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Escolhas do João Afonso Almeida

PEDRO MOUTINHO

Longe vão já os tímidos tempos em que Pedro Moutinho com um primeiro disco nas mãos procurava afirmação e lançar-se numa carreira, mas infelizmente na altura,  inexperiente q.b. tinha entregue esse projecto em mãos menos adequadas, desperdiçando assim nesse tempo, ingloriamente, um emergente talento natural e atrasando dessa forma a sua tentativa de conquista de um lugar ao sol, lugar que agora, seis discos de originais volvidos e uma colectânea, finalmente consegue alcançar com muito trabalho e também certo brilhantismo!

Com efeito, na actualidade Pedro Moutinho é já um nome de grande impacto e cartaz no  mundo do fado nacional e isso deve-se sem dúvida a um árduo percurso, perseverança e experiência, ganhas sobretudo em casas de fado e concertos ao vivo e acima de tudo mercê de uma já evidente maturidade e um grande e indesmentível talento!

Em cada disco a sua progressão é cada vez mais notória e isso reflete-se não só no seu modo de cantar, na ousadia de uma notória mudança  em vários sentidos pois até cada vez mais tem uma palavra a dizer em várias áreas dos seus projectos, bem como na escolha criteriosa de reportório, quer a nível de melodias, quer a nível literário, onde a escolha tem sido cada vez mais rigorosa e selectiva, ao arriscar cantar as palavras de quem efectivamente acha que melhor lhe pode “vestir” a sua voz característica e bem timbrada; com efeito no novo projecto vamos encontrar trabalhos de gente como Amélia Muge ( que eu em boa hora desafiei a escrever para fado quando fui responsável pela produção executiva do disco “Para alem do fado” de Ana Moura e que aqui em “Fado ao contrário” assina nada menos de cinco de uma totalidade de 11 temas), Maria do Rosário Pedreira, Manuela de Freitas, Márcia ou Vitorino não esquecendo algumas das suas grandes e mais evidentes referências  com o são sem dúvida Fernando Farinha, Manuel de Almeida e Carlos Ramos.

A tradição dos grandes pilares fadistas, a genealogia e uma grande vocação estão-lhe no sangue  com laços verdadeiramente umbilicais aos seus progenitores e aos seus irmãos- Helder Moutinho e Carlos Moutinho (Camané) , naquilo que constitui uma verdadeira herança colectiva , irmãos que afinal de contas com ele engrossam o numero dos grandes fadistas contemporâneos…

Um disco com uma produção verdadeiramente soberba de Filipe Raposo, que respira vitalidade, expressividade, inovação e tradição através da voz de um fadista, agora já com F grande que finalmente está no apogeu a sua carreira e que a esse estatuto chegou

com grande empenho, energia, certa ousadia, actualidade e convenhamos… um grande, talento e um enorme merecimento.

CD MWFrontiers com apoio da EGEAC e Museu do Fado

 

ANTONIO PORTANET

Já não recordo bem há quanto tempo ouvi pela ultima vez na rádio portuguesa uma composição na interpretação de António Portanet , mas relembro bem do muito que na altura gostei de escutar a sua voz e as suas belas composições; com efeito já vão um pouco distantes as últimas “aparições” radiofónicas do cantor até porque o mercado não registou nos últimos anos qualquer edição discográfica sua.

Agora porém o seu nome volta a ser-nos familiar até porque gravou um novo trabalho  para a editora/promotora  de Alain Vachier, que teimosa e heroicamente continua a apostar em alguns projectos de que se vai de tempos a tempos enamorando, tendo até por via dessa mesma gravação o cantor reaparecido nos palcos portugueses (Coliseu de Lisboa)  num espectáculo comemorativo dos 45 anos do 25 de Abril em organização da Associação 25 de Abril que continua o seu percurso rumo ao futuro com o coronel Vasco Lourenço à cabeça ; consequentemente  António Portanet reapareceu nos ecrãs televisivos (RTP) mercê da transmissão em diferido do espectáculo em que cantou um dos temas  (“Cancion del leñador”) do seu novo disco-  “Eternamente Lorca” que como o próprio titulo deixa antever é inteiramente constituído por composições poéticas do imortal  Federico Garcia Lorca, genial poeta andaluz nascido em 5 de Junho de 1898 em Fuente Vaqueros, Granada e mais tarde, mais concretamente em 18 de Agosto de 1936, barbaramente assassinado pelos esbirros da polícia espanhola  anti-republicana de então…

As doze composições do disco, especialmente as que estão incluídas no livro “Poeta en Nueva York”  tiveram a sua génese  na chamada “big apple”  durante a estadia nova-iorquina do cantautor espanhol que para além de interprete é aqui também o responsável pela composição de todas as musicas do disco.

