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Escolhas do João Afonso Almeida

Em período natalício proponho a todos nesta altura uma série de bons discos recentemente editados no mercado nacional que vão desde a world music à clássica passando pela musica popular portuguesa, o jazz, os blues, o fado ou a musica brasileira, propostas essas que variarão consoante o gosto pessoal dos ofertantes ou o dos contemplados mas  uma certeza tenho:- constituirão belas prendas de Natal que certamente todos os contemplados apreciarão…

 

COMPANHIA DO CANTO POPULAR

Foi preciso esperar-se pelo final do ano para se ser surpreendido por um projecto impar e transversal da música portuguesa que para além de constituir uma verdadeira “pedrada no charco” no que à música de raiz tradicional/popular diz respeito vem também confirmar que afinal de contas a MPP continua viva, apesar do “ruidoso” silêncio que se vem sentindo desde há tempos a esta parte, com o desaparecimento de alguns grupos e  artistas a solo e o incompreensível silêncio, diria quase criminoso e de lesa cultura, por parte das editoras majors, as tais que deveriam ter pelo menos mínimas obrigações culturais e musicais e positivamente mandam às malvas as “obrigações” morais de defender e promover a música de raiz tradicional no mínimo editando alguma da musica cantada na língua de Camões e conotada com a MPP que lhe vai sendo proposta para gravar por alguns artistas e/ou grupos; porém, pura e simplesmente ignoram-na e deixam mesmo de se interessar por ela e salvaguardando alguns poucos casos pontuais, vão deixando esse papel e a enorme responsabilidade da edição e divulgação nas mãos de alguns carolas e às pequenas editoras que de vez em quando com maior ou menor dificuldade lá vão levando a água ao seu moinho continuando timidamente a publicar discos e alguns projectos temáticos que depois posteriormente sofrem para obter algum apoio por parte dos media nacionais; é o caso por exemplo de José Moças (Tradisom), Uguru,  Joaquim Balas (Ocarina), Nuno Rodrigues (CNM), Ovação, Samuel Lopes (Seven Muses) ou dos Sons Vadios  que assim com o seu esforço e labor vão apostando no escuro permitindo que desse modo a música popular portuguesa vá continuando viva e vá…sobrevivendo!

Não é impunemente que cada vez mais há edições de autor, isto é artistas que pagam do seu próprio bolso a gravação dos seus trabalhos, que posteriormente entregam para distribuição, muitos deles na tentativa de com a edição do disco conseguirem alguns espectáculos ao vivo que de outro modo dificilmente angariariam; recordo até aquilo que o saudoso José Mário Branco, que infelizmente recentemente nos deixou, disse há tempos numa entrevista:-“… antigamente faziam-se concertos para se venderem discos, hoje em dia fazem-se discos  para se conseguir arranjar concertos; e até por isso mesmo, costumo dizer:- não nos peçam bilhetes para os espectaculos porque isso é a única coisa que nós ainda vamos tendo para vender!!!”

A juntar a todas estas dificuldades também a maioria das rádios deste país à beira-mar plantado,  com  honrosa excepção de alguns programas da Antena 1 (Alô Armando Carvalheda) e da Rádio Amália, pura e simplesmente ostraciza a música portuguesa de cariz popular e vai-se “entretendo” e poluindo as mentalidades dos ouvintes com as famigeradas e sempre naucoteantes playlists em língua estrangeira, “esquecendo-se” de divulgar como seria lógico toda a riqueza musical não só de Portugal mas também de outras importantes áreas musicais como as músicas do Mundo, a country music, o jazz, o kraut rock alemão, os blues, etc.

Mas voltando à escolha com que abri o texto desta proposta  é de facto de festejar o aparecimento de um novo projecto musical, no caso presente do disco “Rebento” da autoria da Companhia do Canto Popular que face à sua qualidade intrínseca constitui uma espécie de eclosão de magma sonoro, uma  autêntica epopeia musical, como se fosse um adormecido vulcão que de repente  entrou em erupção!

E que erupção musical meus senhores, tal a envergadura do trabalho que agora nos é apresentado, as propostas que o grupo de músicos nos propõe à audição e à altíssima qualidade de que o projecto se reveste quer seja avaliado a nível vocal, sonoro ou instrumental, afinal de contas predicados de excelência que resultam das inúmeras vivências musicais, traquejo, experiencias e de muita, muita estrada presentes no curriculum de qualquer um dos membros integrantes do projecto e que em comunhão de ideias, formas e  influências acabam por parir um disco fabuloso, que se constitui sem sombra de dúvida como o melhor disco em português do ano que vai em breve terminar; por isso mesmo é hora de festejar, chamando todos para a festança, porque na verdade este disco é uma festa, um arraial de alegria, virtuosismo e inspiração!

