Novos Arquivos do Fado – Lisboa e as Fadistas é uma edição da Tradisom dedicada à relação profunda entre Lisboa, o Fado e as mulheres que marcaram a história deste género musical.
Lisboa e os seus bairros, as suas sete colinas, os lugares pitorescos e o rio Tejo que a envolve são cantados em muitos géneros musicais, mas o Fado é, sem dúvida, maioritário, seguindo-se as marchas populares, que saíram à rua a partir de 1932. Em cada ano escrevem-se centenas de poemas sobre Lisboa, sempre diversos, que versam o mesmo tema sem nunca se repetirem. Este acervo iconográfico dedicado à cidade, “musa inspiradora”, não impõe limites à imaginação e criatividade dos poetas e letristas. Curiosamente, muitos dos temas compostos para os concursos das marchas preenchem a métrica para Fado, passando posteriormente a ser cantados nas músicas dos Fados tradicionais.
Alfama, Mouraria, Madragoa, Bairro Alto, Bica ou Graça são mais do que cenários. As ruas estreitas, escadinhas, varandas, largos, pregões, procissões e vivências quotidianas dos seus habitantes alimentaram durante gerações o imaginário fadista. Lisboa transformou-se simultaneamente em palco, personagem e inspiração de milhares de composições. Também o Tejo ocupa um lugar privilegiado neste repertório, representando a partida e o regresso, a distância, a espera e a ligação da cidade ao mundo.
O Fado canta-se em tabernas e cafés de Lisboa há mais de 150 anos, desde o tempo em que Maria Severa – personagem lendária que viveu e morreu cedo demais para deixar gravações – cantava para o seu amante, o Conde de Vimioso. Foi uma relação amorosa que se tornou pública e chamou a atenção para este género musical, pois o Fado era visto, e continua a sê-lo, como “a música dos abandonados do amor”.
A ausência de registos sonoros da voz de Maria Severa contribuiu para aumentar a dimensão lendária da personagem. A Severa que chegou até nós foi sendo construída pela memória oral, literatura, teatro e, posteriormente, cinema. Mais do que sabermos exatamente como cantava, importa perceber aquilo que passou a representar: uma Lisboa popular, boémia, marginal e apaixonada, que encontrou no Fado uma forma própria de expressão.
Curiosamente, até aos anos cinquenta do século XX, os versos para Fados eram essencialmente escritos por homens para as mulheres cantarem, principalmente nas chamadas casas de Fado. As mulheres foram, assim, desde muito cedo protagonistas deste universo, mesmo quando as palavras que interpretavam eram maioritariamente escritas por homens. Através das suas vozes, porém, essas letras ganhavam novas dimensões, sendo apropriadas por cada fadista através da interpretação, do gesto e da emoção.
Com o passar do tempo, as mulheres conquistaram também um espaço crescente enquanto autoras, compositoras e criadoras. A história do Fado permite, por isso, acompanhar importantes transformações sociais ocorridas em Portugal. Das primeiras fadistas ligadas aos bairros populares às grandes figuras profissionais do século XX e às intérpretes contemporâneas, existe uma longa linha de continuidade e permanente renovação.
Quando o gramofone chegou a Portugal, no início do século XX, a música começou progressivamente a integrar-se na vida quotidiana. Os primeiros aparelhos e discos eram dispendiosos e acessíveis sobretudo às classes mais favorecidas, mas a gravação sonora introduziu uma transformação irreversível: pela primeira vez era possível conservar uma interpretação e voltar a ouvi-la muito depois de terminado o momento musical.
As primeiras gravações constituem hoje uma fonte extraordinária para conhecer a história do Fado. Os discos de 78 rotações permitem-nos escutar vozes, estilos interpretativos, repertórios e formas de acompanhamento que, sem o registo fonográfico, teriam desaparecido. A partir das décadas de 1920 e 1930, intérpretes, guitarristas e violistas deixaram uma memória sonora cada vez mais rica, documentando diferentes maneiras de cantar, tocar guitarra portuguesa e acompanhar as vozes.
É neste contexto que os arquivos sonoros e as coleções discográficas assumem uma importância fundamental. Preservar estes discos significa preservar documentos históricos. Cada gravação encerra informação sobre os músicos, a indústria fonográfica, os gostos do público e a própria sociedade portuguesa. A investigação, recuperação, digitalização e reedição destes registos permitem que um património originalmente destinado a desaparecer com o desgaste dos suportes continue acessível às gerações futuras.
Ao longo do século XX, nomes como Ercília Costa, Maria Alice, Hermínia Silva, Berta Cardoso e, naturalmente, Amália Rodrigues ajudaram a transformar a dimensão artística e social do Fado. Contudo, a sua história é igualmente feita por centenas de cantores, guitarristas, violistas, compositores e poetas menos conhecidos. Recuperar as suas gravações é também recuperar uma parte essencial da memória coletiva portuguesa.
Hoje, mais de um século depois das primeiras gravações, o Fado continua vivo e em permanente transformação. Mudam as vozes, os tempos e os lugares, mas Lisboa permanece no centro desta narrativa. Continuam a cantar-se as ruas, o Tejo, os amores, as partidas e a saudade. Em cada gravação histórica conserva-se um fragmento dessa cidade: uma voz, uma guitarra, um poema, uma maneira de falar e uma memória. Juntos, estes testemunhos constituem um extraordinário arquivo sonoro de Lisboa e da cultura portuguesa, ligando o passado ao presente e permitindo que as vozes de outras épocas continuem a ser ouvidas.
















