fbpx

Escolhas do João Afonso Almeida

 

MÚSICAS – ESCOLHAS

 

Enquanto cá por Portugal, que regista diariamente mortos e internados com números assustadoramente altos, a tropa fandanga nacional começou  há pouco a tomar, ao que asseguram os multi-bilionários laboratórios, a eficaz “pica” contra a maldita Covid, lá por fora as coisas parece que estão lentamente a amainar (é o que dizem os mentideros) e a possibilitar um ligeiro regresso a uma saudosa normalidade de que afinal de contas todos temos muitas, imensas saudades…

Para alem de tudo, e para sossego de muitos, o “tio” Marcelo deu uma grandessíssima abada nas ultimas eleições para a Presidência da Republica e a madrinha de guerra do “hacker” rui “azul e branco” pinto viu o inefável Ventura morder-lhe as canelas nas percentagens. Bem feito!!!

Por isso, e porque na realidade “tristezas não pagam dívidas”, enquanto não nos vacinamos todos( os que o quiserem fazer, é claro, que isto de seringas tem que se lhe diga) e também porque a vida continua uma seca, eis-me mais uma vez mais a propor-vos,  uma série de escolhas de várias áreas musicais, que representam uma agradável fatia das (poucas infelizmente) mais recentes novidades discográficas surgidas em Portugal, uma mão cheia de propostas meramente de gosto pessoal, que espero sirvam para ajudar a seleccionar audições, consoante o gosto de cada um, tentando deste modo, à minha humilde maneira, ajudar  a passar melhor o tempo que vamos tendo livre e a desanuviar um pouco das efectivas preocupações virais que nos vão assaltando os pensamentos, as ideias, os empregos, os “tempos de antena” individuais e especialmente os bolsos, uma vez que, cada um de nós, tem que ir ocupando o tempo disponível de algum modo e uma das melhores formas de o preencher, convenhamos que será ocupá-lo com…música, seja ela de que área ou região for…

Posto isto, os meus  desejos muitas e variadas audições!

 

ROGÉRIO CHARRAZ – o coreto das emoções

Há discos que despertam a nossa atenção logo quando  os ouvimos pela primeira vez e outros, que por motivos vários, ou nos passam despercebidos ou então demoram um pouco mais a conseguir chamar a nossa atenção e a conquistar-nos na plenitude e por isso mesmo, só ao fim de várias audições conseguimos penetrar completamente na sua essência literária e no seu conteúdo sonoro; o mais recente trabalho “O coreto” de Rogério Charraz, com saída aprazada para o final do corrente Fevereiro, é um dos casos de paixão imediata à primeira audição, não só pela temática que o envolve, de grande e rural portugalidade intrínseca por sinal,  mas também pelo crescente interesse que pouco a pouco nos vai despertando para o seu conteúdo, consoante se vão somando as audições.

O titulo do projecto é ditado pela envolvência, grande interesse pessoal e uma certa loucura mesmo, que desde há muitos anos Charraz nutre pelos tradicionais e bem portugueses coretos, que desde tempos ancestrais tem servido essencialmente para as actuações de diversas bandas filarmónicas e similares, tais como por exemplo bandas da Carris ou as dos bombeiros; e esse mesmo interesse do artista foi-se transformando aos poucos em verdadeira paixão, especialmente  enquanto símbolos de arte genuína, de cultura popular e elementos arquitectónicos bem vincados e evidentemente de cariz bem português…

Alguém já afirmou, muito acertadamente, diga-se de passagem,  que este trabalho, é um disco com o país lá dentro; e isso é bem verdade pois com efeito o projecto, que começou inicialmente a ser divulgado pela publicação de dois singles –“Abaladiça” ( palavra que significa a bebida ou rodada de despedida antes da partida) e “Quando nós formos velhinhos”, aborda uma série de situações que são verdadeiramente familiares ao mais comum dos nativos deste, apesar de tudo, soalheiro país à beira-mar plantado!

Partindo da história de Sebastião, que ganhando a vida e vivendo numa verdadeira imensidão de casas de betão e cimento, como é uma das nossas comuns cidades, sabe-se que havia deixado em tempos a sua terra natal, uma terriola nacional imaginária, ou, se se quiser, um simples lugar na cabeça de cada um de nós, para partir para a tal cidade dos sonhos imaginários em busca de um mundo melhor e de uma vida menos dura e bem mais desafogada, financeiramente falando; agora, anos passados, claustrofóbicamente doente, desanimado, desiludido , psicologicamente abatido mas outra vez sonhador, Sebastião pensa em deixar essa mesma selva de pedra, de ar quase irrespirável e constante poluição, stressado, esmagado e oprimido por uma  devastadora metrópole de largos milhares de carros particulares, táxis e autocarros de escapes poluentes, quase sempre rodeado e verdadeiramente cercado por enormes e bastas multidões em constante correria e frenesim,  em detrimento dum regresso à tal aldeia do seu nascimento, a terra de seus pais, onde ainda mora Ana, sua amizade leal e paixão da juventude, um pequeno e sonhado lugarejo onde a terra cheira a… vida, onde o coreto do largo da igreja proporciona em muitos domingos solarengos um gratuito recital de musical portugalidade, onde o ar chega ao nariz impregnado do cheiro das vindimas, dos fumeiros, dos fumos das chaminés que cheiram a lenha , a caruma e a lareiras acesas e onde repetidamente se escuta o sino da igreja paroquial lá da aldeia, levando a todos os aldeões as horas certas, através das suas cadenciadas badaladas, sinais que até acabam afinal por ser a orientação horária mais correcta para as refeições diárias e para as rituais idas à tasca mais próxima, onde em pratinhos de louça já bastante usada se vão servindo pedaços de broa, toucinho e de chouriço, por vezes imperiais e pratos de  tremoço e amendoins, nos intervalos dos jogos de dominó e de sueca e onde a  abaladiça, nem sempre é, ritualmente, cumprida à primeira!

Afinal de contas, este é um percurso de vida e um modus vivendi comum a muitos portugueses que de repente ao deixarem a cidade onde labutavam, se encontram de regresso, quase sem darem por isso, a um qualquer largo do coreto deste Portugal que todos, mais ou menos, amamos, aspirando a fundo todos os cheiros possíveis, toda uma  envolvência aldeã, toda uma genuinidade campestre ancestral e acima de tudo, toda uma ruralidade e liberdade individuais e colectivas que se julgavam há muito já… perdidas!

“O coreto” é, para alem de um belíssimo projecto musical e literário de elevada qualidade, um verdadeiro manancial de criatividade, ornamentado por treze composições que abordam o nosso Portugal mais profundo mas contemporâneo, onde através duma sonhada temática de amor e esperança, vão desfilando em jeito quase cinematográfico pequenas, mas singelas historias/fotografias do dia-a-dia, que cada vez mais vão ornamentando este nosso Portugal de sebastianismos, marés, marinheiros e descobrimentos, em que o circuito do nosso  “herói”  (partida, chegada e nova partida) , é hoje em dia, e cada vez mais, uma nossa característica sina e, mais que tudo afinal o nosso verdadeiro fado!

O desencanto do dia-a-dia, o eterno dilema de quem parte e de quem fica, de quem triunfa e de quem se desilude, de quem sonha e de quem afinal não encontra senão pesadelos, são pequenos capítulos “fotográficos” desta história de uma paixão, com vários capítulos nas suas entrelinhas e que tal como a conhecida história de Simão e Teresa  do “Amor de perdição” de Camilo Castelo Branco, acaba por ter, apesar de uma esperança de regresso e de uma porta ainda entreaberta, o triste fim da desilusão e da…separação!

Tratando com certa maestria as vivencias de uma aldeia do interior, abordando com propriedade e até certa genialidade a vida do dia-a-dia aldeão e rural, falando com propriedade de sementeiras e procissões, de bailações e amores de verão, linguarudas, alcoviteiras, romarias, emigração e sonhos de velhice, José Fialho Gouveia( o filho do meu querido e saudoso amigo José Fialho Gouveia),  homem já com  bastas provas dadas nomeadamente na área do fado, assina de facto neste projecto um trabalho de grande envergadura literária e poética a que Rogério Charraz, ( a cantar superiormente e melhor que nunca), o seu comparsa nesta aventura, responde à altura assinando, não só a totalidade das inspiradas músicas do projecto em conjunto, como assumindo-se ao mesmo tempo como o chefe de fila ideal para a mão cheia de grandes instrumentistas que aqui estão e construíram para as suas composições a cama sonora ideal que as valoriza ainda mais e que a par de uma excelente produção, de elevado rigor e virtuosismo, de Luísa Sobral, que cada vez mais se revela um grande valor e uma personalidade musical de excepção, constituem na realidade um soberbo trio de excepção e de indesmentível qualidade!

Estamos portanto em presença não só de um grande disco de musica popular portuguesa, mas também de um dos trabalhos que nos últimos tempos mais me entusiasmou e que até por isso mesmo merece uma atenção especial; um disco notável, que entusiasma com facilidade, uma autêntica enciclopédia de amor/esperança, que vai constituir com toda a certeza um dos melhores discos em língua portuguesa do ano corrente!!!

CD  Secret Penguin/Coreto Musica/Rogério Charraz

 

AL MOURARIA – uma certa longevidade

Pese embora o obrigatório confinamento que a todos  foi, em nome da saúde geral, coercivamente imposto, o ano corrente prepara-se para ser em termos de quantidade de edições musicais made in Portugal superior ao ano transacto, que como se sabe acabou por ficar marcado pelo início da maldita pandemia originada pelo covid 19, essa mais que diabólica enfermidade viral, de origem asiática, que está a afectar lentamente toda a Humanidade, a dizimar alguma percentagem dela e, acima de tudo, a colocar nuvens de grande desespero, incerteza e até possível e inevitável tragédia económica um pouco por toda a parte; agora, enquanto as apregoadas vacinas não começam a fazer o efeito desejado, se é que alguma vez o vão fazer na totalidade, contentemo-nos em  abstrair-nos um pouco, ocupando o tempo livre da melhor forma possível, isto é ouvindo musica , muita musica, das mais variadas procedências e de vários géneros, com especial incidencia para algumas obras portuguesas surgidas recentemente e que sendo, como colheita de boa cepa, de uma evidente  qualidade, vem por isso mesmo e justamente fazer justiça aquela já célebre e antiga frase que se usa muito cá na nossa linda terrinha:- “o que é nacional, é bom!”

E vem isto a propósito de “Com vida”, o mais novo projecto dos sulistas Al Mouraria, que por causa de vários problemas que foram surgindo acaba por chegar atrasado em relação à data inicialmente prevista para a sua edição; com este mesmo trabalho o grupo pretende comemorar nada menos de quase duas dezenas de anos de contínua actividade artística, afinal um grande espaço temporal, pouco habitual no que respeita a projectos de artistas nacionais, sendo que, e apesar de tudo, o grupo se tem renovado ciclicamente em termos de formação, embora o seu núcleo duro e central se tenha conseguido manter, parece-me pelo que se pode ouvir no presente projecto, actual, firme, unido e coeso.

Convidando uma série de outros artistas de ambos os sexos para entrar e participarem no novo disco, o colectivo algarvio, que já anteriormente havia tido essa experiência, surge agora aqui a trabalhar com mais uma mão cheia de convidados como Ana Lains, Teresa Tapadas, Joana Amendoeira, Sara Gonçalves, Teresa Viola  ou Argentina Freire, entre outros mais, em que cada um à sua maneira e em consonância com  o quarteto, ajudou a ilustrar vocalmente um trabalho que é uma verdadeira festa musical em português, agradável, coeso, bem estruturado e de certa maneira estilizado, tanto mais que utiliza na sua concepção instrumentos pouco usuais no mundo do fado como são sem dúvida a bateria, acordeão, clarinete, percussões e saxofone.

