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Escolhas do João Afonso Almeida

MÚSICAS – ESCOLHAS

 

Enquanto não chega a miraculosa vacina contra o covid 19, que virá a ser assim a modos que o mais especial e ambicionado presente de Natal ou então, se acaso ela só chegar no início de 2021 uma verdadeira prendinha de Ano Novo, temos que ir ocupando o tempo de algum modo e uma das melhores formas de o preencher será ocupá-lo com…música!

Por isso e porque “tristezas não pagam dívidas”, enquanto não surge a  tal miraculosa cura efectiva e também porque a vida continua, eis-me mais uma vez mais a propor-vos, não só a leitura de uma série de notícias sobre a cultura em geral nas notícias soltas, bem como dar conta de uma série de escolhas musicais, que representam uma grande fatia das mais recentes novidades discográficas surgidas em Portugal, propostas meramente pessoais, que espero sirvam para ajudar a seleccionar audições, consoante o gosto de cada um, tentando assim, à minha maneira ajudar  a passar melhor o tempo que ainda vamos tendo livre e a desanuviar um pouco das efectivas preocupações virais que nos vão assaltando os pensamentos e as ideias…

 

KEITH JARRETT

Faz das teclas do seu piano o instrumento ideal para nos fazer meditar e sonhar  e da sua arte sublime o veículo com que facilmente nos arrebata e seduz; longe vai já o tempo da sua presença entre nós no célebre Festival de Jazz de Cascais , no infelizmente já desaparecido Pavilhão do Dramático de Cascais quando o seu brilhantismo jazzístico já nos deliciava e facilmente a todos conquistava, mas se nessa altura Keith Jarrett era já uma notável individualidade musical de alto expoente e gabarito e como instrumentista  já era muito, muito grande,  agora, muitos anos passados, é sem dúvida verdadeiramente… gigante!!!

Com efeito, hoje em dia já não há adjectivos que cheguem para podermos exprimir e catalogar todo o seu virtuosismo, todo o esplendor da sua musica impar e acima de tudo toda a sua genial  arte de improvisação, e também a intemporalidade das suas propostas e a amplitude da sua intimidade sonora e instrumental…

No seu novo duplo disco- “Budapest concert”, registado ao vivo no conhecido Bela Bartok Concert Hall, de Budapest, Hungria a 3 de Julho de 2016 , pouco tempo depois dum concerto em Munique, já não sei sinceramente que mais admirar:- se a sua soberba capacidade de mago executante, se o portento da sua arte ou a sua capacidade suprema de ir cada vez mais além numa incessante procura do belo, do perfeito, do inatingível e do sofisticado, numa viagem musical  absolutamente  memorável e inesquecível por composições de parte da sua esplendorosa obra já editada e que aqui, ao vivo, ganha realmente uma nova amplitude, impacto e…vida!!!

Para alem de tudo, este é “apenas” o segundo show completo a ser editado  da sua digressão de há cinco anos  que  constituiu, por assim dizer, uma espécie de “regresso a casa” do excelso pianista, que, pelo que sabe, tem ligações e raízes familiares antigas na Hungria; face à alta qualidade da actuação de Keith Jarrett pode dizer-se que a criatividade e a genialidade andaram de mãos dadas e positivamente à solta em Budapeste naquela belíssima noite húngara de 2016 e por tudo aquilo que se pode ouvir no duplo disco, que pena eu tenho de não ter podido estar lá presente para assistir a uma noite musical mágica, plena de virtuosismo, deslumbrante, inesquecível e, porque não dizê-lo,  verdadeiramente… imperial!

E pena porquê? Porque tocou lá, Sua Alteza Real D. Keith Jarrett  e eu estive “ausente”desse grande banquete musical!

2CDs ECM Records/Distrijazz

 

JOSÉ CID – da Chamusca para o Mundo

Inovador e revolucionário, no bom sentido entenda-se, pese embora o facto de algumas composições de sua autoria terem aquando da sua primeira aparição sido censuradas e mesmo até proibidas pela censura portuguesa

(a tristemente celebre e malfadada secção do lápis azul) e até ter cantado  Lorca, a quem dedicou um disco intitulado “Oda a Federico Garcia Lorca”, Pablo Neruda e a galega Rosalia de Castro, entre outros, desde sempre, quer a solo, no seio dos Babyes, dos Claves, no Orfeão Académico, no Quarteto 1111 ou nos Green Windows, José Cid muito cedo marcou o seu percurso musical e poético por uma identidade própria e um sentido estético e musical diferente de toda a gente, ao mesmo tempo que sempre assumia uma grande independência de modas e ditames, marcando bem as suas ideias e traçando com segurança o seu próprio percurso artístico mercê de uma maneira de ser muito pessoal e característica, nunca se negando no entanto a assumir sempre os seus actos e decisões e, acima de tudo, nunca deixando de dar os seus recados, quando ou a quem quer que fosse preciso dá-los quando era necessário, mesmo que isso, como costuma dizer-se, fosse “politicamente incorrecto”;  por outro lado, e até talvez por isso mesmo, essa sua grande independência e maneira de ser e estar na vida e na música, quase sempre lhe granjearam invejas e uma grandessíssima dor de corno  motivando ao mesmo tempo longos e por vezes duradouros ciúmes artísticos especialmente por parte de outros personagens, muitos deles de muito discutível dimensão estética, a maioria das vezes sem qualquer razão de ser e geralmente reveladores de uma grande menoridade mental, intelectual e especialmente…musical!

No entanto, pese embora divergentes opiniões e por muito que isso custe a muitos dos seus detractores e doa a quem doer, a verdade é que na realidade José Cid  é o maior e mais bem sucedido compositor pop/rock português vivo mercê não só da grande quantidade de discos que já publicou, em editoras ou em pessoais edições de autor, mas também, sobretudo, por isso representar um quase infindável numero de canções de êxito, significativas de um extraordinário  sucesso granjeado não só junto do publico em geral, mas acima de tudo porque essencialmente isso teve a ver com os muitos lugares cimeiros nas mais diversas tabelas de vendas, classificações que por isso mesmo também lhe proporcionaram uma grande multiplicidade de galardões de prata, ouro, platina e até multi-platina, prémios perfeitamente justificáveis, e convenhamos, mais que merecidos, de uma brilhante e bem sucedida carreira musical como interprete solista , autor e cantautor, num percurso artístico e musical que afinal de contas sempre se tem pautado por uma grande criatividade e brilhantismo…

Quem não recorda a quase infindável lista de enormes sucessos populares tais como “A Anita não é bonita”, “A minha musica”, “Na cabana junto à praia”, “No dia em que o rei fez anos”, “Um grande, grande amor”, “Como o macaco gosta de banana”, “Portuguesa bonita”, “Junto à lareira”, “Verdes trigais em flor”, “A rosa que te dei”, “Lenda de El Rei D. Sebastião”, “O meu piano”,“20 anos”, “Ontem, hoje e amanhã”, “Quadras populares”, “Rumo ao Sul” ou ““Para lá do Marão” e muitos, muitos mais?

Isto para não falar já do extraordinário, para a altura, concept álbum “10.000 anos depois entre Vénus e Marte”, que angariou enorme êxito não só intra como extra-muros , um projecto que a celebre revista americana Billboard considerou inicialmente num honroso  56º lugar numa listagem dos 100 melhores discos mundiais…

Curiosamente, ou até talvez não, não posso deixar de aqui recordar-me de algumas conversas que com ele tive na sua antiga e acolhedora casa de Alcochete ou no seu belíssimo Palácio de Pinteus, ali prós lados de Loures ou até mesmo em diversos repastos e etílicas noitadas que partilhei com o meu querido e muito saudoso amigo – o fadista monárquico João Ferreira Rosa (1937-2017), laureado interprete de grandes êxitos musicais do nosso fado nomeadamente do belíssimo e consagrado “Fado do embuçado”, que já  desapareceu infelizmente do nosso convívio, quando este por várias vezes me confidenciou que na sua opinião pessoal o real estatuto como artista e compositor de José Cid era bem maior do que o País em que ele vivia…

Infelizmente é  bem verdade, como por vezes diz o povo na sua enorme e infinita sabedoria, que geralmente “ninguém é profeta na sua terra!” e isso aplica-se perfeitamente ao Zé Cid, um artista que bem merecia triunfar, com carácter de mais assiduidade, em maiores e diferentes horizontes musicais e em mercados mais sonantes, significativos, comercialmente mais agressivos e valiosos e por isso mesmo até muito mais monetariamente  generosos que não o deste pequeno País à beira-mar (im)plantado, onde por vezes a mesquinhez, o ciúme doentio e a vaidade pessoal se sobrepõem ao valor da própria pessoa e ao reconhecimento geral!