O próprio Portanet, que ficou absoluta e definitivamente apaixonado pela obra poética aquando da releitura do livro, relembra  como tudo aconteceu:-“…abalado pela impressionante sensibilidade perceptiva e actualidade desses poemas que Lorca, andaluz como eu, décadas antes escrevera durante a sua estadia em Nova Iorque por alturas de 1929, decidi criar um conjunto de composições musicais para cantar “Poeta em Nova Iorque”, obra considerada como uma das maiores expressões da poesia do século XX…”.

O resultado final aí está agora à consideração geral,  num disco absolutamente genial e sublime onde sobressai sobremaneira a alta qualidade instrumental dum grupo de grandes instrumentistas como Pedro Jóia, David Leão, Norton Daiello ou Vicky Marques, entre outros, sem esquecer dois belíssimos coros,  a participação soberba de Ana Bela Chaves, primeira viola solista da Orquestra de Paris sem esquecer o importante e fantástico trabalho geral do próprio Portanet , que mais que prestar uma homenagem profunda e sentida ao grande Garcia Lorca e à sua magistral obra, nos propõe a audição de um projecto de altíssima qualidade, cantado com sentimento, sensibilidade e certo brilhantismo vocal, onde  o poeta andaluz e a sua obra são mais que justamente homenageados e relembrados a exemplo do que outros artistas já anteriormente fizeram com saliência para  Miguel Poveda no recente projecto “Enlorquecido”, a diva Cármen Linares em “Canciones populares antiquas”, Ana Belen em “Lorquiana” e claro o saudoso Leonard Cohen e seus convidados na obra-prima “Poets in New York”, qualquer um deles momentos de eleição da obra de um mais geniais poetas dos últimos anos cujo espírito e obra quer poética, quer musical, atravessarão séculos rumo à eternidade!!!

CD Alain Vachier music editions

PATXI ANDION

50 anos de carreira comemorados  em Portugal

Em organização da Uguru, o cantautor espanhol Patxi Adion vai apresentar em palcos portugueses o disco comemorativo de 50 anos de carreira – “La hora lobican” , recentemente editado em Portugal; os shows terão lugar no próximo mês de Setembro, mais concretamente a 21 na Aula Magna da Reitoria de Lisboa e no dia seguinte 22 na capital nortenha – Porto, na Casa da Música , concertos nos quais contará com o apoio da sua banda habitual, com a qual para alem de interpretar os temas do novo disco  fará também, como é inevitável, uma viagem por canções verdadeiramente intemporais da sua carreira tais como “20º aniversário(palabras)”, “Con toda la mar detrás”, “El maestro” , “Canela pura” ou “Una, dos e três” , entre outros…

Recuando um pouco no tempo, recordo que um dia, há já muitos anos atrás, o ouvi desabafar dizendo:-“…fui um lobo solitário toda a minha vida, um lobo das estepes, que viveu mal e chegou a passar muita, muita fome…”.

Este mesmo personagem que assim desabafava , pertence à geração de 1968 dos grandes cantautores espanhóis juntamente com outros famosos “compagnons de route” como Joan Manuel Serrat, Paco Ibañez, Amâncio Prada, Luís Eduardo Aute ou Joaquin Sabina e  é a mesma pessoa que há poucos anos atrás lembrava ainda que “…efectivamente a canção de texto teve para nós cantautores uma carga de responsabilidade política e cultural muito grande; a mim chegaram a dizer–me vários políticos portugueses e espanhóis que eu não tinha a noção, não sabia a dimensão e o verdadeiro significado que muitas das minhas canções tinham tido para eles, sobretudo no período em que estiveram detidos na prisão!”

