Meus Olhos Van Per Lo Mar é uma edição do Coral Dinamene que ocupa um lugar muito particular no catálogo da Tradisom, pela forma como cruza a música portuguesa com a realidade cultural de Macau. O título do disco, retirado de uma das peças que o integram, evoca simbolicamente o olhar português lançado sobre o mar e sobre os caminhos que, ao longo dos séculos, levaram sucessivas gerações lusitanas até terras longínquas do Oriente.
Mais do que um simples registo coral, Meus Olhos Van Per Lo Mar representa um testemunho musical de encontro, memória e pertença. O Coral Dinamene, integrado numa realidade tão singular como a de Macau, procurou deixar, através desta gravação, um contributo para a divulgação de um dos aspetos mais sensíveis da cultura portuguesa em terras orientais: a sua expressão musical, cantada em grupo, preservada pela voz e partilhada como património comum.
A escolha do repertório teve como principal preocupação a seleção de música portuguesa antiga e de raiz popular. Muitas das peças faziam já parte do percurso artístico do grupo, permitindo que esta edição funcionasse também como uma etapa natural da evolução do Coral Dinamene. A gravação de um disco é, para qualquer grupo coral, uma forma de fixar trabalho, dedicação e identidade. Neste caso, é também uma forma de documentar a presença viva da música portuguesa num território marcado pelo encontro de culturas.
O repertório de Meus Olhos Van Per Lo Mar revela uma grande diversidade de ambientes musicais. Ao lado de temas de inspiração popular, surgem peças de carácter palaciano e religioso, algumas interpretadas por coros reduzidos, respeitando a natureza original desse tipo de música. Esta opção dá ao disco uma variedade expressiva que permite ao ouvinte atravessar diferentes épocas, contextos e formas de canto.
Entre as peças interpretadas encontram-se temas como “Alma Minha Gentil”, “Bastiana”, “Acordai”, “Tia Anica”, “Vira Beirão”, “A Machadinha”, “Ó Limão, Verde Limão”, “Os Olhos da Marianita”, “Vira do Minho”, “O Coletinho”, “Digo-dai”, “João Barandão” e “O Milho da Nossa Terra”. Estes títulos remetem para diferentes tradições, regiões e ambientes da música portuguesa, mostrando a riqueza de um repertório transmitido ao longo do tempo pela prática coral e pela memória popular.
A edição inclui ainda peças de matriz antiga, palaciana e religiosa, como “Se do Mal Que Me Quereis”, “Já Não Podeis Ser Contentes”, “Venid a Suspirar”, “A La Villa Voy”, “No Andes Tan Aborrido”, “Ay Mi Dyo”, “Laetatus Sum”, “Aestimatus Sum” e “Regina Coeli”. Esta combinação entre o popular, o antigo e o sacro confere ao disco uma dimensão histórica e cultural que vai muito além da simples interpretação musical.
Meus Olhos Van Per Lo Mar é também uma edição importante para quem se interessa pela presença portuguesa em Macau. Através da música, percebe-se como uma comunidade preserva referências, afetos e formas de expressão mesmo longe do território de origem. O canto coral torna-se, aqui, uma ponte entre memória e lugar, entre Portugal e o Oriente, entre tradição e vivência coletiva.
Editado originalmente na década de 1990, o álbum mantém-se disponível nas plataformas digitais, com 24 faixas e uma duração aproximada de 48 minutos. Esta permanência permite que novas gerações descubram o trabalho do Coral Dinamene e compreendam melhor a importância de registos que documentam a circulação da cultura portuguesa pelo mundo.
Para a Tradisom, Meus Olhos Van Per Lo Mar representa uma edição coerente com a missão de preservar e divulgar patrimónios musicais ligados à tradição, à memória e à identidade. É um disco para ouvir como documento artístico, mas também como testemunho cultural de uma época, de uma comunidade e de uma relação histórica entre Portugal, Macau e o mar.








