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Escolhas do João Afonso Almeida

Há tempos atrás quando surpreendentemente, ou talvez não, a pandemia viral genericamente denominada por covid 19, originária, ao que constou, das profundezas da sempre misteriosa e insondável China onde, ao que consta os nativos de lá geralmente “comem tudo que mexe” atingiu em cheio o Mundo inteiro, este ficou atónito após verificar que o vírus não era tão facilmente dominável como à primeira vista parecia e afinal também não era, como afirmou um dos bacocos políticos de serviço, uma simples gripezinha; freneticamente então tudo desatou a tentar laboratorialmente encontrar uma vacina que lhe pudesse pôr termo e segundo os últimos relatos noticiosos, essa busca está actualmente no bom caminho…

Mas como “tristezas não pagam dívidas”, enquanto não há uma cura efectiva e também porque a vida continua, eis-me mais uma vez a propor, não só a leitura de noticias/novidades da cultura em geral na rubrica “Notícias soltas”, as que eu considero de relevância tais como concertos, exposições, acontecimentos gerais, etc., mas também mais uma série das minhas habituais escolhas musicais, propostas que espero sirvam para ajudar a seleccioná-las consoante o gosto de cada um, ajudando assim a passar melhor o tempo que ainda vamos tendo livre e a desanuviar um pouco das efectivas preocupações virais…

 

MARIA BETHÂNIA

Verdadeira declaração de amor, fidelidade e sintonia para com a escola de samba da Mangueira, o novo disco da baiana Maria Bethania, a celebrada irmã do grande Caetano Veloso e  filha dilecta da famosa Dona Canô (era assim que era chamada a mãe dos manos Veloso) vem outra vez, de novo, surpreender-nos pela sua elevada qualidade, predicado que os discos deBethânia, ultimamente sempre tem apresentado e surgem sempre como uma espécie de garantia ou cartão de visita…

“Mangueira – a menina dos meus olhos” , talvez o menos sofisticado mas mais popular e ritmado disco da cantora baiana, não foge à regra e  apresenta-nos uma colossal interprete, cantando clássicos e alguns inéditos de grandes nomes do mundo da composição popular brasileira tão diversos como Nelson Cavaquinho, Maurício Tapajós, Hermínio Bello de Carvalho, Nelson Sargento, Tantinho, Marcus Túlio ou Paulinho da Viola e no auge da sua criatividade vocal, interpretando as diversas composições do novo trabalho com uma energia contagiante e uma expressividade latente e sofisticada, cantando cada uma delas como se fosse a sua ultima declaração de amor à música popular brasileira…

Interprete genial e sofisticadamente envolvente Maria Bethânia há muito pretendia homenagear a Mangueira com um disco inteiro e isso finalmente acabou por acontecer neste projecto, afinal de contas um disco que ao que se sabe até já estava pronto, antes mesmo de a cantora se apresentar entre nós, com extraordinário sucesso, no ano passado nos Coliseus do Porto e de Lisboa para apresentar o seu brilhante show “Claros breus”; os dois projectos (show e disco ) tem inclusivamente um importante ponto em comum:- o compositor, arranjador e maestro  da Baía – Letieres Leite que em estreita colaboração com a cantora, neles pôs todo o seu empenho e labor, conseguindo apresentar dois distintos projectos de altíssima qualidade e elevado nível artístico um projecto onde surgem como convidados especiais Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tantinho que cada um à sua maneira ajudam a fazer do novo disco um trabalho exemplarmente profundo, onde criatividade e versatilidade dão as mãos para fazer do projecto um dos mais belos discos da cantora baiana, até talvez o mais perfeito dos seus discos, uma cantora  sedutoramente cativante que cada vez mais se assume como a maior interprete feminina do Brasil.

Bethânia, que sempre se disse influenciada e uma adoradora da literatura e dos poetas e escritores portugueses, acaba mesmo no tema de abertura por homenagear essas profundas influencias pessoais ao citar Mia Couto, num excerto de “Sombras de água”, mostrando que, mesmo ao fim de longos anos de carreira,  continua a cantar brilhantemente, sentindo-se como peixe na água e demonstrando que afinal de contas é mesmo como eu já tinha afirmado há poucos anos atrás:- tal qual o vinho do Douro que alguns turistas ou os nacionais mais leigos conhecem como “vinho do Porto” mas que os naturais da região do mesmo mágico rio  Douro chamam desde antanho e muito carinhosamente de “vinho fino” ou de “vinho generoso”!!!

É que para alem do facto de a cidade do Porto não ter vinho, nem vinhas e os próprios armazéns serem do outro lado do rio em Gaia, o epíteto de “porto” advém do facto de esse termo somente servir para citar o local- o porto da Ribeira ou de Gaia -onde os barcos rabelos deixavam as pipas contendo o precioso néctar oriundo da vinhas do belo, admirado e cada vez mais visitado e elogiado Douro!!! O seu a seu dono!

Bethânia no seu melhor e no ponto mais alto da sua vida artística, cantando melhor que nunca, brilhando intensamente, com um brilho próprio e interiormente misteriosa e profunda, assumindo-se como o verdadeiro furacão da Baia, uma artista que afinal de contas para ser adorada e idolatrada não precisa da ajuda de “trios eléctricos” pois vale por si só, pela sua identidade musical e poética e essencialmente pela sua enorme, mágica e magnética…voz!!! Que maravilha! Saravá Maria Bethânia !!!

CD Sarapui produções/Quitanda/ Distrijazz

RODRIGO LEÃO

Qual cientista a trabalhar metodicamente em laboratório preparando o lançamento de um novo projecto nuclear, eis que repentinamente, mais concretamente no início deste ano e imediatamente antes portanto do aparecimento da maldita pandemia coronavírus que a todos atingiu, Rodrigo Leão surpreendeu tudo e todos editando no mercado português e internacional mais  um disco de originais que pode simples e singelamente considerar-se também como uma verdadeira bomba, embora desta vez inofensiva e agradável!

Com efeito “O método”, título do novo projecto discográfico é uma nova e verdadeira bomba musical que transporta de novo o antigo teclista dos Madredeus e dos Setima Legião, onde esteve na génese da formação destes dois famosos agrupamentos portugueses, para as luzes da ribalta mercê de uma obra de invulgar qualidade, onde imaginação, arte, criatividade e invenção se uniram na perfeição com sumptuosidade e regressam de mãos dadas para deleitar tudo e todos e, acima de tudo, face às novas propostas sonoras apresentadas, conquistar novos simpatizantes e com isso aumentar significativamente a sua já extensa legião de fieis admiradores.

Todos nós sabemos que o tempo parece que voa e que foi há poucos anos atrás que o teclista iniciou uma na altura promissora carreira a solo com o disco “Ave mundi luminar”, mas afinal, e feitas as contas, chega-se à conclusão que já tem que se  contabilizar o teclista com um quarto de século como artista a solo, e que é portanto há mais de 25 anos que Rodrigo Leão nos conquistou literalmente quando começou a propor-nos as suas criativas e brilhantes ideias musicais e sonoras, as suas atractivas e sedutoras composições de menor ou maior duração, através das quais sempre tem tido o cuidado de nos ir revelando no capítulo das colaborações novos nomes da cena musical nacional e internacional ( Scott Matthew, Celina da Piedade, etc )que desse modo vai adicionando ao rol dos seus músicos ou de cantores acompanhantes.

Embora seja sempre difícil, e convenhamos que até por vezes discutível, dizer-se qual o melhor disco de um qualquer artista ou grupo, também isso acontece com as obras de Rodrigo Leão, até porque os seus projectos sempre se pautaram por uma elevada e reconhecida qualidade, mas no entanto eu, que os conheço suficientemente bem e até inclusivamente acompanhei de perto o nascimento de muitos deles, especialmente aquele em que o artista português conseguiu concretizar o sonho de uma vida que foi ter a presença, como instrumentista convidado, do mestre japonês da  electrónica Ryuichi Sakamoto num disco seu, um sonho que felizmente pude ajudar a concretizar derivado da minha amizade pessoal com o antigo membro da  japonesa Yellow Magic Orchestra, arrisco dizer que o novo trabalho é o melhor disco de toda a sua já extensa discografia, porque o instrumentista está num ponto muito alto da sua maturidade  artística, arriscando sempre e cada vez mais novos ritmos e sonoridades, denotando uma criatividade e uma imaginação sem limites, adicionando aos seus contextos e experiências musicais habituais novos elementos, ideias e influências, propondo novos ambientes electrónicos e conseguindo criar inusitados e mais visíveis ambientes minimalistas a que novas colaborações especialmente aqui a de um coro de cerca de vinte jovens veio dar um especial ênfase e uma iniludível ingenuidade quase absolutamente celestial e única!

Poderá, na opinião individual de alguns dos admiradores de Rodrigo Leão, não ser o seu melhor disco, até porque isso deriva sempre de gostos pessoais,  mas é certamente uma das mais belas obras e mais expressivos acontecimentos musicais deste estranho, e esperemos que irrepetível, ano de confinamento, que até obrigou Rodrigo Leão e muitos outros artistas a adiarem ou até mesmo cancelarem  os há muito anunciados concertos de lançamento e promocionais de novos discos!

CD Uguru/BMG

 

EL SUR

De vez em qualquer há um qualquer disco que chama a minha particular atenção por um ou outro pormenor que sobressai e neste caso foi o nome da banda que apesar de ser originária de Lisboa acabou no entanto por escolher para sua identificação um nome em castelhano – El Sur; no entanto também a temática literária das suas propostas me alertou tanto mais que hoje em dia já quase ninguém politiza acentuadamente as suas composições, antes se refere aos problemas que pretende abordar de uma maneira mais suave, mais ao de leve, por vezes de um modo quase descomprometido aquilo a que todos nós vulgarmente chamamos de “politicamente correcto”. Longe vão portanto os tempos da chamada canção de intervenção nacional, de certo modo revolucionária e portanto de luta social, embora muitas das muitas vezes e infelizmente de certo cariz panfletário, de antes e pós-25 de Abril, altura em que ditavam leis  e agudizavam profunda e politicamente os seus recados, através das palavras dos seus textos, grupos como o GAC, Grupo Outubro ou a Brigada Victor Jara e cantautores como José Manuel Osório, Sérgio Godinho, Vieira da Silva, Vitorino, o duo Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Padre Fanhais, Zeca Afonso, Fausto (com especial incidência nos tempos das edições na Movieplay), Luís Cilia , José Jorge Letria, o grande Adriano Correia de Oliveira, ainda o gigante da palavra José Mário Branco e muitos outros mais, curiosamente alguns deles dados a conhecer ao grande publico, e até “louvados” amiudadas vezes, nas paginas do primeiro jornal de musica português – A Memória do elefante e também na extinta revista Mundo da Canção do meu querido amigo/irmão Avelino Tavares, ambas de boa e saudosa memória…

Numa altura em que se cumpriram 75 anos sobre a abertura das portas que revelaram o terror, o horror e a chacina de Auschwitz por parte dos nazis alemães capitaneados pelo monstruoso e vampirico Adolf Hitler, num tempo em que vírus e alterações climáticas, com especial destaque para os fogos e desflorestação da verde Amazónia, o degelo dos pólos e de outras zonas geladas nevrálgicas do Globo, ameaçam destruir, e mais tarde até alagar todas as zonas ribeirinhas do Planeta Terra, em que um pouco por todo o Mundo, vão surgindo como cogumelos, perigosos ditadores como Lukashenko, Bolsonaro, Trump, Xi Jinping, Maduro, Putin ou Kim Jong-un, entre muitos outros, e os legítimos e muitas vezes esquecidos direitos humanos são cada vez mais esmagados e postos em causa ao mesmo tempo que alguma extrema-direita europeia ( Portugal incluído e onde nos últimos tempos o racismo, a xenofobia e outras perigosas formas de intolerância se tornaram mais claras, menos dúbias, mais evidentes e desavergonhadas e acima de tudo mais perigosas) vai assustadoramente pondo as garras de fora ao mesmo tempo que alguns grupos neo-nazis perdem a vergonha e mostram o seu focinho peçonhento ameaçando tudo e todos; por isso cada vez é mais necessário denunciar o que está mal, o que oprime a Humanidade e põe em risco a sua própria existência pois, mais do que nunca, há que denunciar tudo isso com clarividência e sem concessões, rejuvenescendo ideias e conceitos, lutando bravamente com e pelos meios ao dispor e  acima de tudo ir pouco a pouco mais fundo unindo esforços, perseveranças e vontades em prol de um bem estar comum pelo qual se anseia e suspira; e entre esses caminhos de denuncia e luta está, e aliás sempre esteve sem dúvida um dos seus mais poderosos veículos – a música!

Já no “velhinho”, mas sempre actual disco “Trova do vento que passa” se chamava a atenção para uma necessária luta quando se cantavam as palavras de Manuel Alegre que diziam:-“… há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz NÃO!…”

Por isso mesmo daqui saúdo efusivamente o aparecimento dos El Sur este quinteto musical que faz da canção a sua arma e sabiamente usa as palavras de poetas e escritores de intra e extra-muros, já anteriormente com provas dadas na luta social, fazendo também delas a sua bandeira de combate, de denuncia e de luta.