Convenhamos que há efectivamente muitas maneiras de se homenagear a nossa canção nacional por excelência- o fado ou de lhe prestar tributo, seja pela forma clássica, e segundo os cânones instrumentais e sonoros tradicionais,  seja por meio de uma consciente estilização; os Al Mouraria optaram por este último, concedendo assim às composições que interpretam uma espécie de segunda vida sonora e até muitas vezes também rítmica, uma outra nova forma estrutural e até mesmo um outro patamar vocálico, sucedendo até que muitas das vezes essa inclusão de vozes masculinas e femininas, por vezes em conjunto, valoriza muito e sobremaneira algumas dessas composições que na sua forma original, ou pelo menos quando foram pela primeira vez gravadas, se apresentaram por vezes um pouco “despidas”.

Neste novo disco houve um cuidado especial na escolha do reportório poético através de uma criteriosa selecção de trabalhos de credenciados autores  como a divina Amália Rodrigues, Tiago Torres da Silva, Paulo Abreu Lima, Maria do Rosário Pedreira, Frederico de Brito ou Linhares Barbosa, entre outros, peças literárias cujo conteúdo, em casamento perfeito com algumas  músicas inspiradas, possibilitou a criação de um ramalhete de 16 belas composições, de certa qualidade, a que não será de certo modo alheio  o rigoroso critério de selecção dos Al Mouraria, que cada vez mais se afirmam como uma das mais estruturadas e validas formações musicais portuguesas, afinal um colectivo que bem merecia da parte dos media nacionais um pouco mais de atenção, respeito e…divulgação!

E com esta minha pequena chamada de atenção espero bem não estar a pregar no deserto!

CD  LGP digital  (contacto:- info@almouraria.com)

 

ANIMAIS – Paredes, sempre!

Sabe sempre bem ver reconhecidos, quer por nacionais ou até mesmo por estrangeiros, os nossos valores patrimoniais quer eles sejam de índole histórica, politica, religiosa, literária, poética ou musical; é que por vezes nem sempre o real valor de um autor português é reconhecido como devia e muitas vezes a sua vida, trabalho e valia intrínseca são muitas vezes até, e infelizmente, muito desvalorizados e outras vezes são mesmo como que criminosamente esquecidos .

Vem isto a propósito do novo disco do colectivo Animais, que resolveu homenagear o grande  e imortal Carlos Paredes, o mais humilde dos humildes, sem dúvida o expoente máximo da guitarra portuguesa, quer da coimbrã, quer da de Lisboa, áreas em que sobremaneira o grande instrumentista se notabilizou; o novel projecto, intitulado genericamente “15 anos sem Paredes”, começou a ser idealizado há muitos anos atrás, mas por variadas razões só agora foi possível concretizá-lo  e trazê-lo à luz do dia através da respectiva edição discográfica.

Recuando um pouco no tempo, sabe-se que nessa altura, corria então o ano de 2003, em Coimbra, que era então a Capital da Cultura, no lindo Teatro Gil Vicente tinha lugar, com a bênção e beneplácito do grande mestre Carlos Paredes, o “Mondego chase”, espectáculo que juntava os Belle Chase Hotel com instrumentistas do Quinteto de Coimbra; porém, e apesar de todas as merecidas e elogiosas criticas  recebidas na altura e do próprio artista homenageado se dizer “…profundamente emocionado ao escutar parte da sua obra revisitada, embora de modo completamente diferente do habitual…”, o trabalho/concerto ficou até há cerca de 15 anos guardado, não só na memória de todos que a ele tiveram a felicidade de poder assistir, mas também na posse dos músicos que afinal de contas mais directamente estiveram na sua génese.

Agora, 17 anos mais tarde, os mesmos que na altura o engendraram e lhe deram vida, reuniram-se para levar a cabo a espinhosa tarefa de o ressuscitar e assim conseguirem completar esta verdadeira aventura musical.

Nele vamos encontrar, através de um colectivo constituído por uma série de instrumentistas e vozes, todo o universo do imortal guitarrista, um mundo afinal tão mágico, tão vibrante, envolvente e tão peculiarmente único e inigualável que se tornou universal; assim, vamos poder escutar uma mão cheia de versões livres, mas no entanto fieis à sua matriz e génese, através de oito momentos musicais que estão em verdadeira sintonia com o mundo musical e sonoro do grande guitarrista português que a memoria não esquece e que o mundo musical nacional e internacional em perfeita consonância adorou,  idolatrou e projectou  de forma indelével!

Criando novos campos sonoros e rítmicos, novas sintonias  e acima de tudo rompendo fronteiras, os Animais mergulharam de cabeça na tradição e com uma originalidade assinalável, homenageiam deste modo o grande artista em grande estilo, com brilhantes momentos musicais e alguns vocais sumptuosos e por vezes até verdadeiramente mágicos, a fazerem lembrar  por momentos as canoras prestações das célebres vozes búlgaras, num disco que respira inspiração, admiração e tradição por todos os poros e onde é notória uma grande mágoa geral por uma ausência sentida, um grande respeito pela obra do desaparecido mestre e sobretudo uma enorme e infinita  admiração por um trabalho absolutamente impar e épico dum instrumentista genial que à música instrumental portuguesa deu novos rumos, novas vidas, nova alma  e um novo pulsar através dum instrumento único e celestialmente emocional!

Recordar Carlos Paredes é sempre mais que sazonalmente obrigatório; é sobretudo emocionante e é acima de tudo ter-se o prazer de reviver um génio, dono de  uma sonoridade única e intemporal,  aqui através  de uma espécie de benção de uma “nova vida” para cada tema, que através deste fantástico colectivo, as suas intemporais musicas adquirem; e convenhamos que é precisa muita coragem, e porque não dizer tomates, para ousar dar vocalização a alguns dos grandes temas do imortal Paredes!

E acima de tudo, é  precisa também uma grande originalidade, grande poder construtivo e inventivo e acima de tudo estar-se em grande sintonia com a musica do mestre e com as suas capacidades interpretativas, sempre mágicas, únicas, inovadoras e sobretudo absolutamente intemporais…

E realmente os Animais tiveram tudo isto, ao mesmo tempo que também conseguiram fazer do projecto uma sentida homenagem, monumental, e sincera, própria de quem é admirador confesso da obra do artista, chegando ao ponto e, relembro isso de novo, com absoluta ousadia, abrilhantar com voz algumas das composições de Paredes, facto que, pese o elevado risco, nunca desvirtuou nenhum dos temas, bem pelo contrário, antes respeitou a sua essência, os ilustrou indelevelmente, dando-lhes outro sentido, outro rumo, outra ressonância, outro sabor, outra dimensão, moderna q.b. , outra vidas também e acima de tudo, de uma forma  tremendamente audaz.

Termino fazendo uma grande vénia de reverência e endereçando um sincero agradecimento aos Animais  à solta presentes nesta histórica gravação (Raquel Ralha, Ricardo Dias, Pedro Lopes e Pedro Renato), pelo seu brilhante trabalho, absolutamente sem rede! Bem hajam companheiros!

Lá, no etéreo onde o grande e imortal Carlinhos (era assim que eu o tratava quando eventualmente nos encontrávamos na editora Universal, onde eu lhe tinha conseguido lugar de artista) estiver a ensaiar ou a tocar para gente como seu pai Artur, Armandinho, Paco de Lucia, Andrés Segovia, Django Reinhardt, Dado Villa-Lobos, Narciso Yepes ou outros monstros das cordas, o mestre gostará, certamente muito, do que aqui ouviu e acabará a dizer como era seu timbre e apanágio:- “ obrigado, amigos !”

disco Os Animais – 15 Anos sem Paredes – Disco de homenagem a Carlos Paredes
Os Animais: Pedro Lopes, Raquel Ralha, Pedro Renato e Ricardo Dias

CD Lux records

 

RUBEN PORTINHA – novo voo

Lenta, mas seguramente, o cantautor português Ruben Portinha segue surpreendendo, no trilho de uma carreira deveras promissora que, ou muito me engano, o levará muito longe; com efeito acaba de editar mais um trabalho, o seu segundo disco de originais, depois de uma primeira edição de 2017 em que apareceu com o projecto “Realidades”, afinal de contas o primeiro degrau de um notório percurso ascendente rumo ao desejado reconhecimento do público e ao pódio da popularidade e da fama.

Nascido na Abrunheira, Sintra foi por lá que deu os primeiros passos na música, mais concretamente em Janeiro de 2007 quando, ao lado de um, já na altura, valor seguro da música popular portuguesa- Sebastião Antunes  (Quadrilha/Gaiteiros de Lisboa), por lá se apresentou ao vivo; a partir daí teve um percurso musical quase meteórico que em primeiro lugar o levou a integrar uma série de pequenos colectivos e depois o encontrou a pisar alguns dos mais conhecidos palcos nacionais, sozinho ou lado a lado com gente de grande traquejo e gabarito como Luís Represas, Jorge Palma, Rogério Charraz, Carlos Mendes, Fernando Tordo ou José Cid .

Agora com a edição do seu segundo projecto a solo – “Tinha de arriscar”, disco de multifacetadas facetas rítmicas, o jovem valor da música em português dá mais um passo, seguro e firme na consolidação de uma carreira que se antevê de sucesso até porque, muito sinceramente, valor não lhe falta, quer falemos da área de letrista, quer da de instrumentista nas quais revela grande inspiração e segurança; propondo-nos uma totalidade de 12 canções que pode dizer-se constituem autênticos retratos do dia-a-dia português, algumas de nítida inspiração e sonoridade country music e outras com laivos de inspiração no rock e contendo até pequenas parcelas de assumida influência heavy metal ou jazz, posso dizer sem receio de errar,  que trabalho e autor, surpreendem pela positiva…

Disco deveras entusiasmante de um cantautor,  já muito mais que um nome promissor, fala nas suas entrelinhas poéticas de tudo que sentimentalmente envolve o ser humano:- amor, imperfeições, encontros e desencontros, impunidade, força de vencer, ansiedade e esperança; musicalmente dirigido e produzido pelo próprio artista e seus músicos, o projecto recebeu um reforço de peso no seu line up quando incluiu como teclista o meu querido amigo José Manuel David, ex-Gaiteiros de Lisboa, aqui curiosamente funcionando, exemplarmente, como dono e senhor das teclas de um bem sonante Hammond, com uma sonoridade de saudosa boa memoria.

Um cantautor que arrisca com alma e talento e cuja obra é definitivamente para seguir de perto, e muito atentamente, em  futuras propostas musicais e em aparições ao vivo!