Patxi Andion pisou, há muitos anos atrás, e pela primeira vez terras portuguesas para actuar na televisão no célebre  programa”Zip-zip” da “trindade” – Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raul Solnado – e a partir daí, curiosamente, ou talvez não, começou para ele um duplo e antagónico percurso:-por um lado um “calvário” de perseguições por parte da polícia política de então- a tristemente célebre PIDE- que para alem de ter censurado quase todas as letras de sua autoria, chegou mesmo a  recambiá-lo de volta para a fronteira com Espanha e  exigir-lhe que tão cedo não pisasse solo português e por outro lado trilhou ao mesmo tempo um caminho de sucesso discográfico e de palco, culminado com memoráveis concertos em diversas cidades de Portugal e com o lançamento entre nós de todos os seus discos a solo, além de várias colectâneas em edições de que resultaram grandes sucessos populares e radiofónicos que transformaram algumas das suas composições em míticos êxitos que mesmo hoje em dia, ao fim de muitos anos, continuam a perdurar na memória e no imaginário de todos os portugueses e que acabaram afinal de contas por transformá-lo sem sombra de dúvida no mais bem sucedido de sempre de todos os artistas de texto espanhóis em território luso.

Quem não recorda com saudade, e muitas vezes até com uma furtiva lágrima ao canto do olho, mega sucessos como “20º aniversário (palabras)”, “33 versos a mi muerte”, “Padre”, “Samaritana”, “Con toda la mar detrás”, “Cancion para un niño en la calle”, ”Nos pasaran la cuenta”, ”La casa se queda sola”, “Compañera”, “El maestro”  ou “Oda a Walt Whitman”  a mais fabulosa interpretação incluída do projecto discográfico do grande e saudoso Leonard Cohen -“Poetas in Nueva Iorque” baseado no livro homónimo do genial poeta e dramaturgo granadino Federico Garcia Lorca, barbaramente assassinado pelos esbirros da polícia civil espanhola de então?

Pois é este mesmo Patxi Andion, o exilado em Paris no Maio de 68, o escritor que contabiliza já no activo vários livros publicados, o actor de cinema, mas também, e fundamentalmente, o cantor inspirado e inspirador, irónico, criativo, terno, por vezes profundamente sentimental, filosofo, contundente critico social e político, louco por futebol e  especialmente pelo Atlético de Madrid ( cantou até há poucos meses atrás “Bodas de oro”um dos mais fantásticos hinos do antigo clube dos portugueses Jorge Mendonça , Paulo Futre e Tiago numa recente edição discográfica -”Los himnos del Atleti”) e também ainda, convém não esquecer, o imortal personagem “Che” Guevara na teatral “Evita” espanhola e ainda o humanista professor catedrático de sociologia na Universidade de Castilla la Mancha, que agora está de volta às gravações e aos discos para comemorar nada menos de 50 anos de canções através do lançamento de um novo projecto de inéditos – “La hora lobican” ( cá está de novo a presença imaginária mas evidente do lobo, esse belo e fugidio animal por vezes tão injustamente odiado e simultaneamente tão temido, altaneiro e destemido, audaz e guerreiro) onde, como é hábito nos seus trabalhos, já não olha para trás, para o passado, para a obra feita, antes, decidida e seguramente, caminha de mãos dadas com o futuro ao sabor da sua inquestionável  e habitual exigência  literária e musical, inovando sempre com a plena convicção e consciência de que ultrapassou na sua obra a fase inter-geracional e preparando-se com firmeza e determinação ainda para mais altos voos, daqueles que só estão ao alcance das soberbas aves altaneiras…

“La hora lobican” reúne dez brilhantes canções compostas e escritas pelo cantor basco, (nascido no entanto na capital espanhola), excepto “Vaga no azul amplo, solta” poema de Fernando Pessoa que já havia surgido sob a forma de canção num disco (“Para além da saudade”) de Ana Moura num fabuloso dueto dela com o cantautor espanhol.