Veiculando e ousando fazer suas em “Todas as sombras”, título do seu disco e que é um verso retirado de “Alta traición” a composição que abre o disco, o grupo usa e abusa das sábias e por vezes mesmo corrosivas  palavras de figuras consagradas como José Saramago, Eugénio de Andrade, José Emílio Pacheco, Pablo Neruda, Tiago de Lemos Peixoto ou Violeta Parra, essa voz mítica e imortal que como ninguém nos fala de pobreza e opressão, mas ao mesmo tempo também de resistência e liberdade…

Neste novo disco os el Sur deixam-nos a sua muito pessoal perspectiva e o seu solitário recado, propondo-nos a digestão de um belíssimo trabalho, de certo modo arrojado, em que os belos e incisivos textos, por eles próprios seleccionados, desempenham o perfeito e ideal fio condutor para uma musica imaginativa, bem concebida, bem elaborada, deveras inspirada e que acima de tudo se revela também como…desbragadamente actual, tanto assim que resolveram investir na actualidade musical ao re-cantar  a composição “Histórias pra ninar gente grande” o  samba enredo de 2019 da escola de samba da Mangueira, que faz parte do mais recente disco da irmã de Caetano Veloso – Maria Bethânia, uma inspirada composição que venceu o Carnaval do Rio do mesmo ano, aqui  mostrada numa versão muito intensa e pessoal do quinteto português onde se misturam o verde e rosa, as cores da Mangueira, com as sombras que ecoam do Brasil e trazem até nós as más novas de uma (des)governação desbragada e um tanto louca de um presidente assumidamente militarista, que para além de muitos outros “crimes” tem pactuado abertamente com a desflorestação desse enorme pulmão do Planeta que se chama Amazónia; os el Sur, fazem mesmo desta composição uma sua outra bandeira, uma peça musical que  acaba até por constituir um dos pontos altos do novo trabalho.

Assim sendo, vamos lá então tirar a poeira dos olhos e a cera dos ouvidos e com os cinco sentidos bem apurados banharmo-nos  nas propostas deste novo grupo português que constitui, para alem dum oásis no nosso actual deserto musical, também um verdadeiro raio de sol na autentica penumbra em que tem estado ultimamente mergulhada a musica portuguesa de raiz popular e tradicional esperando-se agora que as rádios e televisões, com muitas e obrigatórias responsabilidades culturais neste País, especialmente as que são pagas com o dinheiro do nosso bolso ou seja com o dinheiro do erário público, cumpram a sua missão, que é  também, simultaneamente, uma sua obrigação e dever, de fazer chegar aos ouvidos dos portugueses os recados destes novos desbravadores de sons e texturas – os El sur, onde as canções de luta e  resistência coabitam com baladas e composições de amor sob camas musicais de inspirações tão diversas como são as do rock progressivo, do jazz, da musica tradicional ou dos blues, numa miscelânea de elementos retirados do seu grande caldeirão de influencias tão original quanto policromático e que constituem afinal uma bela aventura musical que é urgente escutar com atenção sob pena de se deixar passar em claro um dos mais sólidos e excitantes grupos de alquimistas sonoros da musica popular portuguesa da actualidade!!!

CD Alain Vachier Music/ apoio:- Fundação José Sarama

 

FERNANDO FERREIRA

Quem arrisca interpretar composições de autores como a inspirada Amélia Muge, que eu em boa hora fui recrutar em 2007 para escrever “O fado da procura” para Ana Moura, para integrar o leque de composições do multi-platinado disco “Para além da saudade”, projecto onde como produtor executivo juntei também as assinaturas de gente como o meu querido irmão espanhol- o saudoso Patxi  Andion, Jorge Fernando, Nuno Miguel Guedes, Mário Raínho ou Tó Zé Brito, entre outros e ainda adiciona à composição de Amélia também outras autorias como as  Paulo de Carvalho, Sebastião Antunes, João Afonso (o eterno sobrinho do grande Zeca Afonso)  ou Guto Pires e emparceira as composições destes lado a lado com três trabalhos próprios, não só demonstra grande respeito, reverência e carinho pelas obras alheiras como afirma ao mesmo tempo uma aposta pessoal nas suas próprias capacidades de compositor.

Foi o que sucedeu com Fernando Ferreira que com o seu segundo disco “Mantenhas”, ( o primeiro – “Mestiço”-havia surgido há já dez anos atrás) se apresenta de novo ao publico português através de uma série de belas composições onde intensifica a procura de novos horizontes de luz, de paz e de esperança num futuro, que agora se apresenta infelizmente um tanto nublado mercê do maldito vírus, para o qual não se encontrou ainda antídoto e que por isso mesmo faz  continuarem a pairar nuvens negras e uma grande incerteza mesmo sobre o futuro da Humanidade.

Cantor e actor já com  passagens de vida artística pelos domínios do cinema, do teatro, televisão e da dança, para alem claro do campo musical,  Fernando Ferreira constitui na minha opinião uma das mais agraveis surpresas vocais dos últimos anos, não só porque, como costuma dizer-se “canta que se desunha”, mas também por revelar uma incrível maturidade vocal; aliando-se a este predicado o facto de ser possuidor de uma voz portentosa bem na linhagem da de Paulo da Carvalho, que continua a ser a voz numero um em Portugal no domínio da musica pop e ligeira, isto dá-nos a certeza de estarmos na presença de um artista que finalmente parece destinado a altos voos e a traçar um percurso de grande relevância nos domínios da música portuguesa actual, pesem embora todas as dificuldades com que terá de lutar impostas pela maldita pandemia que tem cerceado e limitado gravações, lançamento de novos discos, concertos e muitas outras actividades artísticas ligadas directa e indirectamente à musica em geral.

Cantadas em língua portuguesa e em dialecto crioulo da Guiné- Bissau, de onde  o artista é natural, as composições deste novo disco mostram um grande critério selectivo e simultaneamente permitem um grande naipe de opções auditivas de um nativo africano, cujas influencias e nacionalidades musicais são diversas e onde coabitam com serenidade e bom gosto mornas e coladeras, com a musica portuguesa, a música urbana, o jazz e a música popular brasileira de que regra geral todos os africanos são admiradores,  fans incondicionais e… ouvintes.

Verdadeira e prazeirosa  viagem musical intemporal, autenticamente “sem lenço, nem documento”, nem tão pouco bagagem,  “Mantenhas”  ( que significa saudação) é um grande trabalho das musicas do Mundo, servido por uma voz exemplar que traça um novo rumo, de grande sucesso, para o seu autor, dono de uma grande capacidade interpretativa, onde a tradição se revela em cada sonoridade e em que os seus predicados vocais nunca serão demais de acentuar e elogiar! Parece que nunca fez mais nada na vida senão cantar! E de que maneira o faz! Por isso:- ”benvindo cometa musical guineense! Sabes que já estávamos à tua espera para aquilatar da tua voz e do teu grande talento?

Uma palavra final para o grande Alain Vachier, por mais esta “descoberta” e aposta que poderá ser, assim o espero, o desejado “pontapé de saída” para uma carreira de êxito de um cantor predestinado!

CD Alain Vachier

 

CUSTÓDIO CASTELO

Falar-se de Custodio Castelo é sinónimo de se falar de um instrumentista de invulgar qualidade que faz do seu talento nato e da genialidade dois dos seus melhores argumentos e que por isso mesmo é considerado o melhor executante de guitarra portuguesa da actualidade; com uma vida musical sui-generis, pois passou como musico pelo rock, pela música erudita e finalmente pelo fado (aos 16 anos decidiu escolher para sua companheira de vida artística a guitarra portuguesa depois de ouvir uma série de discos de Amália) e é precisamente na mesma área do  fado que se tem evidenciado e notabilizado sendo sem duvida nesta área um dos artistas mais em destaque quer seja como exímio e prodigioso executante, quer também como compositor, descobridor de talentos  e professor pois para alem de manter em Castelo Branco, uma escola de música onde novos instrumentistas se vão revelando e formando, esteve anteriormente ligado a carreiras de gente como Cristina Branco ou Margarida Guerreiro e mais recentemente à fadista Ana Paula, que nos concertos na Junta de Freguesia de Benfica  realizados este ano em Fevereiro pouco tempo antes do aparecimento da  maldita pandemia covid 19 se revelou uma interprete de mão cheia; para alem disso colaborou também em espectáculos ou em gravações com gente tão diversa como a divina Amália Rodrigues (com quem excursionou e tocou na última viagem desta aos Estados Unidos), com Nuno da Câmara Pereira, Jorge Fernando, Mariza, Carlos do Carmo, Camané, Ana Moura ou Maria Bethania entre muitos outros.

Com vários discos a solo no activo  Custódio Castelo tem agora no mercado um novíssimo projecto que se segue ao terceiro e deslumbrante “Maturus”, sobre o qual me debrucei em texto na altura da sua edição entre nós; o  novo trabalho tem por título “Amália classics -on portuguese guitar “ que como o próprio título deixa antever reúne uma mão cheia de composições que a imortal Amália com a sua voz mágica e única popularizou e vão desde ”Estranha forma de vida” até “Fado Amália” passando por “Lágrima”, “Ai Mouraria”, “Tudo isto é fado” ou “Gaivota” composições a que o guitarrista concedeu uma leitura muito própria mas deveras fiel aos originais e…absolutamente deslumbrante!

As composições adquiriram nas mãos do guitarrista uma outra vida e  simultaneamente um  novo e invulgar brilho e intensidade sentindo-se que a com elas a guitarra portuguesa adquiriu alma e vida próprias tal a genialidade, beleza e cor sonora com que soam as canções; por outro lado nota-se que o disco foi feito com muito amor,  carinho e grande paixão e, fundamental, acima de tudo feito sem limitações de tempo e sem pressões…

Relembro que a grande Mariza afirmou um dia que “…se as pessoas puderem não percam a experiência única que é escutar ao vivo este extraordinário e interprete pois isso é simplesmente arrepiante!…” e por isso mesmo começo a pensar que oportunidade única,  alucinante e certamente inesquecível será em breve poderem-se escutar ao vivo num qualquer palco deste País, estas dez composições da imortal Amália, desta vez feitas genialidade pelo virtuosismo, mãos e guitarra de Custódio Castelo!

Se em disco a audição já nos causa “pele de galinha” e  raia as fronteiras do belo e do deslumbrante, quando se sente a natural fusão do instrumentista com o seu instrumento que, como num autêntico passe de mágica , se unem num  só corpo e alma, ao vivo, isso vai transformar-se  certamente num momento único, épico e inesquecível!!!

A ouvir vamos!

CD ARC Music/Megamúsica

 

INÊS DUARTE

Já há alguns anos atrás, mais concretamente por alturas de 2012, logo a seguir ao lançamento do seu segundo disco – “Este fado” (o primeiro havia sido “Reflexos” em 1999) me referi elogiosamente à linda setubalense Inês Duarte como um nome em ascensão no árduo e sempre difícil mundo fadista e hoje tenho que reconhecer que efectivamente não me enganei, pois ao escutar o novo disco “Ser” tenho que reconhecer que a sua evolução é notória e enorme, não só no que toca à maneira como agora interpreta, à colocação e entoação das palavras mas também e acima de tudo a uma evidente e crescente segurança vocal; acresce a isto também uma maneira muito pessoal e autónoma de deitar cá para fora as composições que interpreta e às quais transmite um toque muito próprio,  apelativo e cristalino e acima de tudo através de um timbre muito individual e característico.

A justificação destes atributos está certamente no traquejo de que já dá mostras e que certamente tem muito a ver com uma certa experiência que ao longo dos anos foi acumulando, ao facto de anteriormente ter andado em boas companhias (Quinteto Amália, etc. ),  mas também certamente por ter estagiado durante muito tempo em verdadeira missão de aprendizagem por casas de fado alfacinhas, que quer se queira, quer não, constituem sempre e cada vez mais a melhor, a grande e verdadeira universidade do fado…

Não se enganou certamente o grande mestre Carlos do Carmo, que para além de ter sido meu artista na antiga Phonogram /Polygram ( hoje em dia Universal) faz ainda o favor de ser meu amigo, quando depois de ouvir o material que lhe foi sugerido na altura, aceitou fazer com a cantora uma parceria vocal na canção “Dentro de mim, Lisboa”, belíssima composição da dupla Gomes dos Santos/Valter Rolo que, de certo modo e sem dúvida nenhuma credibilizou e de que maneira abrilhantou, o seu segundo disco!

Agora, vários anos passados desde a sua estreia e também da sua presença marcante numa das célebres Grandes Noites do Fado, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, em que arrebatou o segundo lugar na categoria sénior, Inês Duarte prepara-se para dar o grande e creio que definitivo salto em frente na sua carreira de fadista com a publicação deste terceiro trabalho para o qual escolheu criteriosamente cantar as palavras de gente como Alexandre O´Neil e  Tiago Torres da Silva, apostando no entanto num outro nome também -Cátia Oliveira, que aqui assina a grande maioria das composições- nada menos de nove, ao mesmo tempo que  elegeu composições assinadas por Manuel Graça Pereira  e por Valer Rolo para ilustrarem musicalmente os textos que seleccionou.

O resultado final é deveras entusiasmante mercê não só do desempenho vocal da fadista, mas também do belíssimo trabalho na produção, direcção musical e arranjos do mesmo Valter Rolo, que cada vez mais se assume como um dos mais sólidos valores da composição e dos estúdios nacionais; não deve esquecer-se no entanto também o excelente naipe de músicos que preparou para as canções a mais eficaz e perfeita cama musical com destaque especial para o brilhante  desempenho dos dois guitarristas- Bernardo Couto e Angelo Freire ( que com apenas 15 anos de idade, eu e o Jorge Fernando desafiamos para ir acompanhar Ana Moura a Madrid, ao Palácio das Belas Artes, num show que marcou o regresso apoteótico do grande Patxi Andion aos palcos espanhóis depois de uma ausência de dez anos durante os quais se dedicou ao  cinema e a novelas de televisão).

Quanto à fadista, já atrás salientei a sua crescente  evolução, facto que lhe outorga desde já uma grande responsabilidade pessoal e artística pois ultrapassou assim o estatuto de promessa que há anos lhe era concedído, para lhe outorgar agora um estatuto de certeza, aureolado por um radioso futuro no fado…

Uma palavra final para o versátil, imaginativo e eficaz multi-trabalho de Valter Rolo, a quem peço no entanto um favor em termos de futuro:- “esquecer-se” da bateria e substitui-la por exemplo por batidas e percussões rítmicas de adufes  ou de outros instrumentos de percussão populares portugueses, bem menos “violentos” e sonoramente menos massacrantes do que a bateria aqui utilizada em algumas partes do presente projecto; por alguma razão costuma dizer-se:- “…silêncio, que se vai cantar o fado!…”

Todos os ouvintes, e especialmente os puristas vão certamente ficar muito agradecidos e assim, de certo modo, certamente o fado será mais…fado!!!

CD Full of stars/ Edição de autor

 

CYRILLUS KREEK

O famoso compositor estónio Cyrillus Kreek (1889-1962) é agora de novo recordado através da edição de uma das suas mais conhecidas obras– “The suspended harp of Babel”, na interpretação dos Vox Clamantis sob a direcção de Jaan-Eike Tulve em que a musica coral de hinos tradicionais da Estónia se cruza na perfeição com textos de salmos e hinos folclóricos , com fantasias, prelúdios e interlúdios instrumentais, alguns dos quais foram criados especialmente para esta gravação pela dupla Marco e Ângela Ambrosini em colaboração com  Anna-Liisa Eller; enquanto a dupla surge a executar as suas partes melódicas em nickelharpa que é um instrumento tradicional da Suécia  de corda friccionada, equipado com teclas e cordas de ressonância, Anna delicia-nos com a execução das suas partes  em kannel, também conhecido noutras paragens nórdicas por kantele e que é um instrumento nativo, já mais divulgado e conhecido actualmente e portanto  também mais popularizado e que é geralmente usado naquelas paragens para acompanhar polkas e outros tipos de danças populares tradicionais ou folclóricas…

Música religiosa atractiva e sedutora, de grande abrangência instrumental, com coros verdadeiramente inebriantes, oníricos e quase que planetários que oscila e levita entre o antigo e o moderno e por isso mesmo transforma este projecto numa encruzilhada de fortes emoções musicais e sonoras a que dificilmente se resiste; por isso mesmo se recomenda sem reservas a adeptos e não só!

CD ECM/ Distrijazz

 

ERIC CLAPTON & GUESTS

Como já anteriormente havia sido toxicodependente, o guitarrista Eric Clapton resolveu há anos atrás curar-se e ajudar a criar uma espécie de fundação, com uma unidade hospitalar incluída, onde se poderiam tratar todo o tipo de viciados em substâncias psicotropicas desde viciados em álcool, aos dependentes de ópio, cocaína, maconha brasileira, heroína, etc. que sob supervisão de grandes profissionais, buscam ali tratamento para os seus males procurando acima de tudo, e fundamentalmente,  a cura através de uma desintoxicação medicamente assistida e controlada; para alem de ajudar na sua fundação o músico tambem organiza periodicamente um festival de música baseado essencialmente em grandes guitarristas e cujos proventos, sejam eles do produto das entradas, do merchandising, venda de discos, filmes, DVDs ou blurays, vão directamente para a Fundação Crossroads, sediada na linda ilha de Antiqua.

O primeiro destes acontecimentos musicais  teve lugar em 2004 e daí para cá já vários deles aconteceram e como é óbvio geraram altos proventos que ajudaram na cura de muita gente; como essas manifestações musicais sempre reúnem algumas das mais cintilantes estrelas da pop, do rock, do jazz e dos blues todas as acções solidárias se saldaram por grande sucesso como são exemplo os inúmeros discos, filmes, etc. já editados todos eles com a chancela da mesma “Crossroads”.

Recentemente publicou-se um novo projecto discográfico  e visual agora designado por “Crossroads revisited” que é uma espécie de best of  dos concertos realizados até 2013 e que reúne num triplo projecto uma plêiade de cantores e instrumentistas tais como o próprio Clapton, Buddy Guy, Albert Lee, Joe Walsh, Carlos Santana, Sheryl Crow, Jeff Beck, B.B. King, Los Lobos, John Mayer, Z.Z. Top, Jimmie Vaughan, Steve Winwood, Keith Urban ou Vince Gill, entre outros.

Um projecto fabuloso, que mais que proporcionar tomar contacto com a arte maior de algumas das mais famosas figuras musicais da actualidade, especialmente do pop, do rock e dos blues serve também para angariação de fundos que revertem para uma organização sem fins lucrativos e que visa fundamentalmente o bem estar das pessoas depois de as ter livrado do vicio de substancias ilícitas e proibidas…

3CDs Rhino/Reprise/Warner Music

 

ELZA SOARES

Nome mítico da música brasileira Elza Soares só há poucos anos viu ser-lhe reconhecida pela critica e até mesmo pelo público em geral a sua enorme importância e valor musical; actualmente com a proveta idade de 83 anos continua a cantar e a …deslumbrar  não admirando portanto que vão surgindo em catadupa reedições de raros e antigos discos seus.

É caso agora de um projecto que reúne dois dos seus mais provetos  álbuns –“Se acaso você chegasse” e “A bossa negra”,considerados verdadeiros tesouros da musica brasileira e onde a arte e classe de Elza estão em evidencia e que para alem de tudo tem a particularidade de incluir uma série de temas bónus muitos deles registados com o acompanhamento de Astor Silva & his orchestra; acresce o facto de o projecto ter somente uma edição limitada a 500 exemplares, o que o transforma em verdadeira raridade sendo de salientar também o facto de incluir uma fantástica e inédita versão de Elza para o celebre “Mack the knife” do grande Louis Armstrong , a quem a diva da MPB presta assim vibrante homenagem.

Considerada pela BBC em 1999 a cantora brasileira do milénio, Elza Soares chegou tarde até nós, apesar de eu aqui já ter abordado alguns dos seus mais recentes discos, mas, convenhamos, vem sempre a tempo de ser conhecida e escutada pelos portugueses amantes de boa musica brasileira que assim vão conhecer melhor uma das mais fantásticas e fabulosas interpretes do país verde-amarelo.

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

MAYSA

Um dos míticos e imorredouros sucessos da MPB é sem dúvida o tema “O barquinho” na interpretação da divina Maysa Matarazzo (1936-1977); ora este mesmo sucesso acaba de surgir na reedição de ”Barquinho” duplo projecto constituído por dois discos originais da cantora brasileira – “”Barquinho” (gravado no Rio de Janeiro) e “Songs before Dawn” (gravado em Nova Iorque) ambos registados durante o ano de 1961 em que ela surge acompanhada pelo Tamba Trio e por Jack Pleis and his Orchestra respectivamente.

Para alem da famosa canção vamos poder encontrar no reportório dos discos  ainda êxitos como “Recado à solidão”, “Melancolia” ou “Lágrima primeira” para alem de duas belíssimas interpretações de “Autumn leaves”  e “Agua de beber”, este como tema bónus do segundo disco.

De edição limitada a  meio milhar de exemplares, um novo booklet e ainda novas notas históricas e biográficas, eis uma verdadeira raridade musical  que é urgente possuir tanto mais que cada vez mais se vai desenvolvendo entre os amantes da MPB o culto da divina Maysa, uma interprete de grandes atributos , talento e estatuto no campo da bossa nova , área que alguns apelidavam, quando eram cantadas algumas das chamadas canções da dor de corno, de “fossa nova”!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

CHET BAKER

Nome mítico, imortal e histórico da grande música negra onde o seu nome brilhou a grande altura especialmente como genial instrumentista, também como vocalista se fez notar e neste capítulo revelou-se um interprete exímio com uma maneira de cantar muito própria e com um domínio da voz absolutamente assombroso; Chet Baker, é dele que falo, surpreende a cada nova edição da sua obra seja pela reposição de antigos Lp´s ou através de novas compilações onde a sua vasta e valiosa obra é  escalpelizada através muitas vezes de novas versões ou de surpreendentes arranjos.

“The complete original Chet Baker sings sessions” é mais uma das boas surpresas discográficas que nos reservou o ano corrente, tão parco em boas notícias e tão cheio de desagradáveis acontecimentos com destaque para o aparecimento do maldito coronavirus, que ainda ninguém sabe dizer quando terminará ou mesmo se terminará devendo aplicar-se infelizmente aqui a frase  que ficou famosa como sinónimo de uma portuguesíssima “chico espertice” futeboleira nortenha que na altura rezava assim:- “prognósticos só no fim!!!”

Ora esta presente edição para além de nos proporcionar um novo contacto com a obra deste grandioso músico norte americano tem a particularidade de nos mostrar, simultaneamente, e através de nada menos de uma totalidade de 24 composições, incluindo quatro temas bónus, as duas facetas principais de um artista brilhante como instrumentista e versatil como vocalista , numa obra/ colectânea  que tem também a particularidade de proporcionar a audição da definitiva e impar versão da celebérrima canção  “My funny Valentine”.

Verdadeira obra de colecção merece desde já uma revisitação urgente ao legado de um homem que nascido em Oklahoma, Estados Unidos em 1929 morreu em Amsterdão, Holanda em 1988, cidade onde inesperadamente caiu de uma janela  de uma das unidades hoteleiras da capital holandesa e que apesar de já terem passado todos estes anos sobre o infausto acontecimento ainda continua esse desaparecimento envolto em grande mistério:- acidente ou suicídio?

CD Phoenix records/Distrijazz

 

EAGLES

É sem duvida, e desde há muitos anos, uma das bandas americanas de maior sucesso mundial, não só no que diz respeito a vendas de discos como a concertos ao vivo onde eram quase sempre afixados nas bilheteiras os cartazes de lotação esgotada; por isso qualquer reedição de discos de originais ou edição de novas colectâneas é sempre motivo de grande visibilidade e procura, sabendo-se até que a colectânea de êxitos “Greatest hits 1971-1975” foi mundialmente um disco que bateu um invejável record referente ao disco mais vendido de sempre!

Agora, o novel “The complete greatest hits”, não foge por isso à regra gerando desde a sua publicação grande entusiasmo junto dos fans e um particular interesse das rádios mundiais que tem neste projecto um manancial de opções para as suas play-lists tantos foram os sucessos que a banda  foi acumulando ao longo de quatro décadas de indesmentível e crescente popularidade…

Sucessos como os fabulosos “Hotel Califórnia”, “Tequila sunrise”, “One of this nights”, “New kid in town” ou “The long run” a par de mais vinte oito diferentes composições integram esta dupla compilação que tem a particularidade de incluir também como tema de fecho a canção “Hole in the world” escrita como resposta musical da banda aos arrepiantes e infaustos acontecimentos do 11 de Setembro, de má memória!!!

Estamos sem dúvida em presença de uma rara peça discográfica de colecção absolutamente imperdível!

2CDs Rhino/ Geffen records/Warner Music

 

CELTIC ESSENTIALS

Mais uma colecção de composições que nos ajudam melhor a compreender toda a riqueza melódica da musica celta em todo o seu esplendor :- “Celtic essentials”, compilação composta por onze canções onde se fala de história, através de ritmos e melodias (jigs, baladas, etc.) alguns deles sem dúvida de ritmo irresistível a que ninguém ficará certamente  indiferente e que por isso obrigam a audiência a levantar-se com  rapidez da cadeira num impulso irreprimível de dança e ritmo.

Reunindo uma série de nomes já com certo estatuto musical como  Bagdad du Moulin Vert, The House Devils, Florie Brown ou Jean-Yves Le Pape,  o disco para alem dum brilhante cartão de visita da música de inspiração popular celta é simultaneamente um implícito convite à dança  e isso deve cumprir-se, pois a musica celta é uma entidade musical que deve ser acima de tudo respeitada pois , manda a boa educação, não se deve desrespeitar, nunca, uma dama!

CD ARC Music/Megamúsica

 

LEGENDS OF IRELAND

Um dos nomes míticos da musica vocal irlandesa no feminino é sem dúvida o de Dolores Keane , voz que tem dado vida a fantásticas composições que de vez em quando vão homenageando grandes figuras politicas mundiais como aconteceu por exemplo com a canção “Lion in a cage”, dedicada ao grande Nelson Mandela, absolutamente glorificado há anos atrás por esta fabulosa cantora, que para alem de tudo é uma voz que se sempre se levanta amiudadas vezes na defesa dos Direitos Humanos.

E é esta mesma voz que juntamente com outros nomes sonantes da música irlandesa tais como Mick Hanly, Arty McGlynn, Peter O´Malley ou Kieran Halpin, entre outros, completam o ramalhete de cantores, instrumentistas ou compositores que faz de “Legends of Ireland” , uma colecção de musica celta admirável e ao mesmo tempo uma paleta sublime de sentimentos, emoções e impressões de uma cultura mágica como é sem dúvida nenhuma a da bela Irlanda, também muitas das vezes vulgarmente conhecida como Ilha Esmeralda.

Estamos assim em presença de uma imprescindível proposta de audição de treze diferentes composições, verdadeiros hinos musicais e que por isso mesmo  é absolutamente imperdível!

CD ARC Music/Megamúsica

 

PEDRO BARROSO & PATXI ANDION

Já nos deixaram há alguns meses e com o seu desaparecimento a música ibérica ficou incomensuravelmente mais pobre; porém  qualquer um deles deixou um legado  discográfico brilhante e inesquecível  constituído por uma extensa discografia pessoal havendo no entanto ainda duas belíssimas surpresas reservadas para os seus milhares de admiradores que serão o segundo volume da comemoração dos 50 anos de carreira de Patxi Andion  ( o primeiro volume intitulou-se “La hora lobican” e está já editado na Península Ibérica  e na América Latina) que verá a luz do dia possivelmente em  finais deste ano/ princípios de 2021 e que já estava totalmente gravado aquando do seu desaparecimento num brutal desastre de jeep e também o derradeiro trabalho registado em disco por Pedro Barroso -“Novembro”que pelo que consegui apurar junto de Fernando Matias da editora  do cantautor  português – a Ovação, será  em principio editado coincidentemente com a data do aniversário do Pedro no próximo mês de Novembro próximo, isto se  em Portugal o covid 19 o permitir!

No disco do antigo residente de Riachos, no Ribatejo, poderemos encontrar o único “encontro” musical entre os dois cantautores ibéricos, um sonho de Pedro que felizmente eu mediei e ajudei a concretizar e que afinal de contas acabará por constituir a inesperada despedida dos dois celebres músicos e cantores ao seu  publico; trata-se do fabuloso dueto “Que rumos” que foi apresentado em primeiríssima mão no ano transacto no programa “Inesquecível” de Julio Isidro na RTP Memória, composição brilhante  e verdadeira antológica  que será o porta-estandarte musical e poético do disco de Barroso e sobre o qual  me debruçarei mais detalhadamente então na altura do seu lançamento.

CD Ovação

 

JOANA ALMEIDA

Natural de uma terra onde se privilegia a audição da chamada música pimba, do folclore e da música tradicional – Felgueiras, no norte de Portugal localidade onde se fabrica aquele que quanto a mim é o melhor pão-de-ló português -o de Margaride, a  fadista Joana Almeida tem uma história de vida musical assaz curiosa, atribulada e diversificada que inclui algumas passagens por  clubes nocturnos  ou discotecas, onde se privilegiam as habituais, e quantas vezes para alguns dos presentes insuportáveis, sessões de karaoke, pelo piano, pela execução de peças dos grandes e mais famosos compositores da musica clássica, pelos coros  religiosos de igreja e também até, imagine-se, por uma banda de heavy rock onde preencheu o lugar de vocalista; a novel voz do panorama musical português chegou ao mundo do fado por brincadeira pois cabendo-lhe  num concurso e por sorteio interpretar uma canção charneira da divina Amália- “Lágrima”o que é certo é que isso acabou por deslumbrá-la ao causar-lhe um verdadeiro “click” interior; depois desse momento o fado tomou-a positivamente de assalto e tomou conta dela de tal maneira que o seu curriculum actual regista já uma vitória no 2º Grande Prémio Nacional de Fado da RTP 1 (com a idade de 17 anos), variados “estágios” em populares casas de fado alfacinhas como por exemplo a Maria da Mouraria, Mesa de Frades, Parreirinha de Alfama, Pateo de Alfama, Tasca do Chico ou o Luso  tendo mesmo também já actuado em conhecidos “festivais”  de fado nomeadamente no Caixa Alfama, Caixa Ribeira e no  CCB (Há fado no Cais).

Este ano,  finalmente, subiu mais um degrau importante na sua carreira com a gravação do seu  primeiro disco de originais- “Deslumbramento” em produção de Tiago Machado, homem que para alem das suas capacidades de compositor e produtor é também conhecido do grande publico por ter composto para Mariza  um tema de grande sucesso popular –“Oh gente da  minha terra” ; nas áreas das letras e das músicas a escolha recaiu em gente do gabarito de Cátia Oliveira,  Pedro da Silva Martins, Luísa Sobral, Fernando Cardoso, Hélder Moutinho, Valter Rolo, Tiago Correia, etc. e convenhamos que para um disco de estreia estas companhias são efectivamente bem recomendáveis.

A vida artística de Joana Almeida já  deu muitas voltas mas depois de tudo, de muitas e variadas peripécias ela aí está, formosa e segura, cantando esplendidamente, com grande segurança, num português perfeito e com uma voz bem timbrada, pronta e mais que habilitada para subir lenta, mas conscientemente, os degraus que a levarão de certo mais longe, mais alem, rumo a um lugar de destaque no mundo da canção nacional por excelência – o fado, área onde  nem todos os valores que vão surgindo conseguem brilhar à primeira.

Realce no trabalho para composições como “Beijo roubado”, “Deslumbramento” (tema titulo do CD), “Anda bonita a solidão” ou “Canto d´alma” quanto a mim algumas das mais bem conseguidas composições do disco que promete ser para Joana Almeida,  a rampa de lançamento ideal para dentro em breve poder constituir-se como  um caso sério no fado nacional.

CD Universal Music

 

PINK FLOYD

O espólio dos Pink Floyd é inesgotável e por isso não admira que de quando em vez vão surgindo edições  algumas constituídas por raridades, outras que são uma autentica “revisão da matéria dada”, portanto novos best of, etc.

Recentemente foi a  vez de “The later years 1987-2019- highlights” disco que compreende uma série de composições verdadeiramente escolhidas a dedo e extraídas do anterior projecto com o mesmo título (uma caixa com 16 CDs) sendo a colectânea mais recente preenchida por uma dúzia de composições, algumas registadas ao vivo, outras oriundas de sessões de gravação e algumas raridades e outras ainda em versão remix e datadas de 2019 , havendo até também a curiosidade de uma delas ser proveniente dum ensaio de 1994 da “tournée” Pulse; um projecto directamente direccionado para fans, coleccionadores e também para os apreciadores da boa musica de um grupo fabuloso que fez escola nos anos 60, 70 e 80 e cuja constituição  na actualidade é um trio formado por David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright, uma vez que um dos seus fundadores mais famosos e influentes- Roger Waters há muito abandonou a banda para encetar uma fantástica carreira a solo, que já excursionou algumas vezes por pavilhões do nosso País.

CD Pink Floyd records/Warner Music

 

PEDRO E OS LOBOS

O tempo é de comemoração pois surgiu há pouco tempo atrás no campo discográfico português,  a par de outros projectos de artistas a solo ou de alguns grupos de que tenho dado noticia nos últimos tempos aqui no sítio, mais uma nova formação musical a cantar na bela língua de Camões – Pedro e os Lobos,  que vai entretanto navegando no mar revolto e de grandes ondas, que prenunciam  tempestades editoriais, em que a música portuguesa está transformada e mergulhada desde há tempos a esta parte com apostas editoriais sistemáticas em muito duvidosos produtos vindos de fora, cantados geralmente em inglês e que afinal de contas simplesmente acabam por significar que as editoras majors cada vez ligam menos ao que é local e nosso, optando apenas em muitos casos pela mera distribuição do produto final e cuja gravação foi regra geral, e infelizmente, muitas das vezes custeada pelo próprio artista; algumas outras vezes, as editoras mais conhecidas quase ignoram “criminosamente” o que por cá se passa e esse facto  tem por isso mesmo originado que uma crescente onda de novos e promissores projectos passe despercebido do grande público, projectos esses que muitas das vezes acabam por surgir no mercado em simples edições de autor, sempre louváveis, mas a que falta o essencial e sempre indispensável suporte promocional que só uma editora e o seu respectivo departamento de promoção e divulgação podem proporcionar, até pelos privilegiados contactos que  possuem nos media nacionais  com que habitualmente trabalham…

Muitas vezes essa famigerada “ignorância” mais não significa que a inegável “surdez” de muitos responsáveis editoriais sendo isso mesmo  também, e invariavelmente, por demais evidente; outras ocasiões há em que esses mesmos responsáveis acenam e desculpam-se com a chamada “falta de verba” e de apoios para  recusar trabalhos, muitas das vezes de qualidade bem superior a muitos em que eles próprios futuramente apostam ou até já mesmo anteriormente apostaram…

Ouvido o primeiro trabalho de Pedro e os Lobos –“Depois da tempestade”, criado na garagem e tocado ao vivo no estúdio, chega-se à conclusão face ao material que nos propõem que é uma banda que  merece ser apoiada, apela à união, ao sonho e à solidariedade, num disco que é preenchido por uma série de nove temas inspirados que falam em termos de texto dos heróis trabalhadores deste Portugal actual e não só, e que um pouco pelos quatro cantos do Mundo laboram de sol a sol, muitos deles em troca dum pouco mais que miserável soldo, composições que em termos musicais e sonoros denotam grandes influências dos clássicos  e contemporâneos “heróis” americanos especialmente em termos de paisagens sonoras; um disco com uma qualidade acima da média e que tratando-se de uma primeira aventura musical está bem acima da generalidade em termos de uma primeira edição e que por isso mesmo  merece uma mais cuidada atenção e audição; em jeito de proposta pessoal vamos e desde já, apostar todas as fichas neles, porque as suas propostas sem dúvida bem merecem essa oportunidade e os seus “uivos” precisam ecoar bem para além do horizonte nacional…

Edição de autor

 

GRAMMY 2020

Como é habitual, anualmente, antes da atribuição dos Grammies aos laureados sai um disco contendo todas as composições concorrentes aos prémios, projecto que faz as delicias não só dos amantes da música em geral e dos fans mas também dos inumeráveis coleccionadores de discos deste estilo; este ano, apesar da pandemia, não fugiu à regra e assim na colectânea deste ano – “Grammy 2020 nominees” vamos poder  marcar encontro auditivo com alguns estrondosos sucessos nas vozes de interpretes famosos e bem na moda tais como Billie Eilish, Ariana Grande, Ed Sheeran, Taylor Swift, Vampire Weekend, Bon Iver ou Beyoncé, entre outros.

Um disco que apesar do seu propósito principal recomendo sem reservas a quem gosta de musica jovem, inspirada e…actual!

CD The recording Academy/Warner Music

 

JOHN COLTRANE

Num trabalho verdadeiramente notável e retrospectivo a New Continent propõe-nos desta vez nas suas épicas edições uma colectânea tripla do mítico  instrumentista John Coltrane (1926-1967) com o título “The hits”, onde vamos poder marcar encontro com o mais genial saxofonista alto e tenor da grande musica negra e com algumas das suas mais inolvidáveis composições tais como “”Violets for your furs”, “Time after time”, “Blue train”, “ Blues to Elvin”, “Giant steps”, “ Limehouse blues”, “Round midnight” ou “In a sentimental mood”.

Uma tripla colectânea soberba, recheada de composições pouco menos que imortais, dum músico que para alem de tudo é já uma verdadeira lenda do jazz.

Um projecto verdadeiramente imprescindível!

3CDs New Continent/Distrijazz

 

TELMO PIRES

Desde o ultimo trabalho “Ser fado”, o segundo da sua discografia até agora, já mediaram alguns meses e por isso mesmo é normal que até face à experiência que já tinha e aquela que gradualmente vai adquirindo, Telmo Pires revele um evidente progresso, notando-se agora uma ainda maior segurança e uma crescente evolução na forma de cantar especialmente naquilo que diz respeito aos prolongamentos vocais, havendo portanto lugar a reafirmar-se que Telmo Pires, segue seguro e determinado rumo à inevitável projecção e também a uma crescente popularidade, sendo evidente que continua a cantar belissimamente, num tom e de um modo muito pessoais, envolvendo cada palavra dos textos numa acentuada ternura e subtileza, sublinhando-a com clareza e uma correcta ênfase, não sendo por isso favor nenhum que possa ser considerado como uma das mais jovens e seguras figuras do fado no masculino, pese embora contabilize já 34 anos de vivência na Alemanha e já mais de dez na capital portuguesa, onde pelos vistos agora assentou arraiais em definitivo.

No novo disco , “Através do fado” , constituído por muito material que foi fazendo ou anexando ao longo dos últimos tempos, continua, e bem,  a arriscar como cantautor a solo ou com companhia,  assinando algumas inspiradas composições, ousando até penetrar com certa segurança, diga-se em abono da verdade, no reportório habitual da diva Amália, de quem canta por exemplo ”Medo” e “Ouça lá ó senhor vinho”, no de Maria Guinot, cantando aqui em grande estilo “Silêncio e tanta gente” e também no espólio poético e musical de gente de créditos já firmados no mundo do fado como Vasco de Lima Couto, Tiago Torres da Silva,  Alfredo Marceneiro, José Niza, Alain Oulman ou Manuel Alegre, fazendo-o no entanto, é preciso que se diga, com critério, certa devoção e acima de tudo um enorme respeito.

Ouvido em “companhias” destas, quem é que ousa dizer que o fadista não anda, cada vez mais, muito bem acompanhado?

Para  a grande pureza instrumental e sonoridade do novo , que teve uma bem conseguida  produção de Davide Zacharia, muito contribuiu o facto de Telmo Pires estar ainda muito ligado à essência do próprio fado, factor com que o artista ainda continua, felizmente, a identificar-se e por isso mesmo este disco é um trabalho puro, sem bacocas  modernices, nem rodriguinhos, predicados ou melhor dizendo, pecadilhos, de que muita gente tem, vezes de mais, feito uso e que por isso mesmo tem descaracterizado muitos dos promissores projectos que vão surgindo, acabando-se por  fazer deles trabalhos menores e  quase sempre, apesar de intensas publicidades, de pouca aceitação geral.

CD Traumtom records

 

LINA & RAUL REFREE

É sem dúvida nenhuma o mais surpreendente projecto musical que ultimamente deu àcosta na industria discográfica europeia e que consiste em propor ao grande publico uma diferente visão de um mais difícil, mas simultaneamente atractivo e brilhante reportório da divina Amália, em ano de comemoração do seu centésimo aniversário, um disco que logo aquando da primeira audição que me foi pela Uguru  proporcionada, me deixou atónito, deslumbrado, encantado e, porque não dizê-lo …siderado!

Constituindo na realidade um produto final de inquestionável interesse e qualidade contabiliza-se no entanto por ser um projecto profundamente triste e sentimental, afinal de contas uma área de  reportório onde  a grande Amália sempre brilhou mais e onde mais à vontade se sentia tal como um “peixe na água!”

Incluindo uma série de fados tradicionais cantados com elevado sentido de  responsabilidade, sentimento e profundidade por Lina, o diminutivo de Carolina,  que aliás foi o nome com  que assinou o seu primeiro disco a solo quando ainda estrelava as noites  alfacinhas no célebre Clube de Fado do guitarrista Mário Pacheco, ali prós lados da Sé, em Lisboa, e sob uma brilhante e inspirada cama instrumental, profunda e vincadamente minimalista, com saboroso recheio sonoro de electrónica, sofisticada  e sabiamente  construída pelo catalão Raul Refree, que anteriormente como produtor já assinara fabulosos trabalhos de gente como Sílvia Perez Cruz, Rosalia ou  El Niño de Elche, entre outros; o disco intitulado com o nome dos dois comparsas musicais –“Lina & Raul Refree”, merece os maiores encómios não só por se tratar de um projecto de altíssima qualidade, mas também por constituir uma arriscada aposta editorial da Uguru, que desta maneira cria de novo um suporte absolutamente indispensável para os artistas que em termos de espectáculos representa…

Depois de escutar o disco faço ideia que “cobras e lagartos” terão dito alguns dos puristas do fado tradicional e alguns pseudo-críticos que por ali pululam, de um trabalho deste tipo e especialmente com este conceito pró-minimalista; mas como vozes de burro, costuma dizer-se, nunca chegam ao céu, deixemo-los então a falar sozinhos e bradar aos céus, porque a realidade é que estamos em presença de um disco  de inquestionável qualidade, servido por uma voz nostálgica, mas brilhante, soberba e bem definida e que apesar de todas as condicionantes que podemos situar no campo de uma grande ousadia e atrevimento sonoro e instrumental, trata o fado com desvelo, amor e carinho, através também de uma dicção perfeita e segura sob o efeito de grandes desenhos rítmicos emocionantes, imaginativos e  absorventes apesar de inusitados.

Já alguém disse até que este projecto é constituído por fado espacial, mas eu acho que fundamentalmente  e podendo até ser isso mesmo também, é essencialmente um album de fado …especial, que nos envolve quase irracionalmente e cujas nuances sonoras podem situar-se muito perto de habituais paisagens sonoras de algum  kraut rock  (Kraftwerk, Ash-ra Temple, Neu, Manuel Gottsching, Tangerine Dream, Peter Baumann, Edgar Froese, Klaus Schulze, etc.) ou do minimalismo dos discos da editora 4AD (This mortal coil, Bauhaus, Dead can dance, Throwing Muses, etc.) e até do “nosso” Rodrigo Leão que facilmente nos levam a minimamente classificar o disco de sublime e  absorvente apesar, como já atrás frisei,  do seu carácter inusitado e que como já alguém profeticamente disse um dia :- “…primeiro estranha-se; depois entranha-se!!!…”

Estou certo que a diva Amália, se fosse viva ter-se-ia surpreendido mas teria adorado ouvir esta proposta discográfica onde as suas canções são tratadas com elevado respeito e especialmente com amor, um  invulgar e quase planetário amor!!!

CD Glitterbeat records/ Uguru

 

AGRIPPINA (HANDEL)

Obra inspirada de um dos mais famosos compositores/mestres  de música barroca -George Frideric Handel (1685-1759), nascido alemão, mas naturalizado britânico por alturas de 1726 e que conta no seu espólio com mais de 600 obras, surgiu recentemente no mercado mais uma versão de Agrippina” opera desta vez estrelada vocalmente pela divina Joyce di Donato, a que se juntou um grande naipe de estrelas do bel-canto (Franco Fagioli, Elsa Benoit, Luca Pisaroni, e Andrea Matroni, entre outros) algumas ainda em fase de ascensão na carreira outras já com percurso estabelecido e de sucesso que em conjunto conseguiram fazer desta gravação, registada ao vivo na Casa da Opera, em Dobbiaco, em que o cast surge  acompanhado pelo Il Pomo d´Oro, sob a direcção de Maxim Emelyanychev, um registo de inquestionável qualidade a tal ponto de o sempre exigente The Telegraph se lhe ter referido como “…uma interpretação global de grande  autoridade, grandeza e estilo…”.

No disco e mais uma vez, a mezzo-soprano di Donato, que se tem especializado nos reportórios de obras de Mozart, Handel e Rossini,  tem  actuação a todos os títulos exemplar e  notável, desempenhando aqui um papel principal e multifacetado com uma grande intensidade e paixão, que deixa extasiados tudo e todos mesmo aqueles que não são propriamente  apaixonados por obras do barroco, mas que perante  o brilhantismo do desempenho de Joyce tem forçosamente que se render sem reservas!

Apresentado numa magnifica e atractiva caixa com 3 CDs, o projecto inclui ainda um libretto em quatro diferentes idiomas onde se explica o conteúdo e a criação da obra bem como a sua gravação, através dum extenso e elucidativo texto,  pormenores que ajudam a valorizar ainda mais a opera  de Handel e a  fazer dela também um verdadeiro objecto de colecção de grande e inestimável valor!

3CDs Erato/ Warner Music classics

 

CHARLIE PARKER

Dentro da sua actual e relevante política de edições e reedições, acção sempre de aplaudir com grande entusiasmo,  a Distrijazz acaba de colocar no mercado dois duplos projectos de um dos maiores saxofonistas  alto de  toda a história da grande música negra; trata-se de duas obras que incluem a totalidade das gravações registadas por um dos mais  elogiados e extraordinários instrumentistas negros de sempre para duas das mais conhecidas editoras de então – a Dial e a Savoy onde vamos poder encontrar o mítico Charlie Parker (1920-1955), num momento alto da sua criatividade através de deslumbrantes desempenhos onde a sua arte maior pode e deve ser devidamente conferida e comprovada…

Intitulados “The complete Savoy masters” e “ The complete Dial masters” , os  projectos, de edição limitada,  que reúnem em cada um 54 e 53 composições respectivamente, divididas por dois discos cada, constituem-se também em  edições muito especiais pois vão afinal acabar por ser simultaneamente duas obras raras e de colecção pois servem ao mesmo tempo também para com elas se poder comemorar  o centenário do nascimento do grande saxofonista negro norte-americano.

Durante as diferentes sessões das gravações surgem aqui a colaborar em estúdio com Parker  uma série de outros génios do jazz tais como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Errol Garner, Max Roach ( recordo aqui e agora as suas míticas, extraordinárias e inesquecíveis  prestações e master classes na Gulbenkian, aqui há nos atrás), Duke Jordan e  Bud Powell, entre outros mais.

Os dois projectos oferecem ainda como bónus muito material adicional proveniente de  várias sessões extra registadas no mesmo período temporal  em que foram gravados os materiais originais (de  1944 a 1948),  tal como algum material inédito gravado para pequenas editoras de então -as celebres sessões gravadas para a editora Guild em 1945- bem como um atractivo booklet contendo 16 paginas com extensas informações e fotos raras; e porque na realidade a verdadeira arte nunca morre, “Bird” afinal está vivo e estes trabalhos vem sem qualquer espécie de dúvidas  confirmar  isso mesmo!

Também incluídos na comemoração dos 100 anos de Parker publicaram-se  duas  outras obras de grande relevo:- “Jazz at Massey Hall”, um disco registado ao vivo  na celebre sala de Toronto, no Canadá em 15 de Maio de 1953, em que Charlie surge em palco na companhia de um quinteto de eleição na área do bebop constituído por Bud Powell, Charles Mingus, Max Roach e  Dizzy Gillespie que nos proporciona um dos mais fantásticos concertos do músico negro e que é considerado um dos seus mais lendários shows e “Bird and Diz”, originalmente editado em 78 rpm, que como o próprio título deixa antever reúne os dois monstros sagrados do jazz- Parker e Dizzy Gillespie, naquela que foi a sua última gravação juntos ocorrida em Nova Iorque em 6 de Junho de 1950 e onde a dupla surge acompanhada por Buddy Rich, Curley Russell e Thelonious Monk, um trabalho que inclui ainda nada menos de 11 composições extra, registando uma delas a presença do grande Miles Davis tocando o seu famoso trompete.

CDs e CDs duplos Bird´s nest /Collectors digipack series/Distrijazz

 

MILES DAVIS & BILL EVANS

Se houve alguém que em definitivo tenha marcado a historia do jazz a ferro a fogo, pela sua ousadia, pela sua cresceste evolução, genialidade e até…mau feitio, foi sem dúvida o grande Miles Davis (1926-1991), instrumentista genial, pintor de méritos mundialmente reconhecidos (algumas das capas dos seus últimos trabalhos levaram a sua assinatura) e figura controversa, especialmente por causa do difícil feitio que muitas vezes era como que uma espécie defesa contra aqueles com quem ele não queria comunicar-se e que também mais tarde acabaria por se constituir como que uma espécie de inconfundível assinatura pessoal; outro dos nomes míticos do panorama jazzístico mundial foi sem dúvida o do pianista Bill Evans (1929-1980), homem de um enorme talento e unanimemente considerado um dos maiores pianistas do mundo jazz.

Estes dois instrumentistas supremos surgem agora reunidos num projecto constituído por três CDs e intitulado “Complete studio & live masters”, onde esses dois verdadeiros monstros sagrados da grande música negra, sobressaem e  emergem através duma cumplicidade natural e onde vêm à tona todas as qualidades instrumentais de cada um deles, revelando-se aqui ao mesmo tempo toda a versatilidade de composição de cada um dos músicos, qualquer um deles de indesmentível talento e genialidade.

Durante dois anos, mais concretamente em 1958 e 1959 Bill foi o pianista do sexteto de Miles , agrupamento que produziu alguma da mais fabulosa e memorável música que a história do jazz viu surgir e isto também ao lado de outros nomes míticos da cena jazzística tais como John Coltrane, Cannonball Adderly, Paul Chambers, Philly Joe Jones e ainda Jimmy Cobbb.

Neste absorvente e brilhante triplo projecto discográfico vamos também encontrar  o grande pianista Red Garland substituindo Bill Evans  num fantástico concerto de rádio que teve lugar no conhecido Spotlight lounge em Washington DC em 1 de Novembro de 1958 e que acaba neste projecto, que inclui ainda um booklet com 24 páginas contendo fotos e nova e detalhada informação, por funcionar como uma espécie de inédito e imperdível bonus e que assim acaba por  ombrear em termos de qualidade com uma serie de material nunca editado e ainda com os três celebres e míticos trabalhos de Miles – “Kind of blue”, “At Newport” e “ Jazz at the Plazza” que estão incluídos  nesta mais que fabulosa caixa de três compact discs.