CD Edição de autor

 

SAMUEL ÚRIA – a maturidade

Não andarei certamente muito longe da verdade se arriscar afirmar que Samuel Úria tem em “Canções do pós-guerra” o seu definitivo trabalho de

consagração e da maturidade, não só como artista a solo, como também como experiente  cantautor e por isso mesmo, de fabricante de canções; e tudo isto tem muito a ver com o grande projecto discográfico que publicou recentemente  e com a indesmentível alta qualidade de que revestem as oito propostas que integram o projecto, realmente a revelarem um grande talento e uma dose elevada de inspiração de um artista que afinal já há muito tempo merecia um pouco mais de carinho, atenção e divulgação por parte dos media deste nosso país de Abril, quase sempre parecendo muito mais interessados em, de maneira quase que direi criminosa,  bajular e promover  em especial o que quase sempre vem de fora ou é importado e, que logicamente, chega até nós em língua estrangeira, em detrimento de muitas das muitas obras portuguesas lançadas, algumas delas em edição de autor com o esforço financeiro que isso implica, quantas vezes algumas delas sempre de valor superior, quer temática, quer literariamente ou quer musicalmente falando; agora, no novo projecto onde alterna a balada pura e simples com temas mais ou menos de índole roqueira (por exemplo “A contenção” é um grande tema à la Xutos), nota-se nas novas  composições agora editadas, e por isso mesmo postas à consideração geral de publico e admiradores fieis, um acentuado e gradual crescimento estrutural e uma elegância poética mais acentuada na questão da composição, sendo as melodias também mais incisivas e cruas, mas nem por isso menos elaboradas e de mais fino recorte, onde há que destacar não só novos e mais desenvolvidos climas  sonoros , bem como uma execução mais perfeita e mais sólida, sem duvida embelezada por uma assumida e apurada sensibilidade e bom gosto, fruto acima de tudo de uma grande maturidade, resultante sobretudo da grande experiência já anteriormente adquirida.

Uma obra brilhante, inspirada, muito bem produzida, de bom gosto literário e instrumental ( Úria está, introspectivamente, a escrever canções melhor que nunca, apesar de se notar por vezes um certo conservadorismo musical) e de fina sensibilidade, se bem que denotem uma notória melancolia, que no entanto  consagra em definitivo mais um notável cantautor português, que ousando traçar um trilho próprio, tem sido, infelizmente, pouco mais que ignorado e até por vezes como que menosprezado, por alguns personagens com grandes responsabilidades musicais e obrigações culturais cá no burgo, muito especialmente na área dos media nacionais, cujas áreas especificas da musica ou da cultura em geral estão, infelizmente  entregues a  autênticos inaptos que  mais não são afinal de contas que amigos, de amigos, de outros amigos ou seja fruto de compadrios!

CD Valentim de Carvalho

 

JIMMY REED – disco de colecção

Mais uma edição a merecer grande destaque editorial e uma atenção muito especial tanto mais que, incluída na série “2 LPs on 1 CD”, nos possibilita adquirir num único compact disc , em formato digipack de colecção, dois antigos trabalhos publicados há anos em vinil, e ainda mais uma mão cheia de canções como extras numa edição remasterizada e com novo e reescrito booklet; falo de “Jimmy Reed at Soul city”, projecto agora editado  contendo dois dos mais “velhinhos” discos do celebre bluesman americano, que apesar de poder ter sido na  altura um rei incontestável, somente conseguiu alcançar o muito mais modesto estatuto de príncipe dos blues, tudo motivado não só pelo seu terrível vício do álcool, doença crónica de que sofreu durante muitos anos a ponto de ter de ser a sua própria mulher, em pleno estúdio, a relembrar-lhe as letras das músicas que ia gravar, mas também derivado do facto de mais tarde, quando já tinha alcançado certo estatuto, sofrer de graves problemas de saúde que foram posteriormente mais correctamente diagnosticados como epilepsia, embora poucos anos antes alguns médicos, certamente menos capacitados, tivessem, erradamente, dito tratar-se de puro e simples delirium tremis.

Nascido em Dunleight, no Mississípi, Jimmy Reed (1925-1976) foi baptizado como Mathis James Reed  e notabilizou-se sobremaneira como um dos maiores cantores e instrumentistas dos blues do delta do Mississípi, ficando famoso não só como compositor mas também como instrumentista de harmónica e guitarra e como um dos maiores vocalistas de então no domínio da grande musica negra; as suas composições  eram tão bem construídas,  tão ricas, tão soberbas e tão inspiradas que não admirou que gente tão famosa como os Rolling Stones, Etta James, Elvis Presley ou Neil Young, gravassem discos onde incluíram versões das suas composições, na altura mais populares.

Também o mago Bob Dylan é por ele confessadamente influenciado, a ponto de ser perfeitamente reconhecível em algumas da suas composições já gravadas e editadas em disco, o verdadeiro e inconfundível estilo de Reed; o projecto que agora surge inclui o recheio de dois antigos vinis – “At soul City” e “Sings the best of the blues”, ambos há muito fora do mercado, onde se podem encontrar alguns dos seus maiores  êxitos, a que se acrescentaram agora como bonus quatro composições mais, tudo canções  gravadas na altura em que estava de pedra e cal na editora Vee Jay.

Colocado postumamente no celebre  Rock´n´roll Hall of Fame, por causa do vicio e da sua periclitante saúde, Reed morreu cedo demais, aos 50 anos de idade, mas deixou-nos um legado brutal feito de grandes e inesquecíveis canções construídas no seu estilo próprio e inconfundível de tal modo que são, mal se começam a escutar, de imediato identificadas como temas de Jimmy Reed, pois todas elas possuem o seu reconhecido e definido ADN musical!

CD Soul jam /Distrijazz

 

THE WEST AFRICAN BLUES PROJECT – mistura de culturas

É sempre difícil de prever qual será o resultado da junção de um nativo de Dakar, Senegal, que canta e toca percussões,  com um guitarrista inglês, dos tradicionais, louco por blues, mas no final essa experiência resultou em cheio,  especialmente quando se ouviu o resultado final da gravação do  primeiro disco da dupla, editado em 2015.

Pois essa mesma experiência repetiu-se agora com a gravação de uma segunda proposta – “The west african blues Project”, onde numa mistura heterogénea  de culturas os dois músicos –(Modou Touré e Ramon Goose) soltam os seus talentos e dão asas  a uma avassaladora torrente de criatividade, traçando a ancestralidade dos blues de África numa série de musicas nascidas nas areias das dunas e nos desertos do ocidente africano; num casamento perfeito de várias influências e latitudes sonoras, a dupla serve-nos uma dose ritmicamente bem condimentada de canções que apelam à paz, à unidade, ao respeito e à liberdade através da uma rara habilidade e uma técnica superior, extravasadas aqui por  dois músicos de eleição – um guitarrista e um percussionista/cantor, de capacidades ilimitadas que em perfeita harmonia, conseguem surpreender mesmo o mais exigente ouvinte com as suas propostas sonoras alargando assim os horizontes dos blues!

CD ARC Music/Megamúsica

 

JAMES BROWN – puro dinamite

Conhecido muito vulgarmente por “Mister dynamite” ou “Goodfather of soul music”, durante muitos anos ele foi uma verdadeira força viva da natureza em cima de um palco, dinamitando com a sua voz as mais diversas salas de concertos, fazendo desmaiar parte das audiências, levando-as ao rubro e justificando os seus epítetos através de grandiosas prestações ao vivo, sem paralelo na cena musical dos últimos anos; falo do grande e inimitável James Brown (1933-2006) de quem se publicaram entre nós recentemente duas obras:- “The dynamic James Brown” e “Live at Apollo, 1962”; o primeiro é uma belíssima compilação de nada menos de 29 sucessos do pico da sua carreira tais como “Papa´s got a brand new bag”,  “Please, please me”, “You´ve got the power”, “Prisoner of love”, “I want you so bad”, “Night train” ou “I´ll go crazy”, enquanto o segundo regista  um fantástico concerto de JB com os seus The Famous Flames, na celebre sala do Harlem, de Nova Iorque, um projecto que tem a particularidade de incluir os temas ao vivo do concerto e outros em versão estúdio, numa totalidade de 20 canções, incluindo temas bónus.

Duas obras, editadas sob a forma de  digipack, de edição limitada a 500 exemplares cada, remasterizadas, contendo novos e renovados booklets , com que é urgente tomar contacto de um dos melhores performers de todos os tempos, um extraordinário artista que passeou toda a sua excelência vocal e de palco por áreas tão diversas como a soul music, rhythm and blues, funk, rock, rap e …pelo gospel, afinal partes indissociáveis da grande música negra!

CDs Hoodoo records  e Soul Jam /Distrijazz

 

NUNO CORTE REAL – regresso ao sec. XVII

No novo trabalho do compositor português Nuno Corte Real, este resolveu revisitar, ou se se quiser, interpretar à sua maneira, algumas obras antigas e e outras contemporâneas, tão diversas, quanto difíceis, de gente que afinal tem muito a ver, e em comum, com os seus próprios gostos musicais pessoais, podendo mesmo ser considerados como os seus “favoritos”; assim, vamos poder encontrar no projecto “Time stands still”, obras do célebre compositor  britânico John Dowland (1563-1626), que foi contemporâneo de William Shakespeare,  de Antonio Pinho Vargas, Sergio Azevedo, Artur Ribeiro, do sueco Mats Lidstrom, Maria João, do também inglês Christopher Bochmann  e de Eurico Carrapatoso; para a execução deste ambicioso projecto Corte Real chamou a soprano Ana Quintans e rodeou-se na parte musical do Emsemble Darcos, afinal um dos mais credenciados e prestigiados  grupos de câmara portugueses na actualidade, criado pelo próprio Nuno Corte Real em 2002.

O disco, que pode  mais facilmente definir-se como um projecto singular, foi  concebido,  composto e dirigido por Nuno Corte Real a partir das canções para voz e alaúde do compositor renascentista John Dowland, que é onde realmente habita a sua génese, é deveras surpreendente pela sua frescura musical e melódica e apesar de se centrar num período musical já bem antigo, parece de uma grande contemporaneidade,  evidente em todas as composições propostas, um trabalho brilhante, onde é de realçar acima de tudo a altíssima qualidade dos músicos que integram o Ensemble, bem como o notável e deslumbrante desempenho vocal de Ana Quintans e, claro, o multi-facetado trabalho do português NCR, que se desdobrou em múltiplas tarefas e que cada vez mais se afirma como um compositor extremamente inventivo, de sóbria e rara delicadeza, inspirado, marcadamente melódico e acima de tudo…exemplar!

Um trabalho que mais que uma viagem temporal de mais de quatro séculos, é uma verdadeira obra-prima e também um hino ao bom gosto e à musica inspirada, por vezes melancólica, mas personalizada, de um genial compositor inglês que encontrou em Nuno Corte Real o confesso admirador, o cúmplice musical e o parceiro ideal para “mundializar” a sua música brilhante e mais que isso, absolutamente intemporal!


CD  Artway/Megamúsica

 

HOWLIN ´WOLF – o uivar do lobo

Quem não conhece ou nunca ouviu a voz de Howlin´ Wolf , os seus blues e a sua harmónica, soando como um desespero ou lamento, não sabe o que na realidade são os verdadeiros blues!

De seu verdadeiro nome Chester Arthur Bennett, adoptou para si próprio o apelido de Howling Wolf e com ele transformou-se ao longo de alguns anos num nome gigante da mesma área da grande música negra; porém, este cantor/compositor e “bluesman” é no entanto um homem que transcende esta mesma área pois já por diversas vezes teve o seu nome e créditos ligados a artistas de outras áreas bem diferentes da sua, como sucedeu por exemplo na altura em que participou nas famosas “The London Howlin´ Wolf sessions”, um fabuloso projecto que para além de ter originado concertos, resultou também num fantástico disco, com o mesmo título, e em que participaram grandes artistas do rock mundial tais como Eric Clapton, Stevie Winwood, Bill Wyman e Charlie Watts!

E é precisamente deste famoso personagem dos blues que hoje falo porque acaba de se publicar uma rara compilação intitulada ”Big city blues” que retrata uma época de ouro da sua carreira como foi sem dúvida aquela em que gravou para as editoras RPM e Modern, nos anos 1951 e 1952, um grande disco há muito tempo descatalogado, fora do mercado portanto desde há muitos anos e que, felizmente agora foi reposto, para grande júbilo dos milhares de admiradores, não só dos blues em geral, mas também, e principalmente, dos milhares de melómanos do grande “ lobo uivador”!