Camaleónico, versátil e inspirado compositor que tanto se sente à vontade no campo do rock, da pop, do rock progressivo, da balada, das canções de amor, da música popular e tradicional portuguesa ou até mesmo no meio fadista, José Cid tem sido assiduamente notícia não só por  causa das suas controversas, mas sempre sonantes, sumarentas e apetitosas entrevistas, outras vezes pelas edições de novos discos em nome próprio e finalmente pelo facto de a editora que fundou,  financia e dirige- a ACid records– e que tem tido como objectivo prioritário divulgar e dar a conhecer ao grande publico e aos media em geral, alguns novos valores que por cá vão surgindo, continuar a publicar trabalhos dele e de outros artistas; entre estes  destaco um do meu querido amigo, e também doente do Benfica, há tempos infelizmente desaparecido do nosso convívio e também do numero dos vivos – o ribatejano António Pelarigo (1953-2018), que com um trabalho de título homónimo, assinou um dos mais belos discos de fado dos últimos anos, trabalho esse que fez as delícias de um meu também querido amigo e vizinho de cativo na  catedral da Luz- o matador de toiros Mário Coelho, infelizmente também recentemente desaparecido do número dos vivos, vitimado pelo maldito coronavirus, maleita que assentou arraiais por cá e não se sabe, pelo menos para já, quando vai de abalada; por mim pode mesmo retroceder e ficar-se por terras longínquas na enigmática China, de onde, pelo que se vai sabendo, ele é… laboratorialmente  natural!

Nos últimos tempos, antes como é óbvio do aparecimento da maldita pandemia que desde Fevereiro deste ano vai assolando a Humanidade, o “cavaleiro” de Mogofores não esteve parado e assim pouco tempo depois de ter sido agraciado com um Grammy latino  de excelência musical,  propôs o ano passado aos seus admiradores e ao público em geral duas novas propostas discográficas:- primeiro um novo trabalho de grande fôlego – “Clube dos corações solitários do capitão Cid” e  mais recentemente um outro projecto em disco também-”Fados, fandangos, malhões…e uma valsinha”, dois belos e inspirados trabalhos que vieram enriquecer mais ainda o já valioso espolio discográfico do artista, um homem que originário da Chamusca, ali no lindo Ribatejo, assentou arraiais com a idade de 11 anos na  Mealhada, mais concretamente em Mogofores,  em pleno coração da terra do legítimo leitão assado à moda da Bairrada, uma inigualável iguaria dos deuses que infelizmente, tal como sucede com muitas outras, é muito copiada, mas também bastante vilipendiada, pois muita gente vai tentando em restaurantes, alguns bem caros por sinal, imitar e impingir aos menos preparados de olfacto, gosto e paladar algumas “cópias”, que no entanto não passam de pobres sucedâneos  do celebre prato bairradino, levando por isso, e conscientemente, ao engano os mais incautos que assim são levados a comer gato por lebre!!!

Como diria o meu querido  Alfredo Saramago, gourmet, escritor de livros de comezainas e seus derivados, apreciador e grande conhecedor de puros havanos (charutos) e outros prazeres mundanos e fundador da extinta revista Epicur, de boa memória:- “…tudo que é regionalmente português e tem local de nascimento definido e confirmado, deve ser comido ou bebido no local próprio, isto é em “su sítio”…

Mas voltando aos dois novos discos, o primeiro deles foi feito em jeito de homenagem à obra mítica -“Sergeant Peppers…” do mais famoso quarteto de Liverpool- os Beatles , cuja capa original inspirou este trabalho de Cid e onde, a par das caras que lá figuram, cada um pode acrescentar, num espaço próprio e nela pré-delineado, o seu próprio rosto conseguindo assim muito facilmente personalizar o disco, que pode considerar-se como uma espécie de flashback nacional e internacional das ultimas décadas onde são abordados vários temas, alguns deles mesmo verdadeiras maldições actuais e a precisar de urgente resolução, que só poderá ser a sua extinção, tais como a sempre discutível e problemática central nuclear de Almaraz ou a  mina de urânio de Salamanca, ambas em Espanha, infelizmente portanto a curta distância da fronteira entre os dois países ibéricos; também no disco se abordam  várias figuras nacionais e mundiais de relevância, algumas delas tão distintas entre si como eram por exemplo Natália Correia e Marilyn Monroe; masterizado no celebre estúdio onde gravavam os próprios Beatles – Abbey Road, é um trabalho acústico e de certo modo simples comparativamente com os últimos trabalhos do artista, mas ao mesmo tempo de uma  grande envergadura quer o avaliemos do prisma da composição ou da concepção poética e instrumental, sendo porém mais outro flagrante exemplo da grande criatividade e imaginação de um músico impar que à música portuguesa tem dedicado toda a sua inspiração, amor  e capacidade inventiva.

O segundo disco, que aborda e aprofunda fundamentalmente a temática da música popular portuguesa, é um verdadeiro compendio de melodias,  sons e ritmos que geralmente ornamentam a  nossa  MPP e que quanto a mim apesar de se pautar por uma evidente qualidade, tem um momento de grande magia e inspiração e constituiu por isso mesmo uma canção  inesquecível  e quase épica  quando  a cantar em dueto com José Cid o nosso nome maior do fado no masculino – Ricardo Ribeiro, revela-nos o melhor de si mesmo, dando vida de forma absolutamente brilhante, e como só mesmo ele seria capaz, à composição”Por calles y vielas”, onde atinge um impar e inusitado brilhantismo interpretativo ao mesmo tempo que o sentimento com que canta sobe a altos níveis de exigência vocal e se transforma  numa exemplar, soberba e  impressionante demonstração de como se consegue fazer de uma  canção simples um momento vocal antológico!

O projecto encerra com outra belíssima composição, que ao mesmo tempo constitui uma verdadeira e directa declaração de amor quando o seu autor dedica a sua mulher- a pintora timorense Gabriela Carrascalão  a belíssima composição “No tempo feliz”, também outro dos momentos altos do disco!

Agora, com dois grandes projectos debaixo do braço o que faltará então  para que eles se tornem ainda maiores, mais dimensionados e consigam um maior sucesso popular?

É fácil:- basta que os media nacionais ( especialmente os nacionalizados, nossos, e pagos com o suado dinheiro dos contribuintes em especial a RTP) , geralmente muito mais interessados em divulgar produtos menores, mas que eles por vezes elevam a hits de pacotilha  porque vieram do estrangeiro constituindo essa via para eles um (errado) sinónimo de garantia e qualidade, dêem a estes grandes dois discos portugueses o devido tratamento, afinal o tratamento que eles efectivamente merecem, dando-os a ouvir, divulgando-os, promovendo-os, consoante for caso através da rádio ou da tele difusão dos seus conteúdos, preenchendo as suas enfadonhas malfadadas e muitas vezes mal frequentadas playlists , isto quando enaltecem as músicas em língua estrangeira, com as canções dos dois projectos do cantautor português e assim, deste modo, não fugindo com o rabo à seringa, estarão a cumprir eficazmente a missão que lhes foi confiada, por lei no Diário da República, de divulgação obrigatória da música portuguesa de qualidade, como indubitavelmente é toda esta que integra os dois discos do cantautor português, que quase apetece dizer, apesar de ser uma frase já muito estafada, que ele (Jose Cid) é como o vinho fino ou generoso do Douro especialmente quando se trata de um vintage:- “quanto mais velho, melhor”!

CD-DVD e CD ACid records (apoios SPA e Antena 1)

 

SARA CORREIA

Longe vão os tempos em que a ouvi algumas vezes cantar (e encantar) em noites alfacinhas na celebre Casa de Linhares- Bacalhau de Molho e  até mesmo de quando no ano transacto foi editado o primeiro projecto a solo da fadista Sara Correia, em que  escrevi aqui no blog um texto elogioso sobre esse mesmo disco em que afirmei que tinha vislumbrado o futuro do fado no feminino e ele tinha o nome dela assinalado!

Agora, algum tempo passado e face à audição dum segundo trabalho, mais convictamente reafirmo essa minha pessoal posição de que estamos perante uma voz que vai certamente fazer parte no futuro da história da nossa canção nacional por excelência, pois as suas magnificas características vocais e a rara qualidade do seu timbre são mesmo  como o algodão:- não enganam!

Estamos por isso em presença duma verdadeira força da natureza, que possui  predicados vocais acima da média e que assim que solta no ar a sua voz arrepia de imediato quem a ouve ao mesmo tempo que deslumbra e arrebata…

Basta ouvir ao acaso uma qualquer composição, das muitas que fazem parte do reportório dos seus dois discos para se confirmar que nasceu para cantar e acima de tudo para… triunfar tal a intensidade com que canta, a enorme profundidade com que dá vida às palavras e a paixão que põe em cada interpretação, como se cada uma delas fosse a ultima!