Dez novas pequenas pérolas musicais da música de autor, que se seguem a um manancial de grandes sucessos, constituindo alguns já verdadeiros hinos, deste profundo amante de fado (interpreta  habitualmente um tema de ti António dos Santos no alinhamento dos seus concertos tendo incluído mesmo no seu disco ao vivo– “Cuatro dias de Mayo” a canção ”Minha alma de amor sedenta” ), um interprete absolutamente genial que segue cantando melhor que nunca, continuando assim ao fim de tantos anos de carreira  a conseguir ainda e sempre surpreender-nos com a exigência qualitativa que sempre tem imposto às suas criações que originam mais perguntas que respostas, com a magnificência da sua voz rouca e profundamente visceral, com o seu magnetismo pessoal e acima de tudo com a enorme qualidade, a altíssima qualidade da sua música isto apesar de como ele diz no booklet do novo trabalho os tempos serem outros e as preocupações do homem ,outras também…

(CD e duplo vinil Lemuria Music/Warner Music)

RICARDO RIBEIRO

Tal como em tempos antanhos o rei D. Duarte I escreveu o livro “A arte de bem cavalgar toda a sela” também agora haveria de descobrir-se  alguém que escrevesse um manual sobre a arte de bem cantar qualquer tipo de canção que teria sem duvida nenhuma de ser inteiramente dedicado a um gigante do fado conhecido por Ricardo Ribeiro; com efeito no seu mais novo disco “ Respeitosa Mente” ele proporciona-nos um verdadeiro festival de interpretação, cantando como só ele sabe, uma série de onze canções de modo arrojado, brilhante e por vezes mesmo arrebatador, afinal de contas predicados já anteriormente  evidenciados em discos seus e que me levaram por isso mesmo a considerá-lo há tempos atrás a voz número um do fado na actualidade “título” com que felizmente e finalmente já muita gente, purista ou não, concorda em absoluto.

Depois de uma série de projectos no domínio do fado, bem sucedidos  intra e extra muros, suficientemente explicados pelas inúmeras presenças para actuar ao vivo nas mais diversas salas e latitudes, o cantor pretendeu nesta altura da sua vida diversificar um pouco e sair vocalmente dessa área, afinal de contas e até agora, o seu berço natural de nascimento e conforto e para isso decidiu desafiar-se a si próprio e abdicar de certas características sonoras e instrumentais dando agora à luz um disco apaixonante, totalmente virado para novas sonoridades e assombrosos cambiantes rítmicos por vezes de índole jazzistica, entregando desta vez o fio condutor musical do projecto às mãos e ao piano do magistral João Paulo Esteves da Silva e a parte da percussão a Jarrod Cagwin, isto para alem de ele próprio reincidir na composição em dois dos temas (um deles fecha o trabalho e é dedicado a sua mãe)  e também no campo da execução instrumental onde mais uma vez marca, uma presença por vezes bem surpreendente .

No capítulo dos textos para alem de belos pedaços literários da autoria de Tiago Torres da Silva, Giacomo Leopardi ( 1798-1837), Nuno Moura, Miguel Martins, António Ramos Rosa (1924-2013), Francisco Torrão e do pianista de serviço no projecto (que revelação como poeta!!!), o fadista, homem dotado de enorme sensibilidade, perfeccionista por natureza e também pessoa de grande e reconhecida cultura musical alem de literariamente bastante selectivo, arriscou recriar e dar nova vida a duas inspiradas composições da autoria dos saudosos Pedro Homem de Melo (1904-1984)- “Derrota” e José Carlos Ary dos Santos (1936-1984 ) -“Canto franciscano” que no julgamento final, juntamente com  “Depois de ti”, “As mondadeiras” e “Deserta liberdade” acabam por constituir alguns dos mais belos e inolvidáveis momentos do novo trabalho.

Um disco, maioritariamente cantado em português a que se juntou também uma canção em italiano, que rasga limites, horizontes e fronteiras e constitui um grande e opíparo banquete musical, um verdadeiro e inigualável manjar vocal dos deuses, recheado de profundos aromas e raras especiarias sonoras que facilmente nos fazem aflorar à lembrança e transportam para o nosso imaginário referências como  Rabih Abou-Khalil, António dos Santos, Oum Khaltoum, Bill Evans, algumas das figuras actuais do cante alentejano, os À Filletta, Amália, Trilok Gurtu, Ryuichi Sakamoto ou Egberto Gismonti…

Um projecto de rara sensibilidade artística, recheado de belos condimentos musicais e raras fragâncias sonoras, que mais que um novo trabalho do cantor lisboeta é um verdadeiro hino à beleza vocal e facilmente se vai assumir em breve como uma peça de coleccionismo pois constituiu por si só um verdadeiro objecto de ARTE maior!

