Memórias do Fado – Cantadeiras de Lisboa é uma edição que homenageia um conjunto de vozes femininas fundamentais para a afirmação, divulgação e prestígio do Fado nas primeiras décadas do século XX. É sobretudo na década de 1930 que o Fado conquista uma popularidade sem precedentes, consolidando-se como uma das expressões mais marcantes da cultura musical portuguesa. Esse crescimento deve-se, em grande parte, ao talento, à presença e à força interpretativa de cantadores e cantadeiras que souberam elevar o género, conferindo-lhe uma dignidade artística e uma profundidade emocional que conquistaram públicos cada vez mais vastos. Entre essas figuras, as cantadeiras de Lisboa assumem um papel central, deixando os seus nomes inscritos na História do Fado e tornando-se referências incontornáveis para sucessivas gerações de intérpretes e admiradores.
Nesta edição, é dado especial relevo a algumas dessas artistas, cujo percurso contribuiu decisivamente para o reconhecimento e a difusão do Fado enquanto património musical e sentimental. Entre os nomes aqui reunidos destacam-se Dina Tereza, Maria Silva, também conhecida por Mariasinha, Ermelinda Vitória, Maria Emília Ferreira, Maria do Carmo, Celestina Luísa, Adelina Fernandes, Maria do Carmo Torres e Madalena de Melo. Cada uma destas cantadeiras trouxe ao Fado uma identidade própria, uma forma singular de cantar e uma presença artística que marcou o seu tempo. Umas distinguiram-se pela expressividade dramática, outras pelo timbre inconfundível, pela intensidade interpretativa ou pela elegância com que souberam dar voz aos sentimentos mais profundos da canção fadista. Em comum, tiveram a capacidade de tocar o público, de construir carreiras memoráveis e de transformar o Fado numa linguagem de emoção partilhada.
Ao reunir estas vozes, Memórias do Fado – Cantadeiras de Lisboa não se limita a recuperar um repertório antigo. Esta edição assume-se como um verdadeiro gesto de memória, valorização patrimonial e restituição cultural. O ouvinte e o leitor são convidados a regressar a um tempo decisivo da história do Fado, escutando registos que testemunham não apenas a qualidade vocal e artística destas intérpretes, mas também o ambiente sonoro, a sensibilidade e o universo estético de uma época em que o Fado se afirmava com nova força no espaço público, nos palcos, nos discos e no imaginário popular. Trata-se, por isso, de uma obra que interessa tanto aos estudiosos e coleccionadores como ao público em geral, sobretudo a quem deseja conhecer mais profundamente as raízes do género e compreender o papel das mulheres na sua consolidação.
Esta edição integra uma colecção de seis livro-CD, em formato de capa dura, pensada para unir o prazer da escuta ao valor documental e editorial do livro. Não se trata apenas de disponibilizar gravações históricas: trata-se de lhes dar enquadramento, permanência e dignidade material. O objecto editorial foi concebido para ser simultaneamente uma peça de colecção, uma fonte de consulta e um convite à descoberta. A solidez do formato, a articulação entre texto e som e a recuperação cuidada dos materiais fazem desta colecção um contributo relevante para a preservação e divulgação da memória discográfica portuguesa.
Os registos aqui apresentados foram extraídos da extraordinária colecção de discos de 78 rotações de José Moças, um acervo de enorme importância histórica e patrimonial, recentemente incorporado no património da Universidade de Aveiro por doação do próprio coleccionador. Essa origem confere à edição um valor acrescido, pois coloca ao alcance do público gravações raras e historicamente significativas, que de outro modo permaneceriam acessíveis apenas a especialistas ou a circuitos muito restritos. Ao transformar esses documentos sonoros em edição cuidada e contextualizada, a Tradisom reforça o seu papel na salvaguarda do património musical português, tornando audível e compreensível uma parte essencial da nossa história cultural.
As gravações reunidas em Memórias do Fado – Cantadeiras de Lisboa foram registadas nas primeiras décadas do século XX, período crucial para a fixação discográfica do Fado e para a construção de muitas das suas referências interpretativas. Escutá-las hoje é entrar em contacto directo com a matéria viva da tradição, com as vozes que ajudaram a definir o género e com a sensibilidade de um tempo em que a gravação sonora começava a desempenhar um papel decisivo na circulação da música. Estes registos, marcados pela passagem do tempo, chegam até nós através de um exigente trabalho técnico de transcrição e remasterização, levado a cabo por um dos melhores especialistas do mundo nesta área, o galego José Navia. O seu trabalho permite preservar a autenticidade das interpretações, respeitando o carácter original das gravações, ao mesmo tempo que lhes restitui clareza, presença e qualidade de escuta.
O resultado é uma edição de grande relevância artística, documental e patrimonial. Mais do que uma simples antologia, este volume é um retrato sensível de algumas das mulheres que ajudaram a moldar o Fado e a levá-lo a um público cada vez mais amplo. São vozes que resistiram ao tempo, que atravessaram décadas e suportes, e que ainda hoje mantêm a capacidade de emocionar, surpreender e revelar a força de uma tradição musical profundamente enraizada na experiência urbana, popular e afectiva de Lisboa.
Memórias do Fado – Cantadeiras de Lisboa é, assim, uma obra indispensável para quem deseja conhecer o Fado nas suas fontes mais genuínas, escutar algumas das suas intérpretes mais marcantes e compreender como a história do género foi também escrita por mulheres que, com talento e personalidade, conquistaram o seu lugar entre os grandes nomes da música portuguesa. Ao recuperar e valorizar estas gravações históricas, esta edição presta homenagem às artistas que dignificaram o Fado, amplia o conhecimento sobre a sua evolução e oferece ao presente a possibilidade de reencontrar um património sonoro de excepcional importância.



