Um disco brilhante, notável e apelativo que nos chega com uma força vocal e um colorido instrumental verdadeiramente telúrico, onde sob a batuta do grande Tó Pinheiro da Silva na produção sonoplasta, nove músicos, juntaram ideias, saberes, estruturas pessoais e conceitos e  se associaram numa espécie de ensemble assumindo-se como verdadeiros alquimistas, se divertiram e certamente deleitaram quando ouviram o resultado final do seu labor, construindo musica da mais alta qualidade, revisitando  vocalmente belas composições do nosso património cultural/musical e dando-lhes  no entanto através duma nova leitura, uma outra vertente musical/vocal e uma  envergadura melódica soberba através da busca de  novas sonoridades e ritmos e cuja audição gradual dos sucessivos temas me traz à lembrança a  força de um rio indomável , que vai ganhando cada vez mais caudal à medida que os afluentes vão contribuindo com a sua quota parte para a força da correnteza que transporta desde a nascente até ao…mar!

Para a altíssima qualidade final do projecto muito contribuíram o desempenho e as capacidades criativas de cada um dos nove integrantes do projecto qualquer um deles inspirados instrumentistas e executantes todos eles com um “passaporte” musical riquíssimo preenchido por duradouras viagens musicais no seio de outros grandes projectos da musica popular portuguesa, e não só, como por exemplo Manuel Rocha (Brigada Victor Jara), José Barros (4 ao Sul  e Navegante), José Manuel David (4 ao Sul  e Gaiteiros de Lisboa), Sara Vidal (A presença das formigas, Diabo a Sete e Luar na Lubre, da Galiza), Manuel Tentúgal (Vai de Roda), André Sousa Machado (diversos grupos de jazz, etc.), Artur Fernandes (Danças ocultas),Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) e Rui Costa (Silence 4) ; um projecto que teve o apoio institucional do Município de Serpa, da SPA e da Antena 1 e se assume como candidato a “melhor disco em português do ano” pese embora a qualidade de outros concorrentes.

Eclético e inspirado, instrumentalmente brilhante e vocalmente magistral, o primeiro projecto da Companhia do Canto Popular marca indelevelmente pela sua altíssima qualidade a edição discográfica portuguesa de 2019!

CD Sons vadios

 

FLORBELA ESPANCA

Mais uma vez teve que ser um “privado” a lembrar-se da efeméride e a prestar tributo a uma das mais insignes figuras da cultura nacional, neste caso a grande e inesquecível poetisa Florbela Espanca, considerada a  maior expressão da poesia feminina em língua portuguesa de sempre de quem este ano se comemoram nada menos de 125 anos sob a data do  seu nascimento (1894-2019).

Com efeito, Samuel  Lopes através da sua label -Seven Muses volta à carga  de novo nas homenagens  a grandes e inquestionáveis vultos da cultura portuguesa ( já também anteriormente tinha lembrado o eterno Fernando Pessoa quando editou “O fado e a alma portuguesa”, livro com um CD bónus onde sob a sonoridade do fado se prestava homenagem ao imortal poeta/escritor sob a forma de 20 composições ilustradas por  algumas da vozes  mais importantes e significativas da canção de Lisboa por excelência tais como Ricardo Ribeiro, Mísia, Camané, Marisa, Ana Moura ( aqui em dueto com o cantautor espanhol Patxi Andion), Cristina Branco, Katia Guerreiro e muitos mais.

O novo projecto que se pauta por uma grande e inegável qualidade- “Florbela Espanca- o fado”, apresenta-se de novo sob a forma de um livro trazendo também acoplado um CD bónus  contendo a parte musical onde nada menos de 18 vozes femininas,  prestam homenagem à grande figura feminina da poesia nacional dando desse modo ainda maior ênfase e popularidade à já de si altíssima qualidade da obra da  imortal Florbela.

É certo que algumas das vozes que figuram na colectânea até pela sua experiência, traquejo e percurso se destacam qualitativamente das restantes, cuja carreira ainda é curta e também não conseguiram que a popularidade e a fama já lhes tivesse batido à porta, mas o que é certo é que algumas delas constituem verdadeiras e inesperadas revelações abrindo-nos assim deste modo o apetite para gravações futuras a solo.