Uma obra-prima da musica portuguesa contemporânea que consagra em absoluto um extraordinário cantor!!!

CD Parlophone/Warner Music

 

YOLA

Inicia  agora o seu voo ascendente e pessoal  na direcção do sol, que o mesmo é dizer, rumo ao estrelato, depois de durante uma série de anos ter andado a estagiar em vários “endereços” musicais nomeadamente abrindo para figuras como James Brown ou Dr. John e no seio de composições dos Massive Attack, de quem foi, embora por curto espaço de tempo, uma das vozes femininas, isto depois de um  produtor a ter “descoberto” num concerto em Nashville ,Tennessee; com efeito Yola, esta britânica de nascimento, natural de Bristol que possui uma voz única e pessoalíssima e já conta com um curriculum vocal que assinala a sua presença como muito próxima da musica soul  e da country norte-americana, começa agora através do seu primeiro registo a solo – “Walk through fire”

(de salientar entre outras a presença como convidado do grande ícone da country Vince Gill) a construir os alicerces para o seu futuro  como artista a solo através dum disco recheado de temas coesos e bem cantados, inspirados e por isso mesmo direccionados para os tops ou não fosse  o seu produtor  Dan Auerbach, uma figura de proa na área e um  homem que conta já com um impressionante currículo onde figuram como galardões mais sonantes  e cobiçados nada menos de oito Grammies!!!

Yola, uma revelação? Não! Apenas a confirmação de um talento nato, espontâneo, natural e de grande expressão vocal adjectivos que afinal de contas só servem para confirmar o que dela disse a conceituada revista Rolling Stone : “sem dúvida, um nome para lembrar”.

CD Easy Eye Sound/Warner Music

 

SALVADOR SOBRAL

Há muito tempo que não me dava tanto gozo a audição de um disco como aconteceu com “Paris, Lisboa” de Salvador Sobral o tal  cantor que contra tudo e contra todos, sem espalhafatos, vestimentas  apalhaçadas ou desconcertantes, contra ventos e marés, tempestades e tornados deu um valente pontapé no traseiro do habitual fadinho choradinho de desgraça e lamento  de que as canções portuguesas concorrentes ao Festival da Eurovisão geralmente enfermam e sem mais nem aquelas… venceu o certame do ano passado, apesar de todas as grandes contrariedades surgidas  entre as quais a doença de que padecia na altura do concurso e de que, pelos vistos, felizmente já se conseguiu  livrar!

Com efeito, o mano de Luísa Sobral, que reedita a colaboração com ele, assina neste seu  trabalho um disco primoroso, de grande rigor musical e elevado sentido estético, cantando brilhantemente uma dúzia de canções de forma eficaz e muitas das vezes até com laivos de certa genialidade, através de uma entrega total, sem rodriguinhos, receios ou preconceitos, naquilo que é afinal, para além dum novo projecto discográfico, uma pessoal visão do mundo que o rodeia, suas actuais vicissitudes e incongruências, conseguindo assim alcançar  uma espécie de nirvana, isto é, um estado de verdadeira celebração da vida, do amor e da existência,  através de uma linguagem musical base acentuadamente jazzística, tendo como fio condutor rítmico um piano, executado de forma exemplar por um instrumentista  soberbo que dá pelo nome de Julio Resende, que cada vez mais se afirma como uma das mais sólidas e proeminentes figuras do piano em Portugal; ele e os restantes músicos que integram o naipe de instrumentistas no disco conseguiram  com a sua arte maior tricotar o leito perfeito para acomodar de forma exemplar a voz de Salvador Sobral, que sem duvida se assume cada vez mais como um grande interprete de canções, sejam elas cantadas em língua portuguesa, espanhola ou francesa como aliás sucede neste projecto…

Para o elevado nível artístico do disco muito contribuíram também as presenças de dois especiais convidados -a já citada Luísa Sobral e ainda António Zambujo bem como as peças de fino recorte poético da autoria de gente como Fernando Pessoa e do próprio Salvador Sobral, entre outros.

