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Escolhas do João Afonso Almeida

PATXI ANDION

-o “português” que veio de Espanha

“…quedan los vientos suspendidos como las hojas de los calendários, rendidas.” (in  livro “Breverias” de Patxi Andion”)

Precisamente na altura em que se aproximavam do fim  as comemorações musicais de meio século de carreira artística iniciadas com uma série de concertos europeus , três deles em Portugal ( Águeda, Lisboa e Porto ) e com o lançamento do disco “La hora lobican” que brevemente culminariam, no inicio de 2020, com o lançamento do segundo capítulo discográfico dessas mesmas comemorações- o álbum “Profecia”, eis que de repente nos chega da vizinha Espanha a cruel noticia da trágica morte, numa estrada de Soria, de Patxi Jozeba Andion Gonzalez, artista espanhol mais conhecido por Patxi Andion, madrileno de nascimento e basco por adopção pessoal, embora nos últimos tempos ele próprio afirmasse, em entrevistas televisivas ( “Inesquecível” de Júlio Isidro por exemplo), de imprensa e de rádio em Portugal que já estava com sérias dúvidas se não seria mais português que espanhol; um homem que, cantando, se estreou entre nós no longínquo ano de 1969 no programa de televisão “Zip-zip” da célebre “trindade”- Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz ( foi nessa altura nos bastidores do programa que eu próprio lhe tirei a única foto que ele tinha com Zeca Afonso figura que admirava e a quem homenageou através duma pequena  série de concertos em Portugal a que chamou “ Com Zeca no coração”) e acabou por ligar-se indelevelmente ao nosso país de uma maneira quase umbilical, e de tal forma, que há tempos chegou a titular um artigo de opinião num conhecido periódico espanhol (jornal Republica 1-Junho-2017) onde semanalmente assinava uma coluna de opinião, e por causa de uma série de coisas com que não concordava em Espanha, da seguinte forma:-  “… menos mal, que nos queda Portugal!”.

O seu sucesso entre nós era tal que ao longo dos anos quase sempre esgotou as lotações das salas em que se apresentava ao vivo e onde as suas canções/palavras obtinham um grande impacto e sucesso não só de vendas, mercê de sucessivas edições discográficas, mas de popularidade também; quem não recorda, com nostalgia e saudade, por exemplo em programas radiofónicos, especialmente nos de discos pedidos de mega-êxitos como “20º aniversário (palabras)”, “33 versos a mi muerte”, “Padre”, “Samaritana”, “Con toda la mar detrás”, “Cancion para un niño en la calle”, ”Nos pasaran la cuenta”, ”La casa se queda sola”, “Compañera”, “Canela pura”, “El maestro”, “Despierta niño”,“Una, dos y três” ou mais recentemente “Maria en el corazon” ou “Es tan difícil dejar de pensar”?

Pois foi este mesmo Patxi Andion, pai de três filhos- Jon, Iñigo e Marco, marido extremoso e apaixonado de Glória Monis, de ascendência açoriana, professor jubilado de sociologia na Universidade de Castilla-la Mancha, compositor, músico, poeta, escritor, o exilado politico em Paris no Maio de 68 e acérrimo lutador anti-franquista e em Portugal o perseguido pela sinistra policia política- PIDE-DGS,  que por três vezes o mandou colocar na fronteira em Badajoz sem dinheiro, nem passaporte (quiseram mandá-lo embora e ele sempre voltou! Quiseram calá-lo e ele sempre gritou!!!) que agora desapareceu tragicamente do nosso convívio e foi também, e durante o interregno voluntário de onze anos na carreira musical, o actor bem sucedido em series de televisão e de cinema, área onde protagonizou varias películas tais como “Assassinato no comité central”, “La otra alcoba” ou “El libro de buen amor”…

Recordo também  Patxi Andion como um apaixonado do desporto-rei e como um fiel adepto e sócio com lugar cativo no Wanda Metropolitano , novo recinto do Atlético de Madrid, onde a seu convite vi vários jogos dos “colchoneros”e o fervoroso simpatizante do Benfica, em cujo Estádio da Luz assistiu a algumas partidas a meu convite e que tinha como referência máxima em termos futebolísticos o nosso “King”- Eusébio; o cantor espanhol foi ainda também um amante e um experiente caçador, especialmente na vertente da caça grossa (na sua casa medieval de Toledo várias dependências e escadarias estão ornamentadas com o resultado final, em forma de troféus, de algumas grandes caçadas, nomeadamente  em África) e o admirador incondicional do nosso Fernando Pessoa e da diva Amália, ambos presentes sob a forma de desenhos, caricaturas, recortes e fotografias numa das paredes da mesma casa de Toledo, que agora, mais que uma valiosa mansão medieval, se constitui como um autêntico museu de saudade e recordações pessoais de um artista admirável que periodicamente se servia da sua poesia e da sua música para acariciar as almas dos seus milhares de admiradores.

Para além de tudo isto, o patriarca da família Andion foi também, e fundamentalmente, reconhecido como um intérprete inspirado e criativo (o grande Ary dos Santos que tinha grande admiração por ele chegou a fazer letras para quatro canções que Tonicha acabou por gravar), corrosivo, inspirador, terno, por vezes profundamente sentimental, filósofo, contundente critico social e político, não se podendo esquecer também ainda, e aqui no plano teatral, a imortal figura a que deu vida nos palcos castelhanos- a de Ernesto “Che” Guevara na versão  espanhola da peça “Evita”, e ainda o humanista pensador e também o  compulsivo coleccionador de largas dezenas de navalhas/canivetes existindo mesmo na entrada da mesma casa de Toledo um enorme móvel, chamado “mesa João Afonso”, nome que lhe atribuiu em minha honra e às dezenas de canivetes, alguns bem antigos e raros, que ao longo dos anos lhe fui oferecendo a maioria deles adquiridos em inúmeras feiras de velharias portuguesas espalhadas um pouco por todo o país.

Pois este mesmo cantor madrileno, de inegável fascínio e charme, por vezes caustico e muitas irónico (“…a ironia é uma forma de despertar a intranquilidade na mente das pessoas…”), regressou no principio deste ano aos estúdios e consequentemente aos discos de originais para, através dos dois atrás citados projectos, comemorar nada menos de cinco décadas de actividade artístico/musical um pouco por todo o Mundo, qual globetrotter das canções; no primeiro deles, editado em Setembro passado- “La hora lobican” reuniu uma mão cheia de brilhantes composições compostas e escritas por ele próprio exceptuando-se “Vaga no azul amplo, solta” uma melodia do próprio artista para um belíssimo poema de Fernando Pessoa, que já havia surgido no disco “Para além da saudade” de Ana Moura ( ´cuja produção executiva foi de minha responsabilidade, tendo partido de mim também a iniciativa de o desafiar para nele participar como autor e como interveniente acabando a protagonizar um fabuloso dueto com a fadista lusa); o novel álbum dava assim continuidade a uma linha de composição muito própria e pessoal constituindo-se como um trabalho de grande envergadura melódica e vocal preenchido por dez novas pequenas pérolas musicais da música de autor aqui com a chancela de um compositor absolutamente brilhante e intemporal que seguia na altura cantando melhor que nunca, com a magnificência da sua voz rouca e profundamente visceral, envolvida por um magnetismo pessoal evidente e acima de tudo fazendo-o a caminhar de mãos dadas com o futuro, e rumo a ele, ao sabor da sua inquestionável  e habitual exigência literária e musical, porém, inovando sempre e cada vez mais e mais.

Mal ele sabia porém que a vida, madrasta e traiçoeira, qual cobra/anaconda em busca de presa desprevenida, haveria de dali a poucos meses lhe pregar uma grande partida, levando-o de repente do nosso convívio sem aviso prévio, deixando-nos assim órfãos, sós, tristes, amargurados, profundamente desolados, revoltados…

Ainda no capítulo da música portuguesa recordo que fui eu quem há cerca de meio século também lhe “apresentou” o para ele quase desconhecido fado através de uma figura incontornável – ti António dos Santos que na altura actuava no conhecido  restaurante “Poeta” em Alfama, fadista com quem os dois fizemos sólida amizade e que acabou por tornar-se aos poucos um parceiro privilegiado de épicas noites etílicas!!!

Foi inclusivamente num dos nossos encontros a três que ouvi ti António a dizer uma frase que me ficou na memória para sempre e Patxi sempre gostava de citar, e tem a ver com frequentes noites de copofonia:- “…nunca trates mal um bêbado; ensina-lhe é o caminho para o bar mais próximo!!!”

Curiosamente e porque me tinha tornado, por exigência do próprio Patxi Andion, um dos seus colaboradores efectivos, tendo também passado a representá-lo em todas as suas actividades  no nosso país e quando recentemente em sua casa de Madrid começámos a idealizar e fazer planos para um novo disco de originais, para ser posto no mercado mal terminassem as festividades do tal meio século de actividade artística, o cantor aventou a hipótese de pretender gravar em 2020 aquele que, segundo a sua ideia inicial, seria o mais português dos seus discos, ele que já contabilizava no currículo pessoal mais de quinhentas composições de sua autoria!

Para isso pretendia não só cantar um outro tema de António dos Santos, como aliás vinha fazendo habitualmente nos seus concertos interpretando “Minh´alma de amor sedenta”, uma das composições que, fazendo parte do habitual tracklist dos shows, acabou naturalmente por estar presente no disco ao vivo “Quatro dias de Mayo” que teve origem numa das mais recentes digressões portuguesas, mas também chamar para participar em futuro projecto a voz número um do fado no masculino – Ricardo Ribeiro, bem como os artistas que com ele colaboraram no projecto de palco “Com Zeca no coração”- Amélia Muge, Carlos Alberto Moniz, João Afonso, sobrinho do Zeca e José Barros bem como o meu irmão açoriano Zeca Medeiros e ainda Jorge Fernando e Custódio Castelo, que já haviam também participado no citado disco de Ana Moura onde está o dueto.

Ainda no capítulo português na vida do cantautor espanhol, refira-se que a SPA lhe concedeu o ano passado a medalha de honra, entregue pelo presidente José Jorge Letria numa cerimónia especial, galardão, ao que se sabe, só anteriormente entregue a um outro artista estrangeiro – Jean Michel Jarre  por outro lado era conhecida a sua especial apetência por bacalhau, peixe que eu, em jeito de brincadeira, costumava dizer ele gostava tanto de o saborear que era capaz de o comer ao pequeno almoço, almoço e jantar (o Restaurante Laurentina era o seu porto de abrigo habitual para as lautas refeições), sendo até normal que aquando do seu regresso a casa ir de vez em quando carregado de embrulhos do fiel amigo, algumas das vezes bacalhau de cura amarela…

A sua ligação pessoal e sentimental com Portugal era tão grande, e de tal modo isso era já do conhecimento geral, que agora, um dia após a sua morte, alguém colocou na porta da sua casa de Toledo um cravo vermelho!!!

E como ele se identificava com o 25 de Abril; e isso era tão evidente que ainda recentemente, e aquando das comemorações dos 45 anos da revolução dos cravos, veio voluntariamente, sem nada cobrar, nem as viagens sequer, para participar no espectáculo no Coliseu dos Recreios onde a data foi assinalada; curiosamente os dois últimos autógrafos que deu foram até por solicitação minha na sua casa de Madrid, nos  dois últimos discos editados destinados ao coronel Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril!!!

Sendo um artista consensual agradava tanto ao público, fossem jovens ou pessoas menos jovens, como aos próprios colegas artistas não sendo por isso de admirar que Pedro Barroso, um seu admirador incondicional há muitos anos já, me tenha pedido para interceder junto dele para gravarem um dueto naquele que provavelmente será, face à sua maldita doença, o último disco da sua carreira, tendo Patxi Andion acedido de imediato; e ainda bem que mediei esse pedido pois o resultado acaba por ser uma belíssima canção, absolutamente arrepiante no sentido lato da palavra, uma composição (“Que rumos?”) que estará em breve incluída no disco “Novembro” que, por ironia e obra do destino, vai acabar por constituir afinal para os dois intervenientes “ a apoteose musical e poética de duas brilhantes carreiras”!!!

