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Escolhas do João Afonso Almeida

MISIA

Constituiu  a maior surpresa dos últimos tempos a audição da mais recente edição discográfica na voz de Mísia; e foi surpresa por alguns motivos:- em primeiro lugar pela extraordinária força que das suas interpretações emana pese embora os gravíssimos problemas de saúde que durante dois anos a assolaram e que geralmente fazem qualquer um(a) desistir de tudo ou precipitar-se e mergulhar num estado de letargia, que regra geral convida à desistência e abandono de tudo e em segundo lugar porque contra ventos, marés e…”marinheiros de água doce” e mais uma vez de novo contra a tribo organizada dos seus habituais detractores que antigamente a “sovavam” por dá cá aquela palha ,ela regressou com uma  força descomunal, tal qual um vulcão em plena actividade jorrando lava para os ares em plena monumental erupção de que o Etna da Sicília pode hoje em dia ser o melhor e mais flagrante exemplo.

E regressou como os mais audazes: – cantando em português e em castelhano, como uma destemida e indomável guerreira de antes quebrar que torcer, assumindo-se outra vez como uma mulher de armas (tal qual em tempo de guerras medievais como uma verdadeira padeira, desta vez não de Aljubarrota, mas do Porto) e reafirmando a sua indómita e firme vontade de vencer mais uma etapa (difícil) do seu percurso na Terra, uma existência que afinal ela ama mais que tudo apontando já até na sua vida artística para novos e rasgados horizontes, se bem que o fado continue a ser nela rei e senhor, a mesma área onde afinal de contas ela sempre foi princesa e até muitas vezes rainha, pese embora tudo que dela disseram os conhecidos vampiros musicais e os mais impreparados e habituais arautos da desgraça alheia profetizavam, quando chegaram até ao desplante de insinuar que não sabia cantar!!!

Em “Pura vida(banda sonora)” período da sua vida artística que ela própria classifica como “…um período em que há céu e inferno, dureza e paixão; fados de amarga saudade, musicas de coração e osso, rosas negras, ausência, lágrimas e renascimento…”, Mísia, qual fénix renascida , regressa de um intervalo da sua vida a que se convencionou chamar doença e das consequentes brumas e por via disso mesmo de uma semi-obscuridade artística, para agora ousar de novo voar lá nos céus como uma águia altaneira e cavalgar rumo ao futuro e à esperança, sem marcas visíveis (as invisíveis certamente por lá andarão ainda à solta) entregando-se com denodo à luta para se reapossar de um lugar ao sol, um lugar que recordemos já foi seu e que acima de tudo significa 25 anos de paixão e devoção a estúdios, palcos e… à consequente exposição, período de um quarto de século em que se transformou num nome grande intra e extra-muros, em que conviveu com o sucesso mas também, e infelizmente deu de caras e chocou de frente com críticos de trazer por casa e pseudo entendidos, que muitas vezes sem saberem uma nota sequer de musica, se julgavam os donos da razão e da verdade, afinal de contas os mesmos que agora com o seu regresso triunfal, vão certamente ter de engolir as suas diatribes e também, especialmente ,o rabo e as orelhas que Mísia cortou na sua monumental faena à incompreensão alheia!

Se Mísia fosse homem eu diria para melhor a classificar que actualmente estava a cantar com os t…., sendo mulher serei um pouco mais comedido dizendo apenas que canta com violência e eficácia e com a raiz da alma, estando até mesmo e curiosamente, ou não, a cantar melhor que nunca, com uma fabulosa projecção vocal, atributo que poucas vezes anteriormente lhe viramos demonstrar, recorrendo  no novo disco em termos de reportório a alguns inéditos e também a alguns  fados clássicos que na sua pessoal interpretação soam curiosamente a novidade, como se de novas canções  se tratasse, revestidas de grande frescura, transbordante emoção e… puro deleite!

Dando voz e às vezes uma espécie de nova vida a palavras certeiras e por vezes até acutilantes de gente como ela própria, que aqui assina duas composições, Daniel Melingo, Horácio Ferrer, Miguel Torga, Tiago Torres da Silva, Ricardo Negrete Plano, Jorge Muchagato, Ana Carolina, Vasco Graça Moura e como não poderia deixar de ser da divina Amália Rodrigues (que extraordinária, invulgar e arrepiante versão de “Lágrima” ela nos oferece!) Mísia, mercê da uma inusitada e magistral produção em colaboração com  Fabrizio Romano banqueteia-se em  composições de Piazolla, Raul Pinto, Melingo, ti Alfredo Marceneiro, Rodrigo Leão, Armandinho Freire, Carlos Gonçalves, José António Sabrosa, Armando Machado, Fabrizio Romano, Mário Pacheco e Jaime Santos para nos arrebatar, seduzir e  arrepiar tal a emoção com que nos conquista à medida que se vai ouvindo o disco onde o banquete musical servido é sem dúvida um verdadeiro manjar divinal onde Mísia canta maravilhosamente, sem regras, tabus, subterfúgios ou modas, com um simbolismo, sentimento e beleza que na verdade traduzem fielmente o que afinal é o fado para ela em toda a sua grandiosidade, misticismo, profundidade e esplendor:- uma verdadeira e inspirada música dos deuses do Olimpo ( e do povo também, claro!) que conquista tudo e todos ( até mesmo os estrangeiros que poucas vezes entendem o verdadeiro significado das letras mas acabam atingidos em cheio pela sua impar sonoridade e profundidade) irradiando quase sempre uma perene beleza que alguém já afirmou ser “quase cinematográfica”; se calhar foi esse um dos motivos porque acabou por ser considerado pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade e também por isso o mesmo o fado deverá ser reconhecido mundialmente e não só intra-muros  como uma arte sublime, uma obra-prima de um renomado pintor ( que tal Malhoa?), uma genial opera de Verdi , uma balada ao piano de mestre Ryuichi Sakamoto , um tango ao som do bandoneon de Piazolla, um poema de Federico Garcia Lorca, uma ode à vida pela voz de Mercedes Sosa, a balada de Carlos Puebla -“Hasta siempre Comandante” ou um filme (a preto e branco, claro)do imortal Ingmar Bergman , ou seja, deve ser finalmente entendido como amplamente merece:- com todo o respeito e veneração que lhe são devidos e a quem é necessário e obrigatório prestar contínua vassalagem por ser uma ARTE maior…

Fado é também e acima de tudo vida, alegria, tristeza, simplicidade, fragilidade, ousadia, encanto, luta, paraíso sonoro, cor e por vezes controvérsia, mas afinal isso tudo Mísia transporta na voz, no carisma pessoal, na atitude, na sua apegada luta pela vida e esses atributos resumem uma personagem fascinante que cada vez mais se afirma cidadã do Mundo, uma parte fundamental da portugalidade e, quer queiram, quer não, da… cultura portuguesa e seus derivados!

Uma palavra final para dois momentos mágicos do disco:-  a composição da dupla Horácio Ferrer/Astor Piazolla aqui recriada magistralmente e a versão de “Pasión” de Rodrigo Leão que Misia e Ricardo Ribeiro transformam num momento sublime e verdadeiramente antológico; só estes dois temas já justificavam a  aquisição do disco!

CD Uguru/colaboração do Museu do Fado/Liberdades poéticas/EGEAC/Antena 1

 

PATXI ANDION

50 anos de carreira comemorados  em Portugal

Em organização da Uguru, o cantautor espanhol Patxi Adion vai apresentar em palcos portugueses o disco comemorativo de 50 anos de carreira – “La hora lobican” , recentemente editado em Portugal; os shows terão lugar no próximo mês de Setembro, mais concretamente a 21 na Aula Magna da Reitoria de Lisboa e no dia seguinte 22 na capital nortenha – Porto, na Casa da Música , concertos nos quais contará com o apoio da sua banda habitual, com a qual para alem de interpretar os temas do novo disco  fará também, como é inevitável, uma viagem por canções verdadeiramente intemporais da sua carreira tais como “20º aniversário(palabras)”, “Con toda la mar detrás”, “El maestro” , “Canela pura” ou “Una, dos e três” , entre outros…

Recuando um pouco no tempo, recordo que um dia, há já muitos anos atrás, o ouvi desabafar dizendo:-“…fui um lobo solitário toda a minha vida, um lobo das estepes, que viveu mal e chegou a passar muita, muita fome…”.

Este mesmo personagem que assim desabafava , pertence à geração de 1968 dos grandes cantautores espanhóis juntamente com outros famosos “compagnons de route” como Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Amâncio Prada, Luís Eduardo Aute ou Joaquin Sabina e  é a mesma pessoa que há poucos anos atrás lembrava ainda que “…efectivamente a canção de texto teve para nós cantautores uma carga de responsabilidade política e cultural muito grande; a mim chegaram a dizer–me vários políticos portugueses e espanhóis que eu não tinha a noção, não sabia a dimensão e o verdadeiro significado que muitas das minhas canções tinham tido para eles, sobretudo no período em que estiveram detidos na prisão!”

Patxi Andion pisou, há muitos anos atrás, e pela primeira vez terras portuguesas para actuar na televisão no célebre  programa”Zip-zip” da “trindade” – Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raul Solnado – e a partir daí, curiosamente, ou talvez não, começou para ele um duplo e antagónico percurso:-por um lado um “calvário” de perseguições por parte da polícia política de então- a tristemente célebre PIDE- que para alem de ter censurado quase todas as letras de sua autoria, chegou mesmo a  recambiá-lo de volta para a fronteira com Espanha e  exigir-lhe que tão cedo não pisasse solo português e por outro lado trilhou ao mesmo tempo um caminho de sucesso discográfico e de palco, culminado com memoráveis concertos em diversas cidades de Portugal e com o lançamento entre nós de todos os seus discos a solo, além de várias colectâneas em edições de que resultaram grandes sucessos populares e radiofónicos que transformaram algumas das suas composições em míticos êxitos que mesmo hoje em dia, ao fim de muitos anos, continuam a perdurar na memória e no imaginário de todos os portugueses e que acabaram afinal de contas por transformá-lo sem sombra de dúvida no mais bem sucedido de sempre de todos os artistas de texto espanhóis em território luso.

Quem não recorda com saudade, e muitas vezes até com uma furtiva lágrima ao canto do olho, mega sucessos como “20º aniversário (palabras)”, “33 versos a mi muerte”, “Padre”, “Samaritana”, “Con toda la mar detrás”, “Cancion para un niño en la calle”, ”Nos pasaran la cuenta”, ”La casa se queda sola”, “Compañera”, “El maestro”  ou “Oda a Walt Whitman”  a mais fabulosa interpretação incluída do projecto discográfico do grande e saudoso Leonard Cohen -“Poetas in Nueva Iorque” baseado no livro homónimo do genial poeta e dramaturgo granadino Federico Garcia Lorca, barbaramente assassinado pelos esbirros da polícia civil espanhola de então?

