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Escolhas do João Afonso Almeida

Ó tempo volta para trás …

Quando surpreendentemente, ou se calhar não, a pandemia viral genericamente denominada por covid 19, originária ao que se sabe das profundezas da enigmática China longínqua onde ao que consta os nativos de lá geralmente “comem tudo que mexe” e atingiu o mundo inteiro, este ficou parcialmente atónito e pouco fez inicialmente para lutar contra ele, se calhar por não se vislumbrar assim de repente a melhor forma de o combater, encontrando-se desde essa altura os entendidos  e os pseudo entendidos a discutir acaloradamente e a lutar a nível laboratorial sobre qual a melhor forma de lutar contra ele, não se tendo mundialmente conseguido até hoje uma confirmação efectiva quanto a uma correcta vacina que permita extinguir o vírus ou pelo menos neutralizá-lo; numa medida a todos os títulos profilática entrou-se então em confinamento um pouco por todo o Mundo, situação que levou a que tudo tivesse entrado laboralmente em velocidade de cruzeiro, que o mesmo será dizer, que enquanto alguns entraram obrigatoriamente em regime de  tele-trabalho  outros pura e simplesmente  entraram (obrigados na maioria dos casos) de férias ou então ficaram confinadamente parados!!!

Agora, e uma vez que parece estar-se finalmente no caminho certo para a descoberta de um eficaz e providencial “remédio” ( até se fala já em várias vacinas com origens nas mais diversas procedências) e o confinamento se aliviou um pouco, algumas actividades começaram pouco a pouco a laborar, embora com muitas restrições que tem a ver com a utilização de mascaras, a redução de espaços e com sistemáticas e mais que discutíveis desinfecções:- convenhamos que é um exagero entrar-se por exemplo no Colombo e ter de se desinfectar aos mãos à entrada e se se entrar em dez diferentes lojas haver a necessidade de desinfectar as mãos mais DEZ vezes!!!; foi  o caso da restauração, de lojas de comercio em geral, hiper e supermercados, de algumas actividades desportivas nomeadamente o futebol embora ainda sem assistência nos estádios e pavilhões, praias, hotelaria, alojamento local, museus, editoras discográficas e livreiras, etc.

Por isso mesmo aqui estou mais uma vez a propor não só a leitura de noticias da cultura em geral que considero de relevância tais como concertos, exposições, etc., mas também mais uma série das minhas habituais escolhas musicais, propostas  que espero sirvam para ajudar a passar melhor o tempo que ainda vamos tendo livre e a desanuviar um pouco mais os tempos controversos e tão estranhos que estamos a atravessar e nos tem limitado o modus vivendi  e acima de tudo a… liberdade individual!

Posto isto, é tempo de suspirarmos e dizer:-ó tempo volta para trás, pois as saudades de uma vida normal são já mais que muitas…

 

JAZZ MESSENGERS

Programada para ser inaugurada com alguma pompa e circunstância um pouco antes da chegada da maldita pandemia que há meses nos assola e sua posterior e obrigatória confinação,  a nova loja de discos  Jazz Messengers, depois do adiamento da sua inauguração já labora agora a todo o vapor no primeiro andar da Livraria Ler Devagar, na LX Factory ali na ribeirinha zona de Alcântara, em Lisboa;  aquando do anuncio da sua abertura o novo espaço discográfico tinha já suscitado grande interesse e curiosidade e porque não dizer mesmo certo entusiasmo por parte não só do público em geral, mas também de especialistas e melómanos  do jazz e do vinil e também ainda dos fanáticos do catalogo da ECM, que os há e muitos…

Agora e depois das primeiras visitas posso dizer que o espaço funciona assim a modos que uma grande biblioteca musical, virada sobretudo para as áreas do jazz e do vinil, constituindo sem dúvida nenhuma neste momento a mais válida alternativa às fnacs,  sobretudo porque tem a vantagem de ter à frente do “balcão” gente com certa experiência e uma imensa paixão e que sabe da poda – a front woman Carla Aranha , Luís Oliveira  durante a semana e Samuel Alemão , aos fins de semana…

O trio  dos “mensageiros” da grande musica negra aconselha com critério e rigor os indecisos e acima de tudo dedica ao cliente o melhor do seu conhecimento e labor e, sabendo-se que muita da clientela já adquirida e grande parte da futura se baseia também em turistas estrangeiros, imagine-se como esse “know how” se torna mais essencial, importante  e vital !!!