Para finalizar reconheço que eu e o Patxi, que começamos por nos conhecer nos distintos papéis de artista e promotor discográfico, tínhamos no entanto uma enorme afinidade a todos os níveis e não sendo irmãos de sangue, sempre nos consideramos um ao outro como tal, pois uniu-nos sempre uma amizade e cumplicidade sem limites e um amor fraterno, forte, sincero e …visceral, um amor que nunca vi existir entre alguns irmãos de sangue que conheço…

Por isso Patxi: – obrigado por teres existido e por me teres permitido ser o teu irmão!!!

João Afonso Almeida

Em período natalício proponho a todos nesta altura uma série de bons discos recentemente editados no mercado nacional que vão desde a world music à clássica passando pela musica popular portuguesa, o jazz, os blues, o fado ou a musica brasileira, propostas essas que variarão consoante o gosto pessoal dos ofertantes ou o dos contemplados mas  uma certeza tenho:- constituirão belas prendas de Natal que certamente todos os contemplados apreciarão…

 

COMPANHIA DO CANTO POPULAR

Foi preciso esperar-se pelo final do ano para se ser surpreendido por um projecto impar e transversal da música portuguesa que para além de constituir uma verdadeira “pedrada no charco” no que à música de raiz tradicional/popular diz respeito vem também confirmar que afinal de contas a MPP continua viva, apesar do “ruidoso” silêncio que se vem sentindo desde há tempos a esta parte, com o desaparecimento de alguns grupos e  artistas a solo e o incompreensível silêncio, diria quase criminoso e de lesa cultura, por parte das editoras majors, as tais que deveriam ter pelo menos mínimas obrigações culturais e musicais e positivamente mandam às malvas as “obrigações” morais de defender e promover a música de raiz tradicional no mínimo editando alguma da musica cantada na língua de Camões e conotada com a MPP que lhe vai sendo proposta para gravar por alguns artistas e/ou grupos; porém, pura e simplesmente ignoram-na e deixam mesmo de se interessar por ela e salvaguardando alguns poucos casos pontuais, vão deixando esse papel e a enorme responsabilidade da edição e divulgação nas mãos de alguns carolas e às pequenas editoras que de vez em quando com maior ou menor dificuldade lá vão levando a água ao seu moinho continuando timidamente a publicar discos e alguns projectos temáticos que depois posteriormente sofrem para obter algum apoio por parte dos media nacionais; é o caso por exemplo de José Moças (Tradisom), Uguru,  Joaquim Balas (Ocarina), Nuno Rodrigues (CNM), Ovação, Samuel Lopes (Seven Muses) ou dos Sons Vadios  que assim com o seu esforço e labor vão apostando no escuro permitindo que desse modo a música popular portuguesa vá continuando viva e vá…sobrevivendo!

Não é impunemente que cada vez mais há edições de autor, isto é artistas que pagam do seu próprio bolso a gravação dos seus trabalhos, que posteriormente entregam para distribuição, muitos deles na tentativa de com a edição do disco conseguirem alguns espectáculos ao vivo que de outro modo dificilmente angariariam; recordo até aquilo que o saudoso José Mário Branco, que infelizmente recentemente nos deixou, disse há tempos numa entrevista:-“… antigamente faziam-se concertos para se venderem discos, hoje em dia fazem-se discos  para se conseguir arranjar concertos; e até por isso mesmo, costumo dizer:- não nos peçam bilhetes para os espectaculos porque isso é a única coisa que nós ainda vamos tendo para vender!!!”

A juntar a todas estas dificuldades também a maioria das rádios deste país à beira-mar plantado,  com  honrosa excepção de alguns programas da Antena 1 (Alô Armando Carvalheda) e da Rádio Amália, pura e simplesmente ostraciza a música portuguesa de cariz popular e vai-se “entretendo” e poluindo as mentalidades dos ouvintes com as famigeradas e sempre naucoteantes playlists em língua estrangeira, “esquecendo-se” de divulgar como seria lógico toda a riqueza musical não só de Portugal mas também de outras importantes áreas musicais como as músicas do Mundo, a country music, o jazz, o kraut rock alemão, os blues, etc.

Mas voltando à escolha com que abri o texto desta proposta  é de facto de festejar o aparecimento de um novo projecto musical, no caso presente do disco “Rebento” da autoria da Companhia do Canto Popular que face à sua qualidade intrínseca constitui uma espécie de eclosão de magma sonoro, uma  autêntica epopeia musical, como se fosse um adormecido vulcão que de repente  entrou em erupção!

E que erupção musical meus senhores, tal a envergadura do trabalho que agora nos é apresentado, as propostas que o grupo de músicos nos propõe à audição e à altíssima qualidade de que o projecto se reveste quer seja avaliado a nível vocal, sonoro ou instrumental, afinal de contas predicados de excelência que resultam das inúmeras vivências musicais, traquejo, experiencias e de muita, muita estrada presentes no curriculum de qualquer um dos membros integrantes do projecto e que em comunhão de ideias, formas e  influências acabam por parir um disco fabuloso, que se constitui sem sombra de dúvida como o melhor disco em português do ano que vai em breve terminar; por isso mesmo é hora de festejar, chamando todos para a festança, porque na verdade este disco é uma festa, um arraial de alegria, virtuosismo e inspiração!

Um disco brilhante, notável e apelativo que nos chega com uma força vocal e um colorido instrumental verdadeiramente telúrico, onde sob a batuta do grande Tó Pinheiro da Silva na produção sonoplasta, nove músicos, juntaram ideias, saberes, estruturas pessoais e conceitos e  se associaram numa espécie de ensemble assumindo-se como verdadeiros alquimistas, se divertiram e certamente deleitaram quando ouviram o resultado final do seu labor, construindo musica da mais alta qualidade, revisitando  vocalmente belas composições do nosso património cultural/musical e dando-lhes  no entanto através duma nova leitura, uma outra vertente musical/vocal e uma  envergadura melódica soberba através da busca de  novas sonoridades e ritmos e cuja audição gradual dos sucessivos temas me traz à lembrança a  força de um rio indomável, que vai ganhando cada vez mais caudal à medida que os afluentes vão contribuindo com a sua quota parte para a força da correnteza que transporta desde a nascente até ao…mar!

Para a altíssima qualidade final do projecto muito contribuíram o desempenho e as capacidades criativas de cada um dos nove integrantes do projecto qualquer um deles inspirados instrumentistas e executantes todos eles com um “passaporte” musical riquíssimo preenchido por duradouras viagens musicais no seio de outros grandes projectos da musica popular portuguesa, e não só, como por exemplo Manuel Rocha (Brigada Victor Jara), José Barros (4 ao Sul  e Navegante), José Manuel David (4 ao Sul  e Gaiteiros de Lisboa), Sara Vidal (A presença das formigas, Diabo a Sete e Luar na Lubre, da Galiza), Manuel Tentúgal (Vai de Roda), André Sousa Machado (diversos grupos de jazz, etc.), Artur Fernandes (Danças ocultas),Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) e Rui Costa (Silence 4) ; um projecto que teve o apoio institucional do Município de Serpa, da SPA e da Antena 1 e se assume como candidato a “melhor disco em português do ano” pese embora a qualidade de outros concorrentes.

Eclético e inspirado, instrumentalmente brilhante e vocalmente magistral, o primeiro projecto da Companhia do Canto Popular marca indelevelmente pela sua altíssima qualidade a edição discográfica portuguesa de 2019!

CD Sons vadios

 

YES

Falar dos britânicos Yes é sinónimo de se falar dos lideres do movimento musical habitualmente designado por rock progressivo e  apesar de hoje em dia muitas das bandas desse movimento terem terminado já o seu percurso de muitos anos outras há que continuam a tocar ao vivo e a gravar discos fazendo assim as delícias dos  seus milhares de admiradores como são os casos dos Ásia, Génesis, Van der Graaf Generator, Marillion, Procol Harum ou Jethro Tull para falar somente das mais famosas, se bem que tenhamos que referir também os casos específicos de alguns dos membros e ex-membros desses agrupamentos que continuam a gravar também a solo como é o caso de Peter Gabriel(ex-Genesis) e Ian Anderson que está à frente dos destinos e line-up dos Tull desde a sua formação bem como de alguns dos músicos dos mesmos Yes que continuam numa intensa actividade em solitário, tanto no aspecto de gravações como ao vivo, mantendo assim viva uma carreira pessoal em paralelo com a das formações de que fazem parte,  possuindo alguns até extensas discografias como sucede com  Steve Howe, Jon Anderson ou Rick Wakeman.

Pois estes mesmos Yes, que na formação original por alturas de 1969 começaram a marcar a diferença especialmente devido à voz quase celestial e sui-generis do seu vocalista, tem visto esse lugar ser alternado nos últimos anos por causa das constantes saídas e entradas de Jon Anderson, que desde há tempos trilha uma soft carreira a solo para alem de eventualmente se apresentar em palco também; aquando da sua ultima partida e depois de várias audições entrou para o seu lugar Jon Davidson  coincidindo com entrada da banda em estúdio para a gravação do ultimo álbum na altura – “Heaven  & heart” .

E foi já com ele na formação que os Yes encetaram uma extensa digressão mundial designada por “Topographic drama”, por se basear em termos de reportório  no álbum do  mesmo nome- “Drama”,  tournée que posteriormente deu origem a um duplo disco com a gravação de um dos shows, disco esse dedicado à memória do baixista Chris Squire , pouco tempo antes desaparecido.

Foi portanto já com novo line up que o grupo partiu o ano transacto para nova digressão, iniciada nos Estados Unidos e que deu mais tarde origem, como era  habitual nos últimos anos, a um consequente projecto discográfico ao vivo intitulado “YES 50 live”  um duplo disco que tendo portanto a sua génese na mesma tournée – ”50th anniversary U.S. tour 2018” vinha assim abrir as hostilidade  musicais nas festivas comemorações de meio século de actividade da banda onde a voz de Davidson continuava presente como líder vocal em substituição de Jon Anderson, um disco em que  a nova voz  cumpre com eficácia a missão que lhe entregaram se bem que, e apesar de o novo vocalista cantar bem, desempenhar o papel a contento e possuir cambiantes vocais com registos agudos muito semelhantes os do antigo líder vocal, haja a bem da verdade que separar as águas:-  na realidade voz celestial, original e brilhante só há uma– a de Jon Anderson e esse é muito difícil, para não dizer mesmo impossível, substituir  na perfeição…

No entanto na digressão e na gravação há outro pormenor que tem grande relevância para os milhares de admiradores dos Yes e a ter em linha de conta:- é que quer nos concertos, quer no duplo disco, a actual equipa  foi reforçada com a presença de dois nomes de peso que já integraram anteriormente outras formações da banda:- os teclistas Tony Kaye e Patrick Moraz ( quem não recorda o famoso “The story of I”?) bem como um outro convidado especial- o baterista Jay Schellen; e será em sexteto, numa formação muito parecida com as ultimas com que o grupo se tem apresentado que os Yes virão actuar em Portugal no Campo Pequeno a 24 de Abril do próximo ano, em organização da Everything is new de Álvaro Covões, numa digressão designada “Relayer album series tour 2020” em que os concertos serão divididos em dois diferentes sets:- um primeiro em que o grupo revisitará grandes sucessos da sua história discográfica e um segundo em que executará na integra o disco”Relayer” que afinal acaba por ser a principal base  dos espectáculos em que poderemos ver em palco a formação agora anunciada pela agencia do grupo:- Steve Howe, nas guitarras, Alan White e Jay Scheller, nas baterias, Billy Sherwood, tocando baixo e fazendo  vocalizações, Jon Davidson como vocalista principal e finalmente um grande músico que já anteriormente fez parte de algumas das formações do grupo- Geoff Downes, antigo membro fundador dos Buggles,  geniais criadores do mega sucesso mundial “Vídeo killed the radio star”, que será o responsável pelos teclados.

Mas enquanto não chega o desejado momento de os podermos ver actuar de novo em Portugal fiquemo-nos com o excelente “Yes 50 live”,  belíssimo duplo disco, que tem uma fabulosa capa da  responsabilidade do habitual designer da banda  Roger Dean, a quem já muita gente apelida de sexto membro fixo dos Yes, um trabalho ao vivo que recomendo sem reservas não só aos fans incondicionais da banda, mas também a todos os apreciadores de bom rock progressivo de que os britânicos Yes são um dos maiores, senão mesmo o maior expoente na actualidade!!!