Pois é este mesmo Patxi Andion, o exilado em Paris no Maio de 68, o escritor que contabiliza já no activo vários livros publicados, o actor de cinema, mas também, e fundamentalmente, o cantor inspirado e inspirador, irónico, criativo, terno, por vezes profundamente sentimental, filosofo, contundente critico social e político, louco por futebol e  especialmente pelo Atlético de Madrid ( cantou até há poucos meses atrás “Bodas de oro”um dos mais fantásticos hinos do antigo clube dos portugueses Jorge Mendonça , Paulo Futre e Tiago numa recente edição discográfica -”Los himnos del Atleti”) e também ainda, convém não esquecer, o imortal personagem “Che” Guevara na teatral “Evita” espanhola e ainda o humanista professor catedrático de sociologia na Universidade de Castilla la Mancha, que agora está de volta às gravações e aos discos para comemorar nada menos de 50 anos de canções através do lançamento de um novo projecto de inéditos – “La hora lobican” ( cá está de novo a presença imaginária mas evidente do lobo, esse belo e fugidio animal por vezes tão injustamente odiado e simultaneamente tão temido, altaneiro e destemido, audaz e guerreiro) onde, como é hábito nos seus trabalhos, já não olha para trás, para o passado, para a obra feita, antes, decidida e seguramente, caminha de mãos dadas com o futuro ao sabor da sua inquestionável  e habitual exigência  literária e musical, inovando sempre com a plena convicção e consciência de que ultrapassou na sua obra a fase inter-geracional e preparando-se com firmeza e determinação ainda para mais altos voos, daqueles que só estão ao alcance das soberbas aves altaneiras…

“La hora lobican” reúne dez brilhantes canções compostas e escritas pelo cantor basco, (nascido no entanto na capital espanhola), excepto “Vaga no azul amplo, solta” poema de Fernando Pessoa que já havia surgido sob a forma de canção num disco (“Para além da saudade”) de Ana Moura num fabuloso dueto dela com o cantautor espanhol.

Dez novas pequenas pérolas musicais da música de autor, que se seguem a um manancial de grandes sucessos, constituindo alguns já verdadeiros hinos, deste profundo amante de fado (interpreta  habitualmente um tema de ti António dos Santos no alinhamento dos seus concertos tendo incluído mesmo no seu disco ao vivo– “Cuatro dias de Mayo” a canção ”Minha alma de amor sedenta” ), um interprete absolutamente genial que segue cantando melhor que nunca, continuando assim ao fim de tantos anos de carreira  a conseguir ainda e sempre surpreender-nos com a exigência qualitativa que sempre tem imposto às suas criações que originam mais perguntas que respostas, com a magnificência da sua voz rouca e profundamente visceral, com o seu magnetismo pessoal e acima de tudo com a enorme qualidade, a altíssima qualidade da sua música isto apesar de como ele diz no booklet do novo trabalho os tempos serem outros e as preocupações do homem ,outras também…

(CD e duplo vinil Lemuria Music/Warner Music)

 

FAIA- casa típica de fado

Sem sombra de duvida que não se pode falar de fado de Lisboa sem que  nos venha  à lembrança um local mítico em que durante anos cantaram e fizeram escola dois nomes consagrados da noite alfacinha e da chamada canção nacional como foram sem dúvida a grande Lucília do Carmo (1920-1999) e seu filho o “charmoso” Carlos do Carmo, que este ano se despede dos palcos e dos discos aos 80 anos de idade!

Com efeito foi no Faia (antiga Adega da Lucília)  fundado em 1947 que se projectaram para além de outros nomes estas duas figuras impares do fado em Portugal, num local que hoje em dia é uma das mais conceituadas e melhores casas de fado para se escutar a canção nacional por excelência, um local de verdadeira peregrinação para quem gosta de bom fado, interpretado com sentimento, nostalgia e  carisma onde actualmente podemos encontrar no elenco nomes conceituados como o da linda e sempre castiça Lenita Gentil, a eterna diva Anita Guerreiro, o veterano António Rocha, a novel  e promissora Mel e o homem que presentemente ostenta a coroa de interprete numero um do fado no masculino- Ricardo Ribeiro, sobre quem umas linhas abaixo me debruço mais detalhadamente abordando o seu novo trabalho de grande fôlego -“Respeitosa Mente”.

Sem dúvida fado é Lisboa; e  Lisboa é também tradição, modernidade, fadistas a cantar e guitarras a gemer e a trinar!

E Fado com letras grandes é para ser ouvido sempre, de preferência ao vivo! Onde? Em vários locais lisboetas mas especialmente numa da suas catedrais:-no velhinho…Faia! (tel.213421923/213420382/ info@ofaia.com)

Por isso deixo aqui um aviso à navegação: -é nos números 54 e 56 da Rua da Barroca, em pleno coração do Bairro Alto( todas as noites excepto ao domingo) que mora o FADO sob a forma portuguesíssima de uma adega típica onde cantam uma mão cheia de interpretes de eleição; por isso mesmo uma visita para o ouvir e beber um copo ou para também jantar ( muito bem por sinal) é muito mais que indispensável!

É “viagem” gastronómica e musical absolutamente obrigatória!

 

RICARDO RIBEIRO

Tal como em tempos antanhos o rei D. Duarte I escreveu o livro “A arte de bem cavalgar toda a sela” também agora haveria de descobrir-se  alguém que escrevesse um manual sobre a arte de bem cantar qualquer tipo de canção que teria sem duvida nenhuma de ser inteiramente dedicado a um gigante do fado conhecido por Ricardo Ribeiro; com efeito no seu mais novo disco “ Respeitosa Mente” ele proporciona-nos um verdadeiro festival de interpretação, cantando como só ele sabe, uma série de onze canções de modo arrojado, brilhante e por vezes mesmo arrebatador, afinal de contas predicados já anteriormente  evidenciados em discos seus e que me levaram por isso mesmo a considerá-lo há tempos atrás a voz número um do fado na actualidade “título” com que felizmente e finalmente já muita gente, purista ou não, concorda em absoluto.

Depois de uma série de projectos no domínio do fado, bem sucedidos  intra e extra muros, suficientemente explicados pelas inúmeras presenças para actuar ao vivo nas mais diversas salas e latitudes, o cantor pretendeu nesta altura da sua vida diversificar um pouco e sair vocalmente dessa área, afinal de contas e até agora, o seu berço natural de nascimento e conforto e para isso decidiu desafiar-se a si próprio e abdicar de certas características sonoras e instrumentais dando agora à luz um disco apaixonante, totalmente virado para novas sonoridades e assombrosos cambiantes rítmicos por vezes de índole jazzistica, entregando desta vez o fio condutor musical do projecto às mãos e ao piano do magistral João Paulo Esteves da Silva e a parte da percussão a Jarrod Cagwin, isto para alem de ele próprio reincidir na composição em dois dos temas (um deles fecha o trabalho e é dedicado a sua mãe)  e também no campo da execução instrumental onde mais uma vez marca, uma presença por vezes bem surpreendente .

No capítulo dos textos para alem de belos pedaços literários da autoria de Tiago Torres da Silva, Giacomo Leopardi ( 1798-1837), Nuno Moura, Miguel Martins, António Ramos Rosa (1924-2013), Francisco Torrão e do pianista de serviço no projecto (que revelação como poeta!!!), o fadista, homem dotado de enorme sensibilidade, perfeccionista por natureza e também pessoa de grande e reconhecida cultura musical alem de literariamente bastante selectivo, arriscou recriar e dar nova vida a duas inspiradas composições da autoria dos saudosos Pedro Homem de Melo (1904-1984)- “Derrota” e José Carlos Ary dos Santos (1936-1984 ) -“Canto franciscano” que no julgamento final, juntamente com  “Depois de ti”, “As mondadeiras” e “Deserta liberdade” acabam por constituir alguns dos mais belos e inolvidáveis momentos do novo trabalho.

Um disco, maioritariamente cantado em português a que se juntou também uma canção em italiano, que rasga limites, horizontes e fronteiras e constitui um grande e opíparo banquete musical, um verdadeiro e inigualável manjar vocal dos deuses, recheado de profundos aromas e raras especiarias sonoras que facilmente nos fazem aflorar à lembrança e transportam para o nosso imaginário referências como  Rabih Abou-Khalil, António dos Santos, Oum Khaltoum, Bill Evans, algumas das figuras actuais do cante alentejano, os À Filletta, Amália, Trilok Gurtu, Ryuichi Sakamoto ou Egberto Gismonti…

Um projecto de rara sensibilidade artística, recheado de belos condimentos musicais e raras fragâncias sonoras, que mais que um novo trabalho do cantor lisboeta é um verdadeiro hino à beleza vocal e facilmente se vai assumir em breve como uma peça de coleccionismo pois constituiu por si só um verdadeiro objecto de ARTE maior!

Uma obra-prima da musica portuguesa contemporânea que consagra em absoluto um extraordinário cantor!!!

CD Parlophone/Warner Music

 

LENA D´ÁGUA

Ainda custa a entender como foi possível que uma das melhores, mais carismáticas e emblemáticas vozes femininas portuguesas andasse tantos anos fora das luzes da ribalta e  estivesse tantos anos sem lançar projectos de originais a solo e longe portanto dos estúdios de gravação, que quer queiramos, quer não, é, para além dos palcos, o seu habitat natural por excelência, isto apesar de há cinco anos atrás ter regravado, acompanhada pelos Rock´n´roll station em forma de regresso temporário e que afinal prenunciava um regresso que já tardava, um disco – “Carrossel” onde eram  recordados ao som de um rock bem balanceado e ritmado e excelentemente executado alguns dos seus  sucessos mais icónicos e intemporais como são sem dúvida “Sempre que o amor me quiser”, “Robot”, “Dou-te um doce”, “Beco” ou “Demagogia” que fazendo parte integrante do projecto então lançado pela editora musical da TVI – a Farol, não teve no entanto uma promoção eficaz e condizente com o que sua alta qualidade  minimamente exigia e a cantora bem merecia; eu próprio teci ao disco na altura os maiores elogios nas páginas da revista Epicur onde na altura escrevia considerando-o então um grande disco de rock de uma voz (ainda) soberba!

Agora 30 anos volvidos sobre a data em que lançou o seu primeiro trabalho de originais em nome próprio, Lena d´Agua , cujo disco com os Beatnicks de que era vocalista e com quem ganhou fama e projecção e se lançou como cantora data já de 1976, está finalmente de regresso aos temas originais, depois de uma longa travessia no deserto em que  andou ciclicamente cantando pelos meandros do mundo do jazz, viajou vocalmente a trio na companhia de Helena Vieira e  Rita Guerra durante os anos 90 numa “invenção” do saudoso Pedro Osório pelas “Canções do século”, homenageou Elis Regina e Billie Holiday e chegou mesmo até, a convite de Pedro da Silva Martins, compositor e  membro dos Deolinda e que com as suas composições já abrilhantou discos de gente como Ana Moura, António Zambujo ou Cristina Branco e agora assina todos os temas do álbum de regresso da cantora, a  participar no anual Festival da Canção onde acabou por classificar-se  no 7º lugar, um certame que até reunia uma série de boas composições e acabou por projectar definitivamente o seu vencedor de então -Salvador Sobral.

Agora, ainda formosa e bem segura, a cantar com a mesma convicção, firmeza e força dos seus primeiros tempos  e outra evidente maturidade, a antiga estrela vocal dos Salada de Frutas, de boa memoria, aí está finamente de novo, e para deleite dos seus inúmeros e assumidos admiradores, com  um projecto de certo modo ambicioso  onde demonstra estar ainda na plena posse de todas as suas qualidades e potencial vocal e interpretativo  apesar dos desvarios a que se sujeitou há anos atrás com a “viagem temporária ” a certas substâncias malditas e pseudo paraísos  artificiais; com  efeito, em  “Desalmadamente”, a admiradora confessa  de António Variações ( gravou em tempos um fantástico álbum com inéditos do cantor – “Estou alem” )continua o seu percurso pop/rock intuitivo e arrojado, parecendo que o tempo não passou por ela não se notando tão pouco o interregno artístico de alguns anos que a própria cantora vivenciou, conseguindo até dar um brilho ainda maior às já de si inspiradas composições de Pedro S. Martins que  cada vez mais se afirma como um dos grandes compositores da nova geração.

O mais importante de tudo é que Lena d´Água está de regresso e em grande estilo, mantendo  traquejo e talento para mais altas aventuras musicais, cantando com uma incrível juvenilidade bem acentuada e uma segurança incomum e uma madureza assinalável e por isso mesmo esse regresso merece ser efusivamente festejado com pompa, circunstância e…champanhe! Brindemos portanto erguendo as nossas flutes – Hip! hip! Hurra!