Autêntica viagem musical e sonora de múltiplas celebrações num roteiro que entrecruza na perfeição felicidade e inspiração com encanto e prazer auditivo, “Paris, Lisboa” assume-se para já e em definitivo como um dos grandes discos portugueses do ano !

CD Valentim de Carvalho

 

JOÃO GILBERTO

João Gilberto é indubitavelmente um dos nomes mais incontornáveis da música popular brasileira e um dos seus mais ilustres personagens e por isso mesmo qualquer edição de trabalhos seus é sinónimo de celebração; isso mesmo acontece agora com a recente aparição de “The master of bossa nova” espécie de compilação do artista que consegue reunir num só disco nada menos de três dos seus mais populares álbuns a solo que curiosamente constituem também os primeiros três discos  da sua carreira -Chega de saudade/ JG cantando as músicas do filme Orfeo do Carnaval/João Gilberto.

Canções de grande sucesso popular tais  como “”Chega de saudade”, “Desafinado”, “Maria ninguém”, “Manhã de Carnaval”, “Corcovado”, “Samba de uma nota só”, “A felicidade”, ”Coisa mais linda”, “Samba da minha terra”, “Insensatez”, “O barquinho”ou “Presente de Natal” são apenas algumas das míticas composições que integram um leque de nada menos de 39 que compõem o projecto que sem dúvida se assume como um grande momento musical e um documento vital de parte da historia de vida musical de um génio absoluto da MPB.           

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

ALEJANDRO SANZ

Contabiliza já uma dúzia de discos editados  e é uma das mais famosas e bem sucedidas figuras da musica pop espanhola dos últimos anos e por isso mesmo o aparecimento de um novo disco gera sempre uma certa expectativa tanto mais que há quatro anos , concretamente desde o lançamento de “Sirope” que não gravava; “Eldisco” ,o mais recente, não foge à regra tanto mais que Alejandro Sanz surge acompanhado por algumas das mais cintilantes estrelas da música dançante actual tais como Camila Cabello, Nicky Jam, conhecido nome do reggaeton, a catalã Judit Nedderman  ou Residente que são os seus convidados especiais no novo projecto que começou a ser dado a conhecer numa extensa digressão mundial que o levou no passado mês de Junho até cidades como Madrid, Barcelona, Elche e Sevilha e posteriormente até à  galega Santiago de Compostela a que se seguirão concertos em muitas outras paragens e paisagens nos meses seguintes.

Disco eclético, pleno de energia que revela certa dose de vanguardismo na sonoridade de algumas das composições é também um projecto que revela uma grande maturidade tanto mais que foi sendo moldado à medida que Alejandro ia compondo e acabou por resultar num projecto de grande dinamismo rítmico que poderá não ser o seu melhor disco mas é certamente um dos mais consistentes e ousados da sua discografia.

CD Universal Music

 

CHUCK BERRY

É sempre com um prazer intenso e imenso que se recordam canções imortais na voz do  mago Chuck Berry , interprete e criador genial que na história da música rock figura como uma das suas mais fascinantes e também controversas figuras; agora acaba de surgir um raro CD, de edição remasterizada e limitada a 500 exemplares,   intitulado

“ Rhythm and blues rendez-vous”que reúne a totalidade do material que havia sido incluído em dois LP´s datados do início da sua carreira- ”Rhythm & blues rendez-vous”

( que também chegou a ser editado como “Twist”) e “Rockin´at the hops”.

Ao conteúdo destes dois trabalhos foram ainda acrescentados como bónus mais cinco canções perfazendo assim uma totalidade de 30 composições de que fazem parte mega sucessos como “Maybeline”, “Roll over Beethoven” , “Round and ´round”, “Sweet little sixteen”, “Johnny B. Goode”, “Confesssion the blues”, “Bye bye Johnny” ou “Come on”, afinal de contas alguns dos mais mágicos pedaços da história da musica  rock de que sem duvida Chuck Berry foi um dos mais brilhantes expoentes, um homem com um tão elevado estatuto artístico que uma vez um dos mais destacados elementos dos britânicos The Beatles – John Lennon chegou a afirmar que se um dia se desse ao rock´n´roll um outro e diferente nome esse só poderia ser o de… Chuck Berry!!