Associada a uma importante editora catalã, cujas edições aqui tenho  referenciado nas escolhas  que faço – a Distrijazz, este novo espaço comercial aposta também em edições portuguesas, em música  brasileira (vidé as minhas habituais e mais recentes escolhas da área da  MPB e não só)) e também em música soul, funk ,em alguma world music e como não poderia deixar de ser no jazz e nos blues.

Curiosamente o feliz nome escolhido para o espaço- Jazz Messengers  traz-me de imediato à lembrança a célebre formação com o mesmo nome, surgida por alturas dos anos 50, do grande e mítico baterista de jazz Art Blakey, que constituiu uma das mais importantes formações jazzísticas de sempre por onde passaram alguns nomes imorredouros tais como Horace Silver, Lee Morgan, Donald Byrd, Valery Ponomarev, James Williams, Johnny Griffin, Wynton Kelly, Benny Golson, etc. qualquer um deles representado no vasto reportório discográfico posto à disposição da clientela nos vários escaparates existentes na loja…

Depois do encerramento da loja da Trem Azul, em 2014, a capital portuguesa tem agora, finalmente, e de novo, um espaço dedicado essencialmente ao jazz e aos seus afluentes sonoros e musicais – a Jazz Messengers que, com armazém na vizinha Espanha, tem também acesso a importações directas desde os Estados Unidos e a algumas das mais influentes distribuidoras e editoras (ECM.,Tzadik, etc.) e por isso mesmo vai evitar que, como tem infelizmente sucedido nos últimos anos, nomes como John Coltrane, Ray Charles, Max Roach, Charles Mingus, Bill Evans, Thelonious Monk ou Sun Ra e muitos outros estejam permanente e inacreditavelmente ausentes dos escaparates portugueses e muitas das vezes para os obter haja que recorrer à inevitável Amazon…

Posto isto vamos então comemorar efusivamente o verdadeiro acontecimento musical e cultural que esta abertura representa, tratando para isso de tirar do frigorifico as várias garrafas de champagne que estavam destinadas à inauguração em Março passado e brindar entusiasticamente ao novo espaço, aos seus experts e acima de tudo ao fim da pandemia  e  consequentemente ao covid 19 para isso possibilitar a todos voltarmos à ansiada vida normal com um sonante hip, hip, hurrah!  e acima de tudo voltarmos  em liberdade não confinada a consumir cultura, comprando livros e discos nestes dois espaços lisboetas soberbos e chamativos:-a Ler Devagar e a Jazz Messengers .

 

VAN GOGH

Depois de ter sido inaugurada a  pandemia adiou-a , mas a perseverança , extraordinário interesse e o desconfinamento colocaram de novo à disposição do público lisboeta um invulgar acontecimento mundial de grande envergadura cultural- a exposição “Meet Vincent Van Gogh” que reabriu portas a 3 de Junho passado para evocar a história do celebérrimo pintor holandês  (1853-1890).

Assim, até 3 de Janeiro a premiada experiência imersiva e multisensorial  exposição, que chega até nós pelas mãos do Museu Van Gogh de Amesterdão e da produtora portuguesa UAU vai permanecer aberta no Terreiro das Missas, à beira-rio Tejo e a ordem é para tocar nas obras e entrar na vida do homem por detrás do artista!