CD Universal Music

 

SAOR PATROL

Grupo de medieval/celtic/rock em cuja sonoridade global sobressaem as percussões e a gaita escocesa que  assume a condução e ritmo de todas as melodias e sonoridades quase tribais, e  sobre o qual me debrucei recentemente aqui no blog ,os Saor Patrol originários da Escócia profunda tem finalmente disponível uma compilação onde surgem alguns dos seus maiores sucessos  extraídos da série de discos que publicaram até agora – “Best of Saor Patrol- the clan´s favourites” no qual podemos encontrar hits como “The gael”, “Road back”, “Outlander”, “Solveig…gone electric” ou “O´Rourke” qualquer um deles êxito assegurado nos concertos da banda que cada vez mais se afirma como uma das maiores forças sonoras da terra dowhisky, se bem que pessoalmente as minhas preferências vão para o líquido…irlandês!

O celtic rock na sua maior expressão  sonora com a dupla compilação de sucessos dos  fabulosos escoceses Saor Patrol!

2CDs ARC Music/Megamúsica

 

THE BLACK KEYS

Nono trabalho de longa duração dos The Black Keys a grande banda originária do Ohio nos estados Unidos e primeiro no espaço de cinco anos “Let´s rock” marca o retorno ao som rock dos primeiros trabalhos, uma sonoridade em que a guitarra se assume líder  instrumental com conta, peso e medida ao longo de doze composições de certa inspiração que acaba por representar mais um passo em frente na auspiciosa carreira da banda.

Composto e gravado em directo e produzido por Auerback e Patrick Carney em Nashville, Tennessee o disco é segundo o próprio Carney “ espécie de tributo à guitarra eléctrica” e por isso mesmo o instrumento assume particular relevância na maioria esmagadora das 12 canções que o constituem e que entram por dentro de fascinantes territórios rítmicos, com belíssimos riffs de guitarra  onde sobressai uma especial atmosfera que alberga texturas e inusitadas sonoridades; um grande disco de rock, com nítida inspiração na música dos anos 60 e 70 especialmente no que aos blues diz respeito e que por isso mesmo faz as canções soarem a intemporais!

CD Nonesuch records/Warener Music

 

PRIDE OF SCOTLAND

Uma grande colecção de canções oriundas de várias  latitudes como Escócia, Inglaterra ou Nova Scotia sob a batuta da gaita de foles escocesa torna o disco “The pride of Scotland “ um álbum especialmente apetecível e direccionado para os  muitos amantes do instrumento de sopro oriundo do norte de terras britânicas, mais concretamente da encantadoramente bela, mas por vezes escura Escócia onde habitualmente chuva e nuvens ditam as suas leis no que respeita à luz do sol possível.

Incluindo marchas, jigs (alguns de origem galega e asturiana), reels e solos de gaita propriamente ditos e executadas por varias formações instrumentais, algumas das composições  aproximam-se imenso das propostas que habitualmente se podem ouvir em grupos de rock celta como os  Soar Patrol  que inclusivamente foram convidados para participar no projecto  e no final viram a sua composição “Three wee gigs” ter honras de encerrar o projecto…

Possuidora de  uma sonoridade única e inconfundível a gaita  de foles desfila neste disco como uma rainha em pleno reinado num palácio musical que cada vez mais se vai diversificando e granjeando adeptos um pouco por esse mundo fora não só a nível de audição como em termos de execução  pois são cada vez mais numerosos os executantes deste fabuloso instrumento de sopro!

CD ARC Music/Megamúsica

 

NORAH JONES

Pianista, compositora e interprete de voz segura e aveludada Norah Jones está de regresso desta vez com uma espécie de mini-projecto ( cerca de 30 minutos de musica somente) intitulado “Begin again”onde reuniu com a ajuda preciosa de  Jeff Tweedy e Thomas Bartlett numa escolha pessoal uma série de sete singles notáveis que fizeram nos seus anteriores discos as delícias dos fans; assim, sucessos como  “It was you_”, “Wintertime” ou “Song with no name” marcam presença num  trabalho mais uma vez de carácter intimista que é afinal aquilo que dela sempre esperam os inúmeros fans que a seguem desde a primeira hora!

CD Capitol records/Universal Music

 

BASSEKOU KOUYATE

Está de regresso aos discos de originais um dos músicos malianos que tem feito mais furor nos últimos anos:- Bassekou Kouyate; com efeito o mercado regista o aparecimento de “Miri” ( significa sonho ou contemplação) o seu quinto álbum de estúdio , um projecto musicalmente menos tradicional que os dois últimos mas que marca ao mesmo tempo o retorno à editora original que na altura teve a coragem e teimosia de nele apostar- a Out there records.

Música africana de alta qualidade aqui exposta em todo o seu esplendor e magnificência instrumental e sonora através de onze composições que falam do amor, família, amizade e dos valores mais verdadeiros num tempo de crise como o que atravessamos , temas que afinal de contas tem muito a ver com a cidade natal do músico – Garana, pequena aldeia situada nas margens do Níger; em jeito de homenagem o cantautor fez mesmo  questão de encerrar o disco com uma belíssima canção que leva no título o nome da sua progenitora -“Yakare” e que ele evidentemente lhe dedica…

Actualmente já um dos mais  talentosos e importantes nomes do panorama das musicas do Mundo, Bassekou Kouyate tem ainda muito caminho para percorrer e uma margem de progressão enorme, porém a qualidade das suas propostas musicais é já elevada , pelo que já não falta muito para atingir o estatuto de estrela onde poderia até já estar se beneficiasse de outra visibilidade e do marketing e promoção que  outros cantores artisticamente menos capazes tem merecido.         

CD Out There records/Megamúsica

 

JOÃO DONATO

Englobado numa série de reedições que juntam num só CD  dois trabalhos anteriormente publicados em vinil o projecto “ A bossa muito moderna” , é composto pela totalidade das musicas que fizeram originalmente parte dos discos “A bossa muito moderna” e “Muito à vontade” ambos gravados sob a forma de quarteto, embora por vezes este tenha registado também a presença do grande baterista Milton Banana, no Rio de Janeiro e editados  no já longínquo ano de 1962 a que se acrescentou agora um tema extra (“Silk stop” gravado em 1955); trata-se de dois  importantes trabalhos no domínio da bossa nova de um nome  icónico do movimento – João Donato, pianista, compositor, interprete e arranjador de créditos firmados e figura de primeiro plano do mesmo movimento musical que teve como figura preponderante e de liderança o famoso e  controverso e também homem de difícil convivência João Gilberto, agora desaparecido do nosso convívio que chegou a afirmar frequentemente que foi ele quem levou a bossa nova até ao violão de Donato.

Este, que gravou uma totalidade de 29 albums sob o seu nome, por sua vez  influenciou profundamente gerações de outras grandes figuras da musica brasileira e tem no seu currículo inicial colaborações em trabalhos de  Altamiro Carrilho, com quem inicialmente tocou,  tendo mais tarde acabado também por actuar como convidado especial em discos e especialmente em concertos de gente famosa como Antonio Carlos Jobim, Ron Carter, Airto Moreira, Eumir Deodato, Randy Brecker, Tito Puente, Astrud Gilberto, Ray Barreto, Mongo Santamaria e muitos mais.

A presente edição,  no formato digipack, beneficiou de uma cuidada remasterização e está limitada a 500 cópias apenas que incluem um novo booklet com novos textos de fotos, muitas delas inéditas!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

PRINCE

Apesar de já ter deixado o nosso convívio continuam as surpresas que tem como foco central o príncipe de Minneapolis e especialmente o seu legado no que respeita às obras que ainda continuam inéditas; agora embora sem grande surpresa uma vez que já há muito se sabia da sua especial apetência para gravar em estúdio as composições que ia compondo, por vezes  a um ritmo avassalador, surge agora “Prince originals” projecto com 14 novas e inspiradas composições com origem nesse mesmo espólio a que se juntou como extra  uma nova verão do  já conhecido “Nothing compares 2 U”; as “novas” composições são os originais de uma série de canções que ele cedeu a outros artistas que com elas mesmas alcançaram grandes sucessos tais como “Sex shooter”, “You´re my love”, “Baby you´re a trip”ou “Manic monday”, etc. e que foram editadas por vozes com  as das Bangles, Sinead O´Connor, The Time, Martika, Kenny Rogers e outras mais.

Na audição destes originais se vê a diferença abismal que sempre existiu entre o que era cantado  pelo seu autor e o que era interpretado por outros artistas  e a grande verdade do brilhantismo das composições e da  excelsa qualidade vocal e interpretativa salta à vista com grande evidência e concede-nos uma certeza:- Prince (1958-20156) efectivamente só houve um; o Prince Rogers Nelson de Minneapolis e mais nenhum!

E nada se compara com ele!!!

CD  NPG records/Warner Bros/WarnerMusic

 

JERRY BUTLER

Com uma carreira de quatro décadas ao serviço da musica soul, R&B e funky, Jerry Butler pode dizer-se que tem um lugar especial no panteão musical de Chicago ao lado de muitas outras lendas da grande música negra; dono de uma voz notável e  interprete de grandes recursos técnicos conquistou um lugar ao sol pelas suas grandes aptidões ganhando ao fim de vários anos a admiração geral não só pelas suas interpretações mas também pelos sucessos que foi gradualmente angariando.

George Woods, um conhecido apresentador de rádio de Filadélfia, recorda que Jerry lhe fazia lembrar na maneira como cantava o grande Nat King Cole e o modo calmo e tranquilo, quase soft, como abordava as canções levaram muita gente a apelidá-lo de “ice man”( homem de gelo), alcunha que acabou por se popularizar e colar-se como uma segunda pele a este nativo de Sunflower, Mississípi, que ainda novo partiu para viver em Chicago onde  acabou por se radicar.

Primeiro artista a gravar o mundialmente celebre “Moon river”, que legiões de outros cantores  interpretaram também, Butler tem finalmente disponível entre nós um disco – “The ice man cometh”, inicialmente editado sob a égide da Mercury  records em 1968 e que agora aparece digitalmente remasterizado e em edição limitada, um projecto onde exibe todos os  atributos vocais que fizeram dele uma das maiores figuras vocais da música negra…

CD Mercury records/Elemental records/Distrijazz

GAITEIROS DE LISBOA

Foi sem dúvida com certa apreensão que os admiradores dos Gaiteiros de Lisboa, entre os quais há muitos anos me incluo, foram tomando conhecimento das possíveis e variadas alterações  no seio do grupo que ao longo dos últimos tempos iam sendo anunciadas, pressagiando com isso profundas mudanças e suscitando compreensíveis e  legítimas interrogações; afinal, como costuma dizer o povo na sua imensa sabedoria, a montanha acabou por parir um rato e o que se pensava poderia vir a ser catastrófico, um presumível descalabro que poderia originar uma certa desunião no seio do grupo acabou na realidade , depois de todos os dados lançados e todos os trunfos jogados, por resultar afinal num verdadeiro renascimento, num novo fôlego do grupo, num evidente e saudável novo respirar e valorização através de uma notória renovação especialmente em termos de line-up e no que toca a eventuais projectos para o futuro.