Das dezoito composições que constituem a obra, onde a fantástica e inspirada criatividade da artista plástica Rita Ventura merece especial ênfase, metade delas são gravações inéditas (com destaque para a de Joana Amendoeira em grande forma vocal e interpretativa ) e nas restantes, já anteriormente editadas, há que realçar igualmente  as prestações de fadistas como Katia Guerreiro, Ana Lains, Cuca Roseta, Debora Rodrigues, Sílvia Filipe, Mísia ou  Carla Pires; uma palavra final para o tema que encerra  a compilação – “Lágrimas ocultas” uma brilhante e inesquecível recitação da grande e incontornável Simone de Oliveira, aqui a proporcionar-nos um momento único e verdadeiramente mágico, que encerra assim com chave de ouro um projecto destinado ao sucesso, numa oportuna edição de grande dimensão artística onde as palavras de Florbela Espanca são cantadas de modo reverente e sentido  numa verdadeira epopeia de emoções onde sons e palavras se misturam num todo uníssono, viral e poderoso, afinal de contas o que a obra da poetisa amplamente justificava.

Depois de assistir ao showcase de apresentação do projecto na FNAC do Colombo ouso perguntar o seguinte:- Por acaso alguém já se lembrou de programar este projecto para palco nomeadamente na terra de naturalidade de Florbela, no Porto e em Lisboa? Veriam que resultaria…

 

Livro/CD Seven Muses

 

CHAVELA VARGAS

Se hoje ainda fosse viva a imortal cantora Maria Isabel Anita Cármen de Jesus Vargas Lizano teria a simpática e secular idade de 100 anos; porém infelizmente já não está entre nós para desgosto dos seus milhares de admiradores pois o seu desaparecimento físico data já de 5 de Agosto de 2012, depois de uma vida de excessos ligados ao álcool, que consumiu desmesuradamente nomeadamente tequilla, às drogas e a tabaco diverso nomeadamente os puros cubanos com que se deleitava  como um bom apreciador e um verdadeiro conhecedor da matéria ; pois a mesma e mítica cantora Chavela Vargas, nome porque ficou mais conhecida, teve também uma vida emocional e amorosa atribulada, plena de aventuras fora dos canônes tradicionais e das regras que as convenções do mundo haviam estabelecido como sendo regras básicas, rompendo tabus, alargando horizontes de vida, quebrando normas, revolucionando vivências…

Assumindo-se desde cedo como selvagem e transversal fez da sua homossexualidade uma bandeira de luta (ficou celebre a sua ligação amorosa a muitas mulheres famosas nomeadamente o romance que a ligou durante muito tempo à artista Frida Khalo com quem viveu na casa desta juntamente com o marido da pintora Diego Rivera) e por isso o seu percurso, quer na musica, quer fora dela sempre foi um caminho de variadas e incontáveis histórias e lendas como por exemplo  quando confessou a pessoas mais chegadas que no dia seguinte a um dos casamentos de Elizabeth Taylor, para o qual havia sido convidada, ter chegado a acordar de manhã com Ava Gardner nos braços!

Sempre assumindo os seus actos, quase sempre explicados mercê de uma linguagem desbocada que era uma das suas características, criticou  acerrimamente tudo o que era considerado incorrecto com perfeito à vontade e conhecimento de causa, quer se tratasse de ternura, desânimo ou dor tornando-se por isso mesmo e em pouco tempo um símbolo de revolução sexual e de rebeldia e acabando mais tarde por se constituir como uma verdadeira lenda da música mexicana, especialmente de rancheras apesar do seu país de nascimento haver sido a Costa Rica onde sua mãe a deu à luz em São Joaquim de Fores; apesar de se ter transformado num mito e constituir uma permanente interrogação por motivo de um  longo período de inactividade artística de mais de 15 anos, espaço de tempo esse que ela dedicou ao álcool que se tornaria o seu (in)fiel companheiro, num verdadeiro desvario etílico sem precedentes Chavela Vargas nunca deixou ninguém indiferente tendo até ficado célebre uma espécie de desabafo em jeito de justificação sua  quando pronunciou a frase que a marcaria indelevelmente para sempre:- “…mandei abaixo mais de 45.000 litros de tequilla e ainda assim, apesar de tudo estou em condições de  doar o meu fígado!!!”.

Esse mesmo período de instabilidade e inactividade artística foi quebrado quando aceitou o desafio do seu grande amigo Pedro Almodôvar, para numa espécie de segunda vida ser ajudada de várias formas nomeadamente quando ele se propôs incluir músicas já gravadas por ela em películas  de sua autoria e quando aceitou regressar aos palcos mundiais, bem mais pobres convenhamos com a sua ausência.

