por constituir afinal de contas uma importantíssima e atractiva mais valia que transforma este “novo” projecto num raro objecto de colecção, a que certamente os admiradores do saxofonista-alto e os amantes do jazz com dificuldade vão resistir a adquirir…

CD Essential jazz classics/Distrijazz

 

IANINA KHMELIK – múltiplos caminhos

Está pouco a pouco, mas seguramente, a emergir no nosso panorama musical, uma notável e surpreendente multi-instrumentista que no entanto nasceu muito, muito longe desta nossa terra de Camões e Fernando Pessoa, mais propriamente na longínqua Rússia, a pátria de gente famosa e tão distinta, quanto diferente, como indubitavelmente são alguns dos mais famosos compositores da música clássica ou por exemplo o escritor Alexander Soljenitsin, laureado autor da obra-prima “Arquipelago de Gulag”, onde se denunciavam as atrocidades cometidas nos campos de concentração e trabalhos forçados nesse maldito campo siberiano ou ainda  Boris Pasternak, celebrado autor do livro e posterior filme de sucesso “Doutor Jivago” ou até o czar Pedro I, o Grande, que foi o ideólogo da construção da lindíssima cidade de São Petersburgo (antiga Leninegrado) ; esse mesmo país do leste europeu que é também a terra de nascimento de dois actuais arqui-inimigos políticos:- do vigente presidente russo e antigo agente secreto da tenebrosa policia política- a KJB -Vladimir Putin, um verdadeiro déspota hitleriano  dos tempos modernos e do seu  opositor político e conceituado advogado Alexei Navalny, há algum tempo atrás vitima de propositado envenenamento e actualmente injustamente condenado a prisão, pelo simples facto de se manifestar em prol da liberdade, de eleições livres e da democracia, afinal de contas a grande utopia política da actual Rússia!

Nascida na capital soviética- Moscovo- a bela instrumentista Ian, de seu verdadeiro nome Ianina Khmelik, desde tenra idade cursou musica e foi através dela que posteriormente veio a conquistar diversos galardões e prémios dentro e fora da sua terra-mãe; numa temerosa tentativa de traçar o seu próprio destino, até porque na altura o seu país estava em guerra com a Chechénia, ganhou coragem para sair de lá e assim tentar alcançar outros voos fora da  Rússia e por isso mesmo, incentivada pelos pais, partiu na procura de uma almejada segurança que por lá não tinha.

Depois de dar esse passo arriscado e de várias aventuras e peripécias, mas sempre com o violino na bagagem e o piano, o seu segundo instrumento, no pensamento, viu-se a partir de 1999 a viver em Portugal e, depois de prestar provas, a integrar a Orquestra Sinfónica do Porto; alguns anos mais tarde, mais concretamente no Verão de 2018 aí estava ela a tocar violino num mesmo palco com o nosso Mário Laginha, no habitual Festival de Música de Espinho,  precisamente na mesma cidade que a havia acolhido há quase duas dezenas de anos atrás e sobre a qual ela é peremptória ao dizer que foi exactamente na mesma cidade nortenha que para si tudo afinal começou.

Alguém recordava a artista um dia destes referindo:- “…como assistente de concert meister na Orquestra Sinfónica do Porto ou como concertina convidada da Orquestra Sinfónica de Espinho, entre os muitos outros projectos que geralmente integra, o seu lugar faz-se de violino no ombro, exibindo um sorriso orgulhoso de quem chegou até aqui com muito empenho e trabalho!…”

Porém, não se pense que a sua intensa actividade e percurso musical se resumem sómente ao campo da música erudita, pois a bela russa possui outros horizontes musicais paralelamente com o seu desempenho no violino e piano; assim, ganhou coragem para expressar o seu talento de outras maneiras e iniciou já uma carreira nos domínios da música electronica, área que sobremaneira a seduz e encanta, com a edição, inicialmente de  dois Eps e mais recentemente de um notável CD de titulon “Raivera” sobre o qual  afirma mesmo:

“…Não pretendo quebrar amarras com o passado embora agora talvez musicalmente sim, mas em termos de ideia, o meu novo projecto surge da vontade de mostrar o meu passado, porque enquanto violinista não tenho voz, sou intérprete na maior parte das vezes, embora já tenha feito arranjos para algumas bandas, mas são músicas que não são da minha autoria porque aí eu apenas dou sómente uma parte de mim, uma parte pequena, mas, convenhamos, que isso na realidade nunca é uma criação totalmente minha; na verdade, nunca até agora tinha conseguido mostrar o meu outro lado, aquilo que sinto, a enorme vontade que tenho também de compor e de me expressar precisamente sobre o meu passado musical, porque o novo projecto começa efectivamente com ele; é, digamos assim, como que o início de um livro e este será o primeiro capítulo desse mesmo livro, mas no entanto atenção que vem aí, futuramente, ainda mais capitulos…”

Nesta sua nova faceta, e sob o nome de Ian, este novo projecto pessoal já lhe permitiu começar a ser um bocadinho feliz e um pouco também realizada quando teve oportunidade de se apresentar ao vivo na primeira parte dos concertos dos The Gift nos Coliseus, facto que representa para além de um reconhecimento do  seu valor intrínseco, também, e acima de tudo, uma verdadeira entrada vip pela porta grande do mundo dos espectaculos em Portugal!

Agora, com este primeiro trabalho a solo, a bela russa promete voar mais alto e mais longe na musica em Portugal até porque na realidade talento é coisa que não lhe falta; movimentando-se perfeitamente à vontade e já com certa segurança pela area da electronica e caminhos similares, ao ouvirem-se as suas propostas logo afloram sonoridades  que conhecemos bem e nos trazem à memória belos e inesquecíveis momentos de gente credenciada como os Orchestral Manoeuvres in the dark, Portishead, Bjork ou Fisher Z e especialmente nuances sonoras e rítmicas derivadas e em perfeita sintonia com o krautrock  alemão e, nesta área, com vários nomes de culto do movimento como Edgar Froese, Peter Baumann, Can, Neu, Tangerine Dream, Ashra Temple, Klaus Schulze, Popol Vuh ou os Kraftwerk, qualquer um deles grandes e recomendáveis influencias para qualquer teclista electrónico que se preze!

Nas composições que preenchem este CD de estreia há também, tenho que reconhecer, uma nítida influencia e  até certas conotações em termos de balanço e de ritmo com os projectos discográficos da dupla constituida  pelo meu amigo Ryuichi Sakamoto e por Alva Noto, que hà poucos anos atrás fizeram as delícias dos muitos melomanos no Coliseu de Lisboa.

Vocalmente sólidas, inventivas e acima de tudo bem construidas, qual arco-iris melódico que de imediato apela à dança, as nove composições  do disco, algumas ilustradas com a presença de gente como Pedro Oliveira, dos antigos Sétima Legião ou Nuno Gonçalves dos The Gift, são uma verdadeira explosão de sons e ritmos, com identidade propria, que de certo modo ilustram e dão realce a esta ousada e atrevida proposta dançante de uma artista/revelação de quem efectivamente há ainda muito a esperar num futuro próximo…

CD edição de autor

 

TOM PETTY – de “regresso”!

As versões alternativas das dezasseis belíssimas canções que integraram originalmente o disco de Tom Petty com os seus amigos e inseparáveis “compagnons de route” – os Heartbreakers intitulado “Finding wildflowerse que tiveram origem nas sessões de gravação do mesmo disco entre 1992 e 1994 , acabam de surgir agora numa nova e surpreendente edição em disco simples, num lançamento que está verdadeiramente destinado a coleccionadores e ao qual os admiradores da banda vão certamente fazer justiça, adorar e tratar de rápidamente adquirir, tanto mais que são já consideradas uma verdadeira raridade nestas versões.

A primeira vez que estas mesmas versões surgiram a público foi no ano transacto aquando da edição de um projecto superdeluxe constituido por 9 Lp´s e 5 CDs com o titulo genérico de “All the flowers & all the rest”;  agrupadas agora num  surpreendente trabalho, intitulado muito acertadamente “Finding flowers (alternate versions)” , se por um lado estas mesmas composições servem para se matarem um pouco as inumeras saudades dos mais populares trabalhos da banda, por outro lado possibilitam-nos uma mais completa visão sobre todo o material que resultou dessas mesmas sessões de estúdio, onde está por demais evidente a grande capacidade criativa do saudoso lider roqueiro e seus habituais comparsas de viagem musical.

