Maria Alice – A Voz do Povo (1929-1931)
Maria Alice – A Voz do Povo (1929-1931) recupera algumas das primeiras gravações de uma das vozes marcantes do Fado português das primeiras décadas do século XX. Maria Alice, nome artístico adotado pela jovem Glória Mendes Leal de Carvalho, tinha apenas vinte e cinco anos quando realizou, em 1929, parte dos registos sonoros agora reunidos nesta edição. Estas gravações permitem-nos não só reencontrar a voz de uma importante fadista, mas também conhecer melhor o Portugal social, político e cultural em que estas canções foram interpretadas.
O ano de 1929 encontrava Portugal num período de profunda transformação. António de Oliveira Salazar era ainda Ministro das Finanças no governo liderado por Artur Ivens Ferraz. O Partido Comunista entrava na clandestinidade, era permitida a entrada em Portugal das ordens religiosas anteriormente expulsas e começavam a lançar-se as bases da União Nacional, que viria posteriormente a transformar-se no partido único do Estado Novo. Movimentos revolucionários, prisões e deportações marcavam uma sociedade politicamente instável, poucos anos depois do golpe militar de 1926.
É neste contexto que devemos escutar as primeiras gravações de Maria Alice. O Fado não existia isolado da sociedade que lhe dava origem. Nas suas letras encontramos sentimentos individuais, mas também representações dos papéis sociais, das desigualdades, dos valores e das preocupações de uma determinada época.
Maria Alice e a condição feminina no Fado
Um dos aspetos mais relevantes destas gravações é precisamente a forma como surge representada a mulher na sociedade portuguesa. Maria Alice canta frequentemente o papel desfavorecido da mulher, num repertório onde o amor não correspondido, o abandono, a desgraça e a associação entre a condição feminina e o destino trágico ocupam uma posição dominante.
Em onze dos vinte fados apresentados nesta edição encontramos temas diretamente relacionados com este universo. A mulher aparece frequentemente confrontada com a perda, a impossibilidade amorosa ou as limitações impostas pela sociedade. Cantadas por uma voz feminina, estas palavras ganham uma dimensão particularmente expressiva e constituem hoje documentos importantes para compreender não apenas a história do Fado, mas também determinadas representações da mulher na cultura portuguesa das primeiras décadas do século XX.
Os restantes fados apresentam temáticas literárias diversificadas, embora o amor e a sua ausência continuem presentes. Na faixa nove, por exemplo, O Louco inverte parcialmente esta perspetiva ao apresentar um homem que chora o amor que lhe é negado. O sofrimento amoroso surge, assim, como experiência universal e como uma das matérias-primas fundamentais da poética fadista.
Lisboa, Coimbra e a Voz de Portugal
Estas gravações permitem ainda observar o contacto cultural existente entre as tradições de Lisboa e Coimbra. O Fado nunca se desenvolveu dentro de fronteiras absolutamente fechadas e os repertórios, músicos e influências circularam entre diferentes espaços.
Na faixa quinze, Voz de Portugal, encontramos um exemplo particularmente interessante. Numa atitude de exaltação nacional, estabelece-se uma comparação entre o fado do Mondego, “cantado por noite fora”, e o universo da Severa e da Mouraria. A momentânea picardia entre Coimbra e Lisboa acaba por ser ultrapassada por um sentimento de unidade: ambos os fados são apresentados como manifestações de uma mesma Voz de Portugal.
Esta dimensão nacional encontra paralelo noutras composições. No Fado Alexandrino, presente na faixa sete, canta-se o próprio nascimento do Fado em Portugal. A música transforma-se, desta forma, simultaneamente em objeto e tema da canção, ajudando a construir uma narrativa sobre as suas origens e a sua importância na identidade cultural portuguesa.
Um retrato sonoro de uma época
O imaginário romântico encontra-se profundamente representado neste conjunto de gravações. O amor não correspondido, as agruras da vida, a miséria, a tristeza, a exaltação da nação, a valorização da música e do canto e até a evocação da paisagem rural constituem elementos recorrentes.
Hoje, estas gravações possuem um valor que ultrapassa largamente a sua dimensão musical. Os antigos discos são verdadeiros documentos históricos. Através deles podemos conhecer modos de cantar, técnicas de acompanhamento, repertórios, pronúncias e sensibilidades artísticas de uma época que de outra forma apenas conheceríamos através de fontes escritas.
A recuperação e preservação destes fonogramas permite também devolver protagonismo a intérpretes fundamentais para a construção da história do Fado. Antes da consolidação das grandes estrelas que marcariam as décadas seguintes, existiu uma geração de fadistas que encontrou na nascente indústria discográfica uma nova forma de fazer chegar a sua voz ao público.
Maria Alice pertence a essa geração. As suas gravações documentam um período decisivo em que o Fado começava a fixar-se em disco e a ultrapassar os espaços onde era interpretado presencialmente.
Preservar a memória de Maria Alice
Maria Alice – A Voz do Povo (1929-1931) constitui, por isso, muito mais do que uma coleção de fados históricos. É um testemunho sonoro de Portugal no final da década de 1920 e início da década de 1930, permitindo escutar uma sociedade através das palavras, sentimentos e preocupações que encontravam expressão nas suas canções.
Ao recuperar estas gravações, a Tradisom procura preservar e tornar acessível uma parte essencial da memória do Fado português, permitindo que a voz de Maria Alice volte a ser ouvida quase um século depois dos seus primeiros registos.
Escutar estes vinte fados é regressar a um período fundamental da história da música portuguesa e descobrir uma intérprete cuja voz nos transporta para uma Lisboa onde amor, sofrimento, condição feminina, identidade nacional e vida quotidiana se encontravam profundamente ligados ao Fado.