Um projecto absolutamente imperdível, não só para os admiradores de Miles ou Evans, mas também para os incondicionais amantes de jazz instrumental pois reúne algum do mais fabuloso material sonoro editado até hoje e que por isso mesmo faz mesmo parte das paginas mais brilhantes da história do  jazz mundial!!!

3CDs One records/Distrijazz

 

ARABIC CAFÉ

Ouvir a compilação “Arabic café” , que recentemente surgiu nos escaparates musicais é o equivalente a viajar em termos de melodias e sonoridades até remotas mas belas paragens árabes, algumas delas verdadeiros sonhos e ilusões do nosso imaginário de viagens tais como Marrocos, Iraque, Sudão, Líbano, Síria, Egipto ou Tunísia.

Ao ouvir as composições deste projecto acústico sentimo-nos viajar,  verdadeiramente situados e  comodamente instalados  nos típicos cafés dessas paragens  orientais onde se bebe chá de menta, se fuma shicha ( cachimbo de água, cada vez mais na moda e que serve para fumar tabaco com sabores e cheiros atractivos), se degustam doces típicos e acima de tudo se…relaxa.

O menu musical, faustoso,  é-nos aqui servido em autentica bandeja de prata, ricamente trabalhada pelas mãos habilidosas de um qualquer conceituado artesão local e permite-nos tomar contacto com uma das mais atractivas e belas músicas e sonoridades dessas mesmas paragens através de alguns dos mais conhecidos artistas desses países árabes que são também simultaneamente considerados  artistas de topo da world music actual.

Um projecto sedutor, abrangente e acima de tudo inovador e instrumentalmente bem conseguido e brilhante!

 

CD ARC Music/Megamúsica

 

HEARTH OF THE DRAGON ENSEMBLE

Um pouco por esse Mundo fora há  paragens, por vezes inóspitas, países ou zonas em que a tradição ainda comanda a vida dos seus habitantes seja ela de índole pessoal, musical ou  festivaleira, especialmente aquelas que situam no Oriente longínquo; é o caso da China, onde os calendários e as estações se regem por datas, prazos e tradições e por isso mesmo os usos e costumes locais e ainda os grupos musicais, também por vezes chamados de ensembles, que geralmente os abrilhantam e muitas das vezes os fazem até consolidar e agigantar-se, constituem  parte integrante e indissociável das mais diversas festividades ou comemorações.

Por isso mesmo estão verdadeira e umbilicalmente  associados à vida chinesa, sofrendo mesmo grande influencia disso tudo, tal como os habituais e mais celebrados festivais de música, que estão há séculos bem arreigados junto das populações e que assim consagram religiões e costumes, movimentam multidões e constituem  algumas das maiores manifestações de índole popular e musical sem paralelo no mundo ocidental.

Um dos grupos musicais chineses mais conhecidos -“Heart of the dragon ensemble”, projecto  idealizado e fundado pelo multi-laureado músico, compositor e produtor  Jiang Li surgiu há pouco tempo com uma nova proposta musical – Chinese festivals” , brilhante projecto discográfico onde se  reúne  muita da musica popular e tradicional habitual nos já citados festivais tradicionais chineses, música essa que  acima de tudo constitui ela própria uma importante fatia da cultura e história dessa milenar mas ainda pouco conhecida e misteriosa China; as composições seleccionadas e incluídas no presente disco são verdadeiras celebrações musicais de alguns dos mais populares e famosos festivais chineses incluindo os conhecidos Harvest, Dragon boat, Lantern e ainda os celebres festivais da Primavera que tem lugar periodicamente um pouco por todo o extenso território chinês “comandando” muitos deles datas marcantes do famoso e milenar calendário chinês…

Tocados exemplarmente por músicos extremamente  virtuosos e por isso mesmo de certo gabarito, as belíssimas composições, algumas delas com centenas de anos de existência,  são executadas e revisitadas somente em antigos instrumentos típicos locais como o erhu, guzheng, yanggin, dizzi ou o xiao, que para além de abrilhantarem sonoramente qualquer disco ou espectáculo, acabam simultaneamente também por constituir os mais que perfeitos canais de promoção e divulgação de uma cultura musical milenar quase desconhecida para nós e por isso mesmo ainda pouco menos que inacessível para grande parte dos actuais habitantes deste Planeta, tão sujo, poluído, vilipendiado, tão maltratado diariamente e que cada vez mais corre o risco de ser daqui a alguns anos, face às agressões climatéricas,  a guerras fratricidas, ao aparecimento de diferentes vírus, a experiências atómicas e outras transgressões, um Planeta em sério risco de desaparecimento ou mesmo… extinção!!!

Valha-nos pelo menos para já a… música!

CD ARC Music/Megamúsica

 

VINICIUS DE MORAES

Selecção de alguns dos mais icónicos temas da bossa nova e espécie de best of de um triplo projecto há meses publicado, “The poet of bossa nova” traz-nos  o reportório icónico do grande e imortal Vinícius de Moraes ( 1913-1980) cantado por gente que sempre o admirou e idolatrou, abrindo no entanto a compilação com o próprio Vinícius interpretando a inesquecível canção “Pela luz dos olhos teus”, uma das mais geniais composições que a sua imaginação e criatividade deram à luz; na presente selecção de canções vamos encontrar belíssimas interpretações de gente como João Gilberto, Sylvia Telles, Elizete Cardoso, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos ou Os cariocas, entre outros, dando nova vida, cada um do seu jeito pessoal e peculiar, às imortais composições de uma das mais geniais figuras da bossa nova brasileira, um homem que para alem de interprete e escritor de canções se notabilizou também por ser poeta, para alem de parceiro privilegiado de composição e amigo de António Carlos Jobim ( Vinicius escrevia as letras e Tom Jobim encarregava-se das músicas) para alem de ser um grande amigo da divina Amália, que assiduamente visitava em casa dela na Rua de São Bento em Lisboa e com quem acabou por registar em disco uma obra discográfica fantástica- “Amália & Vinicius, fruto de uma das duradouras noites musicais mágicas em casa da rainha do Fado e… também um grande bebedor por excelência!

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

 

B.B.KING

Elemento do trio de “reis” do mundo dos  blues ( os outros foram Albert King e Freddie King) o imortal B.B. King deixou um espólio de canções verdadeiramente incrível; por isso não admira que de vez em quando surjam novas compilações, reedições de álbuns raros e até composições absolutamente inéditas que nunca tinham visto a luz do dia. Agora é a vez de aparecer editado um CD contendo algum material raro ( composto por nada menos de 12 inéditas composições) que faz parte da reedição de um  disco pouco conhecido entre nós -“The soul of B.B.King”  escrito e editado na altura em que o guitarrista estava no principio de uma fase que alguns experts designam por “grande esplendor de composição” e se projectava já para a fama  e acima de tudo para o estrelato como um verdadeiro e imparável rocket.

Gravado em Los Angeles, Califórnia entre 1953 e 1962 e posto no mercado na altura pela conhecida label -Modern records , havia no entanto já surgido lançado por outra editora- a Crown records sob o simples título de “B.B.King” , o projecto revelava já toda uma grande versatilidade e genialidade do guitarrista/cantor que haveria mais tarde por ser um dos, ou mesmo o  maior, de todos os bluesman…

Aqui está uma oportunidade única, através duma peça discográfica de edição limitada a 500 exemplares, de se tomar contacto com a genialidade de um homem que fez dos blues um verdadeiro modo de vida, da sua música uma maneira de se entregar a uma paixão e  dos seus espectáculos uma forma de celebração espiritual!

Um projecto discográfico único, uma autentica peça de colecção, que mais que uma nova compilação com mais de uma hora de verdadeiro deleite musical, é uma raridade que nos traz à recordação um inesquecível concerto ao vivo no Coliseu dos Recreios de Lisboa, em que B.B.King mais que um ícone em palco ( que chegou a compartilhar  com o “nosso” Rui Veloso), mais que uma lenda musical que se entregou  a um público extasiado, foi verdadeiramente um rei da grande música negra e um incontestável Deus dos blues!!!

CD Hoodoo records/Distrijazz

 

BENJAMIM MOUSSAY

É provavelmente um dos artistas do catalogo ECM mais injustamente desconhecido do grande público português, porém o grande entusiasmo que gerou com  algumas das suas gravações e a grande reputação que granjeou com as três gravações para a mesma marca mereciam efectivamente um maior reconhecimento nacional; com efeito Benjamim Moussay alcançou um extraordinário sucesso com as suas três gravações com  Louis Sclavis, registos onde demonstrava todas as suas enormes capacidades interpretativas e toda a sua apetência para a improvisação; agora o excelso pianista propõe-nos mais uma obra notável e reflexiva -“Promontoire” em que dá asas à sua  criatividade e arte únicas através de uma dúzia de composições recheadas de grande espiritualidade e onde o piano desempenha o papel de acompanhante privilegiado dum executante de excepção  que com este trabalho entra definitivamente para a galeria dos grandes pianistas a solo da reputada ECM.

CD ECM/ Distrijazz

 

AMÉRICA

Quem nunca dançou nas discotecas da moda aqui há uns anos atrás canções como “A horse with no name”, “I need you”, “Sister golden hair” ou  “Ventura highway” na interpretação de um grupo formado em Londres nos finais dos anos 60, descoberto por Jerry Lordan e inicialmente composto na formação original por três amigos norte-americanos  (Gerry Beckley, Dan Peek e Dewey Bunnell) ?

Eram os América, banda inicialmente sem grande sucesso junto da critica especializada, mas com muito êxito junto do publico em geral e que face aos hits que foi criando, editando e colocando nos lugares cimeiros de todos os tops mundiais em pouco se tornou uma verdadeira coqueluche e um colossal fenómeno de vendas ultrapassando e literalmente ofuscando com vendas situadas nos milhões de discos e os mais diversos galardões resultantes dessas vendas, alguns dos mais afamados e bem sucedidos “colegas” de editora – a Warner Records- tais como James Taylor ou Rod Stewart.

Praticando um género de musica que pode simplesmente classificar-se de pop/rock sofisticado derivado sobretudo de uma miscelânea de folk, pop e country , o trio era então considerado como uma das mais fascinantes e bem sucedidas propostas musicais da época não admirando por isso mesmo que fossem dos grupos mais solicitados para actuações quer em estádios, quer em salas ou festivais um pouco por todo o Mundo.

Desses mesmos America acaba de ser lançado internacionalmente um triplo projecto, comemorativo dos 50 anos de existência da banda e por isso mesmo intitulado genericamente “América-50th  anniversary- the collection”, no qual vamos poder encontrar os maiores sucessos do trio norte-americano e onde podemos ouvir para alem das canções/charneira já atrás citadas, ainda outros êxitos das tabelas mundiais tais como “It´s life”, “Woman tonight”, “Letter” ou “ Don´t cross the river” numa totalidade de nada menos de 50 canções, representando uma por cada ano de vida!

O projecto que revisita a totalidade dos discos de originais da banda, que aqui estão assim portanto todos representados, tem a particularidade de incluir também algumas raridades como por exemplo uma primeira versão de estúdio de “Ventura highway”, registos ao vivo na BBC de “Riverside” e ”Children”, bem como uma maqueta inédita de “Sister golden hair” nunca antes editada, afinal de contas raridades/preciosidades como  temas de colecção num triplo disco que nos traz à memoria momentos musicais inolvidáveis da grande musica pop/rock dos anos 70 que fez, e ainda faz, as delícias dos “amigos de Alex” e não só!

3CDs  Rhino/Warner Music

 

KLESMER JUICE

Não é muito vulgar encontrarmos nos habituais escaparates de musica internacional, especialmente nas secções especializadas de world music , discos de tão bela musica judia como a praticada pelos Klesmer Juice, grupo há tempos nomeado para um Grammy e que tem em “Yiddish Lidele” um cartão musical de grande densidade musical onde se entrecruzam durante mais de uma hora uma série de belas e frescas canções tradicionais do mundo judeu, plenas de energia e vitalidade e  onde se nota  um evidente reaparecimento, sempre actual, do espírito da musica judia antiga, tocada aqui com uma inusitada versatilidade, credibilidade e evidente bom gosto musical; um disco verdadeiramente notável que se destina afinal de contas  aos verdadeiros  aficionados do género e não só!

CD ARC Music/Megamusica

 

FERNANDO BARROSO

Trabalho de evidente bom gosto, grande imaginação e criatividade é sem duvida o projecto “Xograr” , terceira obra de grande fôlego dum já credenciado criador e multi-instrumentista  galego -Fernando Barroso que recentemente chegou ao nosso mercado discográfico através do labor e persistência comercial de um dos mais teimosos editores “portugueses”- Alain Vachier que continua, contra ventos e marés, ditames e  opiniões, a apostar todas as suas fichas num casino de verdadeira mas duvidosa roleta comercial, onde existe um mais que duvidoso bom final monetário como é sem duvida, e na difícil actualidade, o mundo da edição e da distribuição discográfica em Portugal…

Porém, Vachier volta a apostar de novo e continua entusiasmado, firme e decidido, embora sempre com um grande e elevado crivo selectivo e gosto pessoal, apoiando os artistas que regra geral representa ou com quem mantém uma situação de amizade e compromisso pessoal e por isso a sua atitude tem de ser louvada, acarinhada e apoiada; não é em vão que os projectos com a chancela editorial da sua empresa sempre se pautam por elevada qualidade e o presente projecto também não foge à regra.

