JOSÉ CID – o apogeu

JOSÉ CID

JOSÉ CID
o apogeu

Há já quase cinquenta anos atrás José Cid proclamava -“Onde quando como porquê cantamos pessoas vivas” e essa exclamação/título de disco seria o prenuncio de outras obras em que o fantástico, o espiritual e o sobrenatural seriam de novo temas por ele abordadas sobre a forma de texto; essa confirmação surgiu pouco depois com “10.000 anos depois entre Venus e Marte” e agora mais recentemente com a edição da obra máxima do cantautor português, nativo da Chamusca, recentemente galardoado em 2019 com o Grammy Latino de excelência musical, que assumindo aqui de vez a sua veia de músico de rock progressivo, com certa coragem, grande determinação e acima de tudo com  perfeito domínio do tema entrou, em termos de texto e inspirado por um quadro executado por sua mulher- a pintora timorense Gabriela Carrascalão, nos domínios  do sobrenatural, da vida extra-vida e da reencarnação afirmando convictamente:- “…Um dia, mortos gastos, voltaremos/ a viver livres como os animais/ e mesmo tão cansados floriremos/ irmãos vivos do mar e dos pinhais”…

“Vozes do além”, é um trabalho verdadeiramente antológico de grande e profundo brilhantismo a nível de texto e também de grande envergadura melódica e sonora em que a nível literário José Cid  adiccionou às suas palavras também a colaboração poética de gente nacional como Sophia de Mello Breyner Andresen, Natália Correia, Tó Zé Brito, Inês Menezes, Manuel Lamas e Fernanda de Castro, entre outros mais,  o cantautor português, a cantar melhor que nunca e numa forma vocal esplendida ousou aqui de novo renovar a sua grande admiração por uma figura da literatura mundial dona e senhora de uma qualidade poética invulgar e a quem já em tempos havia dedicado um álbum, um autor de quem aqui canta duas peças de extraordinária beleza e profundidade:- o mítico  e malogrado Federico Garcia Lorca, selvática e barbaramente assassinado pelos esbirros da policia politica do cruel  e déspota general Franco, castelhano colaborador e compincha de dois criminosos de guerra nazis no período da segunda grande guerra entre 1939 e 1945– o sinistro e demoníaco vampiro austríaco Adolfo Hitler e  o fascista ditador italiano Benito Mussolini :-“…meu grito ecoa no vento/ na tristeza de um cipreste/ tudo acabou no meu mundo/ só me ficou o silêncio”; de realçar ainda um pormenor de grande significado para o cantautor português pois o disco inclui também uma peça literária da autoria de uma  verdadeira lenda -o  mítico editor de música popular portuguesa dos anos 60 e 70– o grande nortenho Arnaldo Trindade, notável e destemido responsável pela edição de trabalhos de gente como por exemplo o próprio José Cid, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho ou José Afonso, todos eles quase sempre na mira da asquerosa policia politica nacional- a PIDE/DGS que no seu texto intitulado “Vou-te amar para além da morte” clama:- “…vou-te amar para além da morte/sem teres de partir/ no vai-vem da sorte”.

Autêntica obra-prima do rock progressivo português actual onde sobressai ao de leve também uma certa expressão musical de índole jazzística e constituindo o quarto projecto nesta área especifica, o disco permite-nos um contacto mais profundo e visceral e um festivo reencontro com o maior compositor português dos últimos anos no domínio do pop/rock nacional, um homem que estou certo, apesar dos seus 79 anos de idade, ainda vai dar muito que falar e certamente conseguir de novo parir outros discos da envergadura deste notável ”Vozes do além”, a obra maior de uma carreira de grande brilhantismo!!!

JOSÉ CID

Triplo vinil e duplo CD – Edição de autor