Neste novo trabalho a fadista arrisca até, embora sem se afastar das raízes,  entrar por novos caminhos e áreas ao mesmo tempo que concede abertura em termos de autorias a uma série de colaborações com  gente de certo prestigio  tais como Diogo Clemente( que para alem de tudo produziu com certo brilhantismo este novo disco), Paulo Abreu Lima, Joana Espadinha, Mário Pacheco, António Zambujo( que assina com ela um belíssimo dueto), Luísa Sobral, Jorge Cruz ou Vitorino entre outros, que cada um à sua maneira ajudam a subir bem alto a qualidade e cotação do binómio  disco/artista, adicionando-lhe novos elementos e matéria prima, que de certo modo evidenciam, embelezam e valorizam o conteúdo do disco, apesar de alguns até virem de áreas, concepções musicais e diferentes sonoridades, ligeiramente distantes do fado propriamente dito…

Um disco de um brilhantismo vocal imaculado, que vem projectar em definitivo esta nova voz feminina para os píncaros ao mesmo tempo que lhe assegura um radioso futuro, tal o fogo com que incendeia a fogueira fadista que arde dentro dela e a faz transcender-se e potenciar-se um pouco para lá dos limites da genialidade vocal!

CD Universal Music

 

CHARLIE PARKER – um centenário em celebração

No ano em que se comemora o centenário do seu nascimento Charlie Parker (1920-2020), sem duvida, e na área do jazz, o melhor saxofonista-alto de todos os tempos, é notícia por variadíssimas razões nomeadamente pela edição de uma série de livros e de trabalhos originais seus em CD e em vinil, alguns surgindo pela primeira vez editados no mercado, outros sendo objecto de novas compilações ou algumas novas  reedições onde parte do seu fantástico espólio de centenas de gravações de estúdio e ao vivo é posto a nu e disponível, possibilitando-se assim que para alem dos seus incondicionais admiradores outros sectores tenham oportunidade de tomar contacto com a magistral obra de um dos maiores génios da grande música negra que influenciou, e ainda hoje em dia influencia, uma plêiade de novos instrumentistas que aos instrumentos (saxofone e saxofone-alto) dedicam toda a sua atenção e entusiasmo; para alem de vários trabalhos a solo  surgiram também alguns outros onde o insigne e imortal saxofonista  surge em diversas colaborações com outros instrumentistas de gabarito e renome assumindo no entanto ele a liderança dos projectos e sendo portanto esses trabalhos considerados como parte indissociável da sua valiosa discografia.

Entre eles podemos salientar por exemplo as recentes, brilhantes e muito atractivas edições da Distrijazz :- “Charlie Parker & Lenny Tristano” onde o insigne instrumentista surge a tocar com um dos mais fabulosos pianistas que ele sempre admirou; “Bird and Diz”, com Charlie a emparceirar com o mítico Dizzy Gillespie; “Complete Bird in Sweeden”, uma das mais fantásticas e memoráveis actuações de uma extensa digressão europeia dos finais de 1950; ”Now´s the time”, onde o seu naipe de acompanhantes surge sob a forma de dois diferentes quartetos, sendo uma das formações de 1950 e a outra do ano seguinte, as duas aqui reunidas num único disco; para alem destas aqui citadas merecem ainda destaque ”The complete Savoy masters”,  duplo CD com as gravações integrais que tiveram lugar na famosa sala de concertos; “Jazz at Massey Hall” preenchido com  registos ao vivo na celebre sala canadiana;  “The complete Dial masters” que como o próprio título deixa antever reúne as gravações efectuadas para aquela celebre etiqueta;  “Complete Bird at the Rockland Palace”, que integra o concerto ao vivo de Parker naquela sala nova-iorquina e ainda inclui vário material bónus; “At Café society” com espolio musical gravado neste celebre café e clube de jazz no ultimo ano da sua existência; “South of the border”, disco em que o saxofonista surge em formações designadas por small groups à frente de uma secção rítmica de jazz latino e finalmente “Plays Cole Porter”, brilhante disco de homenagem ao grande compositor…

Para alem deste projectos que aqui referi merece destaque também uma nova colectânea de sucessos designada genericamente “The hits”, um fantástico compendio do pai do bebop que reúne em três CDs nada menos de 70 composições e nos permite para alem de nos deliciarmos com a sua arte, tomarmos também contacto com a genialidade de alguns dos seus vários e numerosos comparsas  musicais onde é por demais evidente o gabarito e a alta craveira de altos instrumentistas, figuras verdadeiramente míticas como Dizzy Gillespie, Miles Davis,  Thelonious Monk, Charles Mingus, Max Roach ( que saudades das suas inesquecíveis master classes há anos atrás na Gulbenkian aquando de uma memorável visita para actuação no Grande auditório), Duke Jordan, Bud Powell, Hank Jones ou Buddy Rich.

Esta edição tem também a particularidade de incluir a sua clássica e mítica actuação ao vivo no Canadá datada de 1953 –“Massey Hall concert”, pela critica especializada da altura considerada como uma das mais geniais actuações do saxofonista alto que aqui surge rodeado por um soberbo quarteto de eleição que incluía  quatro verdadeiros “monstros sagrados” do jazz:- Bud Powell, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e… Max Roach !!!

Nestas novas edições (algumas delas – as da Bird´s nest de edição limitada) há que salientar o facto de todas as gravações (da Savoy, Dial e Verve) terem sido objecto de cuidadas remasterizações digitais, isto apesar de alguns terem já para a época uma invulgar qualidade de gravação, beneficiando ainda todos os discos da adição de novos booklets contendo textos biográficos actualizados, bem como da inclusão de fotos inéditas, elementos que vem sobremaneira valorizar e enriquecer estes fabuloso projectos de um personagem único do mundo do jazz que se tornou, mercê da sua arte, virtuosismo, carisma e inusitadas capacidades instrumentais e inventivas  não só numa figura imortal mas também numa verdadeira lenda da grande música negra!

CDs New Continent e Birds Nest /Distrijazz

 

ERROL GARNER

Destacou-se no mundo da grande musica negra como um dos mais versáteis e conceituados instrumentistas de teclas de todos os tempos a que pouco a pouco adicionou uma série de outros predicados e elogios, acabando por ser unanimemente considerado pela critica em geral e pelo público melómano do jazz como um executante brilhante e virtuoso e um inspirado pianista e compositor, afinal de contas as elogiosas referencias que sempre foram pautando o seu trabalho posterior quer em discos, quer em concertos ao vivo; um dos seus mais populares e bem sucedidos discos vendeu mais de 225.000 cópias, soma absolutamente estratosférica para a altura,  durante o ano seguinte ao da sua edição original em 1956 e constituiu um dos seus mais excitantes projectos discográficos – “Concert by the sea” , que agora acaba de ser reeditado numa versão especial- digipack, contendo novas e mais completas notas biográficas, isto para alem da sua completa remasterização e da inclusão, como bónus, de nada menos de dez composições extra, que não figuravam na edição original e que elevam a duração do conteúdo do disco para perto dos oitenta minutos!

Para alem de ter sido o trabalho mais vendido do pianista e do mundo do jazz na altura, o projecto, que inicialmente nem sequer estava pensado para ser apresentado ao vivo e serviria apenas para preencher a programação de um concerto para a estação de rádio das forças armadas norte-americanas de então, para além de tudo, representa o auge da sua maturidade artística e da sua criatividade,  predicados que aqui estão bem patentes nesta gravação que teve lugar em Carmel, Califórnia a 19 de Setembro de 1955 e conseguiu transformar Erroll Garner numa verdadeira estrela  musical, com o estatuto quase de uma pop-star ; um projecto onde o pianista contou com  mais duas imprescindíveis e brilhantes presenças   instrumentais :- as de Eddie Calhoun, no baixo e Denzil Best, na bateria , qualquer um dos dois com prestações ao nível do pianista.

CD American Jazz Classics/Distrijazz

 

LUDOVICO EINAUDI

Do grande compositor e instrumentista contemporâneo Ludovico Einaudi , homem conotado especialmente com a música dita erudita, mas que tem nos últimos anos também espraiado as suas capacidades de compositor por outras áreas bem diferentes e distintas como o pop, o rock, as musicas do Mundo ou a folk  e feito carreira também como compositor de bandas sonoras de cinema como foi o caso das dos filmes “ Os intocáveis”, “Doutor Jivago” ou “Acquario” , entre outros, acaba de se publicar “Undiscovered” duplo disco que é assim a modos que uma colectânea de sucessos do  seu autor  pois explora o seu vasto catalogo de edições ao mesmo tempo que revela algumas preciosidades  menos conhecidas e que por isso mesmo vão acabar por ser o principal motivo de curiosidade dos seus admiradores que assim poderão desvendar verdadeiros “tesourinhos”, alguns deles ainda inéditos em matéria de edição; o duplo trabalho inclui ainda também quatro composições registadas ao vivo, uma em Berlim e três outras no célebre Teatro à la Scalla, de Milão.