Incluindo canções resultantes de algumas versões acusticas, gravações alternativas, jam sessions e extended versions numa produção de Rick Rubin em estreita colaboração com Tom Petty e Mike Campbell, este trabalho vem de certa forma colmatar a ausência de novos discos da banda tanto mais que o desaparecimento em 2 de Outubro de 2017, do seu lider natural, motivado por uma overdose ocasional,  com origem numa acidental ingestão de medicamentos para as dores, inviabilizou de imediato qualquer hipotese de edição de um novo trabalho, tanto mais que, ao que se sabe, não havia na altura nenhum material gravado; isto, quando o colectivo estava a finalizar uma extensa e bem sucedida digressão comemorativa dos seus 40 anos de vida e actividade depois de ter tido um estrondoso sucesso quando oito dias antes da morte de Petty se apresentara ao vivo num concerto no auditorio do célebre Hollywood Bowl, em Los Angeles, estando até já na altura mais uma série de shows agendados nomeadamente dois, já com lotação previamente esgotada, previstos para 8 e 9 de Novembro seguinte em Nova Iorque.

Desaparecido este brilhante interprete e rock star resta-nos actualmente a sua memoria e a uma  extensa e apaixonante discografia que nos deixou como legado, toda ela de grande qualidade e onde o rock é rei único e incontestavel!

CD Warner records/Warner Music

 

MAGIC SAM – a magia dos blues de Chicago

Magic Sam foi um brilhante guitarrista, um energético e extraordinario cantor e também um compositor genial, mas apesar disso não teve oportunidade de gravar muitos discos até porque desapareceu do meio artistico com a “tenra” idade de 32 anos, quando um malfadado problema de coração o levou em definitivo do nosso convivio e privou a grande música negra de um dos seus mais extraordinários  personagens; porém permanecem no entanto na memoria de todos os especialistas e  dos fanáticos  dos blues as suas ( poucas) gravações, hoje em dia já por todos consideradas históricas até pelo escasso número de canções gravadas para três das editoras de então-  Cobra, Chief e Crash.

E é precisamente essa parca totalidade de 27 gravações no formato vinil para as três editoras americanas, que agora surge reeditada num único disco – “Everything gonna be alright”- que até por isso mesmo  pode e deve ser considerado como um projecto de coleccionador especialmente pela sua raridade, até porque há muito tempo se encontra fora do normal mercado discografico; essa mesma pequena quantidade de composições surge agora editada sob a forma de um único CD, onde os blues electricos acabam por se constituir no leit motiv da edição e assim, através deles, se poder tomar contacto mais directo com uma das mais extraordinarias figuras dos Chicago west side blues, um artista que se a doença não o tivesse levado de modo inesperado do nosso convívio acabaria, mais tarde ou mais cedo, por certamente se tornar uma mítica e inesquecível figura da grande musica negra da altura podendo fácilmente ombrear com as grandes estrelas da mesma area musical que na altura despontavam e até mesmo com as que já estavam na crista da onda e se projectavam no futuro!

Por outro lado o  presente projecto tem também um pormenor de grande importância a ter de ser levado em conta, um facto que pode só por si considerar-se uma inquestionavel mais valia, pois o disco inclui no “line up” da gravação dois nomes incontornáveis que se acabariam por se tornar míticos na história dos blues – o grande e imortal Willie Dixon no baixo e Otis Spann no piano, figuras hoje em dia já consideradas duas das mais lendárias individualidades na história da grande música negra e dos blues em particular…

Com a presente edição pode dizer-se que estamos portanto em presença  de um disco importantíssimo, um compact-disc quase épico que acaba por se tornar num verdadeiro acontecimento editorial, num ano de pandemia durante o qual pelos vistos, também acontecem  grandes surpresas discográficas !

CD Soul jam/Distrijazz

 

NEIL YOUNG-magia ao vivo

Ao mesmo tempo que se anunciou a venda e consequente disponibilização de grande parte do espólio do arquivo pessoal musical de Neil Young, acaba de surgir no mercado mais uma verdadeira pérola discográfica:-“Young Shakespeare”, disco gravado ao vivo, com origem num concerto a solo, em formato acústico, que teve lugar no célebre Shakespeare Theatre, na cidade de  Stratford, sul de Birmingham, Inglaterra, a 22 de Janeiro do longínquo ano de 1971; trata-se de fabuloso documento  sonoro único onde Neil Young nos delicia com todas as suas múltiplas capacidades de executante ao tocar as suas próprias composições e acompanhando-se com nada menos de  três diferentes instrumentos – guitarra acústica, harmónica e piano.