2CDs  Rhino/Warner Music

 

MARENOSTRUM

Ainda mal refeito da agradável surpresa que foi a audição do primeiro disco da Companhia do Canto Popular e eis que de repente me chega às mãos um outro projecto de invulgar qualidade e grande voltagem musical que é “Rua do peixe frito” ,estranho título, ou se calhar talvez não, de um grupo que há muito tenho referenciado e anseio ver ao vivo- os Marenostrum, que vê editado agora mais um trabalho de grande fôlego onde nos propõe uma lauta refeição musical, verdadeiramente gourmet, constituída por nada menos de onze lautos e opíparos pratos musicais, confeccionados com muito saber, amor e experiência e que por isso mesmo conseguiu que o meu olfacto musical e sensibilidade sonora/instrumental se alertassem de novo, e em pouco espaço de tempo, para um autêntico e inesperado manjar  musical com o carimbo “made in Portugal”, iguaria que é servida por um surpreendente quinteto, mais alguns amigos convidados, através da audição desta sua nova proposta, que mais que um inspirado projecto da área da música popular portuguesa de raiz tradicional, pode dizer-se que constitui também uma festança rítmica de todo o tamanho mercê da criatividade e das especiais aptidões criativas evidenciadas pelos membros do grupo na execução de vários instrumentos populares portugueses tais como  bandolins, violas, acordeões, flautas, ferrinhos, etc.; e como toda a festança merece efusiva comemoração, convoquemos por isso  desde já toda a gente, em especial todos os marafados e marafadas deste mundo à beira-mar (im)plantado para que com urgência compareçam, por exemplo na rua do peixe frito, acompanhados de toda a “tropa fandanga” que conseguirem desde já arregimentar porque a reunião está mesmo a começar e o consequente repasto musical e a bailação vão ser positivamente de arromba ou não fosse o Zé Francisco o mandador!

E que bem canta este magano! Tomaram muitos artistas da nossa praça com bastante mais fama e proveito, que andam por aí armados em carapaus de corrida, que o mesmo é dizer armados em “cantores” de sucesso, terem aptidões e capacidades para cantar pelo menos um terço do que este homem canta e a fama estava garantida; assim, coitados, muitos deles acabam por beneficiar somente dos habituais e efémeros quinze minutos de fama e disso não passam, ou melhor, passar se calhar passam, mas é ao total esquecimento, que é o estado que no final sempre está garantido aos… menores!

Esta nova proposta musical do grupo algarvio, a quarta da sua vida discográfica (as anteriores foram ”Estoy en santa” em 2001, “Almadrava” em 2005 e “Arraia miúda” em 2009), que vem colmatar um silêncio de dez anos em matéria de gravações, é  constituída por onze inspiradas composições que mais não são que autênticas fotografias do quotidiano português, com grande incidência nas vivências locais algarvias e especial enfoque na zona onde curiosamente fiz a primeira e segunda parte da minha tropa- Tavira e nas terras limítrofes, na árdua faina do mar, nos corajosos pescadores e na sua actividade laboral como modo de vida e de luta, uma vida que é levada de sol a sol, algumas vezes com sucesso e fartura, outras de verdadeiro insucesso e com proventos que “mal dão pró petróleo”…

Se as areias de Tavira, Olhão, Armação, Loulé, Fuzeta e outras terras algarvias da mesma amplitude pudessem falar, quantas memórias desfilariam, quantas historias de esperança ou de desalento contariam, quantos  amores e desamores viriam a

conhecer-se,  histórias de horizontes perdidos ou de fé inquebrantável, de perdas inglórias de vidas e  projectos, moldando destinos, destruindo ilusões e alimentando sonhos, numa terra de muito sol e de amendoeiras em flor, mas também de íngremes falésias que silenciosamente desfiam rosários de pessoas, contam naufrágios, relembram partidas e chegadas, afinal de contas histórias de um Algarve solarengo, de sol ardente, de peixe assado, (chi)charros alimados, salinas, lendas e romarias, procissões, corridinhos e de um inevitável turismo de massas, algum civilizado e amigo do meio ambiente, educado, racional que evita desmandos e poluição e cuida da não proliferação de plásticos e outras pragas que tais, e outro, nefasto e recusável  que infelizmente ninguém controla, que destroi a esmo e suja sem rei nem roque, sem o mínimo cuidado ecológico e de preservação de espécies e ambiente, que deita lixo para o chão, propaga, consome e vende drogas duras, muitas das vezes rouba e é por isso mesmo muito justamente apelidado de turismo de “mochila e garrafão”, selvagem q.b., nocivo, nojento, até por vezes pestilento ( ai que falta fazem banhos e desodorizantes!)e que por isso mesmo é dispensável e deveria, quando pisa os limites, ser imediatamente…posto na fronteira!!!

Porque esse turismo pelintra, aberrante e os consequentes “turistas” que ele arrasta conscientemente ninguém suporta, nem quer cá!!!

Pois é um pouco de todo este diversificado e muitas vezes problemático panorama algarvio que fala também de gente tão diversa  como contrabandistas, pescadores e migrantes algarvios, que tratam as letras das canções do  disco, tudo isto ao ritmo bem popular de corridinhos, bailes mandados ou cantigas ao desafio, chegando por vezes a namorar as margens do rock, da pop e do jazz, que tratam as canções dos Marenostrum através da fabulosa voz de Zé Francisco e seus comparsas em dez letras de grande alcance social, sendo que a música que completa o naipe do disco é uma versão  e curiosamente um belo instrumental baseado no célebre “Blue rondo a la turk” do grande pianista de jazz Dave Brubeck aqui assim de certo modo homenageado.

Agora, vem o desafio maior e mais difícil de alcançar:- é preciso que os media nacionais, pródigos em sistematicamente ignorar a musica portuguesa de raiz tradicional e outras tendências musicais de qualidade se dignem reparar neste belíssimo trabalho, para que lhe concedam  um pouco do seu tempo de antena ; e aqui há que recordar que todas elas tem uma obrigatoriedade moral e cultural de divulgar o que é nosso, o que é português de gema e é musical e culturalmente importante em prol da preservação do nosso rico património, sendo que as próprias Antena 1 e 3 são pagas com o dinheiro de todos nós, os contribuintes, e por isso mesmo tem uma responsabilidade acrescida na divulgação de grandes obras musicais como esta “rua do peixe frito”…

Quanto à gravação de estúdio foi preciso outra vez o pioneirismo de Alain Vachier  funcionar de novo e ele se dispor a apostar todas as fichas e …dinheiro, claro, no grupo e no seu trabalho para que o público em geral possa ter acesso a um disco que é uma autêntica viagem, inesquecível, pelos domínios da musica popular portuguesa aqui executada por cinco de instrumentistas de eleição, cinco grandes executantes que dão largas à sua imaginação e criatividade cantando histórias que afinal falam com propriedade e certa sabedoria  e conhecimento de causa até, de uma parte real do povo português; um disco que é também uma verdadeira celebração musical, uma homenagem sentida à gentes algarvias, seus costumes, mundos próprios e lugares  e que acaba por se afirmar acima de tudo como um dos melhores, senão mesmo o melhor, dos discos do ano em termos de MPP, um projecto que se ainda existisse o inesquecível Festival Intercéltico do Porto, do meu querido amigo e “irmão” Avelino Tavares, facilmente lá apresentaria os algarvios Marenostrum como figuras de proa e merecidos cabeças de cartaz! E com toda a justiça, diga-se!

CD Alain Vachier

 

ALDINA DUARTE

Alguém me disse um dia que o fado, tantas vezes incompreendido e vilipendiado por certos detractores, era afinal uma vivência da alma, mas eu acho não é só isso, é também um retrato falado especialmente das estreitas vielas alfacinhas, das suas gentes, das suas problemáticas , dos seus amores e desamores, dos seus estados de alma, do seu espírito de independência e acima de tudo é actualmente um retrato/vivência do nosso tempo e, porque não, um grito de liberdade individual!

Pois é tudo isto que no fado se canta hoje em dia especialmente bastante tempo passado depois da revolução dos cravos, pois nos primeiros tempos que a ela se seguiram, o fado sofreu tratos de polé, mentiras e injustiças, chegando muita gente a afirmar que era de índole fascista coisa em que, felizmente, ninguém hoje em dia acredita especialmente depois de se ter sabido pela boca do falecido Ruben de Carvalho, organizador  da festa do Avante, que mesmo a fadista mais atacada- a diva Amália, que era acusada injustamente de colaborar com as gentes do antigo regime, havia afinal ajudado monetariamente, e durante muito tempo, uma série de comunistas a viver na clandestinidade em Paris e em outros países europeus, a quem chegou amiudadas vezes a  entregar o total dos cachets de alguns dos seus espectáculos; e ainda por cima uma mulher que ousou cantar Alain Oulman, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos e José Afonso, entre outros autores, que poderiam ser conotados com tudo menos com a direita…

Mas enfim, palavras leva-as o vento  e o tempo, o grande conselheiro e crivo de muitas inverdades que errada e criminosamente foram ditas em momentos de certo desvario politico, se encarregaram de clarificar devidamente.

Hoje  a paz é total e o fado, a quem com toda a propriedade se chama a “canção nacional por excelência”, tem o lugar de destaque que merece tanto por cá como também extra-muros e a sua projecção é um facto evidente e indesmentível acabando por resultar no aparecimento de novos valores seja em termos vocais, seja no plano instrumental.

Dentre as vozes consagradas do fado, uma há anos tem chamado a minha particular atenção pela continua progressão e  desenvoltura que vai revelando de disco para disco e de actuação para actuação no que respeita a estofo, estética, evolução poética e acima de tudo no plano vocal em que cada vez mais se afirma como um turbilhão constante, ousando cada vez mais e mais, autenticamente revolucionando o seu modo de cantar, a sua postura perante as adversidades, aprendendo ciclicamente,  e acima de tudo entregando-se de disco para disco cada vez mais e mais, levando até ao limite  as suas potencialidades, predicados que acabam por fazer dela um dos mais sérios valores femininos do fado actual…

No novo disco “Roubados”, um projecto improvável e que muitos julgariam, face ao seu anterior percurso, ela nunca faria,  Aldina Duarte afirma-se também agora na belíssima interpretação de doze fados  clássicos, composições que foi ouvindo ao longo da sua vida quer pessoal, quer artística e que a levaram a conceder, através da sua voz, uma segunda vida, e um quase renascimento, a êxitos de gente como a divina Amália, Tony de Matos, Carlos Ramos, a rainha Maria da Fé, Lucília do Carmo, Tristão da Silva, Maria Teresa de Noronha, Celeste Rodrigues, Hermínia Silva, a grande e inimitável Beatriz da Conceição, o agora “aposentado” Carlos do Carmo e finalmente o meu querido e saudoso amigo o “príncipe” sem papas na língua João Ferreira Rosa, de boa memoria (que saudades dos serões no Palácio de Pinteus e na tua casa de Alcochete, Joãozinho!).

E que melhor forma de se comemorarem 25 anos de actividade artística em prol do fado que parir um projecto como este? Um trabalho, que sendo o sétimo na sua discografia e onde pela primeira vez não canta  nenhum fado tradicional, acaba por transformar-se simultaneamente numa homenagem sincera aos grandes mestres com quem muito aprendeu  e que afinal acabariam por nortear-lhe a profissão.

Um disco de grande maturidade artística, esteticamente perfeito, com uma produção absolutamente consistente e uma personalidade própria de uma fadista, que está a cantar melhor que nunca, aqui uma dúzia de composições onde as palavras adquirem uma enorme e indesmentível expressividade e onde  a guitarra de Paulo Parreira e a viola de Rogério Ferreira proporcionam a cama sonora adequada para projectar a voz da fadista para patamares nunca alcançados até hoje.

Um grande disco de fado, sensível, expressivo e arrasador com uma grande maturidade artística cantado por uma fadista de excelência- Aldina Duarte!

CD Sony Music

 

FLORBELA ESPANCA

Mais uma vez teve que ser um “privado” a lembrar-se da efeméride e a prestar tributo a uma das mais insignes figuras da cultura nacional, neste caso a grande e inesquecível poetisa Florbela Espanca, considerada a  maior expressão da poesia feminina em língua portuguesa de sempre de quem este ano se comemoram nada menos de 125 anos sob a data do  seu nascimento (1894-2019).

