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JOSÉ BARROS/NAVEGANTE

Date: 2018-02-06 16:25

Há um velho ditado popular que diz que “ vale mais cair em graça, que ser engraçado!” Estranhamente, ou talvez não, nada é mais apropriado para se falar de um disco de musica popular tradicional , agora editado – “À´baladiça”, em que o seu autor é o mais perfeito exemplo de uma personalidade musical que, vá-se lá saber porquê, nunca conseguiu cair nas boas graças da maioria do grupo dos que “mandam”na música em Portugal, quer isso seja visto sob o prisma de editoras, de rádio, imprensa ou de televisão... Frequentemente, e já para não se falar das amaldiçoadas e cada vez mais discutíveis playlists, ouvem-se nas rádios, ditas portuguesas, canções e vozes de artistas a solo ou grupos, a quem nem com muito boa vontade se lhes pode reconhecer um mínimo de qualidade exigível para o tempo de antena que lhes é concedido, muitas vezes dia após dia, semana após semana, mês após mês... Vários artistas ou grupos atingem muitas vezes um patamar de sucesso alguns, mercê de cunhas ou conhecimentos, outros por terem umas carinhas larocas ( e aqui entram sem duvida em acção directa as preferências de beleza por parte das teenagers nacionais, que quase sempre enchem os locais dos concertos ao vivo) outros por esquisitos esquemas de marketing; se até para vários canais de televisão basta ter um corpinho engraçado ou uma cara bonita, ser ou ter sido modelo, para se tentar e muitas vezes conseguir-se ser candidato(a) a apresentador(a) imagine-se, como tudo seria se também em alguns casos existisse algum talento e não houvesse necessidade de usar as famigeradas cunhas, nem compadrios... pois a classe bastava... Por outro lado os chamados festivais de música, especialmente os de verão, regra geral tem-se preocupado em abrilhantar os seus lautos menus contratando grupos ou artistas que se expressam em mais de 90% dos casos na língua de Shakespeare ostracizando assim conscientemente, não só a língua de Luís de Camões e de Fernando Pessoa, mas também consequentemente a cultura portuguesa, e que, pese embora eles não sejam propriamente o Ministério da Cultura tem por obrigação minimamente defender e assim, deste modo, ignorando especialmente a realidade nacional e o que por cá se vai fazendo de bom, musical e culturalmente e por isso é mesmo importante também, em termos de música tradicional, popular ou de musicas do Mundo e substituindo essas áreas por rock, rock e mais rock...estrangeiro! Claro que de vez em quando há umas excepções que fogem à regra, mas valha a verdade que os exemplos, infelizmente, contam-se pelos dedos das mãos! Há ainda quanto a mim ainda um caso mais grave e preocupante:- onde estão as inspecções sobre os tais 50% de passagem de musica em língua portuguesa, aprovados na AR e tornados obrigatórios por decreto nas rádios e TVs? Posso enganar-me mas acho que há muito tempo já que toda a gente deixou de se preocupar com isso ou então se esqueceu dessa “obrigatoriedade”; cabe portanto aqui um papel importantíssimo à SPA :-averiguar e informar-se se essa quota está ou não a ser cumprida por todos os media. E se não está, então é bom que comece a estar, para defesa da música portuguesa! Há quanto tempo não se ouvem nas rádios mais ouvidas...e não só composições de gente com provas dadas como Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Brigada Victor Jara, José Jorge Letria, Carlos Alberto Moniz, Carlos Paredes, Luís Goes, Maria Teresa de Noronha, Amélia Muge, Janita Salomé, Isabel Silvestre, Vitorino, Julio Pereira, Realejo, Jorge Tuna, Vai de Roda, Adriano Correia de Oliveira, GAC, António dos Santos, Né Ladeiras, Fernando Machado Soares, Maria da Fé, Pedro Caldeira Cabral, Argentina Santos ou até mesmo de Francisco José, qualquer um deles neste pequeno grupo de proscritos e esquecidos , “capítulos” importantes da história da música portuguesa dos últimos anos? Imagine-se que para que se possa ouvir fado, eleito Património Imaterial da Humanidade, é quase sempre necessário sintonizar-se a Rádio Amália pois nas outras estações vai vigorando um pouco a lei da moda e da novidade... Mas falemos do disco e do seu autor:- José Barros que já militou em vários projectos portugueses no domínio da música popular e tradicional nomeadamente no Bago de Milho, Cantesul, Romanças ou Quatro ao sul (prémio José Afonso de 2013) e “ilustrou” como instrumentista trabalhos de artistas como Fausto Bordalo Dias, Isabel Silvestre, Rao Kyao ou Amélia Muge, é um multi-instrumenista de reconhecidos méritos para alem de ser dono duma bela voz ( não foi impunemente que foi um dos escolhidos juntamente com João Afonso( sobrinho de Zeca Afonso) e Carlos Alberto Moniz para ser em palco um dos três convidados especiais na mais recente digressão do madrileno/basco Patxi Andion por Portugal apelidada de “Com Zeca no coração”com quem cantou em duo e a solo; para além de tudo o Zé Barros é um excelente cantautor com vários discos no curriculo –este mais recente por exemplo é o seu 11º a solo com os Navegante ( entre 1994 e 2017) e, contabilizando também as participações, o seu 22º já incluindo neste total o fabuloso projecto luso-italiano com o bandolinista Mimo Epifani. Mestre na arte de tocar vários instrumentos de corda portugueses tais como cavaquinho, viola campaniça, guitarra e braguesa, José Barros assina aqui o melhor e mais belo e coeso disco da sua carreira, acompanhado por um quinteto de músicos de inquestionável qualidade e, como se isso não bastasse, ainda esteve rodeado de ilustres convidados tais como o citado Mimo Epifani, José Manuel David e Rui Vaz( ambos ex- Gaiteiros de Lisboa), Armindo Neves, Mário Salvi, Miguel Veras, João Frade, Rao Kyao, Rui Junior, Samuel, Carlos Alberto Moniz e o Grupo de Cantadores da Aldeia de S.Bento que em conjunto, como uma verdadeira orquestra, lhe proporcionaram uma cama musical de grande requinte e excelência, única e surpreendente, que a sua voz agradeceu e a que deu o ênfase mais perfeito. A cantar melhor que nunca e a compor, inspiradíssimo, em pleno auge das suas inegáveis capacidades criativas ( assina sozinho em sete e em quatro parcerias os 11 temas do projecto ), o “navegante” construiu aqui uma obra genial, ao nível dos grandes discos dos mais conceituados cantautores portugueses... Recheado de inspiradas melodias “Á´baladiça” ( em alentejano significa para um grupo de amigos a última rodada de bebidas antes da partida e equivale ao famoso “saídeira” no Brasil) é um trabalho, estética, musical e tematicamente brilhante que tem, em minha opinião, em “Músicos, Cravos e Flores” o seu momento mais alto e orelhudo (que prazer ouvir aqui o sublime desempenho do grande José Manuel David)a lembrar o som dos irlandeses Chiefatins ou dos gaiteiros galegos Carlos Nuñez e Suzana Seivane; hoje a música em português está de parabéns por esta viagem musical inolvidável pelos meandros da MPP num barco chamado “Navegante” capitaneado pelo marinheiro encartado – José Barros !!! Um aviso final à navegação deste mar revolto que afinal é a música em Portugal:- não divulgar exaustivamente, e durante muito tempo, as canções deste projecto em todos os “media” é decididamente “um crime de lesa cultura”!!! CD Tradisom

