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Muita gente, especialmente aqueles para quem o desporto-rei futebol não é um assunto de primordial importância, nem suscita grande interesse, desde há já muitos anos atrás conhecia Neno pelo significativo cognome de Julio Iglésias português, não só por causa da sua grande paixão pelo celebre artista espanhol e pelas suas canções, mas também pela quase perfeita imitação que sempre dele fazia cada vez que actuava em festas de amigos, programas de TV ou mesmo em espectáculos de outros artistas; por isso mesmo, e daí, o apelido com que era, reconhecida e carinhosamente, tratado em qualquer lugar de Portugal. Porém, este verdadeiro embaixador da alegria e da boa disposição, nativo de Cabo Verde, não se tornou só conhecido no mundo musical nacional onde chegou mesmo até a gravar um disco em 1996 para a então editora BMG, um projecto em que emprestou a sua voz para interpretar sucessos de artistas espanhois como José Maria Cano (do grupo Mecano) e de Miguel Bosé, do brasileiro Roberto Carlos e dos portugueses Paulo de Carvalho, Tó Zé Brito, Ramon Galarza, José Cid e Antonio Manuel Ribeiro, entre outros, pois era muito mais conhecido e verdadeiramente famoso e idolatrado no mundo do futebol nacional onde se consagrou como um dos melhores guarda-redes dos últimos anos, defendendo as cores e as balizas de clubes como o Barreirense, o Vitoria de Setubal, o Benfica (onde conquistou os maiores triunfos da sua carreira desportiva que incluiram campeonatos e Taças de Portugal) e o Vitória de Guimarães, emblema onde nos últimos tempos era uma espécie de embaixador do clube, isto já depois de posteriormente, após terminar a sua carreira como jogador, ter exercido lá na cidade-berço as funções de treinador-adjunto, preparador dos guarda-redes, relações publicas, etc. ; como corolário das suas grandes capacidades e qualidades como atleta e jogador de eleição chegou também a defender por diversas vezes também as cores da Selecção Nacional portuguesa, sendo por todos os companheiros de profissão reconhecido como o grande animador de serviço dos mais diversos balneários por onde passou quer nos dos clubes, quer no da própria selecção, pela sua maneira de ser única, alegre, franca, jovial, por vezes até um pouco apalhaçada e divertida com que sempre se apresentava e que constituía mesmo a sua grande e inconfundível imagem de marca pessoal! Amigo de toda a gente, verdadeiro galã à moda antiga, chegando mesmo muitas vezes a ser confundido com alguns actores de cinema tal o seu carisma e beleza, sempre extremamente simpático, era um verdadeiro gentleman, super educado e gentil e era também para muita gente, em especial para muitos desfavorecidos da sorte, que nunca deixava sem uma palavra ou uma oferta monetária e também muitos miúdos sem recursos, quer de Portugal, quer da sua terra natal, um verdadeiro ídolo e acima de tudo um grande e contínuo benfeitor; recordo por exemplo os primeiros tempos da nossa longa amizade, quando durante anos fui “speaker” no antigo Estádio da Luz ( onde a equipa do Benfica treinava e jogava) essa sua pessoal faceta de benemerência e em certo sentido de sempre se constituir como um ser humano muito especial e por vezes despojado de bens materiais, pois muitas vezes, e aquando de renovação do seu contrato de publicidade e exclusividade desportiva (tinha contrato salvo erro com a Adidas), prescindir do dinheiro a que tinha legitimamente direito para que a importância que lhe era devida fosse transformada em material desportivo, o actualmente chamado merchandising, especialmente algum daquele com pequeniníssimos defeitos e por isso mesmo muito menos valioso tal como luvas, camisolas, meias, calções, etc. que ele quando o recebia, de imediato enviava para Cabo Verde para ser distribuído pela população mais pobre e desse modo assim conseguir presentear muita da miudagem local, sem possibilidades económicas para comprar o material desportivo com o qual pudesse praticar o seu sonho:- jogar futebol. A nossa amizade prolongou-se por muitos e muitos anos, tendo nós feito até, e a nível de casais, férias em Maceió e algumas zonas limítrofes, no Brasil, afinal o país de naturalidade de sua esposa – a nordestina Simone; e essa amizade era tal, que raramente em viagens do Benfica ao estrangeiro, esta não significava a adição de um novo elefante para a minha colecção particular (actualmente já quase nos dois mil exemplares), que o Neno fazia sempre questão de adquirir, em cerâmica, marfim ou madeira para cá me depois me oferecer… Por causa da sua referida adoração por Júlio Iglesias, ( que curiosamente e antes de ser cantor foi guarda-redes júnior do Real Madrid) um dos seus sonhos maiores era conhecer pessoalmente o próprio artista espanhol e por isso mesmo foi com imenso prazer e para grande surpresa sua, que eu lhe consegui proporcionar a realização desse sonho quando um dia o levei a conhecê-lo, pois tinha possibilidades para isso porque na altura trabalhava como director de promoção na CBS, mais tarde Sony Music e era eu próprio que tinha a responsabilidade de organizar a agenda promocional do cantor em termos de rádio, imprensa e TV, enquanto ele estivesse em Portugal para lançar discos ou para actuar ao vivo; à concretização desse primeiro sonho tive a possibilidade mais tarde de conseguir concretizar-lhe outro:- a hipótese de Neno cantar com Júlio Iglesis num mesmo palco e esse sonho acabou por tornar-se realidade até por duas vezes distintas:- uma primeira vez no Estádio do Bessa, no Porto e uma segunda no Estádio Dr. Mário Vieira de Carvalho, na Maia, no ano seguinte, tendo neste concerto a dupla tido um “reforço” no palco:- a companhia do radiofónico António Sala, trio que acabou por interpretar em conjunto a conhecida “Coimbra” do grande Raul Ferrão; dois momentos que Neno, visivelmente feliz e realizado, considerava únicos e dos melhores e mais inesquecíveis da sua vida… Num desses concertos Júlio Iglésias presenteou-o no final, já no camarim, com um casaco seu e com um par de sapatos, estes especialmente feitos de encomenda em Espanha de pele super fina e macia; e o que fez o bom do Neno após esta verdadeira dádiva, caída dos céus? Pois, passados uns dias mandou fazer uma série de cópias desse mesmo par de sapatos, cópias com as quais passou a presentear de vez em quando, alguns dos seus amigos mais chegados! Eu próprio acabei contemplado, pese embora o facto de ele saber que eu tinha também dois pares oferecidos anteriormente pelo próprio cantor espanhol… Mas a nossa amizade prolongou-se para lá do Benfica e durante muitos anos, sendo inclusivamente habitual tomarmos um café juntos, ou mesmo o pequeno almoço até, nas manhãs de sábado ou de domingo, consoante o dia do jogo, no hotel em que habitualmente se hospedava a comitiva do Guimarães sempre que a equipa vinha jogar a Lisboa, momentos que ele muitas vezes aproveitava para me presentear geralmente com camisolas do clube que representava; foi até um momento extremamente sensibilizador para mim, quando um dia me ofereceu o seu disco, que até hoje guardo religiosamente na minha colecção, em ele colocou a seguinte dedicatória:- “…Para o mano João Afonso, com um abração muito forte deste mano que te adora- Neno”!!! Pois foi este mesmo genuíno e inesquecível e Neno, de seu verdadeiro nome Adelino Augusto Graça Barbosa Barros, nascido na cidade da Praia, em Cabo Verde há 59 anos, o atleta exemplar, o comunicador nato, o homem que habitualmente se apresentava impecavelmente vestido e perfumado, sempre armado de sorriso nos lábios e de uma palavra amiga e que actualmente se confundia mesmo com a terra onde escolhera viver, tal a sua identificação com a cidade-berço, com o clube local e especialmente com as suas gentes, que agora, repentinamente, nos deixou, vitimado por doença súbita ocorrida em sua casa, sem que, pelo menos entre nós os dois, nos tivéssemos poder despedir pessoalmente, nós que até tínhamos há dias combinado telefonicamente almoçar ainda antes do final do mês, uma vez que as limitações da pandemia se amenizaram um pouco, estadia essa que ele iria aproveitar para tratar de vários assuntos pessoais e assinar uma série de camisolas que ele anteriormente envergara e agora são propriedade de um grande amigo meu (o Paulo José) que é também um dos maiores , ou até mesmo o maior, coleccionador de camisolas desportivas em Portugal… Partiu um homem bom, possivelmente, e para além ainda do meu “irmão” espanhol Patxi Andion, o melhor ser humano que conheci na minha vida, que fazia favor de se constituir o meu irmão africano vivo, tal como havia sido em vida o “rei” Eusébio, um ser humano de uma dimensão gigante, estratosférica mesmo, sempre disponível, de uma grandeza brutal e que além de ter sido um personagem incontornável do futebol português, era um homem de grande generosidade, partilha e camaradagem que acabou por marcar de forma indelével todos aqueles que com ele tiveram a sorte e felicidade de privar e que por isso mesmo, estou certo, nos vai fazer falta, muita, muita falta! Desaparecido este verdadeiro “príncipe de Cabo Verde”, resta-nos a lembrança do seu inconfundível sorriso, da sua gargalhada espontânea, leal e sincera, predicados que sempre foram apanágio deste proprietário de um coração do tamanho do cosmos ; e resta-nos também o disco que há anos gravou e onde através de uma dúzia de composições deu largas à sua voz e às suas qualidades natas de interprete romântico, canções que afinal de contas acabam mesmo por constituir uma bela recordação e um valioso e raro testemunho vocal de um ser humano excepcionalmente exemplar, como há poucos na face de Terra e do qual todos já temos imensas, infinitas saudades; à sua querida esposa Simone e à sua filha Juliana e também ao Vitória de Guimarães, que se tem portado exemplarmente nas homenagens que lhe tem sabido prestar, endereço daqui as minhas mais sinceras e muito chorosas condolências! O Neno morreu, mas no entanto vai continuar pela nossa vida fora vivo, bem vivo nos nossos corações! Paz á tua alma, meu irmão!