Entre projecções, filmes, fotografias ou jogos de sombras são projectados momentos únicos e de destaque na vida do genial artista, numa fantástica viagem que é absolutamente de não perder pois constitui um momento único, inolvidável e raro de se poder tomar contacto com a vida, angustias, sentimentos e amores do genial pintor dos Países Baixos…

Nesta reabertura, que chega com a lotação do espaço reduzida e obrigatória desinfecção dos audioguias após cada utilização, existem também novos horários e condições de visita, estas ditadas pelas regras do desconfinamento :- de quarta a domingo das 10 às 19 horas, com entradas a cada 30 minutos, sendo a última às 18 horas.

Nos dia úteis os bilhetes normais custam 13 euros subindo este preçário para 15 euros durante os fins-de-semana; estes valores no entanto estarão sujeitos a descontos quando se tratar de entradas para crianças, seniores, jovens, estudantes ou famílias.

Posto isto de que estamos todos  à espera para correr a ver o genial Van Gogh no seu melhor?- UAU

 

JORGE FERNANDO  ao vivo

Melhor andaria este País, musical e culturalmente, se mais  juntas de freguesia seguissem o magnífico exemplo da de Benfica em Lisboa, que desde há anos a esta parte tem desenvolvido um trabalho exemplar no campo da cultura e das artes quer no que respeita ao campo teatral, quer à área da musica portuguesa em geral; tendo por base de trabalho o palco do pequeno mas bonito e funcional Auditório Carlos Paredes, onde todas as actividades têm tido lugar, a sala tem habitualmente registado sucessivas lotações esgotadas o que significa que tem havido uma cuidada e feliz escolha no que diz respeito aos artistas convidados, sejam eles artistas de teatro, instrumentistas ou cantores…

Ainda recentemente, e antes do súbito aparecimento do maldito coronavírus , que tem dado connosco em doidos, seja pelo perigo que representa, seja pela reclusão que origina, tive ocasião de assistir a um belíssimo espectáculo que ocupou duas datas da programação de um fim-de-semana e onde o artista contratado principal – o fadista Jorge Fernando por sua vez dirigiu convite a outro músico – o guitarrista  Custódio Castelo para com ele pisar a duo o palco do auditório, que registou mais uma vez lotações esgotadas, apesar de o segundo espectáculo ter tido lugar ao final da tarde de um… domingo!

Fazendo uma espécie de retrospectiva pelo seu valioso e conhecido reportório o fadista, habitual líder e integrante do elenco residente da casa de fado- Casa de Linhares, quanto a mim a mais bela das casas típicas de fado da capital portuguesa, também conhecida anteriormente por Bacalhau de Molho e por onde já passaram outros grandes nomes da canção nacional por excelência tais como a diva Celeste Rodrigues (irmã da saudosa e divina Amália Rodrigues que esta nos comemoraria um século de existência), Cidália Moreira, Sara Correia, Maria da Nazaré, Ana Moura ou mais recentemente  Fábia Rebordão, Vânia Duarte e André Batista, entre outros, Jorge Fernando brilhou a grande altura com a assistência a entoar com ele composições de reconhecido sucesso popular tais como “Ai vida”, “Quem, vai aos fados”, “Umbada”, “Chegou a hora”, “Chuva” ( o mega sucesso ao vivo de Mariza para quem o fadista escreveu esta notável composição), “Desespero”, “Trigueirinha” (tema charneira do mais recente disco da mesma Mariza), “Boa noite solidão”, “Pode ser saudade” ,”Pois é” ou “Por um dia”, composições a que a arte  e genialidade de um extratosférico instrumentista – Custodio Castelo na guitarra portuguesa concediam um ênfase e um brilhantismo ainda maiores; duas sessões que ficarão na memória dos presentes tanto mais que outras canções foram desfilando interpretadas com rigor e sentimento por convidados como Fabia Rebordão , Ana Paula (Parabéns! Que grande revelação!!!), André Batista e João Chora que cada um à sua maneira ajudou a tornar inesquecíveis as duas apresentações!

 

PEDRO BARROSO & PATXI ANDION

Já nos deixaram há alguns meses e com o seu desaparecimento a música ibérica ficou incomensuravelmente mais pobre; porém  qualquer um deles deixou um legado  discográfico brilhante e inesquecível  constituído por uma extensa discografia pessoal havendo no entanto ainda duas belíssimas surpresas reservadas para os seus milhares de admiradores que serão o segundo volume da comemoração dos 50 anos de carreira de Patxi Andion  ( o primeiro volume intitulou-se “La hora lobican” e está já editado na Península Ibérica  e na América Latina) que verá a luz do dia possivelmente em  finais deste ano/ princípios de 2021 e que já estava totalmente gravado aquando do seu desaparecimento num brutal desastre de jeep e também o derradeiro trabalho registado em disco por Pedro Barroso -“Novembro”que pelo que consegui apurar junto de Fernando Matias da editora  do cantautor  português – a Ovação, será  em principio editado coincidentemente com a data do aniversário do Pedro no próximo mês de Novembro próximo, isto se  em Portugal o covid 19 o permitir !

No disco do antigo residente de Riachos, no Ribatejo, poderemos encontrar o único “encontro” musical entre os dois cantautores ibéricos, um sonho de Pedro que felizmente eu mediei e ajudei a concretizar e que afinal de contas acabará por constituir a inesperada despedida dos dois celebres músicos e cantores ao seu  publico; trata-se do fabuloso dueto “Que rumos” que foi apresentado em primeiríssima mão no ano transacto no programa “Inesquecível” de Julio Isidro na RTP Memória, composição brilhante  e verdadeira antológica  que será o porta-estandarte musical e poético do disco de Barroso e sobre o qual  me debruçarei mais detalhadamente então na altura do seu lançamento.

CD Ovação

 

CUSTÓDIO CASTELO

Falar-se de Custodio Castelo é sinónimo de se falar de um instrumentista de invulgar qualidade que faz do seu talento nato e da genialidade dois dos seus melhores argumentos e que por isso mesmo é considerado o melhor executante de guitarra portuguesa da actualidade; com uma vida musical sui-generis, pois passou como musico pelo rock, pela música erudita e finalmente pelo fado (aos 16 anos decidiu escolher para sua companheira de vida artística a guitarra portuguesa depois de ouvir uma série de discos de Amália) e é precisamente na mesma área do  fado que se tem evidenciado e notabilizado sendo sem duvida nesta área um dos artistas mais em destaque quer seja como exímio e prodigioso executante, quer também como compositor, descobridor de talentos  e professor pois para alem de manter em Castelo Branco, uma escola de música onde novos instrumentistas se vão revelando e formando, esteve anteriormente ligado a carreiras de gente como Cristina Branco ou Margarida Guerreiro e mais recentemente à fadista Ana Paula, que nos concertos na Junta de Freguesia de Benfica  realizados este ano em Fevereiro pouco tempo antes do aparecimento da  maldita pandemia covid 19 se revelou uma interprete de mão cheia; para alem disso colaborou também em espectáculos ou em gravações com gente tão diversa como a divina Amália Rodrigues (com quem excursionou e tocou na última viagem desta aos Estados Unidos), com Nuno da Câmara Pereira, Jorge Fernando, Mariza, Carlos do Carmo, Camané, Ana Moura ou Maria Bethania entre muitos outros.

Com vários discos a solo no activo  Custódio Castelo tem agora no mercado um novíssimo projecto que se segue ao terceiro e deslumbrante “Maturus”, sobre o qual me debrucei em texto na altura da sua edição entre nós; o  novo trabalho tem por título “Amália classics -on portuguese guitar “ que como o próprio título deixa antever reúne uma mão cheia de composições que a imortal Amália com a sua voz mágica e única popularizou e vão desde ”Estranha forma de vida” até “Fado Amália” passando por “Lágrima”, “Ai Mouraria”, “Tudo isto é fado” ou “Gaivota” composições a que o guitarrista concedeu uma leitura muito própria mas deveras fiel aos originais e…absolutamente deslumbrante!

As composições adquiriram nas mãos do guitarrista uma outra vida e  simultaneamente um  novo e invulgar brilho e intensidade sentindo-se que a com elas a guitarra portuguesa adquiriu alma e vida próprias tal a genialidade, beleza e cor sonora com que soam as canções; por outro lado nota-se que o disco foi feito com muito amor,  carinho e grande paixão e, fundamental, acima de tudo feito sem limitações de tempo e sem pressões…

Relembro que a grande Mariza afirmou um dia que “…se as pessoas puderem não percam a experiência única que é escutar ao vivo este extraordinário e interprete pois isso é simplesmente arrepiante!…” e por isso mesmo começo a pensar que oportunidade única,  alucinante e certamente inesquecível será em breve poderem-se escutar ao vivo num qualquer palco deste País, estas dez composições da imortal Amália, desta vez feitas genialidade pelo virtuosismo, mãos e guitarra de Custódio Castelo!

Se em disco a audição já nos causa “pele de galinha” e  raia as fronteiras do belo e do deslumbrante, quando se sente a natural fusão do instrumentista com o seu instrumento que, como num autêntico passe de mágica , se unem num  só corpo e alma, ao vivo, isso vai transformar-se  certamente num momento único, épico e inesquecível!!!

A ouvir vamos!

CD ARC Music/Megamúsica

 

JOANA ALMEIDA

Natural de uma terra onde se privilegia a audição da chamada música pimba, do folclore e da música tradicional – Felgueiras, no norte de Portugal localidade onde se fabrica aquele que quanto a mim é o melhor pão-de-ló português -o de Margaride, a  fadista Joana Almeida tem uma história de vida musical assaz curiosa, atribulada e diversificada que inclui algumas passagens por  clubes nocturnos  ou discotecas, onde se privilegiam as habituais, e quantas vezes para alguns dos presentes insuportáveis, sessões de karaoke, pelo piano, pela execução de peças dos grandes e mais famosos compositores da musica clássica, pelos coros  religiosos de igreja e também até, imagine-se, por uma banda de heavy rock onde preencheu o lugar de vocalista; a novel voz do panorama musical português chegou ao mundo do fado por brincadeira pois cabendo-lhe  num concurso e por sorteio interpretar uma canção charneira da divina Amália- “Lágrima”o que é certo é que isso acabou por deslumbrá-la ao causar-lhe um verdadeiro “click” interior; depois desse momento o fado tomou-a positivamente de assalto e tomou conta dela de tal maneira que o seu curriculum actual regista já uma vitória no 2º Grande Prémio Nacional de Fado da RTP 1 (com a idade de 17 anos), variados “estágios” em populares casas de fado alfacinhas como por exemplo a Maria da Mouraria, Mesa de Frades, Parreirinha de Alfama, Pateo de Alfama, Tasca do Chico ou o Luso  tendo mesmo também já actuado em conhecidos “festivais”  de fado nomeadamente no Caixa Alfama, Caixa Ribeira e no  CCB (Há fado no Cais).

Este ano,  finalmente, subiu mais um degrau importante na sua carreira com a gravação do seu  primeiro disco de originais- “Deslumbramento” em produção de Tiago Machado, homem que para alem das suas capacidades de compositor e produtor é também conhecido do grande publico por ter composto para Mariza  um tema de grande sucesso popular –“Oh gente da  minha terra” ; nas áreas das letras e das músicas a escolha recaiu em gente do gabarito de Cátia Oliveira,  Pedro da Silva Martins, Luísa Sobral, Fernando Cardoso, Hélder Moutinho, Valter Rolo, Tiago Correia, etc. e convenhamos que para um disco de estreia estas companhias são efectivamente bem recomendáveis.

A vida artística de Joana Almeida já  deu muitas voltas mas depois de tudo, de muitas e variadas peripécias ela aí está, formosa e segura, cantando esplendidamente, com grande segurança, num português perfeito e com uma voz bem timbrada, pronta e mais que habilitada para subir lenta, mas conscientemente, os degraus que a levarão de certo mais longe, mais alem, rumo a um lugar de destaque no mundo da canção nacional por excelência – o fado, área onde  nem todos os valores que vão surgindo conseguem brilhar à primeira.

Realce no trabalho para composições como “Beijo roubado”, “Deslumbramento” (tema titulo do CD), “Anda bonita a solidão” ou “Canto d´alma” quanto a mim algumas das mais bem conseguidas composições do disco que promete ser para Joana Almeida,  a rampa de lançamento ideal para dentro em breve poder constituir-se como  um caso sério no fado nacional.

CD Universal Music

 

PINK FLOYD

O espólio dos Pink Floyd é inesgotável e por isso não admira que de quando em vez vão surgindo edições  algumas constituídas por raridades, outras que são uma autentica “revisão da matéria dada”, portanto novos best of, etc.

Recentemente foi a  vez de “The layer years 1987-2019- highlights” disco que compreende uma série de composições verdadeiramente escolhidas a dedo e extraídas do anterior projecto com o mesmo título (uma caixa com 16 CDs) sendo a colectânea mais recente preenchida por uma dúzia de composições, algumas registadas ao vivo, outras oriundas de sessões de gravação e algumas raridades e outras ainda em versão remix e datadas de 2019 , havendo até também a curiosidade de uma delas ser proveniente dum ensaio de 1994 da “tournée” Pulse; um projecto directamente direccionado para fans, coleccionadores e também para os apreciadores da boa musica de um grupo fabuloso que fez escola nos anos 60, 70 e 80 e cuja constituição  na actualidade é um trio formado por David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright, uma vez que um dos seus fundadores mais famosos e influentes- Roger Waters há muito abandonou a banda para encetar uma fantástica carreira a solo, que já excursionou algumas vezes por pavilhões do nosso País.

CD Pink Floyd records/Warner Music

 

PEDRO E OS LOBOS

O tempo é de comemoração pois surgiu há pouco tempo atrás no campo discográfico português,  a par de outros projectos de artistas a solo ou de alguns grupos de que tenho dado noticia nos últimos tempos aqui no sítio, mais uma nova formação musical a cantar na bela língua de Camões- Pedro e os Lobos,  que vai entretanto navegando no mar revolto e de grandes ondas, que prenunciam  tempestades editoriais, em que a música portuguesa está transformada e mergulhada desde há tempos a esta parte com apostas editoriais sistemáticas em muito duvidosos produtos vindos de fora, cantados geralmente em inglês e que afinal de contas simplesmente acabam por significar que as editoras majors cada vez ligam menos ao que é local e nosso, optando apenas em muitos casos pela mera distribuição do produto final e cuja gravação foi regra geral, e infelizmente, muitas das vezes custeada pelo próprio artista; algumas outras vezes, as editoras mais conhecidas quase ignoram “criminosamente” o que por cá se passa e esse facto  tem por isso mesmo originado que uma crescente onda de novos e promissores projectos passe despercebido do grande público, projectos esses que muitas das vezes acabam por surgir no mercado em simples edições de autor, sempre louváveis, mas a que falta o essencial e sempre indispensável suporte promocional que só uma editora e o seu respectivo departamento de promoção e divulgação podem proporcionar, até pelos privilegiados contactos que  possuem nos media nacionais  com que habitualmente trabalham…

Muitas vezes essa famigerada “ignorância” mais não significa que a inegável “surdez” de muitos responsáveis editoriais sendo isso mesmo  também, e invariavelmente, por demais evidente; outras ocasiões há em que esses mesmos responsáveis acenam e desculpam-se com a chamada “falta de verba” e de apoios para  recusar trabalhos, muitas das vezes de qualidade bem superior a muitos em que eles próprios futuramente apostam ou até já mesmo anteriormente apostaram…

Ouvido o primeiro trabalho de Pedro e os Lobos –“Depois da tempestade”, criado na garagem  e tocado ao vivo no estúdio, chega-se à conclusão face ao material que nos propõem que  é uma banda que  merece ser apoiada, apela à união, ao sonho e à solidariedade, num disco que é preenchido por uma série de nove temas inspirados que falam em termos de texto dos heróis trabalhadores deste Portugal actual não só, e que um pouco pelos quatro cantos do Mundo laboram de sol a sol, muitos deles em troca dum pouco mais que miserável soldo, composições que em termos musicais e sonoros denotam grandes influências dos clássicos  e contemporâneos “heróis” americanos especialmente em termos de paisagens sonoras; um disco com uma qualidade acima da média e que tratando-se de uma primeira aventura musical está bem acima da média em termos de qualidade e que por isso mesmo  merece uma mais cuidada atenção e audição; em jeito de proposta pessoal vamos e desde já, apostar todas as fichas neles, porque as suas propostas sem dúvida bem merecem essa oportunidade e os seus “uivos” precisam ecoar bem para além do horizonte nacional…

Edição de autor

 

GRAMMY 2020

Como é habitual, anualmente, antes da atribuição dos Grammies aos laureados sai um disco contendo todas as composições concorrentes aos prémios, projecto que faz as delicias não só dos amantes da música em geral e dos fans mas também dos inumeráveis coleccionadores de discos deste estilo; este ano, apesar da pandemia, não fugiu à regra e assim na colectânea deste ano – “Grammy 2020 nominees” vamos poder  marcar encontro auditivo com alguns estrondosos sucessos nas vozes de interpretes famosos e bem na moda tais como Billie Eilish, Ariana Grande, Ed Sheeran, Taylor Swift, Vampire Weekend, Bon Iver ou Beyoncé, entre outros.

Um disco que apesar do seu propósito principal recomendo sem reservas a quem gosta de musica jovem, inspirada e…actual!

CD The recording Academy/Warner Music

 

JOHN COLTRANE

Num trabalho verdadeiramente notável e retrospectivo a New Continent propõe-nos desta vez nas suas épicas edições uma colectânea tripla do mítico  instrumentista John Coltrane (1926-1967) com o título “The hits”, onde vamos poder marcar encontro com o mais genial saxofonista alto e tenor da grande musica negra e com algumas das suas mais inolvidáveis composições tais como “”Violets for your furs”, “Time after time”, “Blue train”, “ Blues to Elvin”, “Giant steps”, “ Limehouse blues”, “Round midnight” ou “In a sentimental mood”.

Uma tripla colectânea soberba, recheada de composições pouco menos que imortais, dum músico que para alem de tudo é já uma verdadeira lenda do jazz.

Um projecto verdadeiramente imprescindível!

3CDs New Continent/Distrijazz

 

RICARDO RIBEIRO – reflexões

Os estranhos, difíceis e infelizmente muitas das vezes trágicos tempos que o Mundo contemporâneo atravessa em que um maldito vírus (o famigerado covid 19 ) ao que se diz originário da longínqua e cada vez mais pouco democrática China ( Hong Kong e Tibete são os mais flagrantes exemplo disso),  põe verdadeiramente em perigo até a própria Humanidade e nos faz temer o pior dos cenários, com excepção para os inenarráveis e anormais aliens – os  lideres de pacotilha que dão pelos nomes de Jair Bolsonaro( já atingido pelo vírus depois de muitas elucubrações e  algum espectáculo circense pessoal à mistura e que motivou já que o humorista brasileiro  Danilo Gentile obtivesse  um sucesso extraordinário quando escreveu num tweet que “…o covid 19 foi a única coisa positiva que o actual Presidente apresentou…”) e Donald Trump, personagem risível e inenarrável,  curiosamente a mesma dupla de políticos que inicialmente menosprezou o vírus e para quem este  certamente não passaria de uma leve maleita, quiçá até se calhar de uma simples e ligeira constipação, que possivelmente seria debelada com a toma de normais comprimidos da farmácia…

Vai-se a ver afinal de contas a coisa não é bem assim como eles disseram e é muito mais séria do que afirmou a inacreditável dupla de clowns modernos da politica mundial.

Pois essa mesma incerteza, que a todos violenta, já levou muita gente dos mais variados quadrantes sociais, políticos e da cultura em geral a pronunciar-se através de entrevistas ou de textos pessoais, alguns deles notáveis e de grande alcance e amplitude; é o caso por exemplo da nossa voz numero um do fado  no masculino o fadista Ricardo Ribeiro, a quem peço licença para de seguida subscrever, ao mesmo tempo que transcrevo as suas quase proféticas e inspiradas palavras e pessoais emoções:

 

“…Num repente o mundo mudou! A palavra quarentena entrou pelos olhos e pelo nariz de todos, sem saber o que ela significa escrita na carne com a caneta dos dias.

A intensa noção da realidade  espalha um imenso pavor à volta de muitos, à volta de outros a comoção com uma simples flor ou com a frase repetida- “Se precisares diz”

Eu sei que paira dentro das casas o medo lacerante, a ansiedade e o tédio que vai matando aos poucos a esperança.

Vou vendo a aplicação do banco com números que não param de girar no sentido descendente e  o cristal liquido que acendemos (todos os dias à mesma hora) brilhando com a desgraça que não suspeitávamos.

Cavalga a dúvida e a morte pelas horas e surge, vinda dos suspiros aguçados do peito, a pergunta que esbofeteia:- amanhã, amanhã,  o que será amanhã?

O amanhã de mim? O amanhã deles? O amanhã das coisas?

Tanta resposta e nenhuma certa, há coisas que estão suficientemente perto para se perceber…

Mas quando  olhamos o abismo, há dois sentimentos:- o medo de ser engolido e o desejo do milagre; cavalga a dúvida e a morte pelas horas; mas enquanto elas cavalgam há algo virtuoso, profundo e mágico acontecendo no mundo e em nós…

Nasce uma criança, descobrimos a bondade repartida pelas solidões, arvores dão fruto, muitos se juntam para aliviar a humana dor,  o luar veste de prata a janela do quarto, os que não acontecem sozinhos e o vizinho deixa a comida aos pés da porta, os que se curam, o mar beijando a areia, a noite  e o promontório.

Mas o mundo acontece  obedecendo à lei suprema que o governa.

Nenhum corpo existe sem sombra  e sem luz essa é a nossa lei; vamos multiplicar a luz na cruz do mundo, porque somos feitos do que é virtuoso, profundo, mágico e divino.

Não esqueçamos que amar é libertar, as coisas não passam de coisas e a vida vencerá!

 

Texto notável, de obrigatória reflexão para todos nós, em tempos de desconfinamento mas ainda para muita gente de semi-reclusão caseira, que nos faz mais uma vez repensar profundamente no que afinal de contas andamos verdadeiramente a fazer neste Planeta tão menosprezado e em termos climáticos tão sistematicamente vilipendiado, acossado, açoitado e agredido…

Uma palavra final para daqui louvarmos e agradecermos do fundo do coração a todos os profissionais  da Saúde desde técnicos até enfermeiros, médicos, farmacêuticos e bombeiros que, muitas vezes com meios pouco mais que precários e em nome da saúde dos portugueses fazem verdadeiros milagres, desmultiplicando-se em múltiplas tarefas e arriscando assim a própria vida em prol do bem comum; vocês  TODOS são os verdadeiros HEROIS , os personagens inesquecíveis da actualidade!!! Bem hajam!