CD Hoodoo records/Distrijazz

 

MARIA TERESA DE NORONHA

Uma edição que sem dúvida marca o ano editorial musical português:- o lançamento de “Integral” da fadista Maria Teresa de Noronha; co os anos de 1959 e 1968.

Nascida há 100 anos e infelizmente pouco conhecida do publico mais jovem , foi uma das mais fabulosas interpretes do panorama português rivalizando durante algum tempo em qualidade vocal e em termos de preferências de público com a diva Amália, sendo ainda no entanto ainda hoje em dia  considerada dentro do mundo do fado como uma das maiores referencias de sempre.

Uma obra de invulgar qualidade que nos recorda um dos maiores fenómenos do fado que curiosamente triunfou também  como estrela de rádio mercê das suas frequentes aparições aos microfones da antiga Emissora Nacional, onde aconteceu o primeiro dos seus registos por alturas de 1939, isto depois de nela se ter estreado a cantar no ano anterior.

Caixa de 6CDs e DVD Valentim de Carvalho

 

MILTON BANANA

Entre os mais ilustres personagens que fizeram parte integrante da história da bossa nova há que destacar um nome não só por toda a qualidade que alardeou mas também, e até por isso mesmo, pela especificidade do instrumento que tocava- bateria !

Nascido António de Souza em 23 de Abril de 1935 acabou reconhecido e consagrado pelo apelido de Milton Banana e considerado o homem que revolucionou a bossa em termos de percussão pois chegou até a ser considerado o inventor do estilo de tocar bateria, na bossa; numa edição verdadeiramente histórica surge agora em edição remasterizada e limitada a 500 exemplares  o projecto ”The rhythm and the sound of bossa nova” , que agrupa dois dos seus mais destacados trabalhos como líder– “The rhythm and the sound of bossa nova” e “Balançando com Milton Banana trio” o primeiro em que o baterista surge acompanhado pelo  quinteto de Óscar Castro Neves e o segundo à frente do seu próprio trio onde vamos poder encontrar dois grandes instrumentistas -Cido Bianchi no piano e Mário Augusto no baixo.

Falecido em  22 de Maio de 1998 Milton Banana deixou uma obra de grande envergadura rítmica que pode facilmente ser apreciada neste projecto e que acaba por constituir uma  parte indissociável da riquíssima história da bossa nova brasileira, que afinal de contas revolucionou gentes, ritmos e mentalidades.

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

ELIZETE CARDOSO

Nasceu na cidade maravilhosa e  acabou por se tornar numa das mais fantásticas interpretes da bossa nova que o Brasil e o mundo já ouviram; descoberta por Jacob do bandolim quando tinha apenas 16 anos de idade, três anos mais tarde Elizete Cardoso

( 1920-1990) , transformada em verdadeiro furacão, estava já a conquistar tudo e todos com a sua arte e  com as suas sublimes e pessoalíssimas interpretações não admirando por isso que em 1958 o grande Vinícius de Moraes a tivesse convidado para cantar uma série de canções num disco com composições literárias dele e em parceria com as inspiradas melodias de António  Carlos Jobim; o resultado final foi “Canção do amor demais” que acabaria por se tornar num dos momentos mais marcantes da bossa nova onde se podem encontrar extraordinárias composições como “Chega de saudade”, “Modinha”, “Serenata do adeus”, “Luciana”, ”Eu não existo seu você”, “Janelas abertas” , “Medo de amar” ou “Canção do amor demais”.

E é precisamente este mesmo trabalho que agora surge acoplado a outro disco-“Grandes momentos” onde a cantora aparece  acompanhada por  uma orquestra conduzida por Moacyr Silva e nos dá a conhecer toda a grandiosidade vocal duma cantora de excelência que faz parte integrante de alguns dos mais belos momentos musicais da história da música brasileira e em especial da área específica da bossa nova.

Agora em edição remasterizada digitalmente no sistema 24 Bits ,“Canção do amor demais/Grandes momentos” merece dos melómanos, e não só, uma atenção especial ou não se tratassem de duas verdadeiras obras-primas, discos por isso mesmo mais que fundamentais  para uma melhor compreensão do valor musical e histórico do importante movimento outrora designado por bossa nova!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz