{"id":467,"date":"2018-03-31T21:22:02","date_gmt":"2018-03-31T20:22:02","guid":{"rendered":"https:\/\/tradisom.com\/\/?post_type=product&#038;p=467"},"modified":"2026-08-21T16:35:56","modified_gmt":"2026-08-21T15:35:56","slug":"maria-alice-a-voz-do-povo-1929-a-1931","status":"publish","type":"product","link":"https:\/\/tradisom.com\/en\/product\/maria-alice-a-voz-do-povo-1929-a-1931\/","title":{"rendered":"Novos Arquivos do Fado &#8211; Maria Alice"},"content":{"rendered":"<h2>Maria Alice \u2013 A Voz do Povo (1929-1931)<\/h2>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Maria Alice \u2013 A Voz do Povo (1929-1931)<\/strong> recupera algumas das primeiras grava\u00e7\u00f5es de uma das vozes marcantes do Fado portugu\u00eas das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Maria Alice, nome art\u00edstico adotado pela jovem <strong>Gl\u00f3ria Mendes Leal de Carvalho<\/strong>, tinha apenas vinte e cinco anos quando realizou, em 1929, parte dos registos sonoros agora reunidos nesta edi\u00e7\u00e3o. Estas grava\u00e7\u00f5es permitem-nos n\u00e3o s\u00f3 reencontrar a voz de uma importante fadista, mas tamb\u00e9m conhecer melhor o Portugal social, pol\u00edtico e cultural em que estas can\u00e7\u00f5es foram interpretadas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O ano de 1929 encontrava Portugal num per\u00edodo de profunda transforma\u00e7\u00e3o. Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar era ainda Ministro das Finan\u00e7as no governo liderado por Artur Ivens Ferraz. O Partido Comunista entrava na clandestinidade, era permitida a entrada em Portugal das ordens religiosas anteriormente expulsas e come\u00e7avam a lan\u00e7ar-se as bases da Uni\u00e3o Nacional, que viria posteriormente a transformar-se no partido \u00fanico do Estado Novo. Movimentos revolucion\u00e1rios, pris\u00f5es e deporta\u00e7\u00f5es marcavam uma sociedade politicamente inst\u00e1vel, poucos anos depois do golpe militar de 1926.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 neste contexto que devemos escutar as <strong>primeiras grava\u00e7\u00f5es de Maria Alice<\/strong>. O Fado n\u00e3o existia isolado da sociedade que lhe dava origem. Nas suas letras encontramos sentimentos individuais, mas tamb\u00e9m representa\u00e7\u00f5es dos pap\u00e9is sociais, das desigualdades, dos valores e das preocupa\u00e7\u00f5es de uma determinada \u00e9poca.<\/p>\n<h2>Maria Alice e a condi\u00e7\u00e3o feminina no Fado<\/h2>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um dos aspetos mais relevantes destas grava\u00e7\u00f5es \u00e9 precisamente a forma como surge representada a mulher na sociedade portuguesa. <strong>Maria Alice canta frequentemente o papel desfavorecido da mulher<\/strong>, num repert\u00f3rio onde o amor n\u00e3o correspondido, o abandono, a desgra\u00e7a e a associa\u00e7\u00e3o entre a condi\u00e7\u00e3o feminina e o destino tr\u00e1gico ocupam uma posi\u00e7\u00e3o dominante.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Em onze dos vinte fados apresentados nesta edi\u00e7\u00e3o encontramos temas diretamente relacionados com este universo. A mulher aparece frequentemente confrontada com a perda, a impossibilidade amorosa ou as limita\u00e7\u00f5es impostas pela sociedade. Cantadas por uma voz feminina, estas palavras ganham uma dimens\u00e3o particularmente expressiva e constituem hoje documentos importantes para compreender n\u00e3o apenas a hist\u00f3ria do Fado, mas tamb\u00e9m determinadas representa\u00e7\u00f5es da mulher na cultura portuguesa das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Os restantes fados apresentam tem\u00e1ticas liter\u00e1rias diversificadas, embora o amor e a sua aus\u00eancia continuem presentes. Na faixa nove, por exemplo, <strong>O Louco<\/strong> inverte parcialmente esta perspetiva ao apresentar um homem que chora o amor que lhe \u00e9 negado. O sofrimento amoroso surge, assim, como experi\u00eancia universal e como uma das mat\u00e9rias-primas fundamentais da po\u00e9tica fadista.<\/p>\n<h2>Lisboa, Coimbra e a Voz de Portugal<\/h2>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Estas grava\u00e7\u00f5es permitem ainda observar o contacto cultural existente entre as tradi\u00e7\u00f5es de <strong>Lisboa e Coimbra<\/strong>. O Fado nunca se desenvolveu dentro de fronteiras absolutamente fechadas e os repert\u00f3rios, m\u00fasicos e influ\u00eancias circularam entre diferentes espa\u00e7os.