E para que o contentamento seja maior há ainda que referir um pormenor de grande importância que marca e enriquece sobremaneira este novo lançamento:- a nova edição, para alem de incluir os 10 temas do disco original, presenteia-nos com nada menos de 15 canções extra, gravadas durante os anos de 1951 e 1962, o que vem transformar este projecto num raro objecto de colecção e de aquisição absolutamente obrigatória, tanto mais que surge entre nós em edição limitada e com novo libretto recheado de grande e detalhada informação.

De voz inconfundível, fundindo na sua harmónica as suas músicas rústicas com sons mais modernos, quase abraçando o rock em termos rítmicos, usando uma linguagem crua e dura nas suas descarnadas letras, profundas e directas, este “novo” projecto do grande lobo uivador é um desfilar de canções sólidas, bem construídas e melhor interpretadas, que são acima de tudo uma grande torrente de puro prazer auditivo, que saem em catadupa da garganta de uma verdadeira força da natureza que dá pelo imortal cognome de Howling Wolf!

CD Soul jam/Distrijazz

 

NICK CAVE – agora operático

Mais conhecido do grande público como chefe de fila dos Bad Seeds e como um multifacetado rocker, incontornável, de grande versatilidade e talento, Nick Cave dá de novo uma guinada na sua carreira e “abandona” outra vez o rock para enveredar pela música…clássica; e faz isso com autoridade e uma aptidão nata para a escrita na companhia do compositor  Nicholas Lens, que assina  no novo projecto “L.I.T.A.N.I.E.S” todas as músicas, enquanto por seu lado Cave assume a total responsabilidades das letras; esta nova junção dos dois músicos teve a sua origem principal no confinamento geral que a todos atinge actualmente, embora como é sabido ela venha já desde o princípio de 2020,  mas deve-se principalmente ao facto de quer um, quer outro terem visto os seus projecto mais imediatos, na altura, e por causa da maldita pandemia do covid 19, cancelados ou adiados sine die .

Mas enquanto Nick Cave é já um nome cintilante do show business mundial  o belga Nicholas Lens, é conhecido do grande publico, especialmente depois da edição mundial da sua ópera “Slow man”, escrita em colaboração com o Nobel  da Literatura de 2003 – John Maxwell Coetzee, embora a ligação entre os dois músicos já venha no entanto desde há alguns anos, quando trabalharam em conjunto e editaram a opera “ Shell shock”, uma obra também operática que abordava o tema dos  horrores da guerra.

No novo projecto, a dupla, que como é de calcular teve imenso tempo livre para poder trabalhar sem estar condicionada a tempo ou limites, pôde assim desenvolver todas as suas grandes capacidades criativas, embora todas as gravações dos temas obrigassem a gravações separadas, isto ditado por um natural e obrigatório afastamento entre os músicos e as vozes, e que no final resultou num surpreendente trabalho de uma enorme cumplicidade e onde estão expostas as grandes potencialidades de cada um, numa obra quase de carácter minimalista, onde através das doze peças líricas se abordam diversas fases temáticas do ser humano tais como nascimento, crescimento, ruptura e um eventual renascimento ao mesmo tempo que  se percorre um caminho musical deslumbrante que leva o ouvinte  por caminhos sonoros desconhecidos, onde uma certa religiosidade intrínseca está bem patente através das 12 litanies que compõem o projecto, até porque cada uma delas significa uma espécie de petição religiosa…

Uma verdadeira opera de câmara, brilhante, bela, comovente e sedutora que acaba por deslumbrar mesmo os mais exigentes amantes da musica clássica e que sem dúvida vai surpreender agradavelmente mesmo os fans e os puristas de Nick Cave!

CD Deutsche Grammophon/Universal Music

 

LITTLE RICHARD – o rei do rock´n´roll

É sem dúvida o maior expoente e a mais cintilante estrela do rock´nroll, quer como frenético e expressivo cantor ou como incendiário pianista, quer como fantástico performer, e por isso mesmo, para alem de ter sido uma notória influencia para muita gente que pretendia seguir-lhe as pisadas, foi a maior personagem que o rock já viu e ajudou esse mesmo movimento rock a projectar-se como o maior fenómeno musical de uma era; falo do gigante  Little Richard (1932-2020) artista que, já desaparecido o ano passado do nosso convívio, nos deixou porém um legado musical valiosíssimo de que são provas as suas muitas e imortais canções tais como “Tutti frutti”, “Good golly, miss Molly”, “Lucille”, “A whole lotta shakin´ goin´on”,“Money honey”, “Bluberry hill”, “Keep knockin´”, “ It ain´t watcha do“, “Dance a go go” ou “Send me some lovin´”, qualquer um deles sucesso à escala mundial, sem esquecer as pistas de dança e de bailes…

E são precisamente estes temas, que juntamente com 20 grandes canções mais, fazem parte de um projecto que junta dois dos discos originais do artista e mais seis composições como bonús no projecto “Little Richard is back” , que agora foi  editado na já conhecida  série da Distrijazz  – “2 Lps on 1 CD” em que se agregam num único compact-disc dois antigos Lp´s da edição original, a que por vezes se acrescentam ainda alguns extras como sucedeu no caso presente; a nova edição, considerada muito justamente de coleccionador, surge agora também totalmente remasterizada onde se inclui  ainda um novo booklet, renovado e com novos dados biográficos.

A acrescentar ainda à significativa quantidade de três dezenas de canções, a presente edição traz-nos também um pormenor absolutamente chamativo e inédito, que certamente fará as delícias dos muitos coleccionadores, como é a presença, nos seis temas bónus, de outros famosos nomes da cena rock e blues mundial tais como o fabuloso guitarrrista  “Johnny “guitar” Watson, o incrível violinista e baixista Don “sugarcane” Harris e, imagine-se só, a presença em três temas, do malogrado músico Jimmy Hendrix, um artista que é uma verdadeira lenda, e sem duvida, o maior guitarrista da sua geração e também da história do rock !!!

Só estas presenças, já valiam por si sós, a aquisição  deste fabuloso disco, de edição absolutamente histórica!!!

CD NooDoo/Distrijazz

 

CUSTÓDIO CASTELO – Arte impar

O grande instrumentista Custodio Castelo, o mestre/professor da guitarra portuguesa de Fado, já me faz por vezes lembrar o meu querido amigo Ryuichi Sakamoto ( comigo na foto de abertura )em termos de edições de discos, pois pouco tempo depois de ter lançado um projecto somente com trechos que a diva  Amália cantou e gravou, lança agora um outro projecto de título- “Famous fados on portuguese guitar”  cujo reportório se debruça sobre algumas das mais celebres composições que o português normal canta no seu dia-a-dia, e que inclusivamente muitos deles faziam parte do habitual reportório da imortal Amália Rodrigues, constituindo-se todos eles como parte integrante e indissociável de um extenso espólio musical, que, ao mesmo tempo, faz parte de um verdadeiro e quase que inesgotável manancial de centenas ou milhares de alguns dos mais célebres e populares fados que geralmente andam por aí na voz do povo…

Assim, vamos poder encontrar neste projecto 14 temas, alguns já mesmo  imortais, como são “Barco negro”, “Fado Malhoa”, “Vou dar de beber à dor”, “Um casa portuguesa”, “É ou não é”, “Nem às paredes confesso” ou “Maria Lisboa”, entre outros, que o guitarrista à sua maneira e do seu jeito peculiar ajuda assim a conceder-lhes uma segunda vida artística e musical.

Virtuoso,  guitarrista exemplar, compositor, arranjador e inovativo mestre da guitarra, Custodio Castelo tem neste novo projecto mais um raro e brilhante desempenho como instrumentista, constituindo-se por isso mesmo, doa a quem doer, e inquestionavelmente, o herdeiro natural do imortal Carlos Paredes, um verdadeiro génio da guitarra de Fado, um homem para quem a guitarra é mais que o seu instrumento de eleição, é uma paixão, uma companhia inseparável, uma donzela de 12 cordas que ele manuseia, respeita e ama acima de tudo, bem do fundo da sua alma!!!

CD ARC Music/Megamúsica

 

AMÁLIA RODRIGUES – o intimismo dos ensaios

Para alem de valiosíssimo, é  também extremamente extenso o espólio de gravações da grande Amália Rodrigues na Valentim de Carvalho e por isso é natural,  que de quando em vez, surja uma nova edição discográfica com epicentro nesse mesmo brutal manancial de gravações, isto apesar de  muitas dessas vezes, a mesma “nova” edição constituir apenas uma mera repetição de outras compilações de sucessos já anteriormente editadas, havendo no entanto algumas outras ainda que, bem pelo contrario, acabam por se constituir como novas e excitantes edições, surgindo até amiudadas vezes esses projectos com a inclusão de alguns temas bónus, um extra normalmente constituído por algum do  material inédito ainda existente, dando-se assim, deste modo, uma nova vida e consequente exposição pública a um extraordinário património sonoro cujo real valor  ainda estará certamente por apurar, mas que tem no entanto sempre garantido um habitual selo de qualidade de que qualquer gravação da diva sempre se reveste; é o caso de um recente duplo trabalho apelidado genericamente “Ensaios”, que como o próprio título facilmente deixa antever, permite assim divulgar para o grande público, para os seus milhares de admiradores e de certa forma também para a posteridade, uma faceta menos conhecida da eterna diva do fado como é, sem sombra de dúvida, a sua omnipresença nos ensaios livres que sempre precediam qualquer nova gravação em perspectiva, ensaiando de variadas formas diversas composições, em pleno estúdio de gravação da  VC e também em sua casa, antes do registo final e definitivo de um seu qualquer novo trabalho.

O presente projecto acaba afinal de contas por se constituir como uma rara peça discográfica de grande e inestimável valor musical, cultural e histórico e onde se revela, pela primeira vez, a intimidade artística de uma interprete imortal, que acabou mais tarde por se tornar  na maior  interprete e embaixadora da canção nacional por excelência – o FADO!

Com registos sonoros datados dos já longínquos anos de 1970 e 1971, no primeiro disco vamos poder  encontrar uma criteriosa selecção de vários ensaios de uma mesma composição, bem como uma série de takes experimentais e algumas canções registadas no habitual estúdio de gravação da artista – o da Valentim de Carvalho, em Paço d´Arcos, enquanto que no segundo disco vamos poder encontrar, aqui num registo mais intimista e privado como é óbvio,  algumas das gravações que tiveram lugar em sua casa, onde para alem de tudo se pode “vislumbrar” uma sessão de quase composição de Amália ( que se revelou mais tarde uma poetisa de mão cheia) com Alain Oulman; todas as  gravações que até agora surgiram em disco foram reunidas por um expert amaliano (VC residente)– Frederico Santiago, investigador musical, que é simultaneamente o responsável pela colecção integral de canções da artista que tem sido publicadas nos últimos anos, tendo essas mesmas gravações sido mais tarde preparadas e restauradas por Pedro Félix, coordenador do Arquivo Nacional do Som, num trabalho meticuloso e abrangente que merece, por isso mesmo, os maiores elogios e o mais  entusiástico aplauso!

Há no entanto que salientar, neste mais que memorável duplo projecto, a presença de “novidades” como a desconhecida  composição “Com vossa licença”, que Alain Oulman, eficaz e laboriosamente, trabalhou sobre um belíssimo poema ( “Objecto” ) do grande e saudoso José Carlos Ary dos Santos, numa escolha pessoal de Amália, facto que assim vem de certo modo reafirmar a sua grande independência social e política, uma vez que muitas das suas escolhas poéticas recaíram amiudadas vezes sobre reportório  de gente acentuadamente conotada com a esquerda como sejam David Mourão Ferreira, Armindo Rodrigues, Natália Correia e…o mesmo Ary dos Santos, entre outros; e isto  passou-se muito antes do 25 de Abril, a nossa eterna revolução dos cravos, que muitos preferem hoje em dia mais poeticamente chamar de “Primavera de Abril”!

Um projecto musical de grande relevância, em que se revela  pela primeira vez o material sobrevivente do inicio da “fabricação” do ultimo disco da diva com Oulman ( que mais tarde haveria de ser súbita e arbitrariamente detido pela policia politica de então- a sinistra PIDE, que há tempos o perseguia), um trabalho de enorme valor histórico, vocal e patrimonial, que nos possibilita deste modo tomar um contacto mais intimo e profundo com toda a genialidade não só da artista, mas também do grande virtuoso da guitarra de fado portuguesa que dava pelo nome de Fontes Rocha e essencialmente com a real e verdadeira voz da divina Amália, aqui em sublime momento,  com todo o seu esplendor e limpidez, afinal de contas numa busca pessoal contínua e incessante da perfeição, do definitivo, da liberdade vocal e do…absoluto!

“ Tenho a mania de perfeição, de totalidade. A mim as coisas só me parecem completas quando as tenho todas. Mesmo na música, sou assim; quero sempre fazer mais, fazer melhor”- palavras de Amália em 5 de Outubro de 1972 ao jornal do Brasil.

2CD Edições Valentim de Carvalho

 

ERIC CLAPTON – festival de guitarra

Em 2019  o celebrado projecto beneficente intitulado “Crossroads”, fundado e  liderado pelo grande guitarrista  Eric Clapton foi de novo notícia com a realização do habitual mega-festival musical, que como vem sendo habitual desde há já vários anos, reúne em palco alguns dos maiores guitarristas do Planeta, um evento que como sempre acontece é posteriormente editado em variados formatos musicais e cujos lucros finais vão inteirinhos para a associação com o mesmo nome criada pelo próprio Clapton; ora esses  concertos, bem como os produtos que surgem posteriormente no mercado, e com origem nesses mesmos eventos, têm em vista a angariação de fundos que revertem para a mesma entidade e que servirão para ajudar no tratamento, cuidados e educação dos internados no Centro Crossroads, sediado em Antiqua, uma organização, obviamente sem fins beneficentes e que ao longo dos últimos anos, mercê dessa importante e imprescindível ajuda tem auxiliado muita gente no tratamento contra o alcoolismo e acima de tudo também numa luta feroz e titânica contra a dependência  química das malditas drogas duras e afins.

Os últimos espectáculos realizados decorreram a 20 e 21 de Setembro de 2019 surgindo as edições musicais resultantes desses mesmos concertos ao vivo editadas em finais do ano imediato, tendo, recentemente aparecido então nos escaparates à venda ao publico, sob a forma de um triplo CD, 6 long-playings, 2 DVDs  e 2 blurays.

Beneficiando de uma selecção pessoal do próprio Eric “Godhand” Clapton a escolha do alinhamento de “Crossroads-Guitar Festival 2019” recaiu, como vem sendo sempre habitual, nas actuações mais bem conseguidas nos dois dias do festival e por isso mesmo vamos poder aqui encontrar algumas das mais famosas estrelas do rock e dos blues, alguns deles já verdadeiramente lendários tais como o próprio líder do projecto, Sheryl Crow, Bonnie Raitt, Buddy Guy, Jimmie Vaughan,  Robert Cray, John Mayer, Peter Frampton, Albert Lee, Vince Gill,  Los Lobos, Gary Clark Jr. ou Keb´Mo,  entre outros, todos eles donos de  actuações soberbas, brilhantes e memoráveis, protagonizando por isso mesmo no citado festival algumas electrizantes versões de temas famosos da cena rock musical mundial!

Um triplo disco que, mais que o registo efectivo e real de um grande evento musical , sempre organizado com fins beneficentes é um autentico e vivo compêndio de grandes canções e ao mesmo tempo uma selecção primorosa de algumas das mais famosas e ilustres individualidades musicais que aqui em registos ao vivo protagonizaram brilhantes prestações, algumas delas mesmo inesquecíveis!

3CDs Rhino/ Reprise/ Warner Music

 

WU MENGMENG – arte milenar

Quanto mais se fala do Oriente longínquo, nomeadamente da China, mais me  aflora à cabeça uma serie de célebres filmes chineses que obtiveram um incrível sucesso, e fizeram escola, tais como “O tigre e o dragão”, “O clã das adagas voadoras” ou “Memórias de uma gueixa”, bem assim como a famosa série televisiva sobre artes marciais -“Kung Fu” protagonizada por David Carradine; ora o grande denominador comum nestas obras, para alem da ficção, eram as suas bandas sonoras compostas  quase em exclusivo por musica chinesa antiga, executada quase sempre através de variados e raros instrumentos tradicionais do país mais populoso do Mundo tais como pipa, erhu, yehu, guzheng, sheng ou guqin , ancestrais e históricos documentos musicais de uma cultura milenar; ora é precisamente sobre um  destes instrumentos – o guzheng, espécie de harpa chinesa de 21 cordas , que em tempos antanhos  chegou a ter 25 , também conhecida por zheng ou  por qin zheng e que se estima exista já há mais de 2.500 anos, que acaba de se publicar um novo trabalho em disco  intitulado “The art of the chinese gunzheng”, onde podemos escutar uma série de maravilhosas melodias tocadas por uma das mais jovens experts do instrumento – a bela instrumentista  Wu Mengmeng, afinal doze composições de uma beleza sonora exótica e quase celestial, que com certa facilidade nos transportam para outros mundos, latitudes e horizontes e fazem sonhar com mundos e gente melhores!              CD

ARC Music/Megamúsica

 

CECILIA BARTOLI – a raínha do barroco

É verdadeiramente assombrosa a recente compilação de árias de opera editada há poucas semanas interpretadas pela diva Cecília Bartoli, muito justamente intitulada “Cecilia Bartoli- Queen of baroque” , onde ela passeia toda a sumptuosidade e magnificência da sua portentosa voz através de uma cuidadosa selecção musical quer abrange uma década onde está o seu melhor das suas gravações dos séculos XVII e XVIII, todas já anteriormente editadas,  registando no entanto este trabalho alem desse reportório ainda em estreia absoluta em gravação mundial, também duas verdadeiras pérolas que são além de tudo composições absolutamente inéditas, o que  vem enriquecer ainda mais a presente colecção de árias, onde vamos poder encontrar também como convidados especiais alguns dos nomes mais sonantes da musica erudita e que habitualmente são já convidados da diva La Bartoli, em disco e em palco, tais como Philippe Jaroussky, Franco Fagioli, Daniel  Behle ou ainda Sol Gabetta.

Um disco que é um verdadeiro hino à dupla de brilhantes compositores italianos  Leonardo Vinci e Agostino Steffani e que  nos permite tomar contacto com o virtuosismo, a explosão vocal e o timbre extraordinário dessa deusa impar do bel-canto que dá pelo nome de Cecília Bartoli, a mezzo-soprano mais fabulosa dos últimos tempos no domínio da música clássica mundial!

CD Decca/Universal Music

 

LI XIANGTING & CHENG YU – melodias celestiais

O mercado discográfico nacional regista o aparecimento de mais um grande disco de música oriental  totalmente preenchido por exóticas composições chinesas, tocadas em ancestrais instrumentos de origem milenar tais como  são sem dúvida gugin e pipa; o projecto dá-nos a conhecer também uma nova dupla de exímios executantes – Li Xiangting e Cheng Yu, que são, embora não pareça pela arte aqui demonstrada, o primeiro professor de música do segundo, que no entanto, e não deixando de ser um  mestre e o seu aprendiz, denotam, a tocar em conjunto, uma notável empatia musical e uma grande sintonia, que acaba por transformar as peças que executam em conjunto, numa miscelânea de grande beleza sonora e encantamento, fruto afinal de contas, de uma grande versatilidade e talento comuns.

Musica tradicional chinesa e excelentes e espontâneas improvisações  transformam-se assim em “The sound of silk- chinese strings” pelas mãos e virtuosismo dos dois brilhantes instrumentistas em 13 momentos incrivelmente mágicos, únicos, majestosos e, numa espécie de visionamento sobre o estranho mundo actual …sonoramente contemplativos!

CD ARC Music/Megamúsica

 

FRANCISCO MOREIRA – fado Maior!

É absolutamente surpreendente a qualidade e maturidade vocais já evidenciadas por um nome, que, confesso, conheço há muito pouco tempo,  e que, apesar de ostentar no seu currículo já alguns anos de experiência, não é no entanto, infelizmente ainda, um daqueles nomes mais sonantes junto do grande publico português amante de Fado.

Com  efeito, Francisco Moreira, que já anteriormente chegara a gravar até dois discos, que no entanto nunca foram publicados, possui uma já larga experiência televisiva pois com apenas nove anos de idade participou num programa da TVI- “Uma canção para ti”; depois  fez parte do elenco de um espectáculo de Filipe La Féria- “Fado” ; mais tarde venceu em 2012 o Grande Prémio de Fado na RTP, isto para além de mais recentemente registar  um grande número de presenças pontuais em algumas das mais conhecidas casas de fado nacionais tais como o Sr.Vinho ( da raínha Maria da Fé) ou a Maria da Mouraria, isto sem se contar com a sua presença como musico residente  por exemplo na “Casa da Mariquinhas”, afamado retiro fadista sediado na capital nortenha.

Natural de Vila do Conde e com familiares ligados à música, nomeadamente ao mundo do folclore, no seu currículo pessoal haverá que registar também, apesar da sua pouca idade pois tem somente 20 anos, uma já apreciável experiencia de palco pois teve oportunidade de pisar os do CCB, em Lisboa, da Casa da Música no Porto, isto para além de duas bem sucedidas participações no festival anual – Casa de Alfama , onde geralmente só participam seleccionadas vozes já com provas dadas no mundo musical.

Agora, abandonando o peti nom com que foi até hoje conhecido (Kiko) com toda a experiencia acumulada e com contrato de fadista residente garantido, chegou a altura de efectivamente dar um importante passo em frente e editar um disco a sério:- um trabalho onde se nota acima de tudo um grande respeito pela canção nacional e pelo reportório que canta e onde os temas saudade, amor e tristeza são a base e o condimento primordial de um disco literariamente  maduro que se assume como um projecto ambicioso onde o novel fadista confessa uma grande admiração pelos autores que assumiu interpretar, ressaltando no entanto um facto importante o qual tem muito a ver com o facto de que quer os originais, quer as versões que fazem parte do disco terem sido todos testados durante um certo tempo, ao vivo, em casas de fados, antes da sua posterior gravação em estúdio.

Das quinze composições que o disco (“Todos os fados são meus”) inclui, há versões de  famosos fados de algumas verdadeiras lendas que fazem parte da história do Fado e que afinal de contas  Francisco Moreira de certo modo homenageia até porque são algumas das suas mais importantes referências tais como Carlos Ramos , Manuel de Almeida , António Mello Corrêa, António Rocha e o grande e saudoso Tony de Matos; os restantes são originais, com letras de António Laranjeira, Marco Oliveira e Amadeu Ramim  bem como um fado (Num só verso) da sua própria autoria, que assim, desta forma arrisca também como compositor, sendo as músicas assinadas pelos três instrumentistas que participam no disco, uma obra bem concebida, servida por uma produção eficaz, eficiente e de evidente bom gosto.