Assumidamente uma mulher de armas e de  grande fibra, verdadeiramente de antes quebrar que torcer, intensa a cantar, avassaladora a amar, segundo as palavras das suas numerosas conquistas femininas, Chavela era dotada também uma força inquebrantável e por isso mesmo não admirou que acabasse por retornar à senda do sucesso, quer no que diz respeito às gravações de novos projectos, quer no tocante aos shows ao vivo regressando assim para encantar de novo, cantando sempre com um estilo único e  inconfundível ,reafirmando-se com um talento nato e uma voz peculiar, profunda e de rara sensibilidade não admirando portanto que tivesse chegado de novo ao trono da musica latina em curto espaço de  tempo e regressando desde logo com o porte de uma rainha, para  se assumir como um ícone e de novo influenciar novos artistas.

Quando a saúde resolveu começar a dar-lhe luta chegou a anunciar a sua retirada várias vezes mas isso ainda vinha longe dando-lhe assim oportunidade, espaço e tempo  para realizar um sonho que há muitos anos acalentava:- gravar uma homenagem a Federico Garcia Lorca que desde sempre idolatrou e para isso partir para a gravação de  um disco que acabaria por ser a ultima obra-prima da sua carreira–“La luna grande” espécie de dívida amor que ela tinha para com o poeta granadino fuzilado pelos esbirros da polícia espanhola durante a Guerra Civil de Espanha; um disco que foi objecto de gravação numa sala da capital mexicana onde Chavela cumpriu a homenagem num espectáculo  onde nostalgia e emoção andaram de mãos dadas e acabou por “ressuscitar” durante algumas horas o espírito do genial poeta…

Agora os mercados mundiais registam o aparecimento de dois projectos da imortal diva mexicana (a cantora sempre se assumiu indígena da terra de Mário Moreno-Cantinflas):-

um deles  “Chavela Vargas -Cien años- 100th birthday celebration” ( Warner Music) dupla compilação de sucessos com nada de 40 canções e “Noche boémia”  (Distrijazz) que curiosamente acaba por ser um disco histórico, pois pela primeira se edita neste formato o disco de estreia da cantora que ainda por cima traz acoplado como bonus também o segundo disco que ela gravou, o que juntando o reportório dos dois discos perfaz uma totalidade de 25 canções!

Dois fabulosos projectos, intemporais, onde vamos encontrar, no disco de estreia êxitos   eternos como “Macorina”, “La llorona”, “Mi segundo amor”, “Paloma negra”, “Quisiera amarte menos”ou “Verde luna” e no disco comemorativo do centenário imortais canções como “Piensa en mi”, “La noche de mi amor”, “Fallaste corazon”, “Nosotros”(com Joaquin Sabina), “En el ultimo trago”, “Pobre corazon”, “Amaneci en tus brazos”, “ Sombras nada mas”(com Ana Belén), “Soledad” e “Tu me acostumbraste”, entre muitos outros; dois projectos para recordar uma rainha latina, uma voz apaixonante, uma lutadora pela liberdade!

2CDs Rhino/Warner Music   e  CD Jackpot records/Distrijazz

 

KEITH JARRETT

Falar de Keith Jarrett é sinonimo de se falar de um dos maiores pianistas de jazz do mundo e de um dos mais incríveis  instrumentistas da actualidade; com uma cadencia de edição por vezes espaçada que por isso mesmo muitas  vezes mantém os seus admiradores em ansiedade como que desesperando por um novo disco, cada projecto seu é aguardado com enorme expectativa e essa espera é no entanto sempre compensada por um trabalho que depois deixa todos em êxtase…

É o caso do mais recente projecto “Munich 2016” resultante da gravação do último concerto da digressão desse ano que teve lugar a 16 de Junho na sala Philarmonic Hall  na cidade alemã cervejeira por excelência, um espectáculo que apesar de ser o show de encerramento da tournée  com tudo o que isso implica em termos de viagens e natural cansaço apanhou no entanto o pianista num ponto alto de criatividade e invenção improvisadora sendo até mesmo necessário que se diga que foi unânime a opinião geral que o considerou como o melhor concerto da digressão.