Música de grande beleza estética que convida à meditação, relaxante e cativante, por vezes ligeiramente minimalista surge-nos através de dez diferentes composições envolta numa embalagem sonora contemporânea de certo brilhantismo a que algumas vocalizações femininas dão um invulgar colorido e que por isso mesmo seduz com facilidade e chega mesmo a deslumbrar!

2CD Decca/Universal Music

 

MAGIC MOZART

Tendo em vista a promoção e divulgação do evento deste ano do já célebre Festival Mozart Maximum idealizou-se localmente um projecto discográfico através dum pack muito especial, qual cabaret mágico inédito, que resultou numa sofisticada colectânea de programação bem popular  com  origem em obras como “A flauta mágica”, “La noche de Fígaro” ou “Don Giovanni”,

compilação para a qual se seleccionaram uma mão cheia de árias célebres de algumas das mais famosas óperas do homenageado compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) , composições essas que evocam três diferentes formas de magia- a negra (que representa o diabo), a branca (o bem) e a vermelha (o amor) através de soberbas interpretações a cargo de algumas das mais conceituadas vozes da música erudita contemporânea de origem francesa , todos eles conceituados interpretes de Mozart tais como são as das sopranos Jodie Devos e Sandrine Piau, da mezzo-soprano Lea Desandre, dos tenores Loic Félix e Stanislas de Barbeyrac e do barítono Florian Sempey que, cada um à sua maneira, ajudaram assim a celebrar  com grande pompa, dignidade e talento um dos mais brilhantes compositores da música clássica mundial sobre uma cama musical soberba proporcionada pela Ínsula Orchestra sob a direcção do maestro Laurence Equilbey; um projecto arrebatador, notável e acima de tudo absolutamente intemporal a que especialmente os amantes de Mozart e também os melómanos da clássica vão dar uma especial atenção!

pack Erato/Parlophone/Warner Music classics

 

ANDRÉ CLUYTENS

Sob uma cama musical verdadeiramente majestosa a cargo da conhecida Berliner Philharmoniker Orchestra as nove sinfonias completas de Ludwig van Beethoven (1770-1827) ganham agora nova vida, muitos anos após terem sido registadas pela primeira vez em gravação e isto muito antes do famoso Herbert van Karajan as gravar também e editar com extraordinário sucesso; isso mesmo pode ser comprovado na audição do conteúdo de “Beethoven- 9 symphonies-overtures” , atractiva caixa de cinco discos recentemente lançada, onde a obra do consagrado compositor alemão é superiormente dirigida sob a direcção e condução de André Cluytens, (1905-1967) maestro oriundo do seio de uma família musical e que tendo nascido na Bélgica acabou no entanto por se radicar por volta de 1932 em França onde exerceu grande parte da sua actividade musical, isto embora esta estadia tenha sofrido um curto interregno  temporal quando nos Estados Unidos dirigiu uma muito celebre orquestra- a Filarmónica de Nova Iorque.

Esta reedição acaba por funcionar também assim a modos que uma espécie de homenagem à memória do famoso director de orquestra belga, numa altura em que já se completaram mais de cinquenta anos sobre o seu desaparecimento físico, um homem de extraordinário valor e reputação que era especialmente reconhecido  por deixar a música que dirigia brilhar e respirar por ela própria, nas sessões de gravação que dirigia e que acabaram por se transformar em históricas e clássicas gravações; eis aqui uma grande oportunidade para se oferecer uma fantástica prenda de Natal sobretudo para os milhares de admiradores de Beethoven e para melómanos da música erudita!

Caixa de 5CDs Erato/Warner classics/Warner Music

 

JOHN LEE HOOKER

Celebérrimo nome da cena da grande música negra da América, neste caso concreto, dos blues norte-americanos, John Lee Hooker (1917-2001) é  bastantes vezes notícia pelo facto de surgirem novas compilações com origem no seu extenso e valioso espólio musical e também pelo facto de muitas delas representarem por vezes reedições dos seus discos originais, algumas com a inclusão de muitos temas extra que geralmente não faziam parte dos alinhamentos iniciais; agora o motivo da noticia é a recente edição, numa série que compreende dois trabalhos originais num só disco, ( 2LPs on 1 CD) série essa que tem alcançado grande sucesso junto dos melómanos do jazz e dos blues, tanto mais que para além do facto de geralmente apresentar na sua totalidade um grande numero de canções, normalmente beneficia do facto de ser remasterizada, sair em edição limitada a poucos exemplares (neste caso apenas 500), incluir um novo libretto com fotos raras e notas biográficas actualizadas e ainda muitas dessas vezes se apresentar  mais valorizada ainda pelo facto de quase sempre  incluir várias canções absolutamente inéditas que surgem pela vez na actual versão CD.

É o caso de “On campus” e “The Great John Lee Hooker”, dois grandes álbuns, bem antigos por sinal, e também se calhar por causa disso menos conhecidos, agora editados em conjunto e num só volume portanto, com a inclusão de seis “novas” composições como extra e  que apesar de se apresentarem como duas das obras menos badaladas e popularizadas do famoso “king of the boogie”, que a revista Rolling Stone chegou a classificar num honroso 35º lugar na lista dos 100 melhores guitarristas do Mundo, trazem no entanto a inconfundível marca do som característico da sua guitarra, da sua voz e do indelével perfume sonoro com que só Hooker  sabia impregnar as suas inspiradas composições; a grande musica do delta americano na voz de uma da suas mais representativas figuras– o imortal John Lee Hooker!

CD Soul Jam/Distrijazz

 

JACKIE WILSON

Foi uma figura impar e um incrível performer , um interprete genial e em palco um entertainer verdadeiramente eléctrico, isto para alem de ter sido uma influência inspiradora para muita gente como os imortais Elvis Presley ou Michael Jackson , dupla que assiduamente o visitou quando atravessou um longo período de nove anos de hospitalização motivada pela doença que o confinou a uma cama de hospital após o ataque cardíaco que o acometeu quando actuava ao vivo e do qual nunca recuperou; por outro lado Jackie Wilson (1934-1984) foi uma das mais salientes personagens da era da soul music tendo mesmo sido ele o principal responsável pela tranquila transição do rhythm and blues para a mesma soul.

Dele, acaba de se publicar  na serie “2LPs on 1CD”,  numa edição limitada e remasterizada,  o projecto que abarca dois discos da sua discografia – “Body and soul” ( de 1961) e “You ain´t heard nothin´yet” (de 1962) onde podemos encontrar uma série de grandes exitos como “Body and  soul”, “Blue moon”, “I´ll be around”, “Califórnia here I come” ou “There´ll be no next time”, composições/sucesso que atravessaram décadas e o confirmaram como a mais completa figura vocal da sua geração que tinha Elvis Presley e James Brown como dois dos maiores expoentes vocais.

A edição traz ainda como extras quatro temas mais, perfazendo assim uma totalidade de 28 canções disponíveis neste  projecto verdadeiramente electrizante dum interprete genial  habitualmente conhecido nos media também por ”Elvis negro”!

CD Soul Jam /Distrijazz

 

BOSSA NOVA – 75 classic hits

Não sei se hei-de chamar-lhe bíblia ou simplesmente belo arquivo sonoro (embora se trate na realidade de uma fabulosa colecção de êxitos da bossa nova, que pode definir-se como um movimento de renovação do samba que ficou associado umbilicalmente ao crescimento urbano brasileiro, especialmente na cidade do Rio de Janeiro) a um projecto recentemente editado e que é constituído  por três  compact discs,  onde está contada sumariamente e através de nada menos de setenta e cinco canções grande parte da história do célebre ritmo carioca que nasceu na cidade do Cristo Redentor, tomou forma, ganhou pouco a pouco fama e mais tarde alcançou inusitada uma projecção mundial por alturas do final dos já longínquos anos 50 especialmente nos Estados Unidos para onde, o então designado de novo ritmo autenticamente “emigrou”, muitas vezes através do facto de as líricas em português terem beneficiado de  tradução para inglês, para pouco a pouco, canção a canção, tomar de assalto as tabelas de vendas, seduzir e encantar os mais exigentes críticos e público em geral e fazer suspirar muita gente admiradora ou não da habitual música popular brasileira de então; e de tal maneira se popularizou e quebrou barreiras que mesmo muito mais tarde, mais concretamente por alturas de meados de 1962, ainda se voltou de novo a ouvir falar dela, especialmente quando algumas das mais conhecidas vozes norte-americanas, algumas mesmo da especifica área do jazz,  entre as quais se podem destacar Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Frank Sinatra ou Stan Getz começaram a dar a conhecer nos seus concertos e nas gravações de estúdio, as suas próprias e individualizadas versões de algumas das mais populares composições  tais como “Desafinado”, “Aguas de Março”, “Chega de saudade”,  “Manhã de Carnaval”, ( fabulosa a versão de  Quincy Jones), “Desafinado” ( Dizzy Gillespie fez dela um dos mais altos momentos dos seus concertos na altura), “Samba de uma nota só” (é verdadeiramente fantástica e absorvente a versão da autoria do grande saxofonista de jazz Stan Getz), “Samba para Bean” ( Coleman Hawkins deu-lhe um vigor extraordinário e tornou-a um tremendo sucesso) ou “Outra vez”, composição de que Sérgio Mendes autenticamente se apoderou de tal maneira que com ela obteve durante anos um extraordinário sucesso pessoal conseguindo assim angariar para a sua musica e para o seu jazz personalizado uma plêiade de novos e fieis admiradores.