Cantando com grande segurança, uma dicção perfeita e acima de tudo com uma notável frescura, raça, paixão, sentimento e uma certa e necessária expressividade, Francisco Moreira é sem dúvida um dos nomes actualmente nas luzes da ribalta e acima de tudo um nome que com toda a certeza fará parte do futuro do fado!

CD Banzé – Apoios: CM Vila do Conde /Casa da Mariquinhas

 

ROBERT PLANT – legado

Longe vai já o tempo em que Robert Plant  conseguia com a maior das facilidades seduzir e dominar o comportamento de verdadeiras multidões em pavilhões ou estádios com as suas electrizantes interpretações quando era o vocalista dos lendários Led Zeppelin e debitava, hinos rock imortais como “Whole lotta love”,” The song remains the same”,“Rain song”, “Immigrant song” ou “Starway to heaven “; quando o grupo acabou, Robert encetou então em definitivo uma carreira a solo culminada com oito grandiosos discos e agora, em tempos de pandemia, a sua editora decidiu colocar no mercado um excepcional best of  de edição limitada, intitulado “Robert Plant- digging deep: subterrânea”, contendo nada menos de 30 canções divididas por dois discos, onde vamos poder encontrar alguns dos seus mais significativos sucessos a solo sendo que nessa totalidade estão três canções  inéditas, um factor extra que mais vem aguçar a curiosidade para esta compilação que acaba por se constituir num projecto soberbo e intemporal que nos permite tomar contacto com toda a extensão e explosão vocal dum performer extraordinário que é já uma lenda do rock!

Nas canções deste multifacetado projecto, Robert explorou, sábia e profundamente,  diversos territórios instrumentais e sonoros que se espraiam desde o Sahara a Gales, passando por Nashville ou pelo Tibete,  afinal uma grande paleta de sucessos que retratam as suas várias experiências e pesquisas de muitos anos, sempre na procura de outras formas vocais e novas e diferentes sonoridades.

Um projecto que se recomenda sem reservas pois constitui uma peça musical absolutamente  indispensável para os amantes do bom rock e para todos aqueles que eventualmente não tivessem ainda tido oportunidade de tomar contacto com a valiosa obra a solo do ex-cantor dos Zeppelin  e que, mais que um fantástico desfile de belas e inspiradas composições, que percorrem os seus oito albuns a solo, nos põe de novo em contacto com uma inigualável voz, inquestionavelmente soberba e poderosa de um dos maiores vocalistas do rock contemporâneo mundial, um homem que se constituiu como um vocalista único e carismático que faz já parte da história desse mesmo rock, área da qual é um parceiro privilegiado e indissociável!

2CDs – Warner Music

 

JORDI SAVALL – oratório de Natal

Mais uma obra brilhante de J. S. Bach aparece de novo no nosso mercado com origem numa fabulosa versão pessoal do mestre da viola de gamba, produtor, autor, arranjador e regente de orquestra catalão Jordi Savall , um homem de múltiplos talentos que à música antiga, especialmente à espanhola, tem dedicado grande parte da sua vida artística tendo mesmo já sido autor da tradução de imensos manuscritos antigos de origens diversas:- mourisca, turca, grega e espanhola.

Agora surge “J.S.Bach- Weihnachts-Oratorium”, obra escrita pelo celebre compositor  entre Outubro e Dezembro de 1734, destinada a ser apresentada em igrejas por alturas do Natal desse ano e que faz parte de um conjunto de seis cantatas de sua autoria; a obra incorpora músicas de composições anteriores do mesmo J.S. Bach  e é considerada pelos seus admiradores e pela critica especializada como uma peça brilhante, longa e bela, embora particularmente sofisticada e complexa.

Na realidade acabaria por se constituir numa das maiores pérolas musicais escritas por Bach , uma rara obra sacra verdadeiramente monumental e de uma beleza impar e inexcedível, que pode ser descrita também como uma extraordinária expressão musical, inspirada e  sofisticadamente erudita, que traz à tona toda a capacidade inventiva, talento e genialidade de um assombroso compositor!

Uma obra-prima que é urgente conhecer e para os que a conhecem já, que  urge revisitar com urgência!

 

2CDs Alia Vox/Megamúsica

 

PEDRO ABRUNHOSA – um mar de sucessos

Como costuma dizer-se -“custou, mas foi” ou então se preferirmos usar outro belíssimo ditado português -“água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”!

Com efeito demorou uma série de anos a conseguir-se demover o musico nortenho Pedro Abrunhosa da sua teimosia de não autorizar, que a sua editora de sempre, lançasse uma compilação com alguns dos seus maiores sucessos, obra que já vinha sendo reclamada pelos seus milhares de admiradores desde há já vários anos; mas agora, finalmente, esse desejo dos fans cumpriu-se e aí está “Corpo e alma” duplo trabalho dividido pelo compositor em dois distintos capítulos citados no titulo do disco onde ao longo de nada menos de 36 canções, alinhadas pelo seu criador, vamos poder observar  não só a evolução natural de Abrunhosa como  compositor, mas também e essencialmente a sua progressão como interprete e  a sua constante evolução artística.

Canções de grande êxito popular tais como “Fazer o quer ainda não foi feito”, “Se eu fosse um dia o teu olhar”, “Vem ter comigo aos Aliados”, “Para os braços da  minha mãe”, “Socorro”, “Amor em tempo de muros”, “Talvez foder”, “Pontes entre nós”, “Toma conta de mim”, “A.M.O.R.” ou “Tudo o que eu te dou” que são alguns dos muitos pontos altos e fulcrais da uma notável carreira deste inspirado cantautor, fazem lógicamente parte, desta obra onde Abrunhosa contou com vários convidados de peso como são sem dúvida Camané, Lenine, Lila Downs, Carolina Deslandes ou Ana Moura.

Canções brilhantes para mais tarde se recordarem até porque muitas delas fazem parte de um top pessoal a que se pode com propriedade chamar a “banda sonora da nossa vida”!

2CDs Universal Music

 

THE ART OF THE OUD – no reino do alaúde

Produz um dos mais  atractivos  desenhos musicais acústicos que se conhecem, todos eles de uma grande e beleza e sui-generis sonoridade e  habitualmente aparece em discos ligados à música de expressão oriental; trata-se do alaúde, de que, por exemplo, Rabih Abhu Khalil , o nosso bem conhecido músico libanês, que nos últimos anos colaborou mais de perto, em discos e espectáculos com a nossa voz numero um do fado -Ricardo Ribeiro, é um dos seus mais exímios executantes.

Dotado de uma sonoridade extremamente bela e  cativante  e de uma personalidade muito própria, este mesmo instrumento ancestral, de cordas, foi agora objecto de uma edição discográfica especial onde vamos poder encontrar uma série de canções de várias origens geográficas que nos transportam a longínquos e sonhadores territórios como a Turquia, Líbano, Grécia ou Arménia, isto sob a égide de outro instrumentista de grande renome e prestígio- o grande mestre arménio do alaúde Alan Shavarsh Bardezbanian, que no mesmo projecto e ao longo de 14 diversas composições, nos propõe uma viagem inesquecível e quase  hipnótica pelas áreas da música tradicional  e da folk music das distantes paragens já atrás citadas.

Um disco de rara beleza sonora que nos faz sonhar com belas paisagens e lindas e exóticas gentes de territórios distantes e que por isso mesmo recomendo sem reservas especialmente aos amantes das músicas do Mundo e também a todos que apreciam sonoridades inusitadas, mas, acima de tudo, belas e sedutoras.

CD ARC Music/Megamúsica

 

LINKIN PARK – em reedição

Os Linkin Park relançaram recentemente no mercado uma das suas mais brilhantes obras-“Hybrid theory” , desta vez numa rara edição especial comemorativa do 20º aniversario da banda que inclui um segundo disco com doze raridades, como sejam algumas canções na sua versão ao vivo em estações de rádio e em arenas ,bem como outras composições com novas misturas, demos antigos, etc.

Um duplo disco de colecção, para admiradores da banda que de facto, e de certa maneira, revolucionou o panorama rock mundial e também para  todos aqueles que andam constantemente em busca de raridades e peças de coleccionismo, que recupera uma obra majestosa de uma das melhores e mais carismáticas bandas da cena rock e heavy rock actual cuja plêiade de fans se conta por muitos milhares!

2 CDs Warner Music

 

JOE LOVANO – agora em trio

Unanimemente considerado um dos melhores  executantes do saxofone tenor e soprano do mundo do jazz, Joe Lovano está absolutamente imparável em matéria de edições pois à noticia que demos recentemente de lançamento de um disco -“Arctic riff com o trio de Marcin Wassilewski tenho hoje que acrescentar a esse trabalho a edição de um novo trabalho jazzístico em que o saxofonista surge desta vez a liderar as operações mas acompanhado por um novo trio denominado Trio Tapestry, afinal de contas um grupo que ele acabou de formar há pouco tempo; trata-se desta vez de “Garden of expression” projecto que marca a estreia em disco da sua nova formação, já muito elogiada pelos media internacionais desde a  sua estreia em pleno 2019, onde Lovano juntamente com  Marilyn Crispell, no piano e Carmen Castaldi, na bateria dão um verdadeiro festival de interpretação com Lovano a preencher  com sabedoria e sensibilidade os espaços deixados livres pelos outros dois músicos, num entendimento perfeito e absolutamente invulgar mesmo nas  improvisações.

Um disco  recheado de temas bem definidos e personalizados  onde um trio de excelentes músicos, com destaque para o brilhantismo  de um executante épico como é Joe Lovano, mostra porque é que o jazz é acima de tudo uma…Arte maior!

CD ECM/Distrijazz

 

JEAN-LOUIS MATINIER-K.SEDDIKI – energia pura

A junção de dois instrumentos tão diferentes, mas que afinal de contas podem até completar-se e casar na perfeição e, mais que tudo, também surpreender,  faz todo o sentido no recente disco da dupla Jean-Louis Matinier (acordeão) e Kevin Seddiki (guitarra) intitulado “Rivages”, o primeiro projecto dos dois instrumentistas em conjunto para a ECM, editora onde o primeiro regista já um número apreciável de discos editados para alem de colaborações com muitos dos artistas do catálogo, e não só; partindo de uma grande sintonia entre os dois executantes, onde duas energias criativas se completam na perfeição, atingem aqui em conjunto uma notável expressividade instrumental  como são casos mais flagrantes as versões de “Les berceaux” de Gabriel Faurré , em “Schumannsko “, tema  inspirado numa composição tradicional búlgara e em “Greensleeves”,o famoso tradicional que possui uma particularidade importante e perfeitamente desconhecida da maioria das pessoas:- apesar de ser uma composição já interpretada até hoje por dezenas e dezenas de artistas, até hoje não teve registo autoral na sua origem, pelo que os seus créditos  e os lógicos largos royalties nunca são atribuídos a ninguém!!!

Um trabalho deveras brilhante, bem concebido e melhor executado que por isso mesmo facilmente conquista!

CD ECM/Distrijazzv

 

JOHNNY HALLYDAY – o tempo do ié-ié

Por alturas dos anos 60 quando o movimento musical -o ié-ié  e o ritmo da moda de então – o twist, davam cartas um pouco por todo o lado, um celebre cantor francês foi  casado com outra estrela francesa da canção – Sylvie Vartan e juntos,  durante muitos anos, essa dupla constituiu um dos casais de maior sensação e maior badalação da altura, embora ele não tivesse por isso deixado de continuar a ser considerado  acertadamente um “enfant terrible”; falo do famoso pop/rocker Johnny Hallyday (1943-2017) de quem surgiu agora no mercado uma colectânea de êxitos intitulada “Classic hits”, onde vamos poder encontrar uma série de composições que foram na altura extraordinários  sucessos de vendas e de popularidade em França e num grande número de outros países, tais como “Souvenirs, souvenirs”, “Retiens la nuit”, “Avec um poignée de terre”, “Mon vieux copain”, “24.000 baisers”, ”Ya ya twist”, “Sentimental”, “L´idole des jeunes”, “Ton fetiche d´amour”ou o fenomenal “Let´s twist again”.

Contendo uma totalidade de 30 composições na voz inconfundível do cantor francês, o disco surge em edição digitalizada, com renovado libretto,  novas fotos, nunca antes divulgadas e promete fazer sensação junto dos amantes da mais antiga música rock francesa de que Hallyday foi sem duvida, a única e a maior estrela rock da terra de Apolinaire ou Boris Vian e de muitos outros grandes poetas franceses também!

CD French connection/Distrijazz

 

EAGLES – hits ao vivo

Falar dos norte-americanos Eagles é imediatamente associá-los a alguns dos maiores mega-sucessos registados nos últimos anos na musica pop/rock mundial, com especial incidência no seu país natal, isto é na terra do homem que veio para pacificar e unir o povo norte-americano e assumir uma série de responsabilidades a nível planetário a que o anterior líder do governo cobardemente se baldou – Joe Biden, e não para criminosamente dividir conceitos, opiniões e gentes como fez o seu risível e raivoso antecessor, o trauliteiro Trump, de má memória; da celebre banda, quem não se recorda por exemplo de canções de extraordinário sucesso  como foram “Hotel Califórnia”, “Take it easy”, “One of these nights”, “Tequila sunrise”, “New kid in town”, “Desperado” ou “The long run”, qualquer um deles um brilhante e icónico sucesso à escala mundial, quer nas lojas, quer nas diversas tabelas de vendas e de popularidade?

E são precisamente estas citadas canções, que juntamente com outras mais 19 composições completam um projecto triplo, registado ao vivo e agora editado sob a forma de 2 CDs  e um terceiro disco em formato bluray, contendo uma série de fantásticos registos ao vivo, da banda da dupla Don Henley / Joe Walsh, grandioso evento que teve lugar em três dias seguidos na celebre sala de concertos – o Fórum, de Inglewood, Los Angeles, Califórnia nos dias  12, 14 e 15 de Setembro de 2018.

Um projecto que é simultaneamente uma homenagem da banda aos seus milhares de admiradores (é o primeiro registo ao vivo em mais de 20 anos!) onde os vários desempenhos, vocais e instrumentais, atingem momentos de rara beleza e encantamento, a que não são de modo nenhum alheias a excelência dos músicos que compõem este agrupamento, que ao longo dos seus muitos anos de existência foi espalhando magia, felicidade, calor e entusiasmo pelos locais por onde excursionou ao vivo para assistências que se contam por muitos milhares!

2CDs /1 Bluray – Rhino/Warner Music

 

LONESOME SUNDOWN – blues do Louisiana

Começou a sua carreira musical como guitarrista por alturas de 1955 tendo em pouco tempo granjeado grande fama como instrumentista e cantor de blues e chegou mesmo a ser considerado o mais versátil instrumentista de então, bem como o mentor e arquitecto do chamado “som do pântano”, afinal de contas alguns dos predicados que ajudaram e projectaram Lonesome Sundown para uma carreira de sucesso culminada com a gravação de vários discos e o levaram a ser cabeça de cartaz de vários concertos e festivais.

Embora ainda pouco conhecido em Portugal, este já lendário bluesman merecia já ter de facto outro estatuto entre nós, como se pode comprovar pelo conteúdo de um notável disco que acaba de se publicar agora por cá –“ Mojo man- the complete 1956-1963 Excello singles” ,onde passeia toda a sua classe e versatilidade ao longo de nada menos de 24 composições, agora devidamente remasterizadas, que preenchem um projecto de formato digipack,  em edição limitada a 500 exemplares, que inclui um novo libretto com novos dados biográficos e acima de tudo é uma colecção de blues brilhante e absolutamente intemporal!      

CD Soul jam/Distrijazz

 

EDITH PIAF – voz imortal

Icone da música francesa, cantora, actriz, compositora e acima de tudo grande performer , Edith Piaf (1915-1963) é um nome que ainda hoje em dia serve de exemplo e modelo, como cantora, a uma geração de novos valores femininos em França e por isso mesmo qualquer nova colectânea que surja com sucessos seus é sempre recebida de braços abertos como acontece com o recente “Edith Piaf –l´essentiel”, que como próprio titulo deixa perceber integra os mais fundamentais e essenciais temas de sucesso da sua carreira, neste caso numa totalidade de 24; aqui vamos poder encontrar muitos das suas incomparáveis interpretações como “La vie en rose”, “ Non, je ne regrette rien”, “L´accordéoniste”, “Les amants de Paris”, “C´est l´amour”, “Rien de rien”, “Milord”,  ou “La valse de l´amour”, qualquer um deles umbilicalmente ligados à voz da grande diva francesa da canção, um nome verdadeiramente inesquecível e imortal!

CD French connection/Distrijazz

 

THE RHEINGANS SISTERS – folk memorável

Não são só extremamente dotadas, como são vocalmente irresistíveis embora a sua arte vocal e instrumental não seja só de agora, pois vem já desde a formação do duo quando começaram a dar nas vistas e a despertar o interesse geral do público e da critica especializada; “ Receiver”, o novo trabalho das manas  Rheingan – Anna e Rowan, não foge também à regra e reafirma-se acima de tudo por uma altíssima qualidade, que aliás já vem sendo uma característica habitual dos seus projectos anteriores.

Neste seu novo disco, as duas manas, nativas de Sheffield, Inglaterra, para além de revisitarem alguns tradicionais da música folk britânica, que interpretam eficazmente do seu jeito muito peculiar e seguro, sem no entanto lhes retirarem a identidade e a génese, assumem-se cada vez mais como brilhantes cantautoras, pois assinam 10 da totalidade das 14 composições que integram o surpreendente disco, onde também assumem a difícil e espinhosa responsabilidade da autoria da totalidade dos arranjos das diferentes canções.

Já multi-instrumentistas de referencia, as suas vozes aveludadas e de tom quase celestial, lembram-me até inolvidáveis momentos musicais da folk nas vozes da malograda e saudosa Sandy Denny, de Maddy Prior, Dolores Keane, Sharon Shannon ou June Tabor e de grupos de referência como os Steeleye Span, Incredible String Band, Fairport Convention (quando por lá estrelava a citada e divina Sandy Denny) ou Capercaillie , afinal uma mão cheia de raras excelências musicais, que se constituem como algumas das suas principais referencias, facto que na verdade só abona em favor da dupla de irmãs.

Já galardoadas em 2016 pela BBC radio2-folk como autoras da melhor canção folk desse ano, com “Mackerel”, e mais recentemente pela famosa revista de folk e música popular  britânica -“Songline” pelo disco sobre o qual hoje me debruço, a dupla começa na realidade, lenta, mas seguramente a constituir-se como um caso sério de fama, o que não admira face à grande qualidade que destilam, à excelência do trabalho que nos propõem e acima de tudo à frescura, quer vocal, quer instrumental que emana das suas autorias, composições deveras inspiradas e inspiradoras, onde uma interligação perfeita das suas vocalizações com os instrumentos que tocam,  é de facto um caso raro de perfeição, encanto e …deslumbramento!

Com direito a figurarem desde já na listagem das mais cintilantes estrelas das músicas do Mundo, neste caso especifico  na galeria da folk, as Rheingan sisters estão agora, felizmente, já disponíveis no nosso mercado através duma bela obra, fascinante, verdadeiramente emblemática das suas altas potencialidades, quer como compositoras, quer como interpretes, recheada de grandes momentos musicais, sublimes, alguns mesmo épicos, que fazem acreditar que afinal, e contrariando os certos pessimistas do costume, a folk e a própria musica popular britânica, estão vivas e de …boa saúde!

Posto isto de que estamos todos à espera para tomar contacto também com as obras anteriores destas nativas britânicas, hoje em dia, já verdadeiras estrelas da música folk mundial, que têm vindo, pouco a pouco, mês após mês, ano após ano, paulatinamente e com grande segurança, a desbravar o seu próprio  caminho, bem como o seu próprio destino musical num percurso, não isento de escolhos, mas que certamente as vai levar em breve a um mais que inevitável…estrelato!

CD Bendigedig/Megamúsica

 

ANITA O´DAY – uma lady do jazz

Entre as muitas vozes femininas que o jazz popularizou e consagrou, está sem dúvida a da grande Anita O´Day, que nas décadas de 50 e 60 gravou uma série de álbuns marcantes não só da sua carreira, mas também da história do jazz,  especialmente aqueles que beneficiaram da produção de um  mítico e saudoso produtor da altura,  figura incontornável do mundo da grande música negra da altura, o célebre Norman Granz.

Ora são exactamente algumas das melhores gravações desses tempos históricos que preenchem o projecto “The jazz stylings of Anita O´Day”, composto por nada menos de 24 composições ( onde se incluem oito delas  como bónus-tracks), de edição de coleccionador, limitada e remasterizada, com a duração total de cerca de uma hora e vinte minutos, em que está patente toda a subtileza, charme, virtuosismo e acima de tudo a beleza e a plasticidade vocal da voz incomparável de uma artista que marcou a história do jazz de forma indelével.

CD Essential jazz classics/Distrijazz

 

JACQUES BREL – o essencial em 30 canções

Infelizmente já lá vão muitos nos em que a belíssima música francesa, quer pop, quer de rock, estava na moda, o que significava que era rainha nas preferências auditivas de franceses e do resto da Europa e merecia também destaque nas mais diversas listas de vendas e de popularidade europeias; hoje em dia tudo mudou ligeiramente, embora haja que reconhecer que o gosto dos franceses mais maduros,  os admiradores do género, certas listas de preferências musicais de algumas (poucas, infelizmente) rádios e até dos chamados “Amigos de Alex” se mantenha, na maioria dos casos fiel e imutável, não só no tocante às músicas, mas, principalmente quanto aos interpretes mais famosos.

E um dos casos em que o cantor continua a beneficiar dos favores dos mais variados públicos, é sem duvida Jacques Brel (1929-1978) nascido belga, mas sem dúvida, nem favores, absolutamente “adoptado” pelo exigente público francês que desde sempre o considerou  uma voz francesa e, mais que tudo, como se Brel tivesse efectivamente nascido no país da torre Eifel, um artista verdadeiramente seu!

Vem isto a propósito de ter sido editada entre nós, uma nova e belíssima compilação de sucessos  intitulada “L´essentiel de Jacques Brel” onde podemos encontrar mega-sucessos como “Ne me quitte pas”, “La valse a mille temps”, “Les flamandes”, “Quan on n´a que l´amour”, “Les bourgeois”, “Je t´ aime”, “Bruxelles” ou “Les prenoms de Paris”, que popularizaram para a eternidade o nome do grande cantor belga; a par dos citados trechos há ainda mais 18 composições  que no seu conjunto compõe o ramalhete de alinhamento desta nova colectânea, que  surge em edição em digipack com nova remasterização e ainda  um renovado booklet , que incluí actualizadas  notas biográficas, bem como três novas e raras fotos do cantor da autoria do conhecido Herbert Leonard.

Um atractivo projecto que nos dá a conhecer, embora parcialmente, parte da grande, e bem sucedida carreira, de um dos mais famosos icones da “chanson française”, um artista que em vida vendeu mais de 25 milhões de discos!!!

CD French connection/Distrijazz

 

SHAI MAESTRO – eloquência musical

Quando se juntam em estúdio, para gravar, quatro grandes músicos e um produtor genial,  neste caso o “boss” da ECM – Manfred Eicher, o resultado final só pode ser de excelência; com efeito esse projecto –“Human” é deveras surpreendente, pela positiva, pois reúne uma mão cheia de temas de grande eleoquência sonora, quase todos da autoria do pianista e líder do quarteto -Shai Maestro, exceptuando  uma fantástica versão, por si bem personalizada,  do conhecido “In a sentimental mood” do mestre do jazz Duke Elligton; Shai é um pianista exemplar que de disco para disco vai surpreendendo cada vez mais pela sua intuição nata, pela expressividade e sobretudo pela diversidade das suas propostas, que servidas por um fio condutor que é o seu piano, servem de perfeito contraponto e fulcral apoio aos três restantes elementos-  baixo duplo ( Jorge Roeder), bateria ( Ofri Nehemya) e  trompete (Philip Dizack), afinal quatro instrumentos que em perfeita harmonia e sintonia, até nas próprias improvisações,  procuram , e atingem, uma atmosfera lírica única e de grande eloquência emocional,  através sobretudo de um grande e latente virtuosismo comum.

Um disco notável, para marcar de forma indelével, a história discográfica deste  muito estranho ano que atravessamos!

CD ECM/Distrijazz

 

SPANDAU BALLET – regresso aos anos 80

Se há agrupamentos que marcaram forte presença não só as preferências rítmicas e sonoras, mas também as tabelas de popularidade e vendas  dos gloriosos anos 80, os britânicos Spandau Ballet ( a par dos Duran Duran ) fazem parte  efectivamente dessa elite; com efeito quem não se recorda de dançar sem parar nas pistas de dança mais badaladas cá do burgo como as lisboetas Stones, A Primorosa de Alvalade, Ad-Lib ou Whispers , o Van Gogo em Cascais ou o portuense Twins, na velhinha Foz do Douro, na cidade do Porto, sendo estas apenas algumas das de assim de repente me recordo?

Pois é dos mesmos Spandau Ballet, a grande cabeça de cartaz de uma já célebre “Febre de Sábado de manhã, genial ideia do meu querido amigo Júlio Isidro, que levou milhares de pessoas até ao velhinho estádio de Alvalade, de que hoje vos falo, pelo simples facto de ter sido editada uma compilação tripla baseada na sua obra, contendo nada menos de 45 canções, intitulada “Spandau Ballet40 years-The greatest hits”, um projecto com que se pretende comemorar devidamente o 40º aniversário da formação deste bem sucedido quinteto britânico, que no dia da sua chegada a Portugal, e apesar do aviso que eu próprio lhes fiz sobre o possível efeito do sol português na pele de ingleses, branquinhos, quase copo-de-leite, como eles,  acabaram por ir apanhar no terraço do Hotel Jorge V, na Av. Fontes Pereira de Melo, um dos maiores escaldões com que eu vi alguém, percalço esse que me  obrigou a mim, promotor da editora do grupo na altura- a Polygram, a ter de passar a noite quase toda em diversas farmácias tentando arranjar unguentos e pomadas que funcionassem como antídoto e calmante para a vermelhidão da pele, que os assolava a todos…

Na colectânea, espécie de raro, mas importante espólio de composições da banda da terra de Alan Shearer, Harry Kane e do grande John  Mortimore, vamos poder encontrar, divididos por dois dos discos, grandes sucessos, inesquecíveis, tais como “To cut a long story short”, “Chant no 1”, “Lifeline”, “Fight for ourselves”, “Cross the line”, “This is the love”, “Raw” ou “Through the barricades”, sendo que o terceiro disco é constituído por raras versões dos maiores hits, mas agora a surgirem aqui em versões especiais de 12” mixes ou extended mixes.

Um  projecto para reviver grandes momentos musicais e de felicidade dos anos 80, recordar velhos amores e acima de tudo relembrar a meteórica, mas auspiciosa carreira de um grande grupo que protagonizou e deu cartas nos alegres anos 80!

3 CDs Parlophone/Warner Music

 

BON JOVI – que viva “2020”!

Composto por dez novas e inspiradas composições, como aliás tem sido nos últimos anos apanágio de Bon Jovi , “2020” é um disco soberbo, com várias composições, ritmicamente mais tranquilas, do que aquilo que lhe é  habitual,  a par de outras mais reflectivas e melancólicas, o rocker mostra-se aqui mais politico que nunca e também muito mais preocupado com os muitos e difíceis problemas que a Humanidade está a atravessar, muito especialmente em termos da malfadada pandemia vigente e do maldito coronavírus, com tudo que isso envolve em termos de medo, saúde mental, solidão, humanitarismo, voluntariado, serviços de saúde e desespero…

Ao mesmo tempo Bon Jovi, que escreveu e lançou este seu novo trabalho antes das mudanças politicas no seu país natal, especialmente no que respeita à nova, e muito desejada Presidência de Joe Biden, aborda também a grave problemática dos veteranos de guerra americanos, a muita e perigosa violência gratuita instalada em terras do “tio Sam”, com origens diversas, embora sejam mais graves aquelas provocadas deliberadamente por esse verdadeiro Frankenstein da politica que dá pelo impronunciável nome de Donald Trump, as milhares de perdas sistemáticas de vidas e empregos, enfim tudo aquilo que os seus actuais conterrâneos, e nós todos também, um pouco por toda a parte, estamos a sofrer na pele! E de que maneira!

“2020” é acima de tudo um trabalho, poeticamente abrangente, de séria reflexão e denuncia das vivências do, e no, mundo actual, uma obra que mais que nunca merece uma atenta audição tanto mais que os  temas do disco são verdadeiras vacinas contra os tempos pandémicamente difíceis que assolam a Humanidade…

Grandes textos, grandes melodias, bela produção, Bon Jovi a cantar melhor que nunca! Eis um dos grandes momentos rock deste ano que todos, de certa maneira, estamos a tentar ultrapassar!

CD Universal Music

 

OS GATOS – o raiar da bossa

O famoso movimento musical brasileiro, vulgarmente conhecido por bossa nova, celebrizou inúmeros artistas a solo, sendo no entanto muito menos numeroso o número de agrupamentos que a esse género musical dedicaram a sua vida artística; entre esse poucos estão Os Gatos, que começou com uma dupla de instrumentistas formada nos anos 60 por dois amigos e comparsas: -Durval Ferreira (guitarra e voz) e pelo “monstro sagrado” Eumir Deodato (piano), que no entanto mais tarde acabaria por enveredar por outros caminhos musicais, alguns ligados à mesma musica popular brasileira e mas também ao jazz; esta dupla que na sua vida artística gravaria apenas dois discos, juntou então à formação o baixista Sérgio Barrozo e  o baterista Wilson das Neves e foi sob a forma de quarteto que acabaria por registar um primeiro disco – “Os gatos”, que viria a tornar-se histórico e revelar-se uma referencia na música pop brasileira de então.

Seguir-se-ia um consequente segundo trabalho – “Aquele som dos gatos”, após o que a banda resolveu dar por terminado o seu percurso, seguindo todos os quatro instrumentistas diferentes caminhos musicais com destaque para a área do jazz/samba, que estava a eclodir na altura e que acabaria por se tornar moda e percorrer com extraordinário sucesso os anos 60 e 70, quer no Brasil, quer nos Estados Unidos.

Agora os dois trabalhos acabam de ser publicados em conjunto, num disco de edição limitada, contando 24 composições, remasterizado digitalmente, com novo booklet e notas biográficas actualizadas, o que nos permite tomar contacto com o que de melhor se fez no início da bossa nova em termos de grupos e com canções de sucesso  popular como “Água de beber”, “A chuva”, “Razão de viver”, “São Salvador” , “Tristeza de nós dois” ou “Porque somos iguais”, qualquer uma delas peças importantes na história da bossa nova!

 

CD Aquarela do Brasil/Distrijazz

NOTÍCIAS SOLTAS

KATIA GUERREIRO – 20 anos de fado

Katia Guerreiro regressa a Lisboa em nome próprio, num espectáculo que inicialmente esteve marcado para 12 de Dezembro mas que a maldita pandemia obrigou a adiar para 18 de Março de 2021; o espectaculo iniciar-se-à pelas 20 horas e  tal com o inicialmente estava previsto terá lugar no Teatro Tivoli BBVA, na Avenida da Liberdade, na capital portuguesa, evento onde irá recordar  e simultaneamente comemorar alguns dos momentos mais importantes e entusiasmantes da sua carreira de brilhante  fadista.

Este espectáculo contará  com a participação instrumental dos músicos Pedro de Castro e Luís Guerreiro, ambos em  guitarra portuguesa, André Ramos e João Mário Veiga , nas violas de fado e Francisco Gaspar em viola-baixo, para alem de alguns convidados que serão anunciados brevemente.

Face à alta qualidade de que sempre se revestem as suas actuações será certamente um acontecimento a recordar!

 

FREDERICO BC – ao vivo no Casino – 14-MAIO-2021

Considerado um dos mais promissores valores da musica portuguesa  e uma das suas grandes revelações, Frederico BC ao mesmo tempo que prepara o lançamento daquele que será o seu terceiro disco de originais, vai actuar em Maio próximo, mais concretamente ano dia 14 no auditório do Casino Estoril, onde irá interpretar canções dos seus dois álbuns anteriores e destapar um pouco o véu quanto a temas do próximo disco; a este concerto seguir-se outro mais no dia 21 do mesmo mês no auditório Carlos Paredes, em Benfica, no edifício da Junta de freguesia.

Entretanto a mesma RTP lançou na sua nova plataforma – Palcos um documentário sobre o último disco do cantor, que mostra os bastidores de todas as gravações deste álbum que conta com mais de meia centena de pessoas envolvidas, um programa onde se ficou a conhecer melhor este jovem valor da musica portuguesa que de degrau em degrau, vai subindo a pulso uma carreira que se prevê de grande sucesso dentro de algum tempo; o seu valor e qualidade falam por si…

 

ROGÉRIO CHARRAZ

Com edição marcada para 26 de Fevereiro próximo, “O Coreto” é um disco com o país lá dentro; uma história contada em forma de canções.
Até agora foram já lançados dois singles deste projecto que promete ser um dos lançamentos mais marcantes da música portuguesa em 2021:
Abaladiça que foi um dos 20 vencedores, de entre mais de 40 temas a concurso, da iniciativa Inéditos Vodafone.

-“Quando nós formos velhinhos”, que conta com a participação de Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho no videoclipe.

Entretanto vai também surgir  a 23 de Março próximo o concerto de apresentação do mesmo disco que é o mais recente trabalho de Rogério Charraz, com letras de José Fialho Gouveia; tal como acontece no disco, as canções do espectáculo contam a história dos personagens Sebastião e de Ana, a partir do momento em que ele decide deixar a grande cidade e tentar a vida na aldeia.
O concerto contará com a participação especial de Luísa Sobral, que é também responsável pela produção musical deste novo projecto.
(Bilhetes já à venda em Bol.pt , Teatro da Trindade  e nos locais habituais ao preço único de 18€)