Uma gravação que contabiliza já cinquenta anos de existência e que agora é disponibilizada aos fans, pela primeira vez, e que contempla algumas das mais icónicas e bonitas composições do antigo membro dos CSN&Y; assim, vamos nela poder escutar primeiras versões de canções mágicas e imortais  tais como “Old man”, “Ohio”,”Down by the river”, “Sugar mountain”, “Heart of gold” ou “Helpless”, qualquer uma delas peça por demais importante da história do movimento  pop/rock internacional e também  momentos musicais brilhantes que aqui surgem em versão sonora restaurada e que por isso mesmo transformam este projecto numa peça rara e absolutamente de coleccionador.   

CD Reprise/Warner Music

ST GERMAIN – viagem de aniversário

Para comemorar o vigésimo aniversario do lançamento original do disco de extraordinário  sucesso “Tourist”, os St Germain, propõe-nos agora a edição do mesmo projecto, mas em moldes diferentes:- as mesmas musicas que integraram o lançamento inicial surgem de novo mas desta vez em especiais versões mix ou remix que na sua totalidade acabam por perfazer cerca de oitenta minutos de prazer dançante ou auditivo;

“ Tourist travel versions- 20 years tourist anniversary” traz-nos agora uma série de gravações inéditas registadas recentemente por alguns famosos DJs e por uma mão cheia de produtores conceituados que se por um lado nos vem relembrar as belas e originais canções e a consequente boa musica que o grupo fazia já por alturas do ano 2000, por outro lado nos ajuda a recordar e justificar  a fabulosa soma de quatro milhões de exemplares vendidos na altura!!!

CD Warner Music

 

SAMAWATIE/K. BHATTI-musica carismática

De gravação em gravação e de edição em edição a editora ECM vai sempre conseguindo cada vez mais surpreender  os seus muitos fans e admiradores espalhados um pouco pelas mais diferentes latitudes e isso com cada vez com mais frequência; agora foi a vez de surgir editado um projecto –“Trickster orchestra” do duo Cymin Samawatie / Ketan Battie  que  sobressai entre muitos  outros especialmente pela grande complexidade das suas vocalisações e pela grande elasticidade das sonoridades que nos propõe, destacando-se o extraordinário cantar da sua voz feminina tedesco-iraniana(Cymin) e as novas e estranhas texturas sonoras do percussionista (Ketan Bhatti), que por vezes se constituem verdadeiramente alucinantes; musica nova, extremamente arrojada que foge dos canones tradicionais e sublinha uma linguagem poética inovadora, com palavras onde se fala de amor e fragilidade através de um grande colorido sonoro, afinal predicados que acabam por transformar este projecto numa especial colecção de composições transculturais de grande colorido sonoro, interpretadas em linguagem tão diversa como são o farsi, o hebreu, o turco e o árabe, que por si sós conseguem até transformar este  projecto num disco surpreendentemente  inovador e sonoramente transcendente.

CD ECM/Distrijazz

 

PINK FLOYD-épicos e deslumbrantes

Foi já há mais de trinta anos, mais c

oncretamente a 30 de Junho de 1990, que o antigo quarteto Pink Floyd, então já na altura reduzido a um trio pelo súbito abandono de Roger Waters do seio da banda, se apresentou no célèbre Knebworth House, em Knebworth, Hertfordshire, Inglaterra;

o concerto fez parte da actuação dos vencedores do prémio Silver Clef de 1990 e reverteu também a favor de duas instituições-  Nordoff Robbins Centre e BRIT School of Performing Arts and Technology.

O colectivo formado então agora por David Gilmour (guitarra e voz), Nick Mason (bateria e percussão) e  Rick Wright (teclas e backing vocals) , revelou estar em grande forma,  levando aos céus e  ao consequente delírio os milhares de assistentes, na ordem dos mais de 120.000, debitando ao vivo uma espécie de best of da sua já extensa discografia, onde estão alguns dos maiores sucessos da sempre não só da banda, como da história da própria musica rock, onde os Floyd se situam na realidade como um dos seus maiores expoentes; assim, na gravação vamos  poder encontrar míticas canções como “Wish you were here”, Money” ou “Shine on you crazy diamond”, entre outras, mas quanto a mim do reportório  tocado e incluido no  alinhamento do disco merecem especial destaque três versões especiais, absolutamente brutais, no bom sentido entenda-se:- as de “Sorrow”, “Confortably numb” e “Run like hell” , qualquer uma delas absolutamente  avassaladora e épica…

O concerto, que até hoje só havia sido surgido editado na caixa “Later years” em 2019, surge agora pela primeira vez como um album isolado e apresenta-se disponível também sómente nos formatos CD, duplo vinil e nas plataformas digitais.