E a prova evidente de que afinal de contas, contra tudo e contra todos, contra ventos, tempestades, marés e especialmente maledicências dos “quadrilheiros” do costume os Gaiteiros se transformaram, deram a volta bem por cima, mudaram para melhor e se tornaram ainda mais fortes, mais coesos e até mais  seguros internamente, é o mais recente projecto discográfico “Bestiário” que até vai acabar por ficar registado a letras douradas  na história da musica popular  portuguesa pois se trata de uma obra-prima musical em que os Gaiteiros, insubmissos e irreverentes, de novo frescos e acutilantes,  maduros e  sonoramente envolventes, conseguem ainda inovar sem esquecerem porém nem se desligarem nunca da sua arreigada e sempre notória  influência das raízes tradicionais portuguesas em que basearam toda a vida a sua obra,  conseguindo mesmo agora ainda reinventar-se a cada canção, mantendo no entanto bem alto a sua habitual coerência e estética musicais,  essencialmente fruto de uma experiência de muitos anos na estrada e em estúdio, condimentos que fazem deles a melhor banda nacional na área da música popular portuguesa tradicional, pese embora se mantenha ainda no activo um seu concorrente directo, sediado em Coimbra, mas de quem no entanto e infelizmente pouco ou nada se vai sabendo nos últimos tempos– a Brigada Victor Jara !

Quase trinta anos volvidos sobre o seu aparecimento os Gaiteiros de Lisboa, que

conseguiram gerar uma música original e uma tradição bem à medida da sua arreigada portugalidade, ainda conseguem, surpreendentemente, ou talvez não,  conquistar, atrair, seduzir e deslumbrar pela frescura, pelo arrojo, pela ousadia, pelo atrevimento e acima de tudo pela extraordinária qualidade que evidenciam nas oito composições que constituem o material inédito que agora apresentam no novo trabalho onde há somente três canções anteriormente publicadas- “Comprei uma capa chilrada”, “Roncos do diabo” e “A história” e que aqui surgem em novas versões, isto é, com uma outra leitura, fugindo assim a pretensos modernismos e a lugares comuns, permanecendo o  colectivo sempre inspirado, imprevisível, coerente, experimentado e inventivo q.b.

A musica dos Gaiteiros continua no entanto a girar à volta de uma espécie de centro constituído pela gaita de foles e pelas (belíssimas) polifonias vocais e as melodias que agora a envolve continua a ser de uma evidente modernidade e vivacidade, sem no entanto os seus membros perderem a genuinidade e se afastarem das raízes  que sempre foram apanágio da banda, que cada vez mais se afirma como uma  força musical grandiosa e uma fonte intemporal de beleza melódica, tradição, força, diversidade, luta  e uma consequente…resistência!!!

Na feitura do novo disco  os Gaiteiros de Lisboa jogaram um trunfo que tinham bem à mão pois tiveram a importante e selectiva participação de um naipe de convidados de primeira água (o meu irmão açoriano Zeca Medeiros, a linda Filipa Pais, os Segue-me à capela, Artur Serra, José Carvalho, João Afonso Lima (familiar do imortal Zeca Afonso) , Pedro Oliveira dos Sétima Legião e  Rui “chico fininho” Veloso ) onde cada um à sua maneira se esmerou contribuindo assim com uma quota parte importante para o grande brilhantismo do disco em absoluta comunhão de ideias e gostos com os “novos” Gaiteiros, todos eles, reconheça-se, exímios executantes : -Carlos Guerreiro, Paulo Tato Marinho, Miguel Quitério, Miguel Veríssimo, Paulo Charneca e Sebastião Antunes, que se preparam agora para, ao vivo, conquistar de novo não só o território português (já brilharam no festival Memória em Braga e no  festival Músicas do Mundo em Sines) mas também para novamente galgarem fronteiras e mostrarem a sua arte, onde em vários países, apesar dum silencio discográfico de vários anos, apenas quebrado há pouco tempo atrás com a publicação dum “best of”, continuam a manter uma imensa franja de fieis e leais admiradores…

Dentre todas as composições que agora nos propõem destacam-se, quanto a mim, o magistral tema de abertura -“Baleeiros de New Bedford” de Zeca Medeiros composição feita especialmente para a banda sonora do filme “O livreiro de Santiago” onde se conta a história de um açoriano que acabaria por tornar-se o primeiro editor de Pablo Neruda e cuja realização pertence ao mesmo Zeca Medeiros e que foi mesmo há tempos atrás objecto de exibição nos ecrans da RTP e ainda as composições “Roncos do diabo”,“Brites de Almeida”(que recorda uma velha lenda medieval portuguesa) e ”Flecha”, este um verdadeiro festival de oralidade e finalmente uma nova versão (soberba) do conhecido mas sempre belo tema do valioso cancioneiro açoriano -“Chamateia”…

Recuperam ritmos e sonoridades, reinventam outras, continuam a descoberta de outras latitudes musicais e sonoras, apostam na diferença e na realidade eles continuam a tratar a música popular portuguesa por tu; são os Gaiteiros de Lisboa que estão de volta e  o seu regresso merece longos e demorados aplausos e de ser comemorado efusivamente como só um grande acontecimento merece:- com uma festança popular  das antigas com inclusão de genuínos fogos de artificio, muitos, muitos bombos,  outras percussões variadas, acordeões, gaitas, comezainas diversas como serão sem dúvida uns bons rojões, caldo verde, presuntos, chouriças e salpicões e, como é óbvio com a  abertura de muitas pipas de vinho para se poder saudar este festivo regresso de um colectivo musical português que cada vez mais nos fascina, seduz e se afirma por uma óbvia alta qualidade rumo ao futuro!!!

CD Uguru com apoio da SPA

 

PEDRO MOUTINHO

Longe vão já os tímidos tempos em que Pedro Moutinho com um primeiro disco nas mãos procurava afirmação e lançar-se numa carreira, mas infelizmente na altura,  inexperiente q.b. tinha entregue esse projecto em mãos menos adequadas, desperdiçando assim nesse tempo, ingloriamente, um emergente talento natural e atrasando dessa forma a sua tentativa de conquista de um lugar ao sol, lugar que agora, seis discos de originais volvidos e uma colectânea, finalmente consegue alcançar com muito trabalho e também certo brilhantismo!

Com efeito, na actualidade Pedro Moutinho é já um nome de grande impacto e cartaz no  mundo do fado nacional e isso deve-se sem dúvida a um árduo percurso, perseverança e experiência, ganhas sobretudo em casas de fado e concertos ao vivo e acima de tudo mercê de uma já evidente maturidade e um grande e indesmentível talento!

Em cada disco a sua progressão é cada vez mais notória e isso reflete-se não só no seu modo de cantar, na ousadia de uma notória mudança  em vários sentidos pois até cada vez mais tem uma palavra a dizer em várias áreas dos seus projectos, bem como na escolha criteriosa de reportório, quer a nível de melodias, quer a nível literário, onde a escolha tem sido cada vez mais rigorosa e selectiva, ao arriscar cantar as palavras de quem efectivamente acha que melhor lhe pode “vestir” a sua voz característica e bem timbrada; com efeito no novo projecto vamos encontrar trabalhos de gente como Amélia Muge (que eu em boa hora desafiei a escrever para fado quando fui responsável pela produção executiva do disco “Para alem do fado” de Ana Moura e que aqui em “Fado ao contrário” assina nada menos de cinco de uma totalidade de 11 temas), Maria do Rosário Pedreira, Manuela de Freitas, Márcia ou Vitorino não esquecendo algumas das suas grandes e mais evidentes referências  com o são sem dúvida Fernando Farinha, Manuel de Almeida e Carlos Ramos.

A tradição dos grandes pilares fadistas, a genealogia e uma grande vocação estão-lhe no sangue  com laços verdadeiramente umbilicais aos seus progenitores e aos seus irmãos- Helder Moutinho e Carlos Moutinho (Camané) , naquilo que constitui uma verdadeira herança colectiva , irmãos que afinal de contas com ele engrossam o numero dos grandes fadistas contemporâneos…

Um disco com uma produção verdadeiramente soberba de Filipe Raposo, que respira vitalidade, expressividade, inovação e tradição através da voz de um fadista, agora já com F grande que finalmente está no apogeu a sua carreira e que a esse estatuto chegou com grande empenho, energia, certa ousadia, actualidade e convenhamos… um grande, grande talento e um enorme merecimento.

CD MWFrontiers com apoio da EGEAC e Museu do Fado

 

ANTONIO PORTANET

Já não recordo bem há quanto tempo ouvi pela ultima vez na rádio portuguesa uma composição na interpretação de António Portanet , mas relembro bem do muito que na altura gostei de escutar a sua voz e as suas belas composições; com efeito já vão um pouco distantes as últimas “aparições” radiofónicas do cantor até porque o mercado não registou nos últimos anos qualquer edição discográfica sua.

Agora porém o seu nome volta a ser-nos familiar até porque gravou um novo trabalho  para a editora/promotora  de Alain Vachier, que teimosa e heroicamente continua a apostar em alguns projectos de que se vai de tempos a tempos enamorando, tendo até por via dessa mesma gravação o cantor reaparecido nos palcos portugueses (Coliseu de Lisboa)  num espectáculo comemorativo dos 45 anos do 25 de Abril em organização da Associação 25 de Abril que continua o seu percurso rumo ao futuro com o coronel Vasco Lourenço à cabeça ; consequentemente  António Portanet reapareceu nos ecrãs televisivos (RTP) mercê da transmissão em diferido do espectáculo em que cantou um dos temas  (“Cancion del leñador”) do seu novo disco-  “Eternamente Lorca” que como o próprio titulo deixa antever é inteiramente constituído por composições poéticas do imortal  Federico Garcia Lorca, genial poeta andaluz nascido em 5 de Junho de 1898 em Fuente Vaqueros, Granada e mais tarde, mais concretamente em 18 de Agosto de 1936, barbaramente assassinado pelos esbirros da polícia espanhola  anti-republicana de então…

As doze composições do disco, especialmente as que estão incluídas no livro “Poeta en Nueva York”  tiveram a sua génese  na chamada “big apple”  durante a estadia nova-iorquina do cantautor espanhol que para além de interprete é aqui também o responsável pela composição de todas as musicas do disco.

O próprio Portanet, que ficou absoluta e definitivamente apaixonado pela obra poética aquando da releitura do livro, relembra  como tudo aconteceu:-“…abalado pela impressionante sensibilidade perceptiva e actualidade desses poemas que Lorca, andaluz como eu, décadas antes escrevera durante a sua estadia em Nova Iorque por alturas de 1929, decidi criar um conjunto de composições musicais para cantar “Poeta em Nova Iorque”, obra considerada como uma das maiores expressões da poesia do século XX…”.

O resultado final aí está agora à consideração geral,  num disco absolutamente genial e sublime onde sobressai sobremaneira a alta qualidade instrumental dum grupo de grandes instrumentistas como Pedro Jóia, David Leão, Norton Daiello ou Vicky Marques, entre outros, sem esquecer dois belíssimos coros,  a participação soberba de Ana Bela Chaves, primeira viola solista da Orquestra de Paris sem esquecer o importante e fantástico trabalho geral do próprio Portanet , que mais que prestar uma homenagem profunda e sentida ao grande Garcia Lorca e à sua magistral obra, nos propõe a audição de um projecto de altíssima qualidade, cantado com sentimento, sensibilidade e certo brilhantismo vocal, onde  o poeta andaluz e a sua obra são mais que justamente homenageados e relembrados a exemplo do que outros artistas já anteriormente fizeram com saliência para  Miguel Poveda no recente projecto “Enlorquecido”, a diva Cármen Linares em “Canciones populares antiquas”, Ana Belen em “Lorquiana” e claro o saudoso Leonard Cohen e seus convidados na obra-prima “Poets in New York”, qualquer um deles momentos de eleição da obra de um mais geniais poetas dos últimos anos cujo espírito e obra quer poética, quer musical, atravessarão séculos rumo à eternidade!!!