Pois todos estes mesmos sucessos fazem parte do projecto/compilação “Best of Bossa Nova- 75 classic hits”, recentemente editado em todo o Mundo e que nos proporciona uma visão detalhada e extremamente abrangente do movimento musical  que percorreu os lugares cimeiros das mais diversas tabelas de vendas de discos e durante muito tempo motivou acesas discussões, grandes  controvérsias e foi até factor de divisão de opiniões, para afinal de contas no final acabar a unir vontades e vozes e conseguir reunir uma quase geral unanimidade.

Fantásticas vozes do país verde-amarelo como as de João Gilberto, Sylvia Telles, Elizete Cardoso, Maysa, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, António Carlos Jobim, Luís Bonfá, Sivuca ou Sérgio Mendes, entre muitas outras, a que se devem adicionar muitas mais, especialmente as americanas atrás já citadas, encontram-se representadas nesta tripla compilação, onde através de uma totalidade de setenta e cinco composições podemos comprovar não só a excelência das melodias, mas também a grande qualidade e inspiração das letras que lhes servem de apoio literário; um projecto verdadeiramente excepcional que os amantes da MPB, e não só, receberão de braços abertos  e ouvidos bem atentos ou não fosse este projecto uma autentica dádiva dos…deuses da música!

3CDs Pimiento/Buena records/Distrijazz

 

DIANA KRALL

Não existirão certamente mais palavras elogiosas que não tenham já sido usadas pela critica ou pelos melómanos para enaltecer a obra e a voz de Diana Krall, talvez a mais sonante e bem sucedida cantora do panorama jazzístico mundial na actualidade e por isso mesmo é sempre muito difícil, aquando da publicação de um novo trabalho, encontrar os termos mais adequados para, quando é caso disso, a colocar nos píncaros e enaltecer o seu trabalho seja no capítulo vocal seja como instrumentista ou mesmo produtora, área em que ultimamente se tem sobremaneira notabilizado nos seus mais recentes projectos; isto pese embora certos puristas do jazz que sempre dizem não ser ele uma genuína interprete de jazz, mas sim uma cantora com influências jazzísticas…

“This dream of you” é o título do seu novo trabalho tendo a escolha do primeiro single dele extraído recaído numa versão de uma conhecida canção, que mais tarde se tornou um clássico de Irving Berlin -“How deep is the ocean”;  a trabalhar com o seu quarteto de músicos que inclui os seus já habituais comparsas John Clayton Jr (baixo), Jeff Hamilton (bateria)e Anthony Wilson (guitarra) o projecto revela-se mais uma grande obra da pianista, com esta a cantar melhor que nunca uma cuidada selecção de belas composições que acabam por fazer deste trabalho mais um imprescindível na sua discografia; para a elevada qualidade  instrumental e excelência sonora do projecto muito contribuíram os seus três habituais compagnons de route,  bem como alguns convidados de grande gabarito artístico com destaque para Russell Malone(guitarra), Christian McBride (baixo), Alan Broadbent (piano), Marc Ribot (guitarra) e Stuart Duncan (violino) a que a pianista/cantora juntou ainda todos os seus atributos musicais pessoais, para além das suas próprias opções como produtora, condimentos  que fazem deste novo trabalho, uma obra de invulgar qualidade que coloca esta laureada artista no topo das maiores preferências e popularidade mundiais ao mesmo tempo que  fazem dela cada vez mais, quer os chamados puristas da grande música negra queiram, quer não, um caso sério no jazz vocal mundial actual!

CD Verve/Universal Music

 

CHET BAKER

Mais uma obra relevante do grande trompetista de jazz Chet Baker- “Sings and plays” , um disco originário de 1959 das suas celebres gravações em Milão, que possuindo na sua edição original apenas onze composições surge nesta nova versão com mais nada menos de nove temas extra, com destaque para três diferentes versões do célebre “My funny Valentine”, o que faz angariar para este trabalho também um acrescentado e inegável valor de colecção; aqui Chet surge a tocar e a cantar acompanhado por uma big band– a Len Mercers orchestra , para além duma série de convidados famosos dentre os  quais merecem saliência nomes como os de Gerry Mulligan, Bud Shank, Russ Freeman, Kenny Drew ou Jimmy Bond .

Para além de este projecto constituir um lançamento de edição limitada surge no entanto com outros aliciantes:- uma excelente remasterização, um novo alinhamento e um booklet revisto e aumentado o que faz ainda mais subir o seu valor intrínseco, isto para alem da altíssima qualidade de que sempre se revestem todos os trabalhos deste exímio trompetista e cantor , sem dúvida nenhuma uma das mais notáveis e insignes figuras do jazz mundial de sempre!

CD American jazz classics/Distrijazz

 

DIRE STRAITS

Quem não se lembra de alguma vez ter dançado ao som do extraordinário tema  “Sultans of swing” que tenha a coragem de pôr a mão no ar!

Pois é:- toda a gente levantou o braço em sinal de claro assentimento de que esta canção faz parte do imaginário de cada um e simultaneamente da banda sonora da nossa vida…

Com efeito, este verdadeiro hino de discotecas, que fez furor há uma série de anos atrás, é uma das canções responsáveis por um verdadeiro fenómeno de massas:- mal começavam a ser escutados os primeiros acordes, a canção levava toda a gente a saltar de imediato dos seus lugares nas discotecas da moda para de seguida positivamente conseguir num ápice esgotar a lotação da pista de dança; pelo menos comigo e com os meus amigos e irmãos de folias e noites bem acompanhadas, bem passadas e muitas vezes até etílicamente bem regadas -Raul Durão, João Filipe Barbosa e Fernando Balsinha (trio que infelizmente já não está entre nós) e nossas respectivas acompanhantes femininas, era assim que acontecia especialmente no celebre Ad Lib e também na  famosa discoteca dançante A Primorosa de Alvalade, ali na Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa, sendo na altura esta canção a verdadeira “rainha” das loucas noites dançantes, ao mesmo tempo que por todo o Mundo fazia delirar multidões e era também top one nas rádios mundiais!

Este verdadeiro hino musical, juntamente com mais um quase infindável numero de outros grandes sucessos radiofónicos da banda, alguns deles verdadeiramente a  uma  escala quase planetária, fazem parte dum projecto agora editado e que reúne numa única caixa os seis discos de originais de estúdio de um grupo que durante a sua existência fez escola e esgotou centenas de concertos (Portugal incluído) em estádios e festivais um pouco pelos quatro cantos do Globo- os Dire Straits.

Capitaneados pelo insigne compositor, cantor e instrumentista Mark Knopfler, que fazia do seu instrumento- a guitarra, a fiel companheira dos delírios dançantes, os Straits, foram na realidade um caso de estudo e também de extraordinária popularidade a que não foram alheios os solos gigantescos e grandiosos do guitarrista, quer em disco, quer nos diversos espectáculos ao vivo a começar pelo de “Sultans…”, verdadeiramente mágico, quase hipnótico e extraordinariamente envolvente…

Na caixa vamos encontrar, ao longo dos citados seis discos de originais, editados no período de 1978 a 1991 e todos eles multi-platinados,  muitos hits massivos tais como o porta-estandarte “Sultans of swing” e ainda outros mais como “Tunnel of love”, “Once upon a time in the west”, “Lady writer”, “Solid rock”, “Romeo and Juliet”, “Private investigations”, “Walk of life”, “Money for nothing”, “Brothers in arms” ou “Calling Elvis”, afinal de contas autenticas pérolas musicais de uma banda que se cotou como uma das maiores e mais influentes do mundo do pop/rock mundial!

Este extraordinário espólio  surge numa atractiva caixa especial de seis CD´s de edição limitada e inclui uma série de extras como novas fotos, todas as letras das composições, replicas em vinil e  ainda um poster; por isso, para admiradores da banda e não só, constitui um fantástico e obrigatório objecto de colecção!

Caixa de 6 CDs Mercury/Universal Music

 

GREGORY PORTER

Aí está de novo a grande sensação vocal da musica negra de expressão soul dos últimos tempos – Gregory Porter; com  efeito acaba de se publicar um novo trabalho, o sexto de grande fôlego, que marca o seu regresso aos temas originais, onde o expressivo cantor negro tem mais uma prestação brutal e arrasadora, cantando como só ele sabe uma mão cheia de composições que facilmente nos deixam com pele de galinha, face à beleza, emoção e alta qualidade das suas interpretações.