Com efeito, Samuel  Lopes através da sua label -Seven Muses volta à carga  de novo nas homenagens  a grandes e inquestionáveis vultos da cultura portuguesa ( já também anteriormente tinha lembrado o eterno Fernando Pessoa quando editou “O fado e a alma portuguesa”, livro com um CD bónus onde sob a sonoridade do fado se prestava homenagem ao imortal poeta/escritor sob a forma de 20 composições ilustradas por  algumas da vozes  mais importantes e significativas da canção de Lisboa por excelência tais como Ricardo Ribeiro, Mísia, Camané, Marisa, Ana Moura ( aqui em dueto com o cantautor espanhol Patxi Andion), Cristina Branco, Katia Guerreiro e muitos mais.

O novo projecto que se pauta por uma grande e inegável qualidade- “Florbela Espanca- o fado”, apresenta-se de novo sob a forma de um livro trazendo também acoplado um CD bónus  contendo a parte musical onde nada menos de 18 vozes femininas,  prestam homenagem à grande figura feminina da poesia nacional dando desse modo ainda maior ênfase e popularidade à já de si altíssima qualidade da obra da  imortal Florbela.

É certo que algumas das vozes que figuram na colectânea até pela sua experiência, traquejo e percurso se destacam qualitativamente das restantes, cuja carreira ainda é curta e também não conseguiram que a popularidade e a fama já lhes tivesse batido à porta, mas o que é certo é que algumas delas constituem verdadeiras e inesperadas revelações abrindo-nos assim deste modo o apetite para gravações futuras a solo.

Das dezoito composições que constituem a obra, onde a fantástica e inspirada criatividade da artista plástica Rita Ventura merece especial ênfase, metade delas são gravações inéditas (com destaque para a de Joana Amendoeira em grande forma vocal e interpretativa ) e nas restantes, já anteriormente editadas, há que realçar igualmente  as prestações de fadistas como Katia Guerreiro, Ana Lains, Cuca Roseta, Debora Rodrigues, Sílvia Filipe, Mísia ou  Carla Pires; uma palavra final para o tema que encerra  a compilação – “Lágrimas ocultas” uma brilhante e inesquecível recitação da grande e incontornável Simone de Oliveira, aqui a proporcionar-nos um momento único e verdadeiramente mágico, que encerra assim com chave de ouro um projecto destinado ao sucesso, numa oportuna edição de grande dimensão artística onde as palavras de Florbela Espanca são cantadas de modo reverente e sentido  numa verdadeira epopeia de emoções onde sons e palavras se misturam num todo uníssono, viral e poderoso, afinal de contas o que a obra da poetisa amplamente justificava.

Depois de assistir ao showcase de apresentação do projecto na FNAC do Colombo ouso perguntar o seguinte:- Por acaso alguém já se lembrou de programar este projecto para palco nomeadamente na terra de naturalidade de Florbela, no Porto e em Lisboa? Veriam que resultaria…

 

Livro/CD Seven Muses

 

CHAVELA VARGAS

Se hoje ainda fosse viva a imortal cantora Maria Isabel Anita Cármen de Jesus Vargas Lizano teria a simpática e secular idade de 100 anos; porém infelizmente já não está entre nós para desgosto dos seus milhares de admiradores pois o seu desaparecimento físico data já de 5 de Agosto de 2012, depois de uma vida de excessos ligados ao álcool, que consumiu desmesuradamente nomeadamente tequilla, às drogas e a tabaco diverso nomeadamente os puros cubanos com que se deleitava  como um bom apreciador e um verdadeiro conhecedor da matéria ; pois a mesma e mítica cantora Chavela Vargas, nome porque ficou mais conhecida, teve também uma vida emocional e amorosa atribulada, plena de aventuras fora dos canônes tradicionais e das regras que as convenções do mundo haviam estabelecido como sendo regras básicas, rompendo tabus, alargando horizontes de vida, quebrando normas, revolucionando vivências…

Assumindo-se desde cedo como selvagem e transversal fez da sua homossexualidade uma bandeira de luta (ficou celebre a sua ligação amorosa a muitas mulheres famosas nomeadamente o romance que a ligou durante muito tempo à artista Frida Khalo com quem viveu na casa desta juntamente com o marido da pintora Diego Rivera) e por isso o seu percurso, quer na musica, quer fora dela sempre foi um caminho de variadas e incontáveis histórias e lendas como por exemplo  quando confessou a pessoas mais chegadas que no dia seguinte a um dos casamentos de Elizabeth Taylor, para o qual havia sido convidada, ter chegado a acordar de manhã com Ava Gardner nos braços!

Sempre assumindo os seus actos, quase sempre explicados mercê de uma linguagem desbocada que era uma das suas características, criticou  acerrimamente tudo o que era considerado incorrecto com perfeito à vontade e conhecimento de causa, quer se tratasse de ternura, desânimo ou dor tornando-se por isso mesmo e em pouco tempo um símbolo de revolução sexual e de rebeldia e acabando mais tarde por se constituir como uma verdadeira lenda da música mexicana, especialmente de rancheras apesar do seu país de nascimento haver sido a Costa Rica onde sua mãe a deu à luz em São Joaquim de Fores; apesar de se ter transformado num mito e constituir uma permanente interrogação por motivo de um  longo período de inactividade artística de mais de 15 anos, espaço de tempo esse que ela dedicou ao álcool que se tornaria o seu (in)fiel companheiro, num verdadeiro desvario etílico sem precedentes Chavela Vargas nunca deixou ninguém indiferente tendo até ficado célebre uma espécie de desabafo em jeito de justificação sua  quando pronunciou a frase que a marcaria indelevelmente para sempre:- “…mandei abaixo mais de 45.000 litros de tequilla e ainda assim, apesar de tudo estou em condições de  doar o meu fígado!!!”.

Esse mesmo período de instabilidade e inactividade artística foi quebrado quando aceitou o desafio do seu grande amigo Pedro Almodôvar, para numa espécie de segunda vida ser ajudada de várias formas nomeadamente quando ele se propôs incluir músicas já gravadas por ela em películas  de sua autoria e quando aceitou regressar aos palcos mundiais, bem mais pobres convenhamos com a sua ausência.

Assumidamente uma mulher de armas e de  grande fibra, verdadeiramente de antes quebrar que torcer, intensa a cantar, avassaladora a amar, segundo as palavras das suas numerosas conquistas femininas, Chavela era dotada também uma força inquebrantável e por isso mesmo não admirou que acabasse por retornar à senda do sucesso, quer no que diz respeito às gravações de novos projectos, quer no tocante aos shows ao vivo regressando assim para encantar de novo, cantando sempre com um estilo único e  inconfundível ,reafirmando-se com um talento nato e uma voz peculiar, profunda e de rara sensibilidade não admirando portanto que tivesse chegado de novo ao trono da musica latina em curto espaço de  tempo e regressando desde logo com o porte de uma rainha, para  se assumir como um ícone e de novo influenciar novos artistas.

Quando a saúde resolveu começar a dar-lhe luta chegou a anunciar a sua retirada várias vezes mas isso ainda vinha longe dando-lhe assim oportunidade, espaço e tempo  para realizar um sonho que há muitos anos acalentava:- gravar uma homenagem a Federico Garcia Lorca que desde sempre idolatrou e para isso partir para a gravação de  um disco que acabaria por ser a ultima obra-prima da sua carreira–“La luna grande” espécie de dívida amor que ela tinha para com o poeta granadino fuzilado pelos esbirros da polícia espanhola durante a Guerra Civil de Espanha; um disco que foi objecto de gravação numa sala da capital mexicana onde Chavela cumpriu a homenagem num espectáculo  onde nostalgia e emoção andaram de mãos dadas e acabou por “ressuscitar” durante algumas horas o espírito do genial poeta…

Agora os mercados mundiais registam o aparecimento de dois projectos da imortal diva mexicana (a cantora sempre se assumiu indígena da terra de Mário Moreno-Cantinflas):-

um deles  “Chavela Vargas -Cien años- 100th birthday celebration” ( Warner Music) dupla compilação de sucessos com nada de 40 canções e “Noche boémia”  (Distrijazz) que curiosamente acaba por ser um disco histórico, pois pela primeira se edita neste formato o disco de estreia da cantora que ainda por cima traz acoplado como bonus também o segundo disco que ela gravou, o que juntando o reportório dos dois discos perfaz uma totalidade de 25 canções!

Dois fabulosos projectos, intemporais, onde vamos encontrar, no disco de estreia êxitos   eternos como “Macorina”, “La llorona”, “Mi segundo amor”, “Paloma negra”, “Quisiera amarte menos”ou “Verde luna” e no disco comemorativo do centenário imortais canções como “Piensa en mi”, “La noche de mi amor”, “Fallaste corazon”, “Nosotros”(com Joaquin Sabina), “En el ultimo trago”, “Pobre corazon”, “Amaneci en tus brazos”, “ Sombras nada mas”(com Ana Belén), “Soledad” e “Tu me acostumbraste”, entre muitos outros; dois projectos para recordar uma rainha latina, uma voz apaixonante, uma lutadora pela liberdade!

2CDs Rhino/Warner Music   e  CD Jackpot records/Distrijazz

 

KEITH JARRETT

Falar de Keith Jarrett é sinonimo de se falar de um dos maiores pianistas de jazz do mundo e de um dos mais incríveis  instrumentistas da actualidade; com uma cadencia de edição por vezes espaçada que por isso mesmo muitas  vezes mantém os seus admiradores em ansiedade como que desesperando por um novo disco, cada projecto seu é aguardado com enorme expectativa e essa espera é no entanto sempre compensada por um trabalho que depois deixa todos em êxtase…

É o caso do mais recente projecto “Munich 2016” resultante da gravação do último concerto da digressão desse ano que teve lugar a 16 de Junho na sala Philarmonic Hall  na cidade alemã cervejeira por excelência, um espectáculo que apesar de ser o show de encerramento da tournée  com tudo o que isso implica em termos de viagens e natural cansaço apanhou no entanto o pianista num ponto alto de criatividade e invenção improvisadora sendo até mesmo necessário que se diga que foi unânime a opinião geral que o considerou como o melhor concerto da digressão.

No consequente disco podemos verificar que Keith Jarrett abandonou, pelo menos temporariamente  os temas de grande duração e assim vamos poder escutar suites mais curtas (há uma totalidade de doze no album) isto para alem de mais três composições que fecham o disco e que contrariamente  ao que costuma acontecer não tem a assinatura de Keith, bem pelo contrario pois são-lhe alheias em termos de autoria:-   a fabulosa “Answer me, my love” da dupla Gerhard Winkler/Fred Rauch , uma outra versão absolutamente mágica que é simultaneamente uma viagem musical inesquecível de “It´s a lonesome old town” de Harry Tobias  e Charles Kisko e ainda uma incrível, arrebatadora e pessoalíssima versão do célebre “Somewhere over the rainbow” que assim encerra o disco com chave de ouro , um trabalho em que  os toques de blues se misturam com sonoridades folk ao longo de uma série de peças de certa complexidade rítmica e harmónica que só a prodigiosa capacidade inventiva de um pianista quase sobrenatural poderia conceber e…tocar!

Keith Jarrett ao vivo:- absolutamente deslumbrante!

2CDs ECM/Distrijazz

 

BILLIE HOLIDAY

Abrangendo um período de cerca de vinte anos compreendido entre os anos de 1939  e 1959 a carreira de uma das maiores cantoras negras de todos os tempos teve como é habitual, especialmente na vida das grandes estrelas, períodos  altos e baixos e nestes as drogas foram sem dúvida as principais responsáveis pela sua falta de estabilidade emocional e artística e portanto pelas fases menos boas vivenciadas pela artista ; porém nesse mesmo período de tempo houve momentos de grande brilhantismo também e neste os sucessos discográficos e todo o bruá que eles originaram, de certo modo ofuscaram o resto  ajudando assim a consolidar uma carreira que acabaria por tornar-se meteórica e catapultar Billie Holiday ( 1915-1959) para as luzes da ribalta e, mais que isso, para o estrelato e mais tarde para o panteão da…eternidade.

Durante esse período de tempo ela gravou alguns dos seus mais estrondosos sucessos  tais como “”Body & soul”, ”I loves you Porgy”, “Lover man”, “One for my baby”, “Love me or leave me”, “God bless the child”, ”Stormy blues”, “These foolish things” ou o mítico e imortal “Lady sings the blues” e são precisamente estes sete êxitos que juntamente com  mais cinquenta e três outras composições integram a fabulosa tripla compilação “Billie Holiday- the hits” recentemente editada internacionalmente e onde Billie surge acompanhada por varias formações que integravam, entre outros, instrumentistas de grande envergadura tais como Chico Hamilton, Roy Eldridge, Ben Webster, Lester Young, Óscar Peterson, Ray Brown, Coleman Hawkins ou Kenny Burrell afinal de contas alguma da nata dos  músicos da cena musical negra do jazz de então.

Uma colectânea fabulosa do nome maior do movimento jazz/ blues, que para alem de influenciar grandes nomes da altura e  do tempo presente elevou a grande música negra norte-americana  para patamares e  parâmetros impensáveis e verdadeiramente estratosféricos!

3CDs New Continent/Distrijazz

 

JORDI SAVALL

Ao mesmo tempo que de novo triunfava ao vivo na Gulbenkian, mestre Jordi Savall ,o fantástico executante de viola da gamba editava, acompanhado pela sua habitual  Orquestra Le concert des nations , uma das suas obras máximas:- “W.A.Mozart- Le testament symphonique” duplo CD que integra as três ultimas sinfonias -39,40 (por muitos  considerada a melhor de todas as suas sinfonias) e 41 do celebre compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e para gravação foi objecto de grande maturação por parte do instrumentista catalão; as gravações que tiveram lugar no Collegiale de Cardona  e na Igreja dos Dominicanos em Guebwiller, na Alsácia entre 2017 e 2018 acabam por nos dar a conhecer um pouco de todas as potencialidades musicais do genial Mozart, aqui numa perspectiva muito pessoal do  músico, director e arranjador  catalão Jordi Savall que denuncia neste projecto toda a sua apetência e encanto para com a obra do famoso compositor oriundo de Salzburgo na Áustria, que curiosamente e apesar de ter nascido há já mais de duzentos anos atrás ainda continua a seduzir e encantar e até mesmo electrizar as mais modernas audiências  de musica erudita.

Uma obra brilhante e absolutamente imprescindível não só para os amantes da musica clássica em geral, mas também para todos aqueles para quem musica de qualidade é sinónimo de desejo, prazer e entusiasmo!

2CDs  AliaVox/Megamúsica

 

RABIH ABOU-KHALIL

Instrumentista de craveira mundial que deve muita da sua fama e da projecção que alcançou  no nosso País ao facto de ter editado um fabuloso projecto musical  em que homenageia o nosso fado intitulado “Em português” e onde participaram para além do habitual naipe de músicos da sua banda ainda um convidado extra- o extraordinário interprete Ricardo Ribeiro, figura de proa do fado nacional contemporâneo que para alem de integrar o elenco residente e habitual na célebre casa de fado- Faia, ainda recentemente conquistou novas plateias, áreas e seguidores ao integrar como estrela convidada o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira do cantautor espanhol Patxi Andion que numa mini-tournée portuguesa levou a sua arte e talento a locais como Lisboa (Aula Magna ) e Porto (Casa da Música) para além de um outro show, onde o fadista porém não participou e que teve lugar no belíssimo Centro de Artes de Águeda concerto com que se iniciou a digressão do cantor madrileno; pois é este expressivo e exímio executante de oud (alaúde), Rabih Abou-Khalil que acaba de editar um novo disco no mercado mundial– “The flood and the fate of the fish”, que a exemplo do que sucedeu com o projecto de fusão de música árabe com o fado, atrás citado, conta de novo na parte vocal com a participação do mesmo cantor português, para alem de alguns instrumentistas do habitual núcleo que geralmente acompanha o músico libanês nas suas aventuras musicais sejam elas em disco ou nos espectáculos ao vivo, registando-se aqui no entanto  algumas mudanças pontuais.

Merece que se destaque o facto de Rabih se ter rodeado para a feitura deste novo projecto de músicos que ao longo dos anos se tornaram seus amigos tendo mesmo feito questão de com eles gravar pela primeira vez no seu estúdio privado situado na sua casa no sul de França, onde habitualmente reside, conseguindo com isso que este seu novo disco se tenha transformado  no mais intimista de todos os que publicou até hoje; pela primeira vez também introduz o alude baixo nas suas composições, um instrumento que produz um som único e peculiar e foi construído propositadamente para ele pelo  mestre luthier alemão  Robert Eibl.

“The flood…”, um disco brilhante de um genial e virtuoso compositor que abre novos e infinitos horizontes sonoros, onde a musica tradicional namora descaradamente com o jazz, numa fusão inspiradamente perfeita e harmónica e onde nunca será demais salientar não só a grande craveira artística de cada um dos intervenientes mas também o papel do “nosso” Ricardo Ribeiro que de novo em  português ilustra vocalmente com inusitado brilho três das excelentes composições do projecto:- “Falso amor” de Al-Kumait Al-Garbi, nascido no longínquo ano de 1100, “Grãos de areia” do fadista António Rocha, nascido em 1938 e “Kyrie” do imortal poeta português José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)…

Um dos mais brilhantes projectos musicais do ano que em breve termina, um trabalho notável, esteticamente  perfeito que abraça o presente, lança sólidos alicerces sonoros para o futuro e estabelece grandes parâmetros musicais  só ao alcance de alguns (poucos) inspirados artistas/instrumentistas.

CD Enja/Distrijazz

 

ED SHEERAN

É um nome que algumas vezes divide opiniões e gera controvérsias e discussões, especialmente por parte dos detractores e dos despeitados que andando na luta há anos a fio nunca obtiveram o êxito que muitos acham que mereciam sem tão pouco conseguirem receber os favores do grande público; porém o que é verdade é que o cometa Ed Sheeran não deixa ninguém indiferente e esgotar em pouco espaço de tempo a lotação de dois Estádios da Luz, convenhamos que não é para toda a gente mas ele conseguiu-o e para além disso quem lá esteve disse maravilhas das prestações de palco do celebre cantautor britânico e dos espectáculos a que assistiu e isso é a prova de que o sucesso efectivamente não é para todos, é para quem faz por isso e especialmente para quem o merece!

Ansiosamente aguardado por toda a gente depois do mega sucesso da ultima digressão o novo disco “nº 6 collaborations project” editado internacionalmente ainda durante a “tournée” tem uma particularidade muito especial relativamente a anteriores projectos pois constitui  um desejo que Ed acalentava desde há tempos atrás especialmente depois de ter gravado no início da sua carreira e mesmo antes de assinar contrato com a Asylum records um trabalho genericamente intitulado “nº 5 collaborations project” em formato EP que consistiu em gravar de novo uma série de canções suas em que muita gente que ele pessoalmente admira iria colaborar; dito e feito aí está uma nova produção discográfica em que participam vários nomes famosos da cena musical actual tais como

Travis Scott, Justin Bieber, Eminem & 50 Cent, Bruno Mars & Chris Stapleton, etc.

Um disco verdadeiramente inspirado dum talento nato que anda à solta por aí!

CD Asylum/Atlantic/Warner Music

 

ROBERTO MENESCAL

Laureado compositor brasileiro, nascido em Vitória, Espírito Santo a 25 de Outubro de 1937 Roberto Menescal é também um renomado produtor, guitarrista e arranjador para alem de vocalista; por isso  é unanimemente considerado quer pelo publico, quer pela critica especializada um dos gigantes da música brasileira em geral nomeadamente nos campos da MBP, bossa nova ( de que foi um dos pioneiros) ou samba onde se notabilizou não só como cantor, mas também como líder de grupos para alem de ter acompanhado como instrumentista alguns dos mais celebres nomes do panorama musical do país verde-amarelo.

Infelizmente pouco conhecido no nosso país, especialmente por parte do grande publico, este tem no entanto agora a possibilidade tomar contacto mais directo e íntimo com a música do compositor pois acaba de ser publicado o projecto ”A  nova bossa de Roberto Menescal e seu grupo”  constituído por dois dos seus melhores trabalhos aqui editados na totalidade das composições originais (27) tal como sucedeu na primeira edição  a que se acrescentaram nada menos de seis temas bonus sendo que este trabalho surge editado pela primeira vez no formato CD a que juntou para a actual edição também o conteúdo do LP “Bossa nova”, discos que constituem verdadeiras raridades até porque apresentam uma  importante particularidade:- é que em ambos os trabalhos participa como pianista um gigante da música brasileira e do jazz em geral, já consagrado mundialmente como um dos maiores teclistas de sempre:- Eumir Deodato.

Um projecto que merece uma atenção especial até por se tratar de um dos pioneiros  da bossa nova que o mundo já idolatrou há anos atrás e constitui uma das maiores influencias de jovens e até veteranos nomes da MPB.

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

MICHALIS TERZIS

É um instrumento muito peculiar com uma sonoridade própria que conquista com relativa facilidade adeptos e fieis; trata-se do bouzouki , espécie de guitarra , muitas vezes parecida em termos de som com a nossa guitarra de fado e que acabou por se tornar no instrumento de referencia e por excelência da Grécia, onda a sua fama atingiu uma popularidade sem limites com a qual galgou fronteiras cativando uma infinidade de entusiasmados admiradores.

Quem visita a Grécia e tem oportunidade de pela primeira vez o ouvir ( e são milhões os que anualmente viajam para a terra de Melina Mercouri, Vangelis e Vicky Leandros ) isto para referir só os mais conhecidos dos portugueses, fica fascinado com a sua sui-generis sonoridade; qualquer pequeno restaurante ou barzinho  de Atenas que se preze tem de ter, a exemplo do que entre nós sucede com o fado, um tocador de bouzouki para animar as noites quentes da capital grega e das inúmeras ilhas que formam a Grécia  de Hercules e Platão bem como do célebre Zorba, o grego , que Anthony Quinn tão bem celebrizou no filme homónimo, uma película que mais que nenhuma outra ajudou a projectar mundialmente , através do ritmo sirtaki, o instrumento tradicional que preenche o conteúdo do disco “Bouzouki-The sound of Greece” onde o seu mentor – Michalis Terzis (laureado instrumentista que começou por tocar temas de Mikis Theodorakis e em poucos anos se tornou um renomado e requisitado compositor)dá provas da sua versatilidade interpretando uma série de canções que conquistam com relativa facilidade o mais exigente ouvinte.Altamente recomendável!

CD ARC Music/Megamúsica

 

DOMINIC MILLER

Constitui uma verdadeira aventura musical o novo projecto em nome individual de Dominic Miller músico há muitos anos ligado aos projectos e discos de Sting, o antigo líder dos Police com quem tocou nada menos de 30 anos; com efeito “Absinthe, o seu segundo disco em solitário  é muito mais que uma aventura é um autentico carrocel de improvisações e finas texturas sob o comando do bandoneon do experimentado Santiago Árias músico multifacetado e de grande experiência que integra o núcleo dos participantes do disco, onde vamos também encontrar  o baterista Manu Katché, ele também companheiro de lides musicais de Sting vários anos a fio…

Neste segundo solo álbum Miller explora as improvisações até uma variedade de texturas únicas e de extremo bom gosto, explorando sonoridades, expressando emoções e desenhando atmosferas sonoras únicas, que não lhe conhecíamos, o que não admira no entanto se se souber que é um admirador incondicional da pintura  impressionista…

Disco de grandes vibrações rítmicas poderia facilmente assumir-se como banda sonora de uma qualquer película de Wim Wenders ou Bergman tal a multiplicidade de direcções que aponta, mercê de um estilo musical único, de grande fascínio sonoro onde o sonho e a natureza se cruzam com  simplicidade e colorido musical que fazem das dez composições do disco dez  expressivos quadros de pintura…

CD ECM/Distrijazz

 

DULCE PONTES

Já há muito tempo que não havia notícias de Dulce Pontes em termos de edições com originais continuando portanto toda a gente à espera de um novo disco e  registando-se o triplo “O coração tem três portas”(2CDs/DVD)  datado de 2006 como o seu mais “recente” até agora .

Possivelmente para colmatar essa falha uma das várias editoras para quem gravou- a Universal acaba de publicar uma compilação dos seus maiores sucessos onde se incluem as colaborações com o tenor Andrea Bocelli e com o maestro Ennio Morricone, com quem se constou há tempos estava de novo a gravar, a canção que fez parte da banda sonora do filme estrelado por Richard Gere  (“Canção do mar”), também duas composições de sua autoria assim como uma espécie de homenagem à diva Amália através de cinco canções que podem considerar-se emblemáticas da rainha do fado– Gaivota, Povo que lavas no rio, Lágrima, Mãe preta e Estranha forma de vida- e muitas outras mais onde a poderosa voz de Dulce sobressai pela versatilidade, potencia e carisma. “Best of Dulce Pontes” para matar saudades e não só!!!

CD Universal Music

 

CAETANO VELOSO

Foi na altura do seu lançamento no Brasil, considerado o disco mais experimental de Caetano Veloso e por isso mesmo em 1973 “Araçá azul”, o quinto disco de originais do irmão de Maria Bethânia, gerou simultaneamente uma certa controvérsia e muita relutância na aceitação junto dos indefectíveis da MPB chegando mesmo alguns a rejeitá-lo pois todos esperavam um disco mais orientado para a pop, a exemplo do que Caetano tinha feito no seu exílio em Inglaterra; porém, passados os primeiros tempos sobre essa mesma controvérsia, e já com o aplauso unânime da critica especializada, as canções do disco começaram a ser aceites e a genialidade do músico a ser devidamente reconhecida mesmo por muitos dos seu detractores da altura que acabaram por não só aceitar as composições do trabalho, como considerar mesmo o disco como  um dos mais criativos do cantautor baiano.

Ainda hoje o disco é um marco importante na sua carreira; incluindo belíssimas composições como “Cravo e canela”, ”Tu me acostumbraste”, “Eu quero essa mulher”, “De palavra em palavra” ou o tema/título “Araçá azul” o album acaba de surgir agora na Europa em edição limitada e digitalmente remasterizada vindo assim colmatar uma falha na edição discográfica nacional  e na MPB em particular pois há muito tempo que o álbum não figurava nos escaparates portugueses.

Uma obra incontornável  de um compositor genial que é simultaneamente um dos  mais inspirados cantautores do Brasil!

CD Philips/Distrijazz

 

CATARINA ROCHA

Há cerca de dois anos atrás escrevi aqui no blog um texto referindo elogiosamente o aparecimento e consequente edição daquele que era o primeiro  trabalho em disco– “Luz”, da viseense Catarina Rocha uma nova voz do fado que na altura se dava a conhecer ao grande público com um trabalho deveras promissor que lhe prenunciava  um futuro risonho; agora chega-me às mãos o segundo disco intitulado “Vida” em que se nota uma grande evolução na sua voz, mais maturidade, ecletismo, projecção vocal, segurança e  traquejo, possivelmente derivado do facto de a fadista ter “estagiado” durante umas temporadas por algumas casas de fado alfacinhas…

Apesar de na sua globalidade o novo projecto se poder considerar um passo em frente na carreira da artista o disco, que regista em quatro composições a sua assinatura e tem também letras de conceituados autores como Tiago Torres da Silva, Pedro da Silva Martins e Paulo Abreu Lima e músicas de gente como Manuel da Graça Pereira ou Álvaro Duarte Simões, tem quanto a mim, e na minha modesta opinião, apenas um senão:- a inclusão de uma absolutamente dispensável bateria, instrumento que não tem, nem nunca teve nada a ver com o fado e que sem dúvida alguma descaracteriza totalmente algumas das composições , que certamente ganhariam muito mais se a bateria fosse

completamente posta de lado e dispensada e substituída por exemplo por alguma percussão ou por instrumentos tradicionais portugueses como por exemplo adufes, cavaquinhos, bombos, braguesas, paus, bandolim ou, como era o caso de se pretender impor ritmo em algumas das composições, porque não utilizar caixas populares que proporcionam belíssimos ritmos tradicionais transmontanos?

Aqui deixo a sugestão para os futuros trabalhos, não querendo terminar no entanto sem  referir a grande versatilidade e mesmo genialidade de um grande guitarrista que cresce de dia para dia e que por isso mesmo tem acompanhado, além de muitos outros, gente como Marisa ou Ana Moura, um musico que, recordo, numa noite há alguns anos atrás, ainda muito, muito jovem, extasiou a assistência que esgotou o auditório das  Bellas Artes de Madrid, acompanhando Ana Moura e Jorge Fernando no concerto de regresso aos palcos madrilenos do grande Patxi Andion:-  Ângelo Freire, que no panorama fadista se constitui sem duvida alguma como um dos melhores executantes de guitarra de fado da actualidade…

CD Edição de autor

 

SARA CRUZ

Tenho por hábito para passar o tempo antes do início dos jogos do Benfica no Estádio da Luz, vaguear pelos escaparates da FNAC-Colombo em busca de novos filmes e blurays ou somente para rever os últimos lançamentos discográficos; numa das ultimas vezes

(antes do jogo com o Gil Vicente de má memória pela fraca exibição produzida) chamou-me a atenção uma voz de mulher vinda da sala dos showcases/café pela sua plasticidade, afinação, colocação e acima de tudo pela singela beleza vocálica e maneira de interpretar a música e as palavras que a envolviam;  entrei na sala, sentei-me e assisti a quase toda a prestação de uma novel voz, que  com uma guitarra se acompanhava a si própria e me ia surpreendendo cada vez mais e mais a cada tema que ia debitando e com a qual estava a conquistar tudo e todos…

No final, troquei meia dúzia de palavras com ela, confirmei que era açoriana, dei-lhe os parabéns, soube que tinha participado nos “talentos FNAC”, espécie de concurso para descobrir novos valores que depois têm direito, se a qualidade o justificar, a ter um tema no disco/compilação  que habitualmente a FNAC põe depois à venda e ainda a fazer um showcase ao vivo; para alem de tudo confirmei que o seu disco era uma edição de autor e por isso mesmo, em jeito de incentivo, fiz questão de o …comprar!

Intitulado “Above our heads” é constituído por cinco temas e face à qualidade  das letras e das interpretações abre-nos o apetite para futuros trabalhos onde espero já encontrar composições em…português! Está combinado linda Sara Cruz?

CD edição de autor

 

JAN GARBAREK

Nome de grande prestígio do catalogo ECM onde de facto é um dos  mais conceituados instrumentistas Jan Garbarek está de regresso com o The Hilliard Ensemble para propor  “Remember me, my dear” projecto resultante duma gravação ao vivo em Outubro de 2014, mesmo na recta final da digressão desse ano, na Igreja della collegiata dei SS. Pietro e Stefano, Bellinzona, Suíça  sob a produção do mentor e inventor da editora Manfred Eicher, o homem que ao longo dos anos fez uso da sua própria intuição para descobrir e combinar os instrumentistas que ia conhecendo, abrindo assim caminhos a novas ideias, formatando os sons  à sua maneira e estabelecendo dessa forma novos e inovadores parâmetros musicais e sonoros, isto é criando, digamos assim, a sua própria revolução musical; o novo disco de Garbarek apresenta um emblemático reportório que vai desde  composições de autores tão distintos, quanto dispares, tais  como Hildegard von Bingen, Komitas, Antoine Brumel, Perotin, Guillaume le Rouge, Arvo Part ou  composições de  vários anónimos e do próprio saxofonista norueguês, que de novo acompanhado pelo quinteto britânico Hilliard Ensemble  explora de novo  e outra vez distintos ambientes, cadencias e  combinações sonoras  que fazem do projecto uma obra envolvente, sedutora e transcendente, um disco de uma grande riqueza estética que certamente não vai permitir que algum ouvinte lhe fique indiferente tal a beleza que  sonoramente  o envolve!

CD ECM/Distrijazz

 

TANGO

Projectado para se constituir como uma compilação que pretendia reunir uma série de nomes que vão desde conceituados compositores até nomes contemporâneos dentro da área da música argentina por excelência em que se movimentam e se popularizou como tango, o projecto “The ultimate tango collection” é bem mais que isso pois no final acabou por constituir-se como uma verdadeira antologia de tangos, milongas e valsas onde nomes como Trio Pantango, Enrique Ugarte, Tango Siempre, Alfredo Fernando, Las Chicas del Tango ou o Buenos Aires Tango Trio, dão nova vida a inspiradas composições de gente como os imortais Astor Piazzola e Carlos Gardel, Matos Rodriguez, Hector Varela, Juan Ventura Cuccaro, Angel Villoldo ou Pete Rosser, entre outros.

Um disco com uma magia própria que encanta, seduz e nos deixa com uma vontade enorme de viajar até Buenos Aires, onde em dezenas de famosos barrios  típicos o tango tem mais vida, sabor, encanto, vivência  e…autenticidade!

CD ARC Music/Megamúsica

 

ROD STEWART

Ao som da  brilhante Royal Philarmonic Orchestra os sucessos de Rod Stewart ganham agora outra dimensão sonora, um brilho diferente e uma inquestionável nova vida artística que os projectam sem dúvida para a conquista de novos e diferentes públicos através dum duplo álbum – “Rod Stewart- You´re in my heart- with RPO” recheado de mega sucessos como “Sailing”, “Maggie may”, “Reason to believe”, “Tonights the night”, “Young turks”, “Every beat of my heart”, “Have I told you lately” ou “Forever young”, entre outros; o  projecto tem a particularidade de incluir ainda um novo tema original- “Stop loving her today” bem como um dueto de Rod Stewart com  o carismático Robbie Williams em “It takes two”.

Um disco destinado especialmente a admiradores e fans do celebre cantor escocês e também direccionado a novas audiências que este trabalho com orquestra vai certamente ajudar a conquistar!

2CDs Warner Music

 

GREECE

Com letras assinadas por alguns dos mais conhecidos letristas gregos da actualidade- Thanassis Papalakis, Michalis Terzis e  Kostas Fasoulas, composições assinadas por um destes elementos do citado trio- o prolifero Michalis Yerzis e excelentemente  interpretados pelo cantor nativo da ilha de Creta- Vasilis Skoulas, eis aqui treze belas composições que integrando o novo disco -“ A tribute to Greece”  constituem de certa forma o reportório ideal para quem desconhece por completo ou conhece muito pouco da musica grega actual e tem assim aqui agora uma oportunidade única de começar a  tomar contacto com uma série de belas melodias de grande recorte sonoro, constituindo cada uma delas uma espécie de sonho musical, tanto mais que todas elas possuem uma atmosfera própria que quase nos impulsiona de repente a viajar como um qualquer vulgar turista para a terra de Aristóteles e Platão e também de Nana Mouskouri ou Vangelis ,numa espécie de excursão experimental que afinal não seria  mais que um encontro imediato com a historia antiga da humanidade, com mitos, lendas e com paisagens de sonho, de que as famosas ilhas gregas são um manancial inesgotável, já para não falar da visita a monumentos ancestrais de grande significado e história como são entre outros a Acrople, em Atenas, o templo de Artemis, o colosso de Rhodes ou o templo de Zeus, para alem dum infindável numero de museus onde a antiguidade desfila silenciosamente aos nossos olhos…

CD ARC Music/Megamúsica

 

ANOUAR BRAHEM TRIO

É sempre muito difícil conseguir classificar-se um disco só instrumental especialmente quando inserido na área das musicas do mundo  tal a profusão de projectos que a área abrange, a sua multiplicidade e diversidade; reposto recentemente no mercado internacional “Astrakan café“ do Anouar Brahem Trio é , em termos sonoros, um dos mais sedutores trabalhos em que o oud (alaúde) é rei e senhor  e onde marca posição privilegiada ao assumir as despesas da condução rítmica.

Excepcionalmente fluidos, os três instrumentistas – Anouar Brahem, no oud, Barbaros Erkose, no clarinete e Lassad Hosni no bendir  e darbouka , conseguem criar ao longo do projecto uma mão cheia de composições hipnóticas, ornamentadas por uma carga

melódica simultaneamente misteriosa e dramática que transportam os catorze temas do  projecto para paisagens sonoras verdadeiramente surreais e magnéticas , numa confluência de sonoridades quase jazzísticas situadas algures entre o norte de África e o Médio Oriente misterioso, Rússia, Azerbeijão, China, Tanzânia, Turquestão ou Tunísia, afinal de contas proveniências de onde são recriadas as belas imagens sonoras com séculos de existência que podemos ouvir no disco.

Um projecto, com um equilíbrio acústico notável e uma capacidade de envolvência muito própria, simultaneamente sedutor e enigmático, belo e sonoramente incandescente  que conquista e faz sonhar com horizontes longínquos mesmo os mais leigos na matéria logo numa primeira audição.

CD ECM/Distrijazz

 

MÉXICO

O bolero, ritmo que através da voz de vários artistas e grupos, desde há muito tempo tomou positivamente de assalto a América Latina, nomeadamente a da  parte mexicana isolada da costa do Pacífico, onde mais se fazem sentir as influencias musicais mestiças, índias e afro-mexicanas, é o ritmo-rei do projecto “México- luz de luna”, constituído por dezanove composições, tendo com nítida predominância as que levam a assinatura do grande Alvaro Carrillo, um dos maiores compositores do género, originário da chamada Costa Chica, autor que neste disco assina nada menos de dez temas, ou seja mais de metade dos que compõem a presente colectânea onde podemos encontrar sucessos como “Luz de luna”, “Sabor a mi”, “Mi gran amor”, “Jamás, jamás”,”Três besos”, “Porque me pides mas?” ou “Sabor de mujer” que aqui surgem através de belíssimos arranjos na interpretação de nomes consagrados como Las Hermanas Garcia, Pedro Torres, Fidela Pelaez ou Los Três Amuzgos, qualquer um deles nome cintilante deste verdadeiro fenómeno dançante onde os temas que falam sobretudo de amor tem lugar destacado; um disco para amantes da dança, apaixonados e não só!

CD ARC Music/Megamúsica

 

CAMANÉ & MÁRIO LAGINHA

O fado já foi apresentado ao vivo e em disco de muitas formas mas, salvo erro, nunca tinha surgido editado em disco depois de ter sido cantado, simplesmente com o acompanhamento de um… piano!

Embora essa modalidade constitua uma velha tradição lisboeta, quando o fado era, segundo relatos históricos, o pretexto principal para encontros e reuniões de sociedade e era servido em autenticas bandejas de prata nos salões da aristocracia alfacinha, pois era ao piano e não à guitarra que ele era consumido, essa ancestral forma de o apresentar foi agora recuperada; assim, em jeito de regressão ao passado, a fabulosa voz de Camané aliou-se com grande subtileza às teclas do piano, sempre surpreendente, de Mário Laginha, nome que desfruta de grande popularidade especialmente junto dos amantes de jazz ele que durante anos foi parte integrante nos discos, espectáculos e digressões da cantora de jazz Maria João e da união desses dois esforços conjuntos resultou o disco “Aqui está-se sossegado”, um projecto verdadeiramente inovador e bem concebido que inicialmente gerou uma certa  expectativa e grande curiosidade artística e agora, depois da consequente  viagem que se seguiu e o levou para os palcos portugueses, tem conseguido muito mais que isso, pois que para além de ter suscitado uma maior atenção  do público, obteve agora o aplauso generalizado desse mesmo  público, bem como da critica nacionais…

Já anteriormente Camané havia desafiado o pianista, trazendo-o para o seu planeta musical ao convidá-lo para musicar um poema de Álvaro de Campos intitulado “Ai Margarida” que acabaria por fazer parte da listagem de fados na compilação “O melhor de Camané  1985-2013”, tendo a composição curiosamente sido uma das principais responsáveis pelo sucesso global da colectânea; agora, no final de 2019, o desafio foi maior e mais abrangente pois o disco resulta afinal  do desejo mútuo de dar testemunho do êxito que ambos viveram em palco amiudadas vezes (numa totalidade de vinte concertos) e que acabava afinal por ser assim o lógico corolário de uma bem sucedida parceria de dois grandes artistas, que pertencendo a mundos musicais tão diferentes  musical e sociologicamente, afinal de contas tem muito mais afinidades do que ambos inicialmente poderiam imaginar…

Com um reportório de luxo que nos permite viajar por canções históricas e com história

( há também cinco inéditos no disco)como são sem dúvida “Não venhas tarde“, “A casa da Mariquinhas”, “Abandono” ou “Com que voz” o trabalho, que inclui algumas composições também feitas sucesso mercê das apostas e pessoais interpretações de Camané, possibilita por outro lado um contacto privilegiado em termos poéticos pelos mundos de gente de certo gabarito  literário como Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Aníbal Nazaré, David Mourão Ferreira, Alfredo Marceneiro ou Manuela de Freitas e por inspiradas melodias de nomes como o próprio Mário Laginha, João Nobre, o saudoso José Mário Branco, Alain Oulman ou Jaime Santos, entre outros.

Projecto em que a voz carismática de Camané  namora na perfeição e com grande sensualidade com as teclas do piano de Laginha, o disco constitui  um momento musical mágico e uma viagem intemporal por parte de algum espólio do fado, num manancial de criatividade verdadeiramente inebriante  e invulgar, que acaba por constituir um desafio inspirador de duas diferentes linguagens musicais, um admirável e inesperado voo musical de grande amplitude em que duas verdadeiras aves do paraíso se deleitam a planar ao sabor do vento em verdadeiros rituais de paixão, expressividade, deleite, deslumbramento  e beleza…

Sem dúvida, uma verdadeira obra-prima!!!         

CD Parlophone/Warner Music

 

MARIA FARANTOURI

Desde que há muitos anos vi o filme “Zorba, o grego” estrelado pelo eterno apaixonado da nossa diva Amália- Anthony Quinn e também por Irene Papas e Alan Bates, e cuja respectiva banda sonora, assinada pelo génio musical grego Mikis Theodorakis, em que se destacava um novo ritmo- o “sirtaki” que, por uma questão de gosto pessoal e uma certa atracção pela belíssima e peculiar sonoridade do bouzouki , tentei não perder mais de vista a musica grega que por cá chegava embora  a conta gotas,  bem como uma série de instrumentistas gregos e os atributos vocais de algumas das suas vozes mais ilustres nomeadamente  Eleftheria Arvanistaki, Glykeria ou Anna Vissi entre outras, para além, claro, das citadas Irene Papas e Maria Farantouri que, quero aqui relembrar,  ilustrou vocalmente em 1975 uma verdadeira obra-prima da música de índole politica e humanista mundial – “Canto general”  com composições da responsabilidade de Mikis  Theodorakis ,sendo a parte literária da responsabilidade do imortal Pablo Neruda; um projecto épico, em que  se chega à conclusão de que efectivamente não é necessário perceber-se ou falar-se grego para se entender o verdadeiro alcance e amplitude daquele casamento perfeito entre musica e poesia, que acabou por constituir um verdadeiro deleite para os ouvidos e um prazer para a alma…

Por  tudo isto, cada disco que actualmente me surge no horizonte auditivo, originário da Grécia ou envolvendo artistas ou grupos dessa área geográfica, é sempre motivo de entusiasmo, de um grande e pessoal interesse e uma cuidada atenção.

É o caso do mais recente disco, o primeiro em nome próprio para a sua nova editora, da mesma Maria Farantouri que desde há anos vem conquistando a solo, publico e plateias um pouco por todo o mundo e esporadicamente colaborando com outros artistas de renome como o saxofonista de jazz Charles Lloyd e como a pianista grega Eleni Karainchou com os quais actuou ao vivo em Atenas, dois concertos que resultaram noutros tantos brilhantes discos; agora, para além de cantora, activista social e defensora dos direitos humanos, áreas onde se destaca como figura de culto ao defender a liberdade individual e os valores humanos e democráticos, Farantouri afirma-se também e cada vez mais como uma das mais importantes vozes femininas da música grega actual sendo por isso de aplaudir e mais que justificável o facto de ter sido (finalmente) contratada por uma prestigiada editora- a ECM para integrar o seu selectivo e brilhante catalogo.

O lançamento da cantora ( a quem em tempos chegaram a chamar a Joan Baez da Grécia) na sua nova casa discográfica, faz-se através de “Beyond the borders” que constitui uma verdadeira evocação musical ao Mediterrâneo, um disco onde se combinam na perfeição canções tradicionais da Grécia, Turquia, Líbano e Arménia algumas compostas outras com arranjos de Cihan Turgoklu, que dá também uma ajuda importante na parte vocal e juntamente com mais quatro instrumentistas e sob a sensível produção do “boss” da ECM- Manfred Eicher, constroem a cama  perfeita para as composições a que Maria Frantouri dá uma grande e eloquente dimensão vocal, brilhando a grande altura na interpretação de uma série de canções que cruzam fronteiras  denunciando até, curiosamente, algumas delas uma certa inclinação jazzística; disco de belos e sofisticados arranjos, introspectivo, profundo e versátil,  marca com indelével qualidade o regresso da cantora grega às gravações e a uma grande editora, que, convenhamos, ela há muito tempo já merecia!

 CD ECM/Distrijazz

 

ROLLING STONES

Dentre as várias reedições que tem surgido de trabalhos dos Rolling Stones destaco hoje ”Beggars banquet”, obra-prima em que o grupo de Mick Jagger se apresenta em grande forma, um projecto que  marcou indelevelmente gerações de músicos e grupos e onde o grupo regressava na altura à sua essência musical- os blues .

O disco, de que no ano de 2018 se comemoraram cinquenta anos sobre a data do seu lançamento original, inclui uma série de sucessos que marcaram não só a história da banda inglesa mas também musicalmente os anos que se seguiram; aqui vamos poder encontrar os celebérrimos “Street fighting man”, “Sympathy for the devil” e “Prodigal son” para alem outros mais como por exemplo “No expectations” canção que foi objecto de uma  versão especial para o concerto em Portugal, versão essa feita “ao momento” e quase em cima do joelho, na presença de três testemunhas- eu próprio e ainda Jorge Fernando e Ana Moura, por Mick Jagger nos camarins do Estádio de Alvalade, onde pouco depois os Stones actuariam, e que foi  transformada  de molde a poder ser interpretada em dueto juntando as vozes do vocalista dos Stones com a da…fadista!!!  Disco dos mais emblemáticos do grupo britânico merece por isso mesmo uma demorada revisitação, essencialmente  por parte de todos os indefectíveis da banda e também dos fans do melhor rock que se deu a conhecer nos últimos anos!

CD ABKCO music & records/Universal Music

 

MAJA

Já anteriormente aqui tinha referido, como uma grande surpresa, o aparecimento de uma nova voz feminina na área da musica em Portugal, uma mulher de grande beleza  e de ascendência bósnia, que possuidora de grandes atributos interpretativos direccionou as suas aptidões vocais para o… fado de que se apaixonou perdidamente quando ouviu pela primeira vez uma canção na voz da nossa diva maior- a grande Amália, que passou a partir daí a ser a sua grande escola, referencia e…devoção!

Pois essa nova fadista que dá pelo nome de Maja, é uma das grandes apostas do Samuel Lopes da Seven muses e por isso mesmo merece uma cuidada atenção tanto mais que Samuel é extremamente exigente com as suas edições e isso é muito bom sinal. “Fadolinka”, o novo disco, que respira qualidade por todos os poros, representa uma espécie de convite para uma viagem, fadísticamente falando, entre Portugal e a Bósnia-Herzgovina, terra natal da novel voz e por isso mesmo o projecto  tem motivos mais que suficientes para ser tomado em grande linha de conta; bastava só o facto de incluir uma composição, do valioso espólio do fado menor, com  letra da autoria do  meu querido e saudoso João Ferreira Rosa (“Sinal”) para só esse facto desde logo nos “obrigar” a ouvir o disco com redobrada atenção pois o genial criador do “Embuçado”, que nestas coisas da chamada canção nacional era muito exigente  e extremamente selectivo pois não gostava de qualquer coisa que não tivesse um mínimo de exigível qualidade e  sobretudo porque também não embandeirava em arco por dá cá aquela palha, e por isso mesmo, só pelo simples facto de “Sua Majestade” como eu  costumava chamar-lhe em jeito de grande brincadeira, se ter “dignado” escrever para Maja, isso é só por si sinonimo de mais que garantida qualidade!