CD Alain Vachier music editions

YOLA

Inicia  agora o seu voo ascendente e pessoal  na direcção do sol, que o mesmo é dizer, rumo ao estrelato, depois de durante uma série de anos ter andado a estagiar em vários “endereços” musicais nomeadamente abrindo para figuras como James Brown ou Dr. John e no seio de composições dos Massive Attack, de quem foi, embora por curto espaço de tempo, uma das vozes femininas, isto depois de um  produtor a ter “descoberto” num concerto em Nashville ,Tennessee; com efeito Yola, esta britânica de nascimento, natural de Bristol que possui uma voz única e pessoalíssima e já conta com um curriculum vocal que assinala a sua presença como muito próxima da musica soul  e da country norte-americana, começa agora através do seu primeiro registo a solo – “Walk through fire”

(de salientar entre outras a presença como convidado do grande ícone da country Vince Gill) a construir os alicerces para o seu futuro  como artista a solo através dum disco recheado de temas coesos e bem cantados, inspirados e por isso mesmo direccionados para os tops ou não fosse  o seu produtor  Dan Auerbach, uma figura de proa na área e um  homem que conta já com um impressionante currículo onde figuram como galardões mais sonantes  e cobiçados nada menos de oito Grammies!!!

Yola, uma revelação? Não! Apenas a confirmação de um talento nato, espontâneo, natural e de grande expressão vocal adjectivos que afinal de contas só servem para confirmar o que dela disse a conceituada revista Rolling Stone : “sem dúvida, um nome para lembrar”.

CD Easy Eye Sound/Warner Music

 

SALVADOR SOBRAL

Há muito tempo que não me dava tanto gozo a audição de um disco como aconteceu com “Paris, Lisboa” de Salvador Sobral o tal  cantor que contra tudo e contra todos, sem espalhafatos, vestimentas  apalhaçadas ou desconcertantes, contra ventos e marés, tempestades e tornados deu um valente pontapé no traseiro do habitual fadinho choradinho de desgraça e lamento  de que as canções portuguesas concorrentes ao Festival da Eurovisão geralmente enfermam e sem mais nem aquelas… venceu o certame do ano passado, apesar de todas as grandes contrariedades surgidas  entre as quais a doença de que padecia na altura do concurso e de que, pelos vistos, felizmente já se conseguiu  livrar!

Com efeito, o mano de Luísa Sobral, que reedita a colaboração com ele, assina neste seu  trabalho um disco primoroso, de grande rigor musical e elevado sentido estético, cantando brilhantemente uma dúzia de canções de forma eficaz e muitas das vezes até com laivos de certa genialidade, através de uma entrega total, sem rodriguinhos, receios ou preconceitos, naquilo que é afinal, para além dum novo projecto discográfico, uma pessoal visão do mundo que o rodeia, suas actuais vicissitudes e incongruências, conseguindo assim alcançar  uma espécie de nirvana, isto é, um estado de verdadeira celebração da vida, do amor e da existência,  através de uma linguagem musical base acentuadamente jazzística, tendo como fio condutor rítmico um piano, executado de forma exemplar por um instrumentista  soberbo que dá pelo nome de Julio Resende, que cada vez mais se afirma como uma das mais sólidas e proeminentes figuras do piano em Portugal; ele e os restantes músicos que integram o naipe de instrumentistas no disco conseguiram  com a sua arte maior tricotar o leito perfeito para acomodar de forma exemplar a voz de Salvador Sobral, que sem duvida se assume cada vez mais como um grande interprete de canções, sejam elas cantadas em língua portuguesa, espanhola ou francesa como aliás sucede neste projecto…

Para o elevado nível artístico do disco muito contribuíram também as presenças de dois especiais convidados -a já citada Luísa Sobral e ainda António Zambujo bem como as peças de fino recorte poético da autoria de gente como Fernando Pessoa e do próprio Salvador Sobral, entre outros.

Autêntica viagem musical e sonora de múltiplas celebrações num roteiro que entrecruza na perfeição felicidade e inspiração com encanto e prazer auditivo, “Paris, Lisboa” assume-se para já e em definitivo como um dos grandes discos portugueses do ano !

CD Valentim de Carvalho

 

JOÃO GILBERTO

João Gilberto é indubitavelmente um dos nomes mais incontornáveis da música popular brasileira e um dos seus mais ilustres personagens e por isso mesmo qualquer edição de trabalhos seus é sinónimo de celebração; isso mesmo acontece agora com a recente aparição de “The master of bossa nova” espécie de compilação do artista que consegue reunir num só disco nada menos de três dos seus mais populares álbuns a solo que curiosamente constituem também os primeiros três discos  da sua carreira -Chega de saudade/ JG cantando as músicas do filme Orfeo do Carnaval/João Gilberto.

Canções de grande sucesso popular tais  como “”Chega de saudade”, “Desafinado”, “Maria ninguém”, “Manhã de Carnaval”, “Corcovado”, “Samba de uma nota só”, “A felicidade”, ”Coisa mais linda”, “Samba da minha terra”, “Insensatez”, “O barquinho”ou “Presente de Natal” são apenas algumas das míticas composições que integram um leque de nada menos de 39 que compõem o projecto que sem dúvida se assume como um grande momento musical e um documento vital de parte da historia de vida musical de um génio absoluto da MPB.           

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

ALEJANDRO SANZ

Contabiliza já uma dúzia de discos editados  e é uma das mais famosas e bem sucedidas figuras da musica pop espanhola dos últimos anos e por isso mesmo o aparecimento de um novo disco gera sempre uma certa expectativa tanto mais que há quatro anos , concretamente desde o lançamento de “Sirope” que não gravava; “Eldisco” ,o mais recente, não foge à regra tanto mais que Alejandro Sanz surge acompanhado por algumas das mais cintilantes estrelas da música dançante actual tais como Camila Cabello, Nicky Jam, conhecido nome do reggaeton, a catalã Judit Nedderman  ou Residente que são os seus convidados especiais no novo projecto que começou a ser dado a conhecer numa extensa digressão mundial que o levou no passado mês de Junho até cidades como Madrid, Barcelona, Elche e Sevilha e posteriormente até à  galega Santiago de Compostela a que se seguirão concertos em muitas outras paragens e paisagens nos meses seguintes.

Disco eclético, pleno de energia que revela certa dose de vanguardismo na sonoridade de algumas das composições é também um projecto que revela uma grande maturidade tanto mais que foi sendo moldado à medida que Alejandro ia compondo e acabou por resultar num projecto de grande dinamismo rítmico que poderá não ser o seu melhor disco mas é certamente um dos mais consistentes e ousados da sua discografia.

CD Universal Music

 

CHUCK BERRY

É sempre com um prazer intenso e imenso que se recordam canções imortais na voz do  mago Chuck Berry , interprete e criador genial que na história da música rock figura como uma das suas mais fascinantes e também controversas figuras; agora acaba de surgir um raro CD, de edição remasterizada e limitada a 500 exemplares,   intitulado

“ Rhythm and blues rendez-vous”que reúne a totalidade do material que havia sido incluído em dois LP´s datados do início da sua carreira- ”Rhythm & blues rendez-vous”

( que também chegou a ser editado como “Twist”) e “Rockin´at the hops”.

Ao conteúdo destes dois trabalhos foram ainda acrescentados como bónus mais cinco canções perfazendo assim uma totalidade de 30 composições de que fazem parte mega sucessos como “Maybeline”, “Roll over Beethoven” , “Round and ´round”, “Sweet little sixteen”, “Johnny B. Goode”, “Confesssion the blues”, “Bye bye Johnny” ou “Come on”, afinal de contas alguns dos mais mágicos pedaços da história da musica  rock de que sem duvida Chuck Berry foi um dos mais brilhantes expoentes, um homem com um tão elevado estatuto artístico que uma vez um dos mais destacados elementos dos britânicos The Beatles – John Lennon chegou a afirmar que se um dia se desse ao rock´n´roll um outro e diferente nome esse só poderia ser o de… Chuck Berry!!

CD Hoodoo records/Distrijazz

 

MARIA TERESA DE NORONHA

Uma edição que sem dúvida marca o ano editorial musical português:- o lançamento de “Integral” da fadista Maria Teresa de Noronha; co os anos de 1959 e 1968.

Nascida há 100 anos e infelizmente pouco conhecida do publico mais jovem , foi uma das mais fabulosas interpretes do panorama português rivalizando durante algum tempo em qualidade vocal e em termos de preferências de público com a diva Amália, sendo ainda no entanto ainda hoje em dia  considerada dentro do mundo do fado como uma das maiores referencias de sempre.

Uma obra de invulgar qualidade que nos recorda um dos maiores fenómenos do fado que curiosamente triunfou também  como estrela de rádio mercê das suas frequentes aparições aos microfones da antiga Emissora Nacional, onde aconteceu o primeiro dos seus registos por alturas de 1939, isto depois de nela se ter estreado a cantar no ano anterior.

Caixa de 6CDs e DVD Valentim de Carvalho

 

MILTON BANANA

Entre os mais ilustres personagens que fizeram parte integrante da história da bossa nova há que destacar um nome não só por toda a qualidade que alardeou mas também, e até por isso mesmo, pela especificidade do instrumento que tocava- bateria !

Nascido António de Souza em 23 de Abril de 1935 acabou reconhecido e consagrado pelo apelido de Milton Banana e considerado o homem que revolucionou a bossa em termos de percussão pois chegou até a ser considerado o inventor do estilo de tocar bateria, na bossa; numa edição verdadeiramente histórica surge agora em edição remasterizada e limitada a 500 exemplares  o projecto ”The rhythm and the sound of bossa nova” , que agrupa dois dos seus mais destacados trabalhos como líder– “The rhythm and the sound of bossa nova” e “Balançando com Milton Banana trio” o primeiro em que o baterista surge acompanhado pelo  quinteto de Óscar Castro Neves e o segundo à frente do seu próprio trio onde vamos poder encontrar dois grandes instrumentistas -Cido Bianchi no piano e Mário Augusto no baixo.

Falecido em  22 de Maio de 1998 Milton Banana deixou uma obra de grande envergadura rítmica que pode facilmente ser apreciada neste projecto e que acaba por constituir uma  parte indissociável da riquíssima história da bossa nova brasileira, que afinal de contas revolucionou gentes, ritmos e mentalidades.

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

ELIZETE CARDOSO

Nasceu na cidade maravilhosa e  acabou por se tornar numa das mais fantásticas interpretes da bossa nova que o Brasil e o mundo já ouviram; descoberta por Jacob do bandolim quando tinha apenas 16 anos de idade, três anos mais tarde Elizete Cardoso

( 1920-1990) , transformada em verdadeiro furacão, estava já a conquistar tudo e todos com a sua arte e  com as suas sublimes e pessoalíssimas interpretações não admirando por isso que em 1958 o grande Vinícius de Moraes a tivesse convidado para cantar uma série de canções num disco com composições literárias dele e em parceria com as inspiradas melodias de António  Carlos Jobim; o resultado final foi “Canção do amor demais” que acabaria por se tornar num dos momentos mais marcantes da bossa nova onde se podem encontrar extraordinárias composições como “Chega de saudade”, “Modinha”, “Serenata do adeus”, “Luciana”, ”Eu não existo seu você”, “Janelas abertas” , “Medo de amar” ou “Canção do amor demais”.

E é precisamente este mesmo trabalho que agora surge acoplado a outro disco-“Grandes momentos” onde a cantora aparece  acompanhada por  uma orquestra conduzida por Moacyr Silva e nos dá a conhecer toda a grandiosidade vocal duma cantora de excelência que faz parte integrante de alguns dos mais belos momentos musicais da história da música brasileira e em especial da área específica da bossa nova.

Agora em edição remasterizada digitalmente no sistema 24 Bits ,“Canção do amor demais/Grandes momentos” merece dos melómanos, e não só, uma atenção especial ou não se tratassem de duas verdadeiras obras-primas, discos por isso mesmo mais que fundamentais  para uma melhor compreensão do valor musical e histórico do importante movimento outrora designado por bossa nova!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

ROLLING STONES

Na altura em que Mick Jagger o carismático líder vocal dos Rolling Stones tinha alta do hospital já totalmente recuperado de uma  ligeira enfermidade que subitamente o acometeu, a banda colocava no mercado mais uma colectânea de sucessos  desta vez idealizada e feita em moldes diferentes do habitual pois inclui composições que abrangem e afloram todos os discos publicados pela banda desde 1971 até ao mais recente trabalho “Blue & lonesome” que viu a luz do dia há três anos atrás, mais concretamente em 2016.