Contando com preciosas colaborações instrumentais e vocais de muita gente já com certo estatuto musical na linda e vizinha Galiza e também no nosso Portugal, todos possuindo  identidades musicais bem definidas e cujas pessoais potencialidades e gosto casam quase sempre na perfeição, Barroso, exímio compositor, mas também produtor e instrumentista, soube rodear-se de um extenso grupo de bons, versáteis e credenciados colaboradores como são sem dúvida os seus conterrâneos Sofia Neide (contrabaixo), Alvado Trillo ( bateria) e Margarida Mariño (voz e violoncelo) a que juntou também os “nossos” Sebastião Antunes, o grupo de cordas da secção de fado da Académica de Coimbra e as Adufeiras do Salitre, entre outros músicos e vozes das duas nacionalidades ibéricas; portanto, em função da implícita e múltipla qualidade do disco nas suas variadas vertentes, não admira nada que esta sua terceira proposta discográfica se paute por uma ousadia e qualidade instrumental e vocal bem acima da média, constituindo um motivante e implícito convite à audição ao mesmo tempo que se assume como uma das mais sérias e sólidas propostas musicais na musica ibérica popular e tradicional do ano em curso, um ano de declarada pandemia em que felizmente se vão salvando saborosos momentos como este disco!

CD Icaria Music/Alain Vachier

 

JOURNEY TO MOROCCO

Desde há já muito tempo atrás que as estranhas, mas belas sonoridades musicais de origem árabe, nomeadamente as marroquinas tradicionais, se tem evidenciado e vindo gradual e firmemente a conquistar admiradores um pouco por toda a parte, mesmo fora do habitual circuito das músicas do mundo, que é uma área onde existe maior fidelidade por parte dos adeptos; essa evidente conquista tem muito a ver não só com o fascínio que as  periódicas viagens de férias a esses lendários, turísticos e misteriosos territórios vão anualmente proporcionando, mas também com a sonoridade que se sente a cada esquina de cada cidade que se vai visitando nessas mesmas digressões turísticas,  sons especiais que se vão escutando amiudadas vezes e que pouco a pouco, de mansinho, quase sem se dar por isso, vão interiormente tomando conta dos nossos cinco sentidos, e que, quer se queira, quer não, vão irremediavelmente orientando a direcção dos nossos pensamentos e sendo a ocupação principal  do cérebro de cada um de nós!

“Journey to Morocco”, projecto que recentemente viu a luz do dia, constitui uma espécie de viagem musical e sonora através do território marroquino pois para alem de incluir reportório tradicional berbere, junta as tradições musicais do Rif e das montanhas e aldeias do Alto Atlas com as sonoridades da musica improvisada das imensas ruas estreitas e vielas da cidade e da medina  de Marrakech, onde as tradições são mais espirituais e de uma maior profundidade e visível religiosidade.

Incluindo canções interpretadas por alguns dos mais celebrados artistas locais  tais Nour Eddine, Rachid Alihal, Chalf Hassan, Abdesselam Damoussi ou  o grupo de Altaf  Gnawa, o disco é de uma grande riqueza melódica, onde  ritmos e sonoridades de grande amplitude e profundidade se prendem e entranham com facilidade no nosso subconsciente numa miscelânea sonora que facilmente conquista, seduz e chega a…enebriar

Quase uma hora e vinte de completo e corrosivo deleite musical que vai certamente conquistar mesmo os menos preparados musicalmente ou os mais incautos sonoros!  

CD ARC Music/Megamúsica

 

MANDOLIN MAN

Se António Carlos Jobim , João Gilberto ou Vinicius de Moraes fossem vivos certamente iriam adorar escutar o disco “ Bossanova”, projecto em que este famoso e imortal ritmo brasileiro é tratado com carinho, desvelo, amor, imaginação e versatilidade por um quarteto que se auto designa Mandolin Man e cujo fio condutor são exactamente as dez composições  em ritmo de bossa nova que o integram; nunca certamente se ouviu, pelo menos em gravação comercial, a bossa nova tratada em inovadora e inusitada sonoridade como é a que sempre proporciona a execução num instrumento de cordas como é um mandolim; e então se em vez de um,  forem quatro os instrumentos, imagine-se o som e o ritmo contagiante que daí advém…

Desde “Água de beber” até “Sol da manhã” passando por mais oito belas composições do riquíssimo historial desse inigualável ritmo brasileiro, nelas está evidente não só a riqueza das melodias mas também a versatilidade e sonoridade como só de  um bandolim se pode extrair; um trabalho brilhante e apelativo em que brilham a grande altura não só os quatro instrumentistas da banda mas também, e especialmente, as mandolas, mandocello e mandolins em que os temas são primorosamente executados.

Um disco sedutoramente  conquistador!

CD  ARC Music/Megamúsica

 

ELSA DREISIG/MORGEN

Depois dum primeiro álbum de estreia -“Mirrors”,  a soprano Elsa Dreisig regressa com um outro recital de canções em colaboração com o pianista Jonathan Ware , numa verdadeira viagem musical e sonora  que combina Strauss com Rachmaninov e com Duparc  compositores mais que geniais cada um à sua maneira que são da eleição da soprano e do pianista,  que por eles nutrem um conhecido carinho e uma admiração sem limites.

Obra de inquestionável alta qualidade, quer seja vista do ponto de vista do canto ou da instrumentação ”Morgen” é uma obra notável e brilhante que seduz logo na primeira audição e nos possibilita o contacto mais profundo com algumas das mais belas obras dos imortais compositores.

Verdadeiros tesouros musicais, este grandioso naipe de  melodias, belas, inesquecíveis e intemporais surgem aqui exemplarmente interpretadas pela extraordinária voz de Elsa Dreisig, uma das mais notáveis revelações como soprano na música clássica dos últimos anos e por isso estão agora assim ao dispor dos melómanos da música erudita e não só!

CD Erato/Warner classics/Warner Music

 

JOURNEY TO ASIA

Uma infindável, extenuante e interminável viagem por terras do mágico Oriente abrangendo uma série de países tão longínquos como misteriosos, perigosos e distantes só poderia acontecer hoje em dia através da…musica!

E é precisamente isso que nos é proposto em “Jouney to Ásia”, colectânea de canções que nos permite sonoramente viajar por países tão dispares,  exóticos, misteriosos e estranhos como são sem dúvida o Kyrgyzstan, Vietmane, Geórgia, Irão, Paquistão, Bangladesh, Japão, China, Tailândia, Uzbekistan, Mongólia, Filipinas, Nepal, Índia, Coreia do sul ou Taiwan  e assim ficar conhecer algumas das suas  exóticas melodias e sonoridades e, para nós europeus, alguns desconhecidos interpretes…

Uma verdadeira aventura e exploração sonora do que de mais rico existe em termos de músicas do Mundo daquelas regiões que nos levam a imaginar e viajar…sonhando, quanto mais não seja em busca de uma melhor ideia e identificação com tantas culturas milenares e a sua musica tradicional por vezes tão ignorada quanto desconhecida.

CD ARC Music /Megamúsica

NOTÍCIAS SOLTAS

JAZZ MESSENGERS

Programada para ser inaugurada com alguma pompa e circunstância um pouco antes da chegada da maldita pandemia que há meses nos assola e sua posterior e obrigatória confinação,  a nova loja de discos  Jazz Messengers, depois do adiamento da sua inauguração já labora agora a todo o vapor no primeiro andar da Livraria Ler Devagar, na LX Factory ali na ribeirinha zona de Alcântara, em Lisboa;  aquando do anuncio da sua abertura o novo espaço discográfico tinha já suscitado grande interesse e curiosidade e porque não dizer mesmo certo entusiasmo por parte não só do público em geral, mas também de especialistas e melómanos  do jazz e do vinil e também ainda dos fanáticos do catalogo da ECM, que os há e muitos…

Agora e depois das primeiras visitas posso dizer que o espaço funciona assim a modos que uma grande biblioteca musical, virada sobretudo para as áreas do jazz e do vinil, constituindo sem dúvida nenhuma neste momento a mais válida alternativa às fnacs,  sobretudo porque tem a vantagem de ter à frente do “balcão” gente com certa experiência e uma imensa paixão e que sabe da poda – a front woman Carla Aranha , Luís Oliveira  durante a semana e Samuel Alemão , aos fins de semana…

O trio  dos “mensageiros” da grande musica negra aconselha com critério e rigor os indecisos e acima de tudo dedica ao cliente o melhor do seu conhecimento e labor e, sabendo-se que muita da clientela já adquirida e grande parte da futura se baseia também em turistas estrangeiros, imagine-se como esse “know how” se torna mais essencial, importante  e vital !!!

Associada a uma importante editora catalã, cujas edições aqui tenho  referenciado nas escolhas  que faço – a Distrijazz, este novo espaço comercial aposta também em edições portuguesas, em música  brasileira (vidé as minhas habituais e mais recentes escolhas da área da  MPB e não só)) e também em música soul, funk ,em alguma world music e como não poderia deixar de ser no jazz e nos blues.

Curiosamente o feliz nome escolhido para o espaço- Jazz Messengers  traz-me de imediato à lembrança a célebre formação com o mesmo nome, surgida por alturas dos anos 50, do grande e mítico baterista de jazz Art Blakey, que constituiu uma das mais importantes formações jazzísticas de sempre por onde passaram alguns nomes imorredouros tais como Horace Silver, Lee Morgan, Donald Byrd, Valery Ponomarev, James Williams, Johnny Griffin, Wynton Kelly, Benny Golson, etc. qualquer um deles representado no vasto reportório discográfico posto à disposição da clientela nos vários escaparates existentes na loja…

Depois do encerramento da loja da Trem Azul, em 2014, a capital portuguesa tem agora, finalmente, e de novo, um espaço dedicado essencialmente ao jazz e aos seus afluentes sonoros e musicais – a Jazz Messengers que, com armazém na vizinha Espanha, tem também acesso a importações directas desde os Estados Unidos e a algumas das mais influentes distribuidoras e editoras (ECM.,Tzadik, etc.) e por isso mesmo vai evitar que, como tem infelizmente sucedido nos últimos anos, nomes como John Coltrane, Ray Charles, Max Roach, Charles Mingus, Bill Evans, Thelonious Monk ou Sun Ra e muitos outros estejam permanente e inacreditavelmente ausentes dos escaparates portugueses e muitas das vezes para os obter haja que recorrer à inevitável Amazon…

Posto isto vamos então comemorar efusivamente o verdadeiro acontecimento musical e cultural que esta abertura representa, tratando para isso de tirar do frigorifico as várias garrafas de champagne que estavam destinadas à inauguração em Março passado e brindar entusiasticamente ao novo espaço, aos seus experts e acima de tudo ao fim da pandemia  e  consequentemente ao covid 19 para isso possibilitar a todos voltarmos à ansiada vida normal com um sonante hip, hip, hurrah!  e acima de tudo voltarmos  em liberdade não confinada a consumir cultura, comprando livros e discos nestes dois espaços lisboetas soberbos e chamativos:-a Ler Devagar e a Jazz Messengers .

VAN GOGH

Depois de ter sido inaugurada a  pandemia adiou-a , mas a perseverança , extraordinário interesse e o desconfinamento colocaram de novo à disposição do público lisboeta um invulgar acontecimento mundial de grande envergadura cultural- a exposição “Meet Vincent Van Gogh” que reabriu portas a 3 de Junho passado para evocar a história do celebérrimo pintor holandês  (1853-1890).

Assim, até 3 de Janeiro a premiada experiência imersiva e multisensorial  exposição, que chega até nós pelas mãos do Museu Van Gogh de Amesterdão e da produtora portuguesa UAU vai permanecer aberta no Terreiro das Missas, à beira-rio Tejo e a ordem é para tocar nas obras e entrar na vida do homem por detrás do artista!

Entre projecções, filmes, fotografias ou jogos de sombras são projectados momentos únicos e de destaque na vida do genial artista, numa fantástica viagem que é absolutamente de não perder pois constitui um momento único, inolvidável e raro de se poder tomar contacto com a vida, angustias, sentimentos e amores do genial pintor dos Países Baixos…

Nesta reabertura, que chega com a lotação do espaço reduzida e obrigatória desinfecção dos audioguias após cada utilização, existem também novos horários e condições de visita, estas ditadas pelas regras do desconfinamento :- de quarta a domingo das 10 às 19 horas, com entradas a cada 30 minutos, sendo a última às 18 horas.

Nos dia úteis os bilhetes normais custam 13 euros subindo este preçário para 15 euros durante os fins-de-semana; estes valores no entanto estarão sujeitos a descontos quando se tratar de entradas para crianças, seniores, jovens, estudantes ou famílias.

