Memórias do Fado – Ercília Costa é uma edição dedicada a uma das figuras mais marcantes, carismáticas e decisivas da história do Fado. Considerada por muitos como a primeira grande estrela do género, Ercília Costa ocupa um lugar singular na memória musical portuguesa. A sua importância não resulta apenas da popularidade que alcançou em Portugal, mas também da projecção internacional que conseguiu afirmar numa época em que poucos artistas portugueses ultrapassavam fronteiras com verdadeiro impacto. Nos anos 30 do século XX, Ercília Costa tornou-se um nome incontornável, uma referência absoluta do Fado e uma das intérpretes mais admiradas do seu tempo.
A sua ascensão artística coincidiu com um período crucial para a consolidação do Fado enquanto expressão cultural de grande alcance popular. Foi uma época em que o género deixava progressivamente de estar circunscrito a determinados meios e passava a conquistar novos palcos, novos públicos e novos meios de difusão. Ercília Costa soube ocupar esse espaço com uma personalidade artística muito própria, impondo-se pela voz, pela presença e pela maneira profundamente singular como interpretava o repertório fadista. Havia nela uma força expressiva imediata, uma solenidade natural e uma intensidade emocional que deixavam marca em quem a escutava. Não tardou, por isso, a tornar-se um nome amplamente reconhecido e admirado.
A sua participação nas primeiras emissões de rádio é um dos sinais mais evidentes da relevância que já então lhe era atribuída. Ercília esteve presente nas emissões realizadas no CT1AA, estação de Abílio Nunes dos Santos Júnior, amador português de rádio, situada nos Armazéns do Chiado, em Lisboa, com início em 1925. Este dado é particularmente significativo, porque coloca a artista num momento pioneiro da história da radiodifusão em Portugal. Estar ligada a essas primeiras experiências radiofónicas significa participar num novo capítulo da divulgação musical, num tempo em que a rádio começava a transformar profundamente a relação entre os intérpretes e o público. Ercília Costa foi, assim, uma das vozes que ajudaram a fazer essa passagem entre a presença física da canção e a sua difusão à distância, contribuindo para alargar o alcance do Fado e para reforçar a sua presença no imaginário colectivo.
Em 1925, Ercília já era conhecida a nível nacional. Esse reconhecimento precoce demonstra a força do seu talento e a rapidez com que a sua arte conquistou ouvintes e admiradores. Não era apenas mais uma cantadeira de Fado: era uma intérprete com identidade muito própria, com um estilo inconfundível e com uma presença que deixava impressão duradoura. Os seus inúmeros admiradores atribuíram-lhe o cognome de “A Santa do Fado”, designação que atravessou o tempo e que permanece até hoje como uma das marcas mais fortes da sua imagem pública. O nome não surgiu por acaso. Resultava da forma muito pessoal como se apresentava em palco, cantando quase sempre de mãos postas, como se estivesse a fazer uma prece. Esse gesto, aliado à sua expressão concentrada e à intensidade emotiva da sua interpretação, conferia-lhe uma aura especial, quase ritual, que o público reconhecia e venerava.
Essa imagem de recolhimento, solenidade e entrega ajudou a construir uma figura singular no universo fadista. Ercília Costa parecia transformar cada interpretação num acto de devoção, elevando o Fado a um plano de emoção profunda e quase espiritual. A designação de “A Santa do Fado” traduz, por isso, não apenas uma aparência cénica, mas também a forma como a artista era sentida por quem a escutava. Havia nela qualquer coisa de tocante, de grave e de verdadeiro, que fazia com que a sua voz parecesse vir de um lugar de grande interioridade. O público não a admirava apenas: comovia-se com ela.
A carreira de Ercília Costa como cantadeira de Fado no teatro iniciou-se em 1927, no Teatro da Trindade, onde cantou em dueto com Alberto Reis. Esta estreia assinala um momento decisivo no seu percurso, pois o teatro representava então um espaço privilegiado de afirmação artística, de visibilidade pública e de consagração. O facto de iniciar ali a sua carreira teatral confirma que Ercília já reunia qualidades raras e já despertava expectativas elevadas. O palco permitiu-lhe ampliar a sua projecção, consolidar a relação com o público e afirmar-se como uma figura de grande relevo no panorama do Fado. A partir daí, o seu nome passaria a estar ligado não apenas ao canto, mas também ao espectáculo, à cena e à construção de uma presença artística de grande impacto.
O percurso de Ercília Costa confirma, assim, a emergência de uma nova dimensão do Fado no início do século XX: a do intérprete que se torna figura pública, estrela admirada e símbolo de uma sensibilidade colectiva. O seu êxito internacional reforça ainda mais essa condição. Entre as grandes vozes do Fado dos anos 30, foi seguramente uma das que mais longe levou o nome da canção portuguesa. Numa época em que as possibilidades de circulação eram muito mais limitadas do que hoje, essa dimensão internacional revela a excepcionalidade do seu percurso e o fascínio que a sua arte exercia.
Esta edição integra uma colecção de seis livro-CD, em formato de capa dura, dedicada a grandes figuras históricas do Fado. Trata-se de uma série de grande valor patrimonial, que reúne registos sonoros raros e fundamentais para o conhecimento da história do género. Os materiais aqui apresentados foram extraídos da extraordinária colecção de discos de 78 rotações de José Moças, um acervo de enorme importância histórica e documental, recentemente incorporado no património da Universidade de Aveiro, por doação do próprio coleccionador. Essa incorporação garante a salvaguarda de um espólio de grande riqueza e permite que gravações antes acessíveis apenas a um círculo restrito possam agora ser conhecidas e valorizadas por um público mais vasto.
As gravações documentadas neste volume foram todas registadas nas primeiras décadas do século XX, período decisivo para a fixação discográfica do Fado. O seu valor é, por isso, imenso: são documentos sonoros que preservam vozes, modos de interpretação, ambientes e sensibilidades de um tempo fundador. A recuperação desses registos exigiu um trabalho técnico de grande exigência, levado a cabo por um dos melhores especialistas do mundo nesta área, o galego José Navia, responsável pela transcrição e remasterização. O resultado permite escutar estas gravações com nitidez e respeito pela sua autenticidade original, devolvendo-lhes presença e qualidade sem lhes retirar a marca histórica.
Memórias do Fado – Ercília Costa é, assim, muito mais do que uma simples compilação de gravações antigas. É uma homenagem a uma artista maior, um retrato sonoro de grande força histórica e um contributo essencial para a preservação da memória fadista. Neste volume, reencontramos a voz, a postura e a emoção de uma intérprete que ajudou a definir o Fado moderno e que permanece como uma das suas figuras mais simbólicas. Escutar Ercília Costa é regressar a uma época decisiva, mas é também reconhecer que certas vozes nunca deixam de falar ao presente.




