“Pink Floyd live at Knebworth 1990”, um album absolutamente memorável e brilhante que nos faz recordar a banda num dos seus mais altos momentos e a lembrar com saudade o fabuloso concerto no estádio de Alvalade, de há anos atrás; um disco que sem dúvida alguma se prepara para se constituir na melhor gravação de música rock ao vivo editada em  2021!!!

CD Pink Floyd/Parlophone/Warner Music

 

JAMES BOOKER-um príncipe do piano

Ficou conhecido pelo epíteto de “príncipe do piano de New Orelans” e só isso já diz tudo sobre a sua fama junto do publico em geral e  também junto dos seus inúmeros admiradores; misturando por vezes  os blues, de que se constituiu um excelente interprete, com jazz tradicional e moderno e ainda com rhythm and blues, boogie-woogie ou gospel, James Booker foi para alem dum excepcional instrumentista também um renomado compositor com uma sonoridade muito propria como pode conferir-se no projecto ”The Ivory emperor”, uma verdadeira peça de colecção, até pela sua raridade, um trabalho que inclui para além das 13  composições que constituem o seu completo espólio de singles editados para diversas e conceituadas editoras de então tais como a Chess, Ace, Imperial e a Peacock, tem adicionadas tambem outras doze  canções extra, e que funcionam como bonus, composições interpretadas por outros sete  diferentes artistas com os quais Booker tocou como instrumentista e lider de formação, uma série de canções gravadas nas cidades de New Orleans e Chicago no período compreendido entre 1954 e 1962.

Um projecto discográfico de colecção, absolutamente histórico, que nos surge em edição limitada e em formato digipack, onde está  incluido um novo booklet também.

CD Soul jam/Distrijazz

 

STEFANO DI BATISTA-o belo jazz italiano

Uma verdadeira surpresa auditiva o novo trabalho do grande saxofonista alto e soprano Stefano di Batista, músico italiano que nos aparece à frente de um colectivo de mais três grandes instrumentistas do jazz tais como Fred Nardin, no piano, Danielle Sorrentino, no double bass e André Ceccarelli, na bateria; um disco, de título genérico “Morricone stories” que para além de pretender homenagear o grande compositor e maestro italiano Ennio Morricone, nos traz à lembrança as concepções melódicas de um excepcional grupo dos anos 70- os Área, onde pontificava um nome mítico do jazz e do rock italianos- o inesquecível Eugenio Finardi.

Neste seu  novo trabalho,  Stefano deslumbra, evidenciando todas as suas excelsas capacidades interpretativas  bem secundado pelos seus três

companheiros e todos, em comunhão de ideias, propõe-nos um jazz bem imaginativo, concebido com  elevado sentido estético e rara sensibilidade que agrada sem reservas!    

CD Warner Music

 

ELINA DUNI/ROB LUFT-o grito da imigração !

Como diz no libretto que acompanha o disco “Lost ships” , este é um trabalho temático sobre acontecimentos contemporâneos especialmente sobre o premente, e até agora irresoluvel, problema dos milhares de imigrantes oriundos das mais variadas procedências, esses pobres e indefesos seres humanos que parecendo esquecidos e até ostracisados pelo resto da Humanidade e pelas mais diferentes, e por vezes muito distraídas autoridades estatais, desvairadamente se lançam à aventura, quase sempre explorados e enganados pelas mais diversas mafias que constituem a escória da sociedade actual e são também, sem duvida, o que há de mais baixo, mais vil e mais reles na sociedade contemporânea, uma corja repelente de individuos por causa de quem deveria ser de novo instituída a pena de morte, imigrantes que  se lançam à aventura dizia eu, em fragéis barcos ou balsas sem condições minimas, em verdadeiras odisseias oceânicas na tentativa de alçançarem o seu sonho de liberdade, aquilo que pensam ou sonham poder ser uma espécie de “Eldorado”, indo atrás de um mirífico emprego ou trabalho, geralmente péssimamente remunerado, e que eventualmente estará à sua espera nas paragens ou destinos para onde se arriscam a viajar num permanente risco de vida e de…morte!