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CAMANÉ

Date: 2018-02-03 01:10

Convenhamos que quando alguém tem pela frente uma hercúlea tarefa para realizar é preciso muita coragem e indubitavelmente “tê-los no sítio”para se abalançar à tarefa e tentar ser bem sucedido; foi o caso recente do fadista Camané que se propôs gravar um disco inteiramente com reportório do grande “Ti Alfredo” e que só pela iniciativa, merece um unânime aplauso dos seus admiradores e claro, dos do grande Marceneiro, embora se saiba à partida que nestes há sempre um pequeno grupo de detractores destas iniciativas- os tais puristas, que não aceitam de modo algum que as canções do ”seu” artista sejam como que “profanadas” por outras vozes... Porém o resultado final da iniciativa –“Camané canta Marceneiro” acabou por revelar-se de nível surpreendentemente elevado (não tanto para os fans do fadista pois sabem bem do que o seu artista é capaz), mas para a generalidade dos amantes de fado. Verdadeiro e arriscado trabalho sem rede, este tributo/homenagem é um dos pontos artísticos mais altos do ano, musicalmente falando; cantando com só ele sabe, com um estilo próprio, em que a contemporaneidade liga em perfeita sintonia com a ancestralidade fadista apanágio de Marceneiro , onde actualidade se cruza na perfeição com ruralidade, tragédia e ingenuidade ( afinal as grandes armas de Ti Alfredo), Camané soube, com bom gosto, mestria e grande sabedoria, sair da sombra e do imaginário de Marceneiro e criar uma atmosfera vocal própria, por vezes complexa mas de uma profundidade lúcida e amadurecida, independente e acima de tudo visceralmente pessoal, brilhante, incomparável e incontornável... Mas que grande disco de fado o irmão de Pedro e Hélder Moutinho nos trouxe à luz do dia ; um projecto ousado, por vezes irreverente, mas acima de tudo uma recriação impar dum reportório genial e sensível, onde a poesia se retrata por si própria e a voz se transcende no simples acto de respirar. Sem dúvida o melhor disco de fado, no masculino, de 2017!!! CD Warner Music

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SÉRGIO GODINHO

Date: 2018-02-03 01:00

Está de regresso o “homem dos sete instrumentos” o tal do “brilhozinho nos olhos” que diz que “de pequenino se torce o destino” e que afinal de contas é mas é um grande “escritor de canções” como se pode aferir em “Nação valente” o seu mais recente trabalho discográfico- o 18º disco de originais no qual demonstra estar em plena forma embora tenha entregue, contrariamente ao que costuma suceder, grande parte do conteúdo do projecto nas mãos da criatividade alheia pois delegou em muita gente a desafiante tarefa de escreverem músicas para ele exceptuando”Delicado” uma composição com letra e música de Márcia; as restantes canções tem letra sua