Posto isto de que estamos todos  à espera para correr a ver o genial Van Gogh no seu melhor?- UAU

 

O fado nas noites alfacinhas:

CASA DE LINHARES

CASA DE LINHARES (antigamente e durante muitos anos designada por Bacalhau de Molho, nome porque ainda hoje em dia muita gente a conhece) é o que resta de um belo edifício renascentista que ruiu durante o infelizmente famoso terramoto de 1755 que na altura arrasou Lisboa.

Aqui, neste local único e  histórico, viveram no seu palácio os Condes de Linhares, uma das famílias mais nobres de Portugal, sendo que o seu principal membro- o conde Andeiro foi uma das figuras mais controversas da história deste país à beira-mar plantado pois segundo reza a história tinha a mania da perseguição chegando  até a comentar mesmo com os amigos mais chegados que sonhara uma noite, que  haveria de ser morto pelos seus inimigos e perseguidores; daí à construção de um sem número de diversos túneis no palacete, por onde pudesse mais facilmente escapulir-se foi… um ápice!

Casa senhorial erguida perto da margem do Tejo, no século XVI, a Casa de Linhares mantém ainda hoje um ar nobre e um distinto charme oitocentista, apresentando de pé o torreão e um cunhal com brasão.

Entretanto em Portugal o Fado surge no século XIX, nos bairros históricos da cidade e em contextos populares de convívio; era cantado de uma forma espontânea e as letras das músicas retratavam essencialmente problemas e vivências, recorrendo-se muitas vezes à gíria e quase sempre ao calão.

No entanto, a presença assídua de figuras da aristocracia nesta vida nocturna e boémia, acabariam mais tarde por ditar um futuro diferente, que ficaria como um marco para a real história do Fado; quem não se lembra do celebre “Embuçado” na voz do imortal João Ferreira Rosa, que conta a história de el-Rei que ia aos fados com certa assiduidade?

Tocado e cantado por semi-profissionais e profissionais, o Fado instala-se assim em casas próprias – as chamadas casas de Fado,  onde para além de se poder escutar a canção nacional por excelência também, hoje em dia, se podem saborear pratos e petiscos oriundos da riquíssima cozinha tradicional portuguesa.

Há no entanto também  outros locais típicos, onde para além de se poderem saborear os ditos petiscos se pode ouvir Fado, cantado no entanto por amadores e à desgarrada; são as chamadas casa de fado vadio sendo que este ritual se perpetuou até como um habito salutar até aos dias de hoje…

No que diz respeito à Casa de Linhares, ela acabou por se constituir como um dos mais belos locais para ouvir fado, senão mesmo o mais belo e chamativo, para alem de habitualmente  o seu leque de artistas ser constituído por fadistas de superior craveira, isto relativamente a outros locais semelhantes.

Para se poder aquilatar melhor o que aqui deixo dito, basta referir-se que por lá já passaram algumas das mais famosas vozes (uma delas mesmo mítica) da canção que a divina Amália ajudou a popularizar tais como sua irmã a diva Celeste Rodrigues, Maria da Nazaré, Ana Moura, Jorge Fernando e mais recentemente Sara Correia, Fábia Rebordão, André Batista ou a linda Vânia Duarte a actual “boss” da Casa de Linhares que cada vez mais se afirma como um local nocturno de obrigatória visita quando de facto se pretende ouvir fado num ambiente selecto e lindo, marcadamente histórico e onde há no entanto que ter em atenção um importantíssimo pormenor ( ou será que deverei dizer pormaior?):- é que a comida, confeccionada com grande profissionalismo, devoção e saber é tipicamente portuguesa e de alta qualidade; relembro até o que dizia o meu desaparecido amigo e “irmão” Patxi Andion, nome sonante da música espanhola e frequentador habitual desta casa de fados de que se dizia um eterno enamorado, “…ouvir fado, ouve-se em muitos lados, embora nem sempre com a mesma qualidade; porém, na Casa de Linhares, para alem de se ouvirem grandes vozes do fado mais se completa a felicidade da audição pois come-se  muito bem e bebe-se melhor e de facto a conjugação destes factores é de primordial importância para se passar uma noite num verdadeiro paraíso…lisboeta e fadista!!!…”

Por isso e resumindo:- é próximo ao Tejo, na  fronteira com a  típica Alfama e muito perto mesmo do  emblemático Museu do Fado que  mora o excelentíssimo senhor FADO, sob a forma portuguesíssima de uma antiga casa da realeza, senhorial e apalaçada, onde cantam uma mão cheia de interpretes de eleição, seleccionados com rigor e que por isso mesmo merecem ser escutados atentamente e em silêncio; daí que uma visita ao local para escutar bom fado, interpretado com sentimento, raça e nostalgia, para simplesmente se beber um copo ou até somente para jantar, deixe de ser mais que uma simples e vulgar maneira de se passar uma noite, para se  transformar automaticamente  numa “viagem” nocturna, gastronómica e musical!

Como é do conhecimento geral a importância que o Fado conquistou mundialmente foi consagrada já há tempos atrás com a sua proclamação como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Novembro de 2011 pela UNESCO e embora ele se cante ( e por vezes até muito bem) em muitas terras portuguesas e até mesmo nas comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo sem dúvida alguma que, quer se queira, quer não, fado é… Lisboa; e Lisboa é simultaneamente também tradição, poetas ao vento, poesia em movimento, vielas em alvoroço, pregões e  modernidade, mas acima de tudo fadistas a cantar e guitarras a gemer e a trinar no som da noite!

E se se falar em FADO com letra grande, então convenhamos que é para ser ouvido sempre, de preferência ao vivo em vários locais lisboetas próprios e nestes especialmente naquela que quanto a mim é a mais bonita e atractiva da suas mais antigas, castiças e memoráveis catedrais :-na velhinha a apalaçada Casa de Linhares!!! (joão afonso almeida)

PS – enquanto durar o estado de pandemia a Casa de Linhares não abre diariamente, antes somente quando pontualmente houver reservas; quando a pandemia estiver debelada então tudo regressará aos moldes habituais:- abrirá todas as noites!

 

SANTA CASA ALFAMA

O já habitual e anual festival de fado- Santa Casa Alfama está de regresso, para uma edição histórica pois tem lugar no ano do centenário de Amália Rodrigues, infelizmente coincidente com o aparecimento do maldito covid19, vírus que um pouco por todo o Mundo cancelou e modificou hábitos, tradições e o modus vivendi das pessoas, para além de ter já matado milhares delas e infectado milhões, um festival de música que ano após ano se vai enraizando, conquistando adeptos, prestígio e  notoriedade ao mesmo tempo que se assume como um imprescindível factor de turismo e de divulgação do portuguesíssimo Fado…

Assim, nos próximos dias 2 e 3 de Outubro, a cidade das sete colinas volta de novo a vestir-se de xaile e de fado para mais dois dias em que a nossa música mais representativa nacional será um grande centro de celebração no coração da alfacinha Alfama.

Em ano de pandemia, o festival decorrerá de modo um pouco diferente, respeitando todas as normas da Direcção-Geral da Saúde, enquanto se desfruta de espaços como o Rooftop Terminal de Cruzeiros de Lisboa.

Com uma vista deslumbrante sobre o Cristo Rei, a Ponte 25 de Abril e toda a Lisboa que sobe de Alfama, a proposta do Palco Ermelinda Freitas, por exemplo será de se ficar com o apelativo- “Um fado ao pôr-do-sol”.

Nos diversos shows de um primeiro dia o público vai poder ouvir em diferentes palcos a inimitável e poderosa voz da mais internacional das vozes femininas portuguesas – Mariza, a guitarra de André Dias no espectáculo -“Amália na voz da guitarra” e ainda as vozes de Fábia Rebordão, Vânia Duarte e André Batista…

Eis a programação do primeiro dia para uma escolha mais pessoal:

Dia 02 de Outubro

Palco Santa Casa

Mariza

Palco Ermelinda Freitas | Rooftop do Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Fábia Rebordão
André Dias “Amália na voz da guitarra”

Palco Amália | Auditório Abreu Advogados

Vânia Duarte
André Baptista 

Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Exposição “Bem-Vinda Sejas Amália”

Fachada do Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Espetaculo de vídeo mapping “Amália”

“Fado à Janela” | Largo de São Miguel

Jorge Silva, Gilberto Silva e José Manuel Rodrigues

No dia seguinte, a 3 de Outubro portanto poder-se-ão escutar para alem da nortenha Gisela João  outras vozes em voga como Francisco Salvação Barreto ou Catarina Rocha; eis a programação:

Dia 03 de Outubro

Palco Santa Casa

Gisela João
Concerto exclusivo “Celebrar Amália 100 Anos Depois” com Jorge Fernando,
Rui Veloso, Katia Guerreiro, Diogo Piçarra, Marco Rodrigues, Sara Correia e André Amaro

Palco Ermelinda Freitas | Rooftop do Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Fábia Rebordão
André Dias “Amália na voz da guitarra”

Palco Amália | Auditório Abreu Advogados

Catarina Rocha
Francisco Salvação Barreto

Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Exposição “Bem-Vinda Sejas Amália”

Fachada do Terminal de Cruzeiros de Lisboa

Espetáculo de vídeo mapping “Amália”“Fado à Janela” | Largo de São MiguelJorge Silva, Gilberto Silva e José Manuel Rodrigues

Ainda neste segundo dia do evento, o terraço do Terminal de Cruzeiros de Lisboa vai receber a juventude fadista de Maura, Tiago Correia, Buba Espinho e Joana Almeida no espectáculo “Fado Em Boas mãos” e também toda a qualidade de interpretação de um dos três irmãos Moutinho- o Helder Moutinho a provar que, para ele, o  Fado estava mesmo “Escrito no Destino”.

Preçário dos Bilhetes:

Até 01 de outubro:
Passe de 2 dias – 35€
Bilhete diário – 25€

Nos dias do Festival:
Passe de 2 dias – 40€
Bilhete diário – 30€

O passe tem que obrigatoriamente ser trocado por uma pulseira, pelo próprio, colocada pela organização do Festival no Museu do Fado, a partir do dia 26 de Setembro. A pulseira dá acesso a todos os espaços do Festival até ao limite de lotação de cada um deles…

IMPORTANTE:

a uma mais correcta e actualizada programação consultar:

www.santacasaalfama.com / www.facebook.com/santacasaalfama

ÚLTIMA HORA

Novas confirmações de última hora completam o cartaz do Palco Santa Casa:

-FAFÁ DE BELÉM & JOSÉ GONÇALEZ
-CUSTÓDIO CASTELO
-JÚLIO RESENDE

O Palco Santa Casa vai poder contar com a cumplicidade entre a brasileira, e já quase portuguesa, Fafá de Belém & José Gonçalez, num tributo a Amália preparado pelo talento de um trio de eleição- o Custódio Castelo Trio e ainda uma carta ao piano, enviada por Júlio Resende para a grande senhora do Fado.

Entretanto em mais uma edição, o Largo do Chafariz de dentro recebe aquele que é provavelmente o palco mais bairrista do Santa Casa Alfama: -o Palco Santa Maria Maior onde marcarão presença Jaime DiasBeatriz FelizardoVítor MirandaConceição RibeiroDiogo RochaSónia SantosPedro Galveias e Ana Marta que são os nomes escolhidos pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que como é sabido acolhe o Festival desde a sua primeira edição.

Programação completa do Palco Santa Maria Maior:

Jaime Dias e Beatriz Felizardo
Vítor Miranda e Conceição Ribeiro
Diogo Rocha e Sónia Santos

Pedro Galveias e Ana Marta

 

Sobre CUSTÓDIO CASTELO:

Se em criança já construía o seu primeiro instrumento musical, estava mais do que visto que Custódio Castelo só poderia dar em músico. Deu de facto em músico e tornou-se um dos mais talentosos guitarristas de fado portugueses das últimas décadas, como facilmente se percebe por um currículum que conta com colaborações com nomes como Cristina Branco, Jorge Fernando, Margarida Guerreiro, Mísia, Camané ou Carlos do Carmo, entre muitos outros, para além da edição dos seus discos a solo, “Tempus” , “Inventus” e mais recentemente “Amália classics- on portuguese guitar”, já editado internacionalmente em muitos mercados internacionais registos que mostram toda a sua capacidade artística e genialidade. Desde criança que Custódio  é inspirado pela grande diva portuguesa e nesta edição do Santa Casa Alfama o guitarrista vai ter a oportunidade de lhe prestar a devida homenagem, em ano de centenário. A guitarra portuguesa de Custódio Castelo convida-nos pois a embarcar numa viagem através dos timbres que Amália nos ensinou, e onde o público é o artista principal, porque Amália está e estará para sempre dentro de cada um nós até porque como costuma dizer-se “…todos nós temos Amália na voz…” Acompanhada por Carlos Garcia na viola e Carlos Menezes no contrabaixo, esta guitarra, que canta a voz de um povo e tem o nome de um País, sobe agora ao palco em gratidão e tributo a Amália Rodrigues, dedilhada por um músico de eleição-  o grande Custódio Castelo!