No consequente disco podemos verificar que Keith Jarrett abandonou, pelo menos temporariamente  os temas de grande duração e assim vamos poder escutar suites mais curtas (há uma totalidade de doze no album) isto para alem de mais três composições que fecham o disco e que contrariamente  ao que costuma acontecer não tem a assinatura de Keith, bem pelo contrario pois são-lhe alheias em termos de autoria:-   a fabulosa “Answer me, my love” da dupla Gerhard Winkler/Fred Rauch , uma outra versão absolutamente mágica que é simultaneamente uma viagem musical inesquecível de “It´s a lonesome old town” de Harry Tobias  e Charles Kisko e ainda uma incrível, arrebatadora e pessoalíssima versão do célebre “Somewhere over the rainbow” que assim encerra o disco com chave de ouro , um trabalho em que  os toques de blues se misturam com sonoridades folk ao longo de uma série de peças de certa complexidade rítmica e harmónica que só a prodigiosa capacidade inventiva de um pianista quase sobrenatural poderia conceber e…tocar!

Keith Jarrett ao vivo:- absolutamente deslumbrante!

2CDs ECM/Distrijazz

 

BILLIE HOLIDAY

Abrangendo um período de cerca de vinte anos compreendido entre os anos de 1939  e 1959 a carreira de uma das maiores cantoras negras de todos os tempos teve como é habitual, especialmente na vida das grandes estrelas, períodos  altos e baixos e nestes as drogas foram sem dúvida as principais responsáveis pela sua falta de estabilidade emocional e artística e portanto pelas fases menos boas vivenciadas pela artista ; porém nesse mesmo período de tempo houve momentos de grande brilhantismo também e neste os sucessos discográficos e todo o bruá que eles originaram, de certo modo ofuscaram o resto  ajudando assim a consolidar uma carreira que acabaria por tornar-se meteórica e catapultar Billie Holiday ( 1915-1959) para as luzes da ribalta e, mais que isso, para o estrelato e mais tarde para o panteão da…eternidade.

Durante esse período de tempo ela gravou alguns dos seus mais estrondosos sucessos  tais como “”Body & soul”, ”I loves you Porgy”, “Lover man”, “One for my baby”, “Love me or leave me”, “God bless the child”, ”Stormy blues”, “These foolish things” ou o mítico e imortal “Lady sings the blues” e são precisamente estes sete êxitos que juntamente com  mais cinquenta e três outras composições integram a fabulosa tripla compilação “Billie Holiday- the hits” recentemente editada internacionalmente e onde Billie surge acompanhada por varias formações que integravam, entre outros, instrumentistas de grande envergadura tais como Chico Hamilton, Roy Eldridge, Ben Webster, Lester Young, Óscar Peterson, Ray Brown, Coleman Hawkins ou Kenny Burrell afinal de contas alguma da nata dos  músicos da cena musical negra do jazz de então.

Uma colectânea fabulosa do nome maior do movimento jazz/ blues, que para alem de influenciar grandes nomes da altura e  do tempo presente elevou a grande música negra norte-americana  para patamares e  parâmetros impensáveis e verdadeiramente estratosféricos!

3CDs New Continent/Distrijazz

 

JORDI SAVALL

Ao mesmo tempo que de novo triunfava ao vivo na Gulbenkian, mestre Jordi Savall ,o fantástico executante de viola da gamba editava, acompanhado pela sua habitual  Orquestra Le concert des nations , uma das suas obras máximas:- “W.A.Mozart- Le testament symphonique” duplo CD que integra as três ultimas sinfonias -39,40 (por muitos  considerada a melhor de todas as suas sinfonias) e 41 do celebre compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e para gravação foi objecto de grande maturação por parte do instrumentista catalão; as gravações que tiveram lugar no Collegiale de Cardona  e na Igreja dos Dominicanos em Guebwiller, na Alsácia entre 2017 e 2018 acabam por nos dar a conhecer um pouco de todas as potencialidades musicais do genial Mozart, aqui numa perspectiva muito pessoal do  músico, director e arranjador  catalão Jordi Savall que denuncia neste projecto toda a sua apetência e encanto para com a obra do famoso compositor oriundo de Salzburgo na Áustria, que curiosamente e apesar de ter nascido há já mais de duzentos anos atrás ainda continua a seduzir e encantar e até mesmo electrizar as mais modernas audiências  de musica erudita.

Uma obra brilhante e absolutamente imprescindível não só para os amantes da musica clássica em geral, mas também para todos aqueles para quem musica de qualidade é sinónimo de desejo, prazer e entusiasmo!

2CDs  AliaVox/Megamúsica

 

RABIH ABOU-KHALIL

Instrumentista de craveira mundial que deve muita da sua fama e da projecção que alcançou  no nosso País ao facto de ter editado um fabuloso projecto musical  em que homenageia o nosso fado intitulado “Em português” e onde participaram para além do habitual naipe de músicos da sua banda ainda um convidado extra- o extraordinário interprete Ricardo Ribeiro, figura de proa do fado nacional contemporâneo que para alem de integrar o elenco residente e habitual na célebre casa de fado- Faia, ainda recentemente conquistou novas plateias, áreas e seguidores ao integrar como estrela convidada o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira do cantautor espanhol Patxi Andion que numa mini-tournée portuguesa levou a sua arte e talento a locais como Lisboa (Aula Magna ) e Porto (Casa da Música) para além de um outro show, onde o fadista porém não participou e que teve lugar no belíssimo Centro de Artes de Águeda concerto com que se iniciou a digressão do cantor madrileno; pois é este expressivo e exímio executante de oud (alaúde), Rabih Abou-Khalil que acaba de editar um novo disco no mercado mundial– “The flood and the fate of the fish”, que a exemplo do que sucedeu com o projecto de fusão de música árabe com o fado, atrás citado, conta de novo na parte vocal com a participação do mesmo cantor português, para alem de alguns instrumentistas do habitual núcleo que geralmente acompanha o músico libanês nas suas aventuras musicais sejam elas em disco ou nos espectáculos ao vivo, registando-se aqui no entanto  algumas mudanças pontuais.

Merece que se destaque o facto de Rabih se ter rodeado para a feitura deste novo projecto de músicos que ao longo dos anos se tornaram seus amigos tendo mesmo feito questão de com eles gravar pela primeira vez no seu estúdio privado situado na sua casa no sul de França, onde habitualmente reside, conseguindo com isso que este seu novo disco se tenha transformado  no mais intimista de todos os que publicou até hoje; pela primeira vez também introduz o alude baixo nas suas composições, um instrumento que produz um som único e peculiar e foi construído propositadamente para ele pelo  mestre luthier alemão  Robert Eibl.

“The flood…”, um disco brilhante de um genial e virtuoso compositor que abre novos e infinitos horizontes sonoros, onde a musica tradicional namora descaradamente com o jazz, numa fusão inspiradamente perfeita e harmónica e onde nunca será demais salientar não só a grande craveira artística de cada um dos intervenientes mas também o papel do “nosso” Ricardo Ribeiro que de novo em  português ilustra vocalmente com inusitado brilho três das excelentes composições do projecto:- “Falso amor” de Al-Kumait Al-Garbi, nascido no longínquo ano de 1100, “Grãos de areia” do fadista António Rocha, nascido em 1938 e “Kyrie” do imortal poeta português José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)…

Um dos mais brilhantes projectos musicais do ano que em breve termina, um trabalho notável, esteticamente  perfeito que abraça o presente, lança sólidos alicerces sonoros para o futuro e estabelece grandes parâmetros musicais  só ao alcance de alguns (poucos) inspirados artistas/instrumentistas.

CD Enja/Distrijazz

 

ED SHEERAN

É um nome que algumas vezes divide opiniões e gera controvérsias e discussões, especialmente por parte dos detractores e dos despeitados que andando na luta há anos a fio nunca obtiveram o êxito que muitos acham que mereciam sem tão pouco conseguirem receber os favores do grande público; porém o que é verdade é que o cometa Ed Sheeran não deixa ninguém indiferente e esgotar em pouco espaço de tempo a lotação de dois Estádios da Luz, convenhamos que não é para toda a gente mas ele conseguiu-o e para além disso quem lá esteve disse maravilhas das prestações de palco do celebre cantautor britânico e dos espectáculos a que assistiu e isso é a prova de que o sucesso efectivamente não é para todos, é para quem faz por isso e especialmente para quem o merece!

Ansiosamente aguardado por toda a gente depois do mega sucesso da ultima digressão o novo disco “nº 6 collaborations project” editado internacionalmente ainda durante a “tournée” tem uma particularidade muito especial relativamente a anteriores projectos pois constitui  um desejo que Ed acalentava desde há tempos atrás especialmente depois de ter gravado no início da sua carreira e mesmo antes de assinar contrato com a Asylum records um trabalho genericamente intitulado “nº 5 collaborations project” em formato EP que consistiu em gravar de novo uma série de canções suas em que muita gente que ele pessoalmente admira iria colaborar; dito e feito aí está uma nova produção discográfica em que participam vários nomes famosos da cena musical actual tais como

Travis Scott, Justin Bieber, Eminem & 50 Cent, Bruno Mars & Chris Stapleton, etc.

Um disco verdadeiramente inspirado dum talento nato que anda à solta por aí!

CD Asylum/Atlantic/Warner Music

 

ROBERTO MENESCAL

Laureado compositor brasileiro, nascido em Vitória, Espírito Santo a 25 de Outubro de 1937 Roberto Menescal é também um renomado produtor, guitarrista e arranjador para alem de vocalista; por isso  é unanimemente considerado quer pelo publico, quer pela critica especializada um dos gigantes da música brasileira em geral nomeadamente nos campos da MBP, bossa nova ( de que foi um dos pioneiros) ou samba onde se notabilizou não só como cantor, mas também como líder de grupos para alem de ter acompanhado como instrumentista alguns dos mais celebres nomes do panorama musical do país verde-amarelo.

Infelizmente pouco conhecido no nosso país, especialmente por parte do grande publico, este tem no entanto agora a possibilidade tomar contacto mais directo e íntimo com a música do compositor pois acaba de ser publicado o projecto ”A  nova bossa de Roberto Menescal e seu grupo”  constituído por dois dos seus melhores trabalhos aqui editados na totalidade das composições originais (27) tal como sucedeu na primeira edição  a que se acrescentaram nada menos de seis temas bonus sendo que este trabalho surge editado pela primeira vez no formato CD a que juntou para a actual edição também o conteúdo do LP “Bossa nova”, discos que constituem verdadeiras raridades até porque apresentam uma  importante particularidade:- é que em ambos os trabalhos participa como pianista um gigante da música brasileira e do jazz em geral, já consagrado mundialmente como um dos maiores teclistas de sempre:- Eumir Deodato.

Um projecto que merece uma atenção especial até por se tratar de um dos pioneiros  da bossa nova que o mundo já idolatrou há anos atrás e constitui uma das maiores influencias de jovens e até veteranos nomes da MPB.

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

MICHALIS TERZIS

É um instrumento muito peculiar com uma sonoridade própria que conquista com relativa facilidade adeptos e fieis; trata-se do bouzouki , espécie de guitarra , muitas vezes parecida em termos de som com a nossa guitarra de fado e que acabou por se tornar no instrumento de referencia e por excelência da Grécia, onda a sua fama atingiu uma popularidade sem limites com a qual galgou fronteiras cativando uma infinidade de entusiasmados admiradores.

Quem visita a Grécia e tem oportunidade de pela primeira vez o ouvir ( e são milhões os que anualmente viajam para a terra de Melina Mercouri, Vangelis e Vicky Leandros ) isto para referir só os mais conhecidos dos portugueses, fica fascinado com a sua sui-generis sonoridade; qualquer pequeno restaurante ou barzinho  de Atenas que se preze tem de ter, a exemplo do que entre nós sucede com o fado, um tocador de bouzouki para animar as noites quentes da capital grega e das inúmeras ilhas que formam a Grécia  de Hercules e Platão bem como do célebre Zorba, o grego , que Anthony Quinn tão bem celebrizou no filme homónimo, uma película que mais que nenhuma outra ajudou a projectar mundialmente , através do ritmo sirtaki, o instrumento tradicional que preenche o conteúdo do disco “Bouzouki-The sound of Greece” onde o seu mentor – Michalis Terzis (laureado instrumentista que começou por tocar temas de Mikis Theodorakis e em poucos anos se tornou um renomado e requisitado compositor)dá provas da sua versatilidade interpretando uma série de canções que conquistam com relativa facilidade o mais exigente ouvinte.Altamente recomendável!

CD ARC Music/Megamúsica

 

DOMINIC MILLER

Constitui uma verdadeira aventura musical o novo projecto em nome individual de Dominic Miller músico há muitos anos ligado aos projectos e discos de Sting, o antigo líder dos Police com quem tocou nada menos de 30 anos; com efeito “Absinthe, o seu segundo disco em solitário  é muito mais que uma aventura é um autentico carrocel de improvisações e finas texturas sob o comando do bandoneon do experimentado Santiago Árias músico multifacetado e de grande experiência que integra o núcleo dos participantes do disco, onde vamos também encontrar  o baterista Manu Katché, ele também companheiro de lides musicais de Sting vários anos a fio…

Neste segundo solo álbum Miller explora as improvisações até uma variedade de texturas únicas e de extremo bom gosto, explorando sonoridades, expressando emoções e desenhando atmosferas sonoras únicas, que não lhe conhecíamos, o que não admira no entanto se se souber que é um admirador incondicional da pintura  impressionista…

Disco de grandes vibrações rítmicas poderia facilmente assumir-se como banda sonora de uma qualquer película de Wim Wenders ou Bergman tal a multiplicidade de direcções que aponta, mercê de um estilo musical único, de grande fascínio sonoro onde o sonho e a natureza se cruzam com  simplicidade e colorido musical que fazem das dez composições do disco dez  expressivos quadros de pintura…

CD ECM/Distrijazz

 

DULCE PONTES

Já há muito tempo que não havia notícias de Dulce Pontes em termos de edições com originais continuando portanto toda a gente à espera de um novo disco e  registando-se o triplo “O coração tem três portas”(2CDs/DVD)  datado de 2006 como o seu mais “recente” até agora .

Possivelmente para colmatar essa falha uma das várias editoras para quem gravou- a Universal acaba de publicar uma compilação dos seus maiores sucessos onde se incluem as colaborações com o tenor Andrea Bocelli e com o maestro Ennio Morricone, com quem se constou há tempos estava de novo a gravar, a canção que fez parte da banda sonora do filme estrelado por Richard Gere  (“Canção do mar”), também duas composições de sua autoria assim como uma espécie de homenagem à diva Amália através de cinco canções que podem considerar-se emblemáticas da rainha do fado– Gaivota, Povo que lavas no rio, Lágrima, Mãe preta e Estranha forma de vida- e muitas outras mais onde a poderosa voz de Dulce sobressai pela versatilidade, potencia e carisma. “Best of Dulce Pontes” para matar saudades e não só!!!

CD Universal Music

 

ROTEIRO DE LISBOA

FAIA – casa típica de fado

Casas de fado típicas em Lisboa e Porto há efectivamente muitas, mas sem dúvida que não se pode falar do fado de Lisboa sem que me venha  à lembrança um local mítico no qual durante muitos anos a fio cantaram, encantaram e fizeram escola dois nomes consagrados da noite alfacinha e da chamada canção nacional como foram sem dúvida a grande Lucília do Carmo (1920-1999), infelizmente já desaparecida do nosso convívio e seu filho o grande “charmoso”  vulgo Carlos do Carmo, que este ano tomou a difícil decisão de se despedir dos palcos e dos discos aos 80 anos de idade!

Com efeito foi no Faia (a antiga Adega da Lucília)  fundado no já longínquo ano de 1947 que se projectaram para além de muitos outros nomes estas duas figuras impares do fado em Portugal, num local que hoje em dia é uma das mais conceituadas e melhores casas de fado da noite alfacinha e simultaneamente um dos locais  privilegiados e de eleição para se escutar a canção nacional por excelência, um local de verdadeira peregrinação para quem gosta de bom fado, interpretado com sentimento, raça, nostalgia e  carisma e onde actualmente podemos encontrar no elenco nomes conceituados como o da atraente e sempre expressiva Lenita Gentil, a eterna diva Anita Guerreiro, ainda dona e senhora de grande voz, o veterano e sempre castiço António Rocha, a novel  e promissora Mel e especialmente uma figura incontornável do fado que presentemente ostenta a coroa de voz numero um no masculino- Ricardo Ribeiro ( o fadista que recentemente foi o convidado especial de Patxi Andion  nos seus concertos portugueses e a quem este apelidou de extraterreste pela potencia da sua voz e sublime e fascinante modo de interpretar o fado).

Embora se cante em muitas terras portuguesas sem dúvida alguma que fado é… Lisboa; e  Lisboa é simultaneamente também tradição, poetas ao vento, modernidade, fadistas a cantar e guitarras a gemer e a trinar!

E Fado com letra grande é para ser ouvido sempre, de preferência ao vivo em vários locais lisboetas mas especialmente numa da suas mais antigas e castiças e memoráveis catedrais:-no velhinho, mas sempre novo…Faia!!!

Depois de uma noite fadista memorável em que tive o prazer de lá ir jantar (belissimamente, diga-se de passagem ) na companhia do meu irmão espanhol Patxi Andion, sua mulher Gloria, a minha companheira  Luísa e ainda o manager do cantor espanhol -António Peña e esposa, mais convicto fiquei de constitui um verdadeiro pecado capital, para quem gosta de bom fado, não se visitar o Faia.

Por isso deixo aqui um aviso à navegação: -é nos números 54 e 56 da Rua da Barroca, em pleno coração do Bairro Alto ( todas as noites excepto ao domingo) que mora o FADO sob a forma portuguesíssima de uma adega típica onde actuam uma mão cheia de interpretes de eleição que merecem por isso mesmo ser atentamente e em silêncio escutados; por isso mesmo uma visita para o ouvir, simplesmente  beber um copo ou para jantar é muito mais que indispensável:- é uma “viagem” gastronómica e musical absolutamente obrigatória!

Mas atenção pois que face às constantes casas cheias convém fazer reserva antecipada…    (tel.213421923/213420382/ info@ofaia.com)