Totalmente  remasterizado o duplo disco “The very best of The Rolling Stones” que inclui nada menos de 36 canções, algumas verdadeiramente imortais tais como “Brown sugar”, “Undercover( of the night)”, “It´s only rock and roll”, “Emotional rescue”, “Angie” ou “Mixed emotions” , mas acaba no entanto por deixar de fora, infelizmente,  muitas outras que constituem pedras basilares na vida de uma das maiores bandas rock do mundo tais como por exemplo  “Symphaty for the devil”,“Get out of my cloud”, “I can´t get no satisfaction”ou “Paint it black”que quer se queira, quer não, constituem algumas das melhores  e mais fantásticas composições escritas até hoje no domínio da musica rock mundial de que os Stones são um alicerce fundamental e que, quanto a mim, deveriam sempre integrar qualquer colectânea que se editasse dos Stones, nem que fosse como temas extra ou de bónus!

Apesar de tudo é sempre estimulante recordarem-se os Stones e  algumas das suas inesquecíveis canções, mesmo que, apesar da infindável listagem de sucessos, num simples CD duplo!

2CDs Universal Music

 

DAVID BOWIE

Desde o seu desaparecimento físico que a obra do grande camaleão do pop/rock começa pouco a pouco a ser desvendada, não só quanto a raridades como no que respeita a alguns trabalhos ainda inéditos para o grande público e a outros de que muitas vezes até não se conhecia a existência; agora foi a vez de duas obras importantes e  fundamentais, ambas registadas ao vivo e que constituem duas peças primordiais para ajudar a uma melhor compreensão da vitalidade e fulcral importância do artista britânico , quando ao vivo e de tudo aquilo que David Bowie representava quando actuava em palco perante grandes ou pequenas audiências; tratam-se de duas gravações derivadas do registo de actuações ao vivo –“Serious moonlight” datado de 1983 e “Glass spider” de 1987 qualquer uma delas verdadeira peça de colecção e ao mesmo tempo gravações exemplificativas de momentos altos na sua carreira e nas quais podemos escutar, algumas vezes em versões mais longas do que as inicialmente publicadas e que acabaram por constituir  grandes e eternos sucessos de uma carreira notável e brilhante tais como por exemplo “Let´s dance”, “Life on Mars?”, “Station to station”, ”Space oddity”, ”China girl” , “Glass spider”, “Young americans”, “Heroes” , etc.

2 duplos CD´s Parlophone/Warner Music

 

RAY SMITH

Mais uma raridade no mercado:- “Travellin´with Ray” de Ray Smith um dos nomes mais conceituados e figura de proa do rock´n´roll onde se notabilizou por alturas de finais dos anos 50 e na década seguinte; sendo um dos principais nomes da celebre editora Sun Records, Ray gravou canções verdadeiramente mágicas especialmente algumas deste disco que agora surge reeditado no mercado em edição limitada a  meio milhar de exemplares e com  a particularidade de terem acrescentado aos doze temas da edição original nada menos de 20 temas extra registados entre os anos 58 e 62!!!

Toda a  capacidade de compositor e de interprete de Ray Smith num projecto de rara qualidade e  um disco verdadeiramente empolgante que nos permite até tomar contacto com a qualidade de instrumentista de um génio da guitarra que na altura despontava e que acabaria mais tarde por se transformar numa verdadeira lenda- Chet Atkins .

CD Hoodoo records/Distrijazz

 

BOLDEN

(Wynton Marsalis)

Tornou-se um hábito os membros da família Marsalis para alem de seguirem adiante com as suas respectivas carreiras musicais e incluído nesse percurso gravarem os seus álbuns a solo ou fazerem projectos familiares em que tocam uns com os outros, dedicarem-se também a colaborar em discos de outros músicos e para além disto tudo fazerem música para filmes com especial destaque para os manos  Branford (saxofone) e Wynton (trompete) que até hoje já assinaram várias e excelentes bandas sonoras de grandes e premiadas películas; é o caso presente de “ OST Bolden” em que Wynton demonstra toda a sua versatilidade não só de executante mas de compositor também assinando um grande trabalho e também simultaneamente uma excelente banda sonora do filme que retrata a vida de um lendário cornetista – Charles “Buddy” Bolden (1877-1931) que foi na altura considerado um músico e um líder de banda verdadeiramente revolucionário na área da grande musica negra e do som de New Orleans em particular.

Um disco cuja musica ganha maior acuidade e sentido quando inserida na película, mas que apesar de tudo, face à sua grande qualidade, pode perfeitamente escutar-se  independentemente do filme tanto mais que nos permite aquilatar da grande genialidade de um fabuloso trompetista, arranjador e compositor como é sem dúvida  o actual líder do projecto Jazz at Lincoln Center -Wynton Marsalis, por muita gente apelidado com o  grande herdeiro de Miles Davis,  que aqui recria na perfeição o ambiente musical, estilo,  emoções e paixões da “velhinha” New Orleans do final do século 19 e início do século 20 que, apesar de tudo, continuam a fascinar gerações.

CD Blue Engine Records/Universal Music

 

AMALIA & DON BYAS

 

Resultou numa obra de inquestionável qualidade o invulgar e inusitado encontro da diva Amália (1920-1999) com o saxofonista-tenor americano Don Byas (1912-1972), reunião essa organizada e idealizada pelo inesquecível e mítico  Luís Villas-Boas( 1924-1999), por alguns apelidado de “pai” do jazz em Portugal e também “alma mater” do celebre Festival de Jazz de Cascais, de boa memória, por alturas de Maio de 68 ; registado nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d´Arcos  acabou por resultar numa obra antológica em que o fado se funde na perfeição com o jazz dando assim razão ao grande Louis Armstrong que um dia quando actuou em Portugal por alturas de 1961 afirmou que “as origens do jazz e do fado são parecidas; nascidos em meios humildes, expressões de angústia e frustração, o jazz e o fado encontram-se em muitos pontos”.

O próprio Armstrong que ficara admirador incondicional do nosso fado quando na altura do seu show em Portugal teve oportunidade de ouvir ao vivo na casa de fados “ A toca” do Bairro Alto o grande Carlos Ramos acabaria mais tarde por gravar uma fabulosa versão de “Coimbra”( que recebeu na altura e no seu disco o título premonitório de “Abril em Portugal) e essa mesma gravação acabaria por surgir numa compilação  de homenagem à cidade dos estudantes genericamente intitulada “Coimbra”, editada pela Tradisom  há poucos anos atrás, onde surgem uma série de fantásticas interpretações da mesma canção por vários e diversificados artistas tais como  a diva Amália Rodrigues, Eartha Kitt, Caetano Veloso, Bing Crosby, Chet Atkins, o nosso Alberto Ribeiro, etc.

Recentemente reeditado, com nova capa e textos, “Encontro” ( que estranhamente só viria a ser editado na primeira metade da década de 70) marca um momento importante na discografia da deusa Amália ( aqui deslumbrando tudo e todos com a sua capacidade vocal e interpretações) e constituiu sem dúvida um momento de grande cumplicidade entre a voz da fadista e o instrumento do portentoso músico norte-americano que aqui e na companhia de fantásticos instrumentistas como os mestres Joel Pina, Raul Nery e Fontes Rocha e ainda o viola Júlio Gomes se completam em perfeita sintonia e virtuosismo proporcionando-nos largos momentos de prazer auditivo ao mesmo tempo que assumem, cada um à sua maneira a sua incomensurável paixão pela musica que afinal de contas acaba por ser o elo condutor de um encontro verdadeiramente épico, histórico e transcendente!!!

CD Valentim de Carvalho

 

DON COVAY

Considerado um dos mais sonantes nomes da soul music dos anos 50 e 60 Don Covay foi também uma das vozes e compositores mais populares  oriundos da área musical da celebre Atlantic records; verificou-se anos mais tarde que foi uma grande influência e fonte de inspiração para nomes de projecção universal como Billy Fury, The Kinks ou os Rolling Stones de Mick Jagger que ao seu talento e estilo foram beber ideias e inspiração para alem de recriarem uma série de canções de sua autoria; agora, em edição remasterizada e limitada a meio milhar de exemplares e com novas notas de informação surge  “Ooh!my soul” fabulosa compilação onde podemos encontrar gravações registadas durante o período de 1955 e 1962 não só para a Atlantic, mas também para outras labels famosas de então tais como Blaze, Cameo, Sue, Big Top e Columbia.

Um disco de raridades que contém verdadeiras peças de colecção que vão certamente entusiasmar,  despertar sentimentos e  incentivar à dança.

Afinal a soul continua viva; e de que maneira!!!

CD Soul Jam /Distrijazz

 

FOALS

Constitui uma verdadeira e agradável surpresa o primeiro dos  dois projectos que os Foals, banda originária de Oxford, decidiram editar este ano pois está recheado de belíssimas canções, inspiradas, coesas e sobretudo de uma grande intensidade quer musical, quer vocal; já com  quatro álbuns de estúdio na sua contabilidade pessoal a banda britânica dá assim mais um passo bem importante rumo ao estrelato conseguindo mesmo fazer do disco “Everything not saved will be lost-part 1” o trabalho até agora mais ambicioso da sua carreira no qual demonstram uma personalidade muito própria, alheia a modas e ditames propondo-nos aqui uma mão cheia de grandes composições que, face à  alta qualidade que todas elas revelam, vem de certo modo abrir-nos a o apetite para o volume 2 que a julgar por este primeiro disco conterá material ainda mais “apetitoso” e surpreendente. A ouvir vamos!

CD Warner Bros/Warner Music

 

BLIND BLAKE

Considerado unanimemente um histórico e um dos mais icónicos nomes dos blues acústicos Blind Blake, tem agora disponível no mercado uma pequena parte do seu valiosíssimo espólio mas que, apesar de parco,  no entanto nos possibilita um melhor conhecimento da sua inspirada obra através de uma colectânea de edição limitada que contem 26 gravações essenciais da sua rica história musical, um projecto que foi também objecto de remasterização e que inclui novas fotos e um booklet com novas  e interessantes considerações biográficas ; limitada a meio milhar de exemplares e intitulada “Early morning blues”, a presente colectânea de composições  chegou mesmo a ser considerada pela celebre revista Mojo como uma das melhores colecções de blues de todos os tempos!!!

Com gravações situadas entre 1926 e 1932 e divididas por Chicago, Richmond e Grafton o conteúdo do disco abrange várias áreas tais como o ragtime, o jazz e o blues propriamente dito e permite-nos a audição de importante material musical de um guitarrista e vocalista de eleição do mundo dos blues que com a sua música influenciou uma plêiade de outros cantores e instrumentistas e sem dúvida alguma marcou uma época de ouro dos blues!

CD Soul Jam/Distrijazz

 

THE BEST OF FADO

Colecção de discos de fado que já ultrapassou entre nós a apreciável soma de mais de 450.000 exemplares vendidos facto que a transformou de imediato na série de fado mais vendida até hoje em Portugal “The best of FADO –um tesouro português” teve recentemente editado mais um volume – o oitavo que a exemplo dos seus predecessores reúne  nada menos de 20 canções que fazem parte do valioso espólio da chamada canção nacional e muitos deles do imaginário de muitos de nós; o presente volume  integra algumas preciosas pérolas  da área musical tais como “Lisboa menina e moça” interpretada de maneira sublime por Carlos do Carmo, “ A casa da mariquinhas” na voz única de Camané, “”Quem vai ao fado” na voz do seu criador Jorge Fernando, “Bater do coração” na inconfundível voz de Fernando Maurício, “Saudade das saudades” na interpretação do grande Vicente da Câmara, “Meu amor de longe” por Raquel Tavares e “Nos dias de hoje” composição interpretada superiormente pelo gigante do fado que dá pelo nome de Ricardo Ribeiro, entre outros.

O disco abre com a voz da diva Amália Rodrigues na interpretação genial e  por vezes quase arrepiante do célebre “Barco negro” canção que acabaria por constituir um dos mais estrondosos sucessos da carreira da irmã da saudosa Celeste Rodrigues; e que melhor abertura poderia haver para um disco senão abrir com uma canção épica e verdadeiramente imortal? Um disco de colecção e não só!

CD Warner Music

 

AMÁLIA RODRIGUES

Em edição internacional da WaxTime acaba de surgir no mercado na versão vinil talvez o mais popular disco da diva Amália Rodrigues (1922-1999) – o célebre “Busto” desta vez com uma fabulosa fotografia da rainha do fado actuando ao vivo, da autoria de  Manuel Litron ( Paris Match -via Gelty Images) , que assim substitui na capa original a imagem do conhecido busto, famosa foto da autoria de Nuno Calvet  que na altura registou para a posteridade na sua câmara  uma bela escultura representativa da cara da fadista, obra da autoria do escultor Joaquim Valente ; uma replica deste busto, recordo agora, estava em lugar de grande destaque na casa de Alcochete do meu querido e saudoso amigo – o fadista João Ferreira Rosa, que grande admirador a apaixonado de Amália fazia questão de que fosse um dos mais icónicos objectos a ilustrar a sua linda e acolhedora residência do outro lado do Tejo…

A presente edição vinilica tem também a particularidade de  incluir como extras nada menos de seis canções  relativamente ao projecto inicialmente editado sob  a etiqueta Columbia  há precisamente  cinquenta e sete anos e registadas em Lisboa entre os anos de 1951 e 1958  tendo as composições da versão original sido superiormente registadas pelo saudoso e fabuloso técnico de som dos estúdios Valentim de Carvalho -Hugo Ribeiro em sessões no Teatro Taborda na capital portuguesa!!!

Assim, para alem de celebres canções presentes na edição original (que foi editado em 1962 e que continha apenas nove canções) tais como “Maria Lisboa”, “Povo que lavas no rio” ou “Abandono” a presente edição proporciona-nos o sempre imenso prazer da audição de novas versões de  vários outros sucessos mundiais da diva tais como “Barco negro”, ”Foi Deus”, “Uma casa portuguesa”, “Ai Mouraria”, “Coimbra”( em algumas latitudes também conhecida como “Abril em Portugal”) e  “Solidão”( que muita gente identifica também como “Canção do Mar” e que na versão de Dulce Pontes integrou a  banda sonora de uma famosa película cinematográfica  protagonizada e estrelada pelo famoso Richard Gere).

Obra  de grande envergadura vocal, com Amália, absolutamente genial e no melhor  da sua forma interpretativa, “Busto” tem também a particularidade de presentear os ouvintes com a presença do grande Alain Oulman ao piano em duas das composições na edição original , isto para além da omnipresença de José Nunes(guitarra portuguesa) e Castro Mota (guitarra clássica espanhola); nas canções extra surgem como executantes algumas das mais relevantes figuras do fado tais como Santos Moreira, Domingos Camarinha, Frederico Valério e o inesquecível professor  da guitarra portuguesa de fado mestre Raul Nery.

Uma obra-prima que é simultaneamente intemporal e imprescindível em qualquer boa discoteca de fado…

LP WaxTime/Distrijazz

 

FLAMENCO PASSION

As texturas, o colorido, toda a força, calor e cambiantes de um ritmo espanhol alucinante que desperta diferentes sentimentos e emoções reunidos num disco soberbo:- o album “Flamenco passion” onde através de sete diferentes artistas (La Jose /Vasco Hernandez/Los Alhama/José Luís Monton/Rafa el Tachuela/Hossam Ramszy  e Grupo Macarena ) se propõe uma viagem pelo mundo  apaixonante, sensual mas por vezes conturbado e bem caliente do flamenco espanhol.

Uma cuidada selecção de 14 composições, algumas cantadas, outras somente de índole instrumental que vão desde o mais tradicional até às novas (algumas vezes discutíveis) propostas e horizontes , numa variedade de estilos e ritmos, onde paixão e aventura temporal se cruzam em sonoridades por vezes surpreendentes e calorosas.

Flamenco absolutamente visceral na interpretação de alguns artistas menos evidentes da conhecida cena musical espanhola, mas que apesar de tudo podem perfeitamente ombrear com os mais populares em questões de qualidade…

CD ARC Music/Megamúsica

 

WOODSTOCK- 50th Anniversary

Para os “amigos de Alex” e para os apreciadores da riquíssima  música pop/rock das décadas  de 60 e 70 parece que foi ontem que se realizaram os grandes e míticos festivais de música rock que para além de movimentarem milhares de pessoas ficaram também indelevelmente direccionados para a história da musica popular  especialmente o da Ilha de Wight e o de Woodstock, ambos de boa memoria e regidos sob a pacifica sigla da flower generation de “peace, love & music”…

E faz precisamente agora meio século que se realizou o primeiro dos certames de Woodstock, possivelmente o mais importante acontecimento musical do século 20 em que participaram  os mais conhecidos artistas de então; em comemoração dessa efeméride publicam-se agora várias  edições, e entre elas está um triplo CD contendo uma série de brilhantes actuações, algumas mesmo memoráveis, que mais não foram senão testemunhos fieis da grandeza musical de muitos dos intervenientes com destaque para nomes como Janis Joplin, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, The Who, Tim Hardin, Crosby, Stills & Nash (em trio e em quarteto com a entrada posterior do icónico Neil Young), Santana, Ten Years After, Canned Heat, Jefferson Airplane, Blood, Sweat and Tears, etc. que ali assinaram algumas das mais brilhantes e  inesquecíveis páginas da sua vida artística.

Pena que neste triplo projecto não figure nenhuma das magistrais actuações do mítico Jimmy Hendrix talvez a mais insigne personalidade musical que tocou e positivamente “incendiou” Woodstock; de qualquer modo essa lacuna não retira qualidade ao projecto  que para além dos três discos compreende ainda  uma totalidade de 42 faixas e um booklet de 24 páginas contendo fotos raras e muita memorabilia.

Esta publicação abre  simultaneamente o apetite para uma edição especial do festival, que ao mesmo tempo se edita, contendo 10 CDs com nada menos de 162 gravações e  que compreende actuações de todos os intervenientes do certame mas  onde também, incompreensivelmente, vamos encontrar apenas três gravações  ao vivo de Jimi Hendrix, retiradas de um total de duas horas que durou a sua inesquecível e extraordinária performance !!!

3CDds Cotillion/Rhino/Warner Music

 

MEDITERRANEAN

Uma viagem de sonho e absolutamente  intemporal por dois continentes na zona do Mediterrâneo ao som das mais belas e fascinantes sonoridades, despertando sensações, emoções e prazeres; trata-se de “Discover music from the  Mediterranean”, uma autentica bíblia musical no domínio da world music de grande profundidade cultural e musical que une gerações, identidades sonoras e geográficas e nos possibilita paragens musico-etnicas de eleição em locais tão belos quanto diversos como são o Egipto, a Líbia, Itália, Turquia, Grécia, Marrocos, Croácia, Síria, Tunísia, Bósnia-Herzegobina, Algéria, Líbano, Albânia, Espanha, Israel, França, Sardenha e Líbano…

Um disco de sonoridades e propostas musicais sedutoras, vibrantes e culturalmente profundas que conquista à primeira audição e por isso mesmo constituiu o exemplo perfeito de uma compilação feita com conta peso e medida por quem efectivamente sabe do assunto e por isso mesmo se recomenda sem reservas!    

CD ARC Music/Megamusica

 

MARIA BETHANIA & ZECA PAGODINHO

É sem dúvida uma colaboração surpreendente, ou talvez não, a  que juntou para espectáculos a mais famosa cantora baiana Maria Bethânia com o impagável e sempre divertido sambista Zeca Pagodinho, infelizmente em Portugal sem o estatuto de grande estrela que indubitavelmente alcançou desde há anos no país verde-amarelo; a digressão e consequente projecto discográfico e videográfico que dela resultou recebeu o titulo de “De Santo Amaro a Xerém”, título que teve muito a ver com a terra natal da irmã  de Caetano Veloso (Sto Amaro) e com a zona fluminense em que Zeca se instalou (Xerem).

O show acaba por ser uma visita (vocalmente soberba) ao reportório mais conhecido de cada um dos intervenientes embora nos ofereça também algumas novas propostas e resumidamente tenha acabado por transformar-se numa verdadeira homenagem ao samba, afinal de contas o ritmo que faz mexer e balançar o Brasil mais popular…

De “Você não entende nada” a “A voz do morro” passando por “Vai vadiar”, “Coração em desalinho”, “Cotidiano” , “Oração de S. Jorge”, “Negue”, “Desde que o samba é samba”, “Deixa a vida me levar”, “Chão de estrelas” ou “Gente humilde” um pouco do reportório de cada uma das vozes lá está para deleite dos milhares de fans e dos admiradores da MPB em particular; um espectáculo  que é simultaneamente , para além de uma sentida homenagem ao samba um projecto vitorioso e uma página brilhante na carreira de dois dos mais famosos e consagrados cantores brasileiros da actualidade, que alguns promotores portugueses bem  se poderiam abalançar  trazer juntos até este outro lado do Oceano Atlântico!

A gente agradecia, com uma vénia e um …muito obrigado, restando agora somente esperar para se saber se o DVD com o show  terá honras de edição entre nós ou se infelizmente, e a exemplo de muitos outros anteriores, será pura e simplesmente ignorado e lançado para o rol do esquecimento…

2CDs Biscoito fino/Distrijazz

 

FERNANDO CUNHA

Quem não conhece  o nome de Fernando Cunha, um dos proeminentes elementos do projecto Resistência ( felizmente ainda por aí a agitar as ondas de tempos a tempos)e front man  e guitarrista dos extintos, sempre importantes e até mesmo por vezes idolatrados -Delfins, de boa memoria, que desde há 30 anos atrás vem fazendo as delícias de parte da juventude portuguesa consumidora de música pop em português?

E é este mesmo guitarrista/compositor, há muito confesso admirador da obra de Fernando Pessoa, que agora, 20 anos volvidos sobre a sua estreia a solo, resolveu dar mais um passo em frente aventurando-se na feitura de um novo disco, que ele próprio confessa ser um trabalho de reflexão pois permitiu-lhe lançar um consciente olhar para trás, para a sua vida quer em termos de legado dos Delfins( aqui revisitados), quer em questão de inspirações e especialmente de gostos pessoais.

Sentindo necessidade absoluta de “dar palavras e voz” a algumas novas composições instrumentais de sua autoria, avançou assim para uma espécie de nova viagem musical, fazendo questão no entanto de não abandonar a sua constante procura de outras sonoridades e apesar de não se considerar um vocalista na verdadeira acepção da palavra o que é certo é que a sua voz se moldou na perfeição às palavras que decidiu cantar, dando-lhes assim um cunho mais intimo e pessoal e por isso mesmo também mais intenso, mais profundo, mais acentuadamente sentido, expressivo e perfeccionista…

“A guitarra a tocar” assume-me assim como um  belo projecto, apesar de tudo bem arriscado, especialmente nesta altura em que as edições discográficas perdem força e fulgor (convenhamos que as editoras há muito contribuíram para isso tirando o pé do acelerador ao desinvestirem em artistas e edições), mas contra ventos e marés Fernando Cunha, em cumplicidade com a Uguru, aí está de novo a tentar levar a água ao seu moinho arriscando, ousando, propondo e especialmente acreditando no seu trabalho e no seu próprio valor levando a sua voz, juntamente com a sua fiel companheira- a guitarra, ornamentadas pelas palavras que escolheu, a palcos nacionais ao mesmo tempo que nós todos, os pagantes de impostos e vários e escandalosos desmandos bancários, vamos assistindo no camarote do desespero ao quase desnorte, insensata ceguez, total indiferença, prepotência e até consciente omissão quer de rádios, quer de canais televisivos nacionalizados, nossos, portanto pagos por todos nós portugueses, que pura e simplesmente vão ignorando e  criminosamente silenciando muito do que por cá se vai editando em termos de musica portuguesa nas  mais diversas áreas, numa verdadeira atitude de lesa cultura; apesar de tudo ouvinte radiofónico fiel, nenhuma das rádios nacionais me proporcionou até hoje e desde o seu lançamento a alegria e o prazer de ouvir um tema só que fosse de um disco como o presente trabalho de Fernando Cunha; e ele bem o merecia pois  fez um disco soberbo, recheado de grandes e inspiradas canções, oito delas originais, bem cantado, tocado com  eficiência e profissionalismo e muitas vezes com certo brilhantismo, de que os meus amigos, infelizmente já desaparecidos do nosso convívio mas sempre presentes – Pedro e Phil Mendrix iriam gostar imenso e até mesmo de nele certamente terem participado.

Obra de assinalável envergadura musical, teve como produtor o próprio Fernando Cunha e no seu naipe de convidados, a compor e a tocar, gente de grande gabarito como Pedro Ayres Magalhães, Miguel Ângelo, Amélia Muge, Paulo Pedro Gonçalves, João Gomes, João Cabeleira, Flak, Tó Trips, Mário Delgado, João Alves, Gary O´Toole (baterista da banda do ex-Genesis -Steve Hackett), Jonathan Miller  e…Fernando Pessoa, entre outros  que, cada um à sua maneira, contribuíram para a qualidade, textura e intensidade sonora de um disco que se afirma como uma das melhores e mais sólidas propostas do pop/rock em português dos últimos tempos… 

CD Uguru

 

VISIONS OF IRAQ

A música antiga do  Médio Oriente e a árabe em geral especialmente as  suas  belíssimas e extraordinárias sonoridades  sempre foram ao longo dos últimos anos objecto de profundo estudo e despertaram um desmedido interesse não só aos melómanos em geral, mas também aos estudiosos de etno-musicologia que a ela tem dedicado  uma atenção especial tanto mais que as suas origens remontam na maior parte das melodias de há séculos atrás e por isso mesmo despertam um interesse fora do comum pela sua ancestralidade, beleza, nuances e exotismo…

Por isso mesmo qualquer edição discográfica que surja e se enquadre nesta área é motivo de invulgar acompanhamento critico e biográfico e claro, de grande curiosidade, quer se trate de artistas a solo ou ensembles; é o caso concreto de “Visions of Iraq” que recentemente apareceu nos escaparates europeus  e nos transporta para outras latitudes sonoras e rítmicas através do exemplar desempenho instrumental de um predestinado musico  que dá pelo nome de Ahmed Mukhtar, um  verdadeiro mestre do alaúde, de elevada craveira que pode ser equiparado em termos de técnica ao libanês Rabih Abou-Khalil , um nome já familiar dos portugueses não só pela sua alta craveira de impar executante como também face à quantidade de discos que a sua editora- a famosa Enja já dele editou, como também pelo seu extraordinário trabalho com o grande Ricardo Ribeiro, figura maior do nosso fado que com ele já editou a obra-prima “Rabih Abou-Khalil em português” em que o alaúdista libanês acompanhado pelo seu habitual naipe de instrumentistas dá suporte instrumental à fabulosa voz do fadista português aqui e sempre um inspirado cantor de ilimitados recursos…

Nascido em Baghdad , Ahmed Mukhtar é um multi-instrumentista renomado e este seu trabalho, gravado em plena Igreja de St. Augustine na capital londrina, onde surge acompanhado por um fantástico naipe de grandes instrumentistas, é a prova mais evidente da sua versatilidade e virtuosismo pois ao longo dos onze temas que compõe o projecto dá não só mostras disso como também se assume acima de tudo como um prodigioso executante dando assim ainda mais brilho às composições já de si verdadeiramente fascinantes, deixando-as na gravação respirar e criar um espaço próprio acrescentando no entanto a uma tradição e cultura musicais com séculos de existência uma personalidade musical única, própria e intemporal !!!

CD ARC Music/Megamúsica

 

CARLOS DO CARMO

Nome incontornável do fado em Portugal Carlos do Carmo celebra este ano, mais precisamente a 21 de Dezembro próximo, nada menos de 80 anos de idade, bonita celebração com que resolve abandonar os palcos e cerrar fileiras que o mesmo será dizer terminar de vez com uma espantosa carreira artística que lhe granjeou  os mais variados prémios, honrarias e comendas e o levou a viajar e actuar nos quatro cantos do Globo ao mesmo tempo que continuava a gravar os seus discos e a ilustrar vocalmente muitos outros discos de artistas a quem não sabia dizer “não” e com quem com grande generosidade sempre assim colaborou como convidado especial; em jeito de homenagem, de comemoração e retrospectiva também, a sua editora resolveu lançar agora em formato especial um quadruplo disco contendo nada menos de 80 canções (uma por cada ano de idade do cantor) onde a tarefa mais difícil será encontrar-se alguma das suas interpretações que não tenha sido êxito embora como facilmente se compreenderá algumas tenham obtido mais popularidade e sucesso que outras…

De “Lisboa menina e moça” a “Balada para uma velhinha”, passando por “Canoas do Tejo”,“Bairro Alto”, “Duas lágrimas de orvalho”, “Por morrer uma andorinha”, “Sou da noite” ou “Estranha forma de vida” de tudo um pouco se pode encontrar em “Carlos do Carmo Oitenta”   fabulosa antologia de um fadista com uma carreira impar, um artista verdadeiramente intemporal que o tempo, a história e os livros se encarregarão daqui a uns anos de  tornar imortal e que irá também despedir-se dos palcos por isso mesmo, consequentemente do seu publico, também  a 2 e 9 de Novembro próximo com concertos já  marcados para Porto e Lisboa respectivamente!

4CDs Universal Music

 

RITA JOANA

Constitui  talvez o disco mais estranho e menos esperado do panorama discográfico português e por isso mesmo também o mais curioso e o que desperta os sentimentos mais desencontrados e contraditórios dos últimos anos ; por isso mesmo é ainda mais incrível que uma voz de menos de quarenta anos de idade, autora e compositora de  origem coimbrã, tenha tido a coragem, e porque não dizer mesmo arrojo, de levar por diante um projecto bem carismático e imaginativo sobre o universo do cinema mexicano, seus actores, símbolos e derivados de um panorama cultural e musical que afinal transcende gerações, aglutina gostos e sensações e acima de tudo parece actualmente deslocado e fora de época especialmente se se pensar que  hoje em dia os gostos, preferências e surpreendentes universos musicais estão noutros patamares

( alguns bem discutíveis ) e não se coadunam de forma alguma com os gostos específicos de quem vivenciou o período situado entre os anos 40 e 60 quando vários actores de cinema e cantores mexicanos davam cartas um pouco por esse mundo fora brilhando como estrelas de primeira grandeza e a língua espanhola fazia escola e se popularizava pouco a pouco, sorrateiramente,  em palcos e salas de cinema…

Recorde-se que o brilho desse verdadeiro apogeu e esplendor chegou em 1946 quando Maria Candelária ganhou como actriz o grande prémio do Festival de Cannes de então!

Disco evocativo de sentidas, profundas e gratas recordações e prazeres e ao mesmo tempo simultaneamente de homenagem à estética e ao romantismo de alguns consagrados autores e cantores de uma época de ouro que conquistou grandes e diversas audiências um pouco por todo o mundo, o projecto homenageia essencialmente  um espaço de tempo que é infelizmente tão injustamente ignorado entre nós onde só estão na lembrança de alguns quantos algumas grandes películas protagonizadas por Pedro Infante, Luís Aguilar, Dolores del Rio ou Jorge Negrete e como é evidente para  maiores de 50 anos também merecem referência especial as fabulosas interpretações e filmes de grande sentido politico e de critica social do grande Mário Moreno, vulgo Cantinflas (1911-1993) que para alem de merecerem  relevância despertam também saudades ; a cena cinematográfica mexicana ( que até chegou a integrar o grande Luís Buñuel) e suas múltiplas facetas são muito mais ricas e de muito maior qualidade do que muita gente pensa ( se calhar levadas a isso pela discutível qualidade das horríveis novelas de TV mexicanas )e  por isso mesmo “El cine” de Rita Joana tem tanto de curioso como de particularmente interessante e histórico tanto mais que reflecte convicções, desejos e paixões da própria artista coimbrã que admiradora incondicional de saudosos artistas espanhóis como Sara Montiel, Marisol ou Joselito chega a surpreender-nos pela positiva em  certas interpretações e embora sem o particular tom natural gutural da voz, a lembrar-nos a divina Lila Downs, indubitavelmente a grande figura feminina da actual cena musical mexicana uma vez que já partiu a grande rainha  Chavela Vargas!

Com  a participação vocal de gente como Celina da Piedade, Susana Travassos, Luanda Cozetti e Miguel Calhaz que ajudaram a elevar o índice qualitativo do disco, há que destacar também a escolha criteriosa das composições que assim permitem que tenham, uma nova vida canções eternas como “”Pa´todo el año”, “Malagueña” salerosa”, “No volveré”, “Mi segundo amor”,” La media vuelta” ou “La noche de tu partida” para as quais um selectivo numero de instrumentistas criou a cama ideal para, tanto anos volvidos, as fazer brilhar intensamente de novo desta vez na voz de Rita Joana uma nóvel cantora que mais que uma bela e agradável surpresa acaba por revelar-se uma artista de certa estatura interpretativa a merecer  voar mais alto ainda tanto mais que a inesquecível e sedutora viagem que nos propôs agora nos abriu o apetite por outras novas etapas musicais latinas seja de novo pelo México seja por outras latitudes de língua castelhana; pela Espanha  de Sara Montiel por exemplo…

CD Ponto Zurca/ apoios:- Embaixada do México em Portugal e Casa da América Latina em Lisboa

 

CAETANO VELOSO

Na sua saga de reposição de discos fundamentais da MPB, apresentando-os desta vez sob a forma de edições especiais, digitalmente remasterizadas e de edição limitada a somente quinhentos exemplares, a Elemental  Music propõe-nos agora duas pérolas discográficas do menino da Baía -o grande Caetano Veloso; tratam-se desta vez do terceiro disco a solo da carreira do irmão de Maria Bethânia intitulado com o nome do próprio artista – “Caetano Veloso”, o seu primeiro trabalho gravado em Londres em 1971 onde vamos encontrar pela primeira vez as versões completas de “A little more blue” e de “Maria Bethânia”  que na altura foram encurtadas e censuradas no Brasil para alem do imortal “Asa branca”e o chamado “White álbum” ou  “Irene” como também é conhecida esta verdadeira obra-prima que nesta edição especial comemora 50 anos sob a data do seu lançamento inicial e onde podemos encontrar e recordar belas canções verdadeiramente icónicas como são sem dúvida “Irene”, “Carolina”, “Cambalache”, “Os argonautas”, “Atrás do trio eléctrico”, etc.

Dois discos fundamentais na discografia de um dos maiores e mais geniais cantautores da MPB.

CDs Elemental Music/Distrijazz