Com efeito, ouvido o disco há várias coisas a destacar de imediato:-a excelência da voz da fadista, a cuidada selecção de composições, a eficácia da produção, os belos arranjos e as autorias criteriosamente seleccionadas, destacando-se neste capítulo o facto de quatro delas terem a assinatura da própria Maja, que aqui de novo se revela assim, para alem de uma grande interprete, também uma compositora de mão cheia, havendo no entanto mais um naipe importante de nomes na área das autorias a  merecer ser destacado como o do atrás referido João Ferreira Rosa, Afonso Lopes Vieira, Maria Teresa de Noronha, José Carlos Ary dos Santos, Alain Oulman, Raul Ferrão ou Carlos Gonçalves todos eles sinónimos de  uma indesmentível qualidade artística, instrumental e poética consoante o caso especifico de cada um deles.

O menu do autentico manjar artístico que é o presente projecto, é composto por canções originais e tradicionais de géneros musicais habitualmente associados aos dois países- o fado a Portugal e  sevdalinka dos Balcãs à Bósnia, numa comunhão perfeita de duas culturas e dois distintos caldeirões musicais, e esse facto ainda mais aguça a curiosidade e a imaginação do público em geral que aqui verifica como na realidade “casam” bem no disco essas duas categorias musicais, tanto mais que a fadista regressa de novo à sua grande referência- Amália  que interpreta com garra, saber, empenho e sentimento e sabendo-se “à priori” que não é toda a gente que consegue cantar reportório amaliano como ele deve minimamente ser interpretado, imagine-se a responsabilidade que Maja Milinkovic corajosamente assumiu ao fazê-lo, ela que afinal de contas acabou por dar tão boa conta do recado pois cumpriu a  ingrata “missão” com distinção, sabedoria e um certo brilhantismo…

Os grandes destaques do disco, que evidencia também um grande nível artístico por parte dos  instrumentistas presentes, vão quanto a mim inteirinhos para a canção que o grande João Ferreira Rosa escreveu e que mais não é que a história vivenciada quando jovem pela fadista, um arrepiante retrato de vida, com tudo o que ela no passado registou de turbulência, vicissitudes, sofrimento no meio de uma guerra brutal e de conflitos étnicos e ainda para “Não há fado sem saudade”e ”Fado das horas” realmente os três mais brilhantes  momentos do disco, onde se confirma que o  fado cada vez mais se assume como a “verdadeira praia” e também a grande opção de vida da bela Maja!!!

CD Seven Muses

 

SOUNDS OF AFRICA-MOZAMBIQUE

É um ritmo avassalador e quando os instrumentistas começam a tocá-lo, costuma dizer-se que é até as cordas partirem, tal o calor e entusiasmo que gera, não só aos músicos, como aos dançarinos e público em geral!

Trata-se da marrabenta, um ritmo ritmicamente potente e irresistível, quase que infernal e viciante, que toma conta de toda a gente  presente, quando é sonoramente exibido, e que sendo originário de Moçambique, onde muitos artistas locais lhe prestam uma espécie de vassalagem tal a sua grande riqueza rítmica, tem desde há uns anos a esta parte conquistado outras gentes e latitudes geográficas.

Ritmo exótico, que já se tornou uma autêntica tradição dançante, alicia para o simples divertimento e constitui a coqueluche e mola real da vida nocturna moçambicana sendo constituído essencialmente por canções de ritmo elevado, excitação e de nítido cariz sensual e até mesmo por vezes…sexual.

Tudo isto pode ser confirmado na audição de “Sounds of África- Mozambique” espécie de compilação, já disponível na secção de Músicas do Mundo das lojas mais especializadas e que nos leva tomar contacto com um dos mais lídimos executantes do movimento musical– os Yinguica , onde, para alem de outros músicos, pontifica um dos nomes maiores da marrabenta- Bernaldo Honwana, nativo de Maputo, antiga Lourenço Marques, cujo pai é um músico e compositor lendário…

Com temas cantados em português e ainda em linguagem ronga e shangaan o disco é uma das maiores surpresas rítmicas e sonoras dos últimos tempos pelo que se torna até por isso mesmo urgente descobrir.      

CD ARC Music/Megamúsica

 

JAPANESE DRUMS

Tem inúmeros e incondicionais adeptos um pouco por todo o Mundo tanto mais que os espectáculos são rítmica e visualmente atraentes e o seu nome maior, que já actuou entre nós mais que uma vez– os Kodo, são já periodicamente presenças assíduas nos maiores festivais mundiais de ritmo e percussão tendo actualmente tratamento de grupo de culto e de autenticas estrelas nas mais diversas salas das Américas ou da Europa em que se apresentam, esgotando quase sempre as lotações dos recintos onde sempre acabam por levar a assistência ao delírio…

A força verdadeiramente telúrica do ritmo e as sonoridades dos tambores gigantes japoneses também designado por “taiko drum” está bem presente numa edição discográfica recentemente posta no mercado  internacional– “Japanese drums” , espécie de colectânea com algumas das figuras que estão a emergir e já a dar nas vistas actualmente nesse verdadeiro movimento de percussão ( KyoShinDo / Nihon Daiko / Joji Hirota / The London Taiko Drummers /  Tomoe-Ruy Yutakadaiko / Wadaiko Matsuriza / Pete Lockett /Hiten Ryu Daiko ) que aqui dão vida a uma série de composições em que  demonstram todo o seu virtuosismo, força, capacidades, ritmo infernal, sonoridade e visceral energia através duma técnica exímia e exemplar, servida por uma extraordinária capacidade técnica de braços, numa mão cheia de brilhantes composições onde “falam”  através duma linguagem própria  e sensorial da Mãe natureza e sua magnificência, do mar e das suas intrínsecas sonoridades, das quatro estações do ano, de cerimónias de purificação, de orações, parques floridos, amendoeiras em flor, espíritos maus e bons, demónios, tradições ancestrais, contemplações e, como não poderia deixar de ser,  de arreigadas tradições religiosas também.   

CD ARC Music/Megamúsica

 

CÉCILE McLORIN SALVANT

Filha de mãe francesa e pai haitiano é já um dos nomes mais promissores dos últimos tempos na área do jazz onde se tem notabilizado, pela sua voz melodiosa e bem timbrada que lhe permite distinguir-se de outras vozes femininas da actualidade jazzística; isso mesmo aconteceu em 2010 quando conquistou, com todo o mérito dizem, o primeiro lugar num habitual certame de certa projecção e renome- o sempre difícil e exclusivo concurso Thelonius Monk International Jazz Competition por onde já passaram também grandes nomes da cena da grande musica negra actual.

Considerada a herdeira, e já a elas comparada, salvo as devidas distancias, a nomes como Billie Holiday, Ella Fitzgerald ou  Sarah Vaughan, Cécile McLorin Salvant mostra-nos em “Woman child”  as suas grandes potencialidades vocais, que a tem ajudado a celebrizar, e toda a extensão e elasticidade da sua voz , predicados que lhe permitem cantar com igual qualidade não só temas do jazz moderno como até blues clássicos ou tradicionais.

Não foi impunemente que a exclusiva etiqueta Mac Avenue records apostou nela todas as fichas e que  um conceituado critico disse que ela, ao vivo ou em disco, é um verdadeiro caldeirão de ingredientes onde se misturam com  elegância e requinte componentes como vida, vigor, energia, magnetismo, efervescência de espírito, alegria, coragem e felicidade, afinal de contas  alguns dos predicados que ela própria não desdenha possuir!

Cada tema do seu disco tem uma personalidade própria, um fraseado muito pessoal e acima de tudo uma expressividade acima da média o que a transforma num caso raro de apetência para o jazz, que ela trata tema a tema, frase a frase com desvelo, carinho, amor e acima de tudo com uma frescura e uma emoção que, convenhamos, já iam fazendo falta a algum do jazz contemporâneo! Brilhante!

CD Mack Avenue Records/Distrijazz

 

FOALS

Depois de nos deixarem com água na boca quando lançaram o primeiro capítulo do então novo disco, que resolveradividir em duas partes distintas, aí está finalmente o muito aguardado volume 2 do projecto “Everything not saved will be lost” dos originários de Oxford- os Foals; qualquer um dos capítulos é muito diferente de tudo que a banda havia proposto anteriormente e desta vez, especialmente este volume 2, é uma verdadeira panóplia de temas intensos, muito bem construídos, estruturalmente perfeitos e acima de tudo convincentes, coesos e inspirados, e porque não dizê-lo…inspiradores!

Estamos assim frente ao mais ambicioso projecto dos Foals, que para alem de constituir tematicamente a continuação do album anterior, publicado há cerca de sete meses atrás, é o disco que possui uma maior carga visceral, onde há mais garra, mais guitarradas e portanto, e logicamente, onde o rock está muito mais evidente e omnipresente!

Dez canções que são outros tantos momentos sonora e vocalmente brilhantes que para além de consagrarem em definitivo os Foals como uma das bandas mais proeminentes da actualidade os catapultam sem duvida para o já mais que merecido estrelato especialmente ao som de duas fabulosas e antológicas  composições:- “The runner” e “Black bull”!

 CD Warner records/Warner Music

 

ROTEIRO DE LISBOA

FAIA – casa típica de fado

Casas de fado típicas em Lisboa e Porto há efectivamente muitas, mas sem dúvida que não se pode falar do fado de Lisboa sem que me venha  à lembrança um local mítico no qual durante muitos anos a fio cantaram, encantaram e fizeram escola dois nomes consagrados da noite alfacinha e da chamada canção nacional como foram sem dúvida a grande Lucília do Carmo (1920-1999), infelizmente já desaparecida do nosso convívio e seu filho o grande “charmoso”  vulgo Carlos do Carmo, que este ano tomou a difícil decisão de se despedir dos palcos e dos discos aos 80 anos de idade!

Com efeito foi no Faia (a antiga Adega da Lucília)  fundado no já longínquo ano de 1947 que se projectaram para além de muitos outros nomes estas duas figuras impares do fado em Portugal, num local que hoje em dia é uma das mais conceituadas e melhores casas de fado da noite alfacinha e simultaneamente um dos locais  privilegiados e de eleição para se escutar a canção nacional por excelência, um local de verdadeira peregrinação para quem gosta de bom fado, interpretado com sentimento, raça, nostalgia e  carisma e onde actualmente podemos encontrar no elenco nomes conceituados como o da atraente e sempre expressiva Lenita Gentil, a eterna diva Anita Guerreiro, ainda dona e senhora de grande voz, o veterano e sempre castiço António Rocha, a novel  e promissora Mel e especialmente uma figura incontornável do fado que presentemente ostenta a coroa de voz numero um no masculino- Ricardo Ribeiro ( o fadista que recentemente foi o convidado especial de Patxi Andion  nos seus concertos portugueses e a quem este apelidou de extraterreste pela potencia da sua voz e sublime e fascinante modo de interpretar o fado).

Embora se cante em muitas terras portuguesas sem dúvida alguma que fado é… Lisboa; e  Lisboa é simultaneamente também tradição, poetas ao vento, modernidade, fadistas a cantar e guitarras a gemer e a trinar!

E Fado com letra grande é para ser ouvido sempre, de preferência ao vivo em vários locais lisboetas mas especialmente numa da suas mais antigas e castiças e memoráveis catedrais:-no velhinho, mas sempre novo…Faia!!!

Depois de uma noite fadista memorável em que tive o prazer de lá ir jantar (belissimamente, diga-se de passagem ) na companhia do meu irmão espanhol Patxi Andion, sua mulher Gloria, a minha companheira  Luísa e ainda o manager do cantor espanhol -António Peña e esposa, mais convicto fiquei de constitui um verdadeiro pecado capital, para quem gosta de bom fado, não se visitar o Faia.

Por isso deixo aqui um aviso à navegação: -é nos números 54 e 56 da Rua da Barroca, em pleno coração do Bairro Alto ( todas as noites excepto ao domingo) que mora o FADO sob a forma portuguesíssima de uma adega típica onde actuam uma mão cheia de interpretes de eleição que merecem por isso mesmo ser atentamente e em silêncio escutados; por isso mesmo uma visita para o ouvir, simplesmente  beber um copo ou para jantar é muito mais que indispensável:- é uma “viagem” gastronómica e musical absolutamente obrigatória!

Mas atenção pois que face às constantes casas cheias convém fazer reserva antecipada…    (tel.213421923/213420382/ info@ofaia.com)