Pois é exactamente este pesadelo actual, esta problemática  habitual, que é intens e quase cruelmente abordada nas canções do disco através duma musicalidade centrada essencialmente no folklore albanês e também no do Mediterrâneo, no dos Estados Unidos e na canção francesa também (Charles Aznavour), através de belas baladas, temperadas num certo conceito ritmico jazzistico a que a fabulosa voz de Elina Dunim, nascida na Albania, mas desde 1992 a viver na Suiça,  dá uma enfase gritante, emocionante, verdadeiramente  desesperada e pungente, qual brutal grito de alerta geral, exemplarmente  servida por uma cama musical a cargo de um trio de exímios e sensíveis instrumentistas como Rob Luft (guitarra), Fred Thomas (piano e bateria) e Matthieu Michel (flugelhorn, instrumento metálico de sopro da familia do trompete).

Disco de rara beleza, é simultâneamente um grito de alerta para todas as autoridades e para quem de direito nos mais diversos países “abrangidos” pela crescente e imparável imigração, esse verdadeiro flagelo que um pouco por todo o Mundo vai assolando a Humanidade, os corações e os sonhos das pessoas com sentimentos!

CD ECM/Distrijazz

 

ANDRIS NELSONS-sinfonias e preludios

Através de obras de compositores famosos como Richard Wagner e Anton Bruckner  a Gewandhausorchester, superiormente dirigida pelo maestro letão Andris Nelsons, tem-se apresentado pontualmente em diversas capitais mundiais e dado a conhecer todo colorido sonoro e fenomenal beleza dos programas musicais que vai propondo através  das suas grandes interpretações especialmente da obra de Anton Bruckner (1824-1896), tendo mesmo já grande parte das critica mundial afirmado que o melhor Bruckner que actualmente se pode escutar é aquele que é proposto por esta orchestra sob a direcção de Nelsons.

Com a partitura estudada ao mais pequeno detalhe e com interpretações excepcionais pois consegue ao mesmo tempo tirar o maior rendimento dos músicos desta orquestra de Leipzig, o maestro letão é sempre colocado nos píncaros e isso tem sucedido recorrentemente.

Essas grandes prestações estão agora bem patentes em ”Bruckner symphonies 2 & 8 /Wagner –meistersinger prelude”, disco resultante de uma cuidada selecção de reportório de várias gravações ao vivo que acaba de ser editado e onde está patente toda a tensão e drama que envolvem as obras, verdadeiramente intensas, obras que trazem consigo momentos excepcionais a que nenhum admirador buckeriano poderá certamente pôr defeito!

CD Deutsche Grammophon/Universal Music

 

AHMAD JAMAL-a magia do piano

É sem duvida alguma, como extraordinário pianista e compositor,  uma das maiores personalidades da história do jazz mundial e isso mesmo é unanimemente reconhecido quer pelo publico amante do jazz em geral, quer pela critica internacional e por isso mesmo qualquer trabalho seu é sempre recebido com entusiasmo por todos, até porque apesar da sua proveta idade ( nasceu a 2 de Julho de 1930 tendo portanto quase noventa anos) continua a hoje em dia ainda a gravar discos e a dar concertos com certa assiduidade.

Filho de pais conotados com a  religião baptista, Ahamad converteu-se nos anos 50 ao islamismo e isso ditou-lhe uma nova direcção social, uma pessoal e crescente religiosidade e acima de tudo permitiu-lhe “enxergar” outros e diferentes valores, usos e costumes, levando-o também a tomar contacto com outras perspectivas sociais e politicas e acima de tudo  a aproximar-se de outros musicos com a mesma inclinação religiosa e outras perspectivas musicais; daí ao contacto com o grande Miles Davis foi um pulinho; a tal ponto se conotaram e sintonizaram um com o outro que em pouco tempo Jamal passou de amigo a pianista e compositor favorito de Miles! E se o trompetista era exigente!!!

Agora e depois de ter editado vários discos a solo nos ultimos anos, surge  entre nós uma edição que é ao mesmo tempo uma verdadeira raridade, pois agrupa num só disco dois grandes trabalhos do pianista negro, sendo que um deles foi gravado em  estúdio e o outro provém de um concerto ao vivo em S. Francisco; assim podemos nesse mesmo package encontrar os dois discos, referenciados no título do projecto:- “Naked city theme/Ahmad Jamal” e  que  apesar de ambos datarem de há já alguns anos atrás, se assumem ainda como dois dos seus mais belos e importantes trabalhos, sobre os quais a critica se debruçou e pronunciou elogiosamente na altura do seu lançamento original…

Uma apelativa edição que nos permite tomar contacto de novo com uma das mais perfeitas formações que já acompanharam o pianista e que integra no registo ao vivo, que teve lugar no célebre Jazz workshop, de S. Francisco de 26 a 28 de Junho de 1964, o proprio Jamal, no piano, Jamil Nasser, no baixo e Chuck Lampkin, na bateria, enquanto que no registo de estúdio, cuja gravação teve lugar na cidade de Nova Iorque entre os dias 18 e 20 de Maio de 1965,  se manteve a mesma formação com uma unica alteração:- no lugar  de Lampkin surge Vernell Fournier.

CD American jazz classics/Distrijazz

 

PABLO ALBORAN – regresso em grande estilo!

Está de regresso às novas edições um dos maiores fenomenos de popularidade e vendas do país vizinho, um artista que já por diversas vezes esteve entre nós não só para actuações ao vivo, como também para promoção nos media portugueses,  uma personalidade musical que se transformou num curto espaço de tempo e com um reduzido numero de edições discográficas, num verdadeiro  fenomeno de massas e de vendas; falo de Pablo Alboran que agora com “Vertigo”, está de regresso não só aos grandes discos, mas também aos enormes sucessos de vendas e acima de tudo à sua pessoal faceta de grande compositor de canções, ele que neste novo trabalho tem o seu nome ligado umbilicalmente, sózinho ou em parcerias (duas apenas)  a  todas as composições do novo projecto, algumas  delas verdadeiramente inspiradas, outras delas com um subtil toque de genialidade mesmo!

Há no entanto outra faceta a salientar e a ter em devida conta e que demonstra o seu grande crescimento e uma inquestinável maturidade artistica, pois este novo album para além de vir recheado de grandes  momentos melódicos está ornamentado por  uma grande produção,  exemplarmente brilhante e inusitadamente criativa, onde uma série de sumptuosos e bem conseguidos arranjos dão às composições um colorido sonoro invulgar ao mesmo tempo que nos traz Pablo Alboran a cantar o amor melhor que nunca e a elevar-se desde já ao estatuto de uma das maiores personalidades e estrelas da música pop contemporânea em lingua castelhana!

CD Parlophone/Warner Music

 

VANESSA MARTIN-a rainha da pop

Quanto a mim, ela é  sem dúvida alguma e desde há já algum tempo  a maior figura vocal feminina da musica pop/rock espanhola e isso acaba por significar que o trono de raínha da pop, afinal de contas já não está vago, antes se encontra, legitimamente, ocupado por ela; a crescer vocalmente, e a olhos vistos, de album para album, a linda Vanessa Martin revela-se no seu mais recente disco –“Sie7e veces si”, cada vez mais, como uma interprete realmente assombrosa, cantando e dando forma às canções melhor que nunca, facto que facilmente se tem revelado de disco para disco e esse facto tem já muito a ver com a grande maturidade que foi gradualmente adquirindo, não só nas suas

inumeras gravações de estudio, mas também nas centenas de concertos que protagonizou ao longo dos últimos meses e lhe granjearam fama e uma gradual e extraordinária popularidade.

Com grandes arranjos e uma produção exemplarmente eficiente e por vezes até apaixonante, a cantautora espanhola continua a falar nos novos textos , todos da sua autoria, do profundo e por vezes complexo sentimento que é o amor, de ambiguas relações amorosas, suas várias questões e nuances, de desilusões e inquietações e acima de tudo de despedidas, reconciliações , verdades, mentiras  e também de equívocos, esperanças, paixões e mudanças; por outro lado Vanessa, que cada vez mais se afirma como uma grande compositora, assina aqui a quase totalidade das composições daquele que é já o seu sétimo disco de originais,  com excepção do tema 2 e do tema de encerramento, onde co-assina as autorias ( num deles  a parte lirica, noutro a parte musical ) a cantautora espanhola assina aqui o seu projecto mais ambicioso, mais maduro, mais intenso, mais brilhante, mais bem concebido e que por isso mesmo se constitui no melhor disco da sua já fantástica carreira!

E se o título original do trabalho é “ sete vezes sim”, eu, daqui deste cantinho digo que é um trabalho tão bom, tão maduro e tão conquistador que o seu título deveria mudar e passar então a ser  então conhecido por:-“setecentas  vezes sim”!!!

CD Warner Music

 

NOTÍCIAS SOLTAS