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Na faixa quinze, <strong>Voz de Portugal<\/strong>, encontramos um exemplo particularmente interessante. Numa atitude de exalta\u00e7\u00e3o nacional, estabelece-se uma compara\u00e7\u00e3o entre o fado do Mondego, \u201ccantado por noite fora\u201d, e o universo da Severa e da Mouraria. A moment\u00e2nea picardia entre Coimbra e Lisboa acaba por ser ultrapassada por um sentimento de unidade: ambos os fados s\u00e3o apresentados como manifesta\u00e7\u00f5es de uma mesma <strong>Voz de Portugal<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Esta dimens\u00e3o nacional encontra paralelo noutras composi\u00e7\u00f5es. No <strong>Fado Alexandrino<\/strong>, presente na faixa sete, canta-se o pr\u00f3prio nascimento do Fado em Portugal. A m\u00fasica transforma-se, desta forma, simultaneamente em objeto e tema da can\u00e7\u00e3o, ajudando a construir uma narrativa sobre as suas origens e a sua import\u00e2ncia na identidade cultural portuguesa.<\/p>\n<h2>Um retrato sonoro de uma \u00e9poca<\/h2>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O imagin\u00e1rio rom\u00e2ntico encontra-se profundamente representado neste conjunto de grava\u00e7\u00f5es. O amor n\u00e3o correspondido, as agruras da vida, a mis\u00e9ria, a tristeza, a exalta\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, a valoriza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica e do canto e at\u00e9 a evoca\u00e7\u00e3o da paisagem rural constituem elementos recorrentes.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Hoje, estas grava\u00e7\u00f5es possuem um valor que ultrapassa largamente a sua dimens\u00e3o musical. Os antigos discos s\u00e3o verdadeiros documentos hist\u00f3ricos. Atrav\u00e9s deles podemos conhecer modos de cantar, t\u00e9cnicas de acompanhamento, repert\u00f3rios, pron\u00fancias e sensibilidades art\u00edsticas de uma \u00e9poca que de outra forma apenas conhecer\u00edamos atrav\u00e9s de fontes escritas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A recupera\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o destes fonogramas permite tamb\u00e9m devolver protagonismo a int\u00e9rpretes fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Fado. Antes da consolida\u00e7\u00e3o das grandes estrelas que marcariam as d\u00e9cadas seguintes, existiu uma gera\u00e7\u00e3o de fadistas que encontrou na nascente ind\u00fastria discogr\u00e1fica uma nova forma de fazer chegar a sua voz ao p\u00fablico.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Maria Alice<\/strong> pertence a essa gera\u00e7\u00e3o. As suas grava\u00e7\u00f5es documentam um per\u00edodo decisivo em que o Fado come\u00e7ava a fixar-se em disco e a ultrapassar os espa\u00e7os onde era interpretado presencialmente.<\/p>\n<h2>Preservar a mem\u00f3ria de Maria Alice<\/h2>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Maria Alice \u2013 A Voz do Povo (1929-1931)<\/strong> constitui, por isso, muito mais do que uma cole\u00e7\u00e3o de fados hist\u00f3ricos. \u00c9 um testemunho sonoro de Portugal no final da d\u00e9cada de 1920 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, permitindo escutar uma sociedade atrav\u00e9s das palavras, sentimentos e preocupa\u00e7\u00f5es que encontravam express\u00e3o nas suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Ao recuperar estas grava\u00e7\u00f5es, a Tradisom procura preservar e tornar acess\u00edvel uma parte essencial da mem\u00f3ria do <strong>Fado portugu\u00eas<\/strong>, permitindo que a voz de Maria Alice volte a ser ouvida quase um s\u00e9culo depois dos seus primeiros registos.<\/p>\n<p>Escutar estes vinte fados \u00e9 regressar a um per\u00edodo fundamental da hist\u00f3ria da m\u00fasica portuguesa e descobrir uma int\u00e9rprete cuja voz nos transporta para uma Lisboa onde amor, sofrimento, condi\u00e7\u00e3o feminina, identidade nacional e vida quotidiana se encontravam profundamente ligados ao Fado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Alice \u2013 A Voz do Povo (1929-1931) Maria Alice \u2013 A Voz do Povo (1929-1931) recupera algumas das primeiras grava\u00e7\u00f5es de uma das vozes marcantes do Fado portugu\u00eas das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. 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