Um disco fabuloso, de título genérico  “All rise”, onde podemos encontrar 13 novas e brilhantes canções, em que cada uma delas nos conta uma história diferente e através das quais Porter demonstra a toda a gente e em especial àqueles que em principio tiveram dúvidas do seu sucesso, porque é hoje em dia considerado um dos reis da musica de inspiração soul, um artista que sempre se supera e demonstra em cada interpretação ser cada vez mais emotivo, mais universal, mas acima de tudo que canta como ninguém de um modo cada vez mais visceral, transformando cada composição num inequívoco momento de rara  beleza vocal e acima de tudo dando a crer que o seu crescente progresso pessoal ainda está longe de atingir a plenitude, pois demonstra também neste novo projecto uma evolução artística e um apurado sentido estético e técnico realmente só ao alcance dos eleitos, dos predestinados e das maiores vozes da actualidade!

Misturando na perfeição jazz com soul, com blues e com gospel a que umas pitadinhas de pop/rock dão por vezes um sabor especial e um sublime encanto, o cantor, que toda a critica já considera um verdadeiro furacão musical,  prepara-se para em breve se transformar num extraordinário fenómeno de audiências  e popularidade; as suas próprias qualidades vocais intrínsecas assim deixam antever…

CD Blue Note/Decca/Universal music

 

MARIA JOÃO

É uma cantora verdadeiramente inebriante, intemporal, vocalmente soberba e acima de tudo uma interprete que se entrega de alma e coração ao que canta, seja de que género for a composição que lhe confiem pois ela transforma-a a seu bel-prazer com a sua maneira única e sui-generis de cantar e dar vida a composições que não sendo suas, passam a sê-lo depois de ela as interpretar…

Em “Open your mouth”, o seu novo projecto onde surge pela terceira vez  com a companhia dos Ogre Electric com quem esgrime talento e diversidade Maria João atinge uma verdadeira plenitude vocal, chega-se e adere em definitivo ao campo da electrónica, sem que esta prejudique de nenhuma maneira a sua linguagem vocálica, isto quando em muitos dos trabalhos anteriores o lado acústico era por demais preponderante e activo.

E se ao longo das ultimas décadas  se tem verificado que a cantora sempre tem arriscado imenso, através e na companhia das mais diversas ligações a estranhas áreas instrumentais e rítmicas e segundo os ditames das mais complexas e diversas experiências, muitas vezes num verdadeiro e arriscado trabalho que se pode considerar verdadeiramente sem rede em que a linguagem jazzística, afinal o ponto de partida para a sua brilhante carreira, foi várias vezes abandonada em detrimento de grandes e por vezes complexas experiências vocais e sonoras, mantendo no entanto a cantora toda a sua natural musicalidade, agora nota-se que está bem mais segura do que pretende fazer e do caminho a seguir, pelo menos num futuro próximo, continuando assim igual a si própria e, parece-me, com um entusiasmo crescente e  contagiante…

Com efeito, neste momento a cantora parece estar de novo num outro capitulo da sua carreira e num diferente patamar, em plena mutação, estado que afinal e habitualmente tem pautado os seus mais diversos trabalhos, em que, mudança atrás de mudança, significava para além duma insatisfação pessoal e temporal, um sinal de inquietude e ao mesmo tempo um desejo de evidente  comunicação e transformação, usando para isso como veículo os seus extraordinários dotes e capacidades vocais, bem como a sua faceta pessoal de compositora e dando assim, ao mesmo tempo, um novo significado e sentido ao dom com que Deus a contemplou  e lhe permite ser e constituir-se, desbragadamente arrojada e especialmente diferente de tudo e de todos, usando como condimentos, e a seu bel-prazer, uma incrível vitalidade, grande  inspiração, uma extraordinária sofisticação e uma linguagem próprias, predicados que sem duvida lhe continuam a garantir na actualidade um lugar exclusivo e privilegiado no mundo das maiores vozes femininas portuguesas e mundiais…

CD Membran

 

HÈLÉNE GRIMAUD

Através do seu instrumento e acompanhada pela célebre Camerata Salzburg, a insigne pianista Hèléne Grimaud cria um fantástico, fascinante  e inimaginável duelo em que põe frente a frente a musica de  dois dos compositores que desde sempre mais admirou- a de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e a do compositor ucraniano Valentin Silvestrov, propondo-nos um disco absolutamente intemporal, introspectivo e mágico- “The Messenger”- em que o seu virtuosismo inventivo e de execução estão por demais evidentes e onde demonstra à saciedade todas as suas extraordinárias capacidades interpretativas, afinal de contas os predicados  que sempre a tem feito evidenciar-se desde o seu primeiro disco ao mesmo tempo que destila uma qualidade impar que tem servido como um perfeito  cartão de visita, afinal um predicado que sempre tem revelado e fazem dela umas das maiores e mais intensas executantes da sua geração.

 

CD Deutsche Grammophon/Universal Music

 

BADEN POWELL

De seu nome próprio Baden Powell de Aquino, mas mais conhecido no mundo musical simplesmente por Baden Powell (1937-2000), foi um genial compositor e interprete brasileiro que fez da sua guitarra a companhia ideal para se projectar e deleitar audiências não só no seu Brasil natal, mas também um pouco por todo o Mundo por onde espalhou a sua arte de inspirado compositor e genial interprete, tendo sido mesmo considerado pela critica e pelo público em geral um dos mais talentosos e brilhantes executantes de guitarra, isto  graças ao facto de possuir uma técnica incomum onde esta casava na perfeição com as suas harmonias e um swing  brilhante, tendo ficado famosas algumas das suas pessoais versões que acabavam por dar às composições uma espécie de segunda vida; foi o caso por exemplo de sucessos como “Garota de Ipanema”, “Samba triste” ou “Berimbau” que acabaram por se transformar em verdadeiros clássicos.

Do instrumentista brasileiro acaba de surgir um trabalho inédito que engloba dois dos seus mais carismáticos discos:- ”Á vontade + Swings with Jimmy Pratt” , onde no meio de uma lista de 20 composições surgem também as três já atrás citadas alem de “Saudades da Bahia”, ”O astronauta” ou “Conversa de poeta” e ainda uma fantástica e invulgar versão do celebre “Samba de uma nota só” que durante muitos anos funcionou assim a modos que um cartão de visita do genial instrumentista; um combo absolutamente imperdível que surge numa edição limitada a 500 cópias havendo ainda a particularidade de se tratar de uma edição contendo um novo booklet com  novas notas biográficas.

CD Aquarela do Brasil/ Distrijazz

 

NOTÍCIAS SOLTAS

RENATO JUNIOR – concerto especial

Renato Júnior vai dar um concerto especial com uma série de convidados do sexo feminino para comemoração do  Dia Internacional para a eliminação da violência contra as mulheres ; o evento oficial terá lugar no próximo dia 25 de Novembro no Teatro Maria Matos em Lisboa estando os ingressos já disponíveis para venda.

Assim, acompanhado de algumas das melhores vozes femininas da actualidade, o artista  materializa ao vivo o seu álbum “Uma Mulher Não Chora” editado no final do ano passado e teve certo impacto nos media nacionais tendo sido mesmo objecto de texto aqui no blog/site.
“Numa altura em que os números da violência contra as mulheres continuam bem presentes, é muito importante sensibilizar a sociedade para este flagelo; assim, eu e as incríveis cantoras que irão estar em palco comigo contamos convosco , pois a vossa presença é fundamental para essa sensibilização.

Por outro lado é igualmente uma excelente oportunidade para dizer ao nosso País que a cultura é… segura.”

SEBASTIÃO ANTUNES – residência artística

De 16 a 21 de Novembro o popular gaiteiro, multi-instrumentista e compositor Sebastião Antunes, um dos elementos integrantes da actual e renovada formação dos Gaiteiros de Lisboa vai dirigir em breve uma residência artística com vários músicos locais no Vale da Senhora da Póvoa, em Penamacor.

Esta iniciativa tem como objectivo futuro um concerto dedicado à obra de Jaime Lopes Dias, um espectáculo que será transmitido online no dia 21 de Novembro pelas 17h30. O músico encontra-se agora também a finalizar o hino da AIDGLOBAL que tem música e letra da sua autoria estando a produção a cargo do próprio e de Carlos Lopes.Os convidados vocais que darão voz ao hino são: – Duarte, Joana Amendoeira, Ana Lains, Silvana Peres, Carla Pires, Célia Leiria, Rogério Charraz, Rodrigo Costa Felix, Carlos Moisés, Stewart Sukuma, Selma Uamusse, Paulo de Carvalho e Ana “Cherry” Caldeira.

O tema e o vídeo serão lançados já em Novembro no aniversário dos 15 anos da AIDGLOBAL.

KATIA GUERREIRO – 20 anos de fado

Katia Guerreiro regressa a Lisboa em nome próprio, num espectáculo que terá lugar a 12 de Dezembro próximo  pelas 21,30h no Teatro Tivoli BBVA, na Avenida da Liberdade na capital portuguesa, evento onde irá recordar  e simultaneamente comemorar alguns dos momentos mais importantes e brilhantes da sua carreira de brilhante  fadista.

Este espectáculo contará  com a participação instrumental dos músicos Pedro de Castro e Luís Guerreiro, ambos em  guitarra portuguesa, André Ramos e João Mário Veiga, nas violas de fado e Francisco Gaspar em viola baixo, para além de alguns convidados que serão anunciados brevemente.

Face à alta qualidade de que sempre se revestem as suas actuações será certamente um acontecimento a recordar!

 

PEDRO MOUTINHO – em grande actividade

Após um interregno provocado pela pandemia, Pedro Moutinho está de regresso aos palcos; depois de em Setembro se ter apresentado por três noites consecutivas no Gdansk Siesta Festival, na Polónia, o fadista português participou no “Centenário  Amália Rodrigues”  realizado no Auditório Luísa Todi, em Setúbal e ainda no grandioso concerto -“100 anos Joel Pina”.

Entretanto no passado dia 10 deste mês o fadista actuou também e no âmbito do “Fado é tudo no Mercado”,  em Alvalade, Lisboa.

O mês de Novembro vai ainda marcar a estreia de um novo espectáculo dedicado à nossa maior voz fadista  -a divina e imortal Amália Rodrigues, naquela que será afinal mais uma homenagem à sua insigne figura no ano em que se comemoram nada menos do que cem anos do seu nascimento.

Entretanto o ciclo “Vozes do fado” promovido pela Câmara Municipal Municipal de Oeiras vai receber “Amália e os poetas” um espectáculo idealizado pelo próprio Pedro Moutinho em parceria com o fotografo e realizador de cinema Sebastião Varela Cid, conhecido sobrinho-neto de Amália.

O show terá lugar no auditório municipal Ruy de Carvalho em Oeiras; depois a 27 e 28 do mesmo mês do mesmo mês de Novembro seguir-se-ão, respectivamente, apresentações de “Um fado ao contrário” no teatro Stephens, na Marina Louletano no  Algarve o mesmo programa que incluirá ainda a fadista algarvia Isa de Brito, nome popular naquela região do sul.

Entretanto Pedro Moutinho apresentou ao vivo aquele que é o terceiro single do seu álbum “Um Fado ao Contrário” onde esteve musicalmente acompanhado por André Dias (guitarra portuguesa), Tiago Silva (viola) e Daniel Pinto (baixo acústico); o fadista lança assim a belíssima e inspirada composição “Graça da Graça”, com uma letra original e extremamente curiosa de Manuela de Freitas, sendo a musica da autoria de Pedro de Castro, num registo inédito gravado ao vivo no concerto de apresentação deste disco, em Fevereiro passado, na Antiga Igreja do Convento de São Francisco em Coimbra.
Recordo que o disco foi produzido por Filipe Raposo e reúne fados clássicos e novos temas criados especialmente para o fadista por compositores e/ou poetas como Amélia Muge, Maria do Rosário Pedreira, Márcia, Manuela de Freitas ou Pedro de Castro.

“Um Fado ao Contrário”, sobre o qual me debrucei elogiosamente em texto há meses atrás e foi amplamente aclamado pelo público e pela crítica, foi recentemente nomeado para melhor disco de fado na edição de 2020 dos Play – Prémios da Música Portuguesa.

Em tempos de uma maldita pandemia que limita liberdades e trabalho sabe bem ver que há artistas que apesar das limitações ainda se mantém em permanente actividade como é o caso deste grande interprete uma das figuras da trindade familiar constituída por Hélder Moutinho, Pedro Moutinho e Carlos Moutinho (Camané)…

 

HELDER MOUTINHO – no ciclo vozes do Fado 

Helder Moutinho é sem duvida um dos melhores, mais carismáticos e genuínos fadistas da actualidade; o fadista é  finalmente noticia de novo com um concerto, apoiado pela Rádio Amália, anunciado para o dia 23 deste mês, pelas 22h no Auditório Eunice Muñoz, no centro da vila histórica de Oeiras.

Intérprete, compositor e poeta, profundo conhecedor dos segredos, códigos e mistérios do Fado, Helder Moutinho contabiliza já mais de vinte anos de carreira consagrada à herança que recebeu não só dos seus familiares – pai e mãe – mas  também dos grandes mestres que ao longo dos tempos se foram cruzando na sua vida artística, pessoal e profissional  e o transformaram assim num verdadeiro fadista de culto, afinal um estatuto confirmado também pelos discos que até hoje já editou em nome próprio.

Uma herança que ele próprio faz questão de acarinhar, preservar e até mesmo amplificar para um fado cada vez mais contemporâneo.

Em “Escrito no Destino”, o seu novo espectáculo, canta o amor e a saudade, o passado e o futuro, a vida e as viagens quer tenham sido musicais, poéticas, metafóricas, temporais ou geográficas…

Afinal de contas as histórias de que tem sido feito, (re)feito e (des)feito o seu destino de cantar o Fado essa tão grande expressão dum povo de marinheiros  e a que Amália deu sentido, ênfase, contemporaneidade e acima de tudo projecção intra e extra-muros…

Outros concertos do ciclo Vozes de Fado:

30 de Outubro– Alexandra

6 de Novembro– Pedro Moutinho

13 de Novembro– Tributo a  Amália com três belas vozes femininas:-Diamantina, Tânia Oleiro e Joana Amendoeira

CAMANÉ – ao vivo no CCB

Nesta movimentada rentré fadista que positivamente “assola” este final de ano, o terceiro elemento do clã Moutinho a entrar em cena será Camané com concerto aprazado para o palco do CCB no próximo dia 20 de Novembro pelas 21h, numa organização do conjunta do Museu do Fado e do próprio CCB e ainda com os apoios da Antena 1e da  EGEAC.

Para os amantes do fado e em especial para os admiradoresdo grande fadista um espectáculo absolutamente imperdível!

JAZZ MESSENGERS

Programada para serinaugurada com alguma pompa e circunstância um pouco antes da chegada da maldita pandemia que há meses nos assola e sua posterior e obrigatória confinação,  a nova loja de discos  Jazz Messengers, depois do adiamento da sua inauguração já labora agora a todo o vapor no primeiro andar da Livraria Ler Devagar, na LX Factory ali na ribeirinha zona de Alcântara, em Lisboa;  aquando do anuncio da sua abertura o novo espaço discográfico tinha já suscitado grande interesse e curiosidade e porque não dizer mesmo certo entusiasmo por parte não só do público em geral, mas também de especialistas e melómanos  do jazz e do vinil e também ainda dos fanáticos do catalogo da ECM, que os há e muitos…

Agora e depois das primeiras visitas posso dizer que o espaço funciona assim a modos que uma grande biblioteca musical, virada sobretudo para as áreas do jazz e do vinil, constituindo sem dúvida nenhuma neste momento a mais válida alternativa às fnacs,  sobretudo porque tem a vantagem de ter à frente do “balcão” gente com certa experiência e uma imensa paixão e que sabe da poda – a front woman Carla Aranha , Luís Oliveira  durante a semana e Samuel Alemão , aos fins de semana…

O trio  dos “mensageiros” da grande musica negra aconselha com critério e rigor os indecisos e acima de tudo dedica ao cliente o melhor do seu conhecimento e labor e, sabendo-se que muita da clientela já adquirida e grande parte da futura se baseia também em turistas estrangeiros, imagine-se como esse “know how” se torna mais essencial, importante  e vital !!!

Associada a uma importante editora catalã, cujas edições aqui tenho  referenciado nas escolhas  que faço – a Distrijazz, este novo espaço comercial aposta também em edições portuguesas, em música  brasileira (vidé as minhas habituais e mais recentes escolhas da área da  MPB e não só)) e também em música soul, funk ,em alguma world music e como não poderia deixar de ser no jazz e nos blues.

Curiosamente o feliz nome escolhido para o espaço- Jazz Messengers  traz-me de imediato à lembrança a célebre formação com o mesmo nome, surgida por alturas dos anos 50, do grande e mítico baterista de jazz Art Blakey, que constituiu uma das mais importantes formações jazzísticas de sempre por onde passaram alguns nomes imorredouros tais como Horace Silver, Lee Morgan, Donald Byrd, Valery Ponomarev, James Williams, Johnny Griffin, Wynton Kelly, Benny Golson, etc. qualquer um deles representado no vasto reportório discográfico posto à disposição da clientela nos vários escaparates existentes na loja…

Depois do encerramento da loja da Trem Azul, em 2014, a capital portuguesa tem agora, finalmente, e de novo, um espaço dedicado essencialmente ao jazz e aos seus afluentes sonoros e musicais – a Jazz Messengers que, com armazém na vizinha Espanha, tem também acesso a importações directas desde os Estados Unidos e a algumas das mais influentes distribuidoras e editoras (ECM.,Tzadik, etc.) e por isso mesmo vai evitar que, como tem infelizmente sucedido nos últimos anos, nomes como John Coltrane, Ray Charles, Max Roach, Charles Mingus, Bill Evans, Thelonious Monk ou Sun Ra e muitos outros estejam permanente e inacreditavelmente ausentes dos escaparates portugueses e muitas das vezes para os obter haja que recorrer à inevitável Amazon…

Posto isto vamos então comemorar efusivamente o verdadeiro acontecimento musical e cultural que esta abertura representa, tratando para isso de tirar do frigorifico as várias garrafas de champagne que estavam destinadas à inauguração em Março passado e brindar entusiasticamente ao novo espaço, aos seus experts e acima de tudo ao fim da pandemia  e  consequentemente ao covid 19 para isso possibilitar a todos voltarmos à ansiada vida normal com um sonante hip, hip, hurrah!  e acima de tudo voltarmos  em liberdade não confinada a consumir cultura, comprando livros e discos nestes dois espaços lisboetas soberbos e chamativos:-a Ler Devagar e a Jazz Messengers .

VAN GOGH

Depois de ter sido inaugurada a  pandemia adiou-a , mas a perseverança , extraordinário interesse e o desconfinamento colocaram de novo à disposição do público lisboeta um invulgar acontecimento mundial de grande envergadura cultural- a exposição “Meet Vincent Van Gogh” que reabriu portas a 3 de Junho passado para evocar a história do celebérrimo pintor holandês  (1853-1890).

Assim, até 3 de Janeiro a premiada experiência imersiva e multisensorial  exposição, que chega até nós pelas mãos do Museu Van Gogh de Amesterdão e da produtora portuguesa UAU vai permanecer aberta no Terreiro das Missas, à beira-rio Tejo e a ordem é para tocar nas obras e entrar na vida do homem por detrás do artista!

Entre projecções, filmes, fotografias ou jogos de sombras são projectados momentos únicos e de destaque na vida do genial artista, numa fantástica viagem que é absolutamente de não perder pois constitui um momento único, inolvidável e raro de se poder tomar contacto com a vida, angustias, sentimentos e amores do genial pintor dos Países Baixos…

Nesta reabertura, que chega com a lotação do espaço reduzida e obrigatória desinfecção dos audioguias após cada utilização, existem também novos horários e condições de visita, estas ditadas pelas regras do desconfinamento :- de quarta a domingo das 10 às 19 horas, com entradas a cada 30 minutos, sendo a última às 18 horas.

Nos dia úteis os bilhetes normais custam 13 euros subindo este preçário para 15 euros durante os fins-de-semana; estes valores no entanto estarão sujeitos a descontos quando se tratar de entradas para crianças, seniores, jovens, estudantes ou famílias.

Posto isto de que estamos todos  à espera para correr a ver o genial Van Gogh no seu melhor?- UAU

 

O fado nas noites alfacinhas:

CASA DE LINHARES

CASA DE LINHARES (antigamente e durante muitos anos designada por Bacalhau de Molho, nome porque ainda hoje em dia muita gente a conhece) é o que resta de um belo edifício renascentista que ruiu durante o infelizmente famoso terramoto de 1755 que na altura arrasou Lisboa.

Aqui, neste local único e  histórico, viveram no seu palácio os Condes de Linhares, uma das famílias mais nobres de Portugal, sendo que o seu principal membro- o conde Andeiro foi uma das figuras mais controversas da história deste país à beira-mar plantado pois segundo reza a história tinha a mania da perseguição chegando  até a comentar mesmo com os amigos mais chegados que sonhara uma noite, que  haveria de ser morto pelos seus inimigos e perseguidores; daí à construção de um sem número de diversos túneis no palacete, por onde pudesse mais facilmente escapulir-se foi… um ápice!

Casa senhorial erguida perto da margem do Tejo, no século XVI, a Casa de Linhares mantém ainda hoje um ar nobre e um distinto charme oitocentista, apresentando de pé o torreão e um cunhal com brasão.

Entretanto em Portugal o Fado surge no século XIX, nos bairros históricos da cidade e em contextos populares de convívio; era cantado de uma forma espontânea e as letras das músicas retratavam essencialmente problemas e vivências, recorrendo-se muitas vezes à gíria e quase sempre ao calão.

No entanto, a presença assídua de figuras da aristocracia nesta vida nocturna e boémia, acabariam mais tarde por ditar um futuro diferente, que ficaria como um marco para a real história do Fado; quem não se lembra do celebre “Embuçado” na voz do imortal João Ferreira Rosa, que conta a história de el-Rei que ia aos fados com certa assiduidade?

Tocado e cantado por semi-profissionais e profissionais, o Fado instala-se assim em casas próprias – as chamadas casas de Fado,  onde para além de se poder escutar a canção nacional por excelência também, hoje em dia, se podem saborear pratos e petiscos oriundos da riquíssima cozinha tradicional portuguesa.

Há no entanto também  outros locais típicos, onde para além de se poderem saborear os ditos petiscos se pode ouvir Fado, cantado no entanto por amadores e à desgarrada; são as chamadas casa de fado vadio sendo que este ritual se perpetuou até como um habito salutar até aos dias de hoje…

No que diz respeito à Casa de Linhares, ela acabou por se constituir como um dos mais belos locais para ouvir fado, senão mesmo o mais belo e chamativo, para alem de habitualmente  o seu leque de artistas ser constituído por fadistas de superior craveira, isto relativamente a outros locais semelhantes.

Para se poder aquilatar melhor o que aqui deixo dito, basta referir-se que por lá já passaram algumas das mais famosas vozes (uma delas mesmo mítica) da canção que a divina Amália ajudou a popularizar tais como sua irmã a diva Celeste Rodrigues, Maria da Nazaré, Ana Moura, Jorge Fernando e mais recentemente Sara Correia, Fábia Rebordão, André Batista ou a linda Vânia Duarte a actual “boss” da Casa de Linhares que cada vez mais se afirma como um local nocturno de obrigatória visita quando de facto se pretende ouvir fado num ambiente selecto e lindo, marcadamente histórico e onde há no entanto que ter em atenção um importantíssimo pormenor ( ou será que deverei dizer pormaior?):- é que a comida, confeccionada com grande profissionalismo, devoção e saber é tipicamente portuguesa e de alta qualidade; relembro até o que dizia o meu desaparecido amigo e “irmão” Patxi Andion, nome sonante da música espanhola e frequentador habitual desta casa de fados de que se dizia um eterno enamorado, “…ouvir fado, ouve-se em muitos lados, embora nem sempre com a mesma qualidade; porém, na Casa de Linhares, para alem de se ouvirem grandes vozes do fado mais se completa a felicidade da audição pois come-se  muito bem e bebe-se melhor e de facto a conjugação destes factores é de primordial importância para se passar uma noite num verdadeiro paraíso…lisboeta e fadista!!!…”

Por isso e resumindo:- é próximo ao Tejo, na  fronteira com a  típica Alfama e muito perto mesmo do  emblemático Museu do Fado que  mora o excelentíssimo senhor FADO, sob a forma portuguesíssima de uma antiga casa da realeza, senhorial e apalaçada, onde cantam uma mão cheia de interpretes de eleição, seleccionados com rigor e que por isso mesmo merecem ser escutados atentamente e em silêncio; daí que uma visita ao local para escutar bom fado, interpretado com sentimento, raça e nostalgia, para simplesmente se beber um copo ou até somente para jantar, deixe de ser mais que uma simples e vulgar maneira de se passar uma noite, para se  transformar automaticamente  numa “viagem” nocturna, gastronómica e musical!

Como é do conhecimento geral a importância que o Fado conquistou mundialmente foi consagrada já há tempos atrás com a sua proclamação como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Novembro de 2011 pela UNESCO e embora ele se cante ( e por vezes até muito bem) em muitas terras portuguesas e até mesmo nas comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo sem dúvida alguma que, quer se queira, quer não, fado é… Lisboa; e Lisboa é simultaneamente também tradição, poetas ao vento, poesia em movimento, vielas em alvoroço, pregões e  modernidade, mas acima de tudo fadistas a cantar e guitarras a gemer e a trinar no som da noite!

E se se falar em FADO com letra grande, então convenhamos que é para ser ouvido sempre, de preferência ao vivo em vários locais lisboetas próprios e nestes especialmente naquela que quanto a mim é a mais bonita e atractiva da suas mais antigas, castiças e memoráveis catedrais :-na velhinha a apalaçada Casa de Linhares!!! (joão afonso almeida)

PS – enquanto durar o estado de pandemia a Casa de Linhares não abre diariamente, antes somente quando pontualmente houver reservas; quando a pandemia estiver debelada então tudo regressará aos moldes habituais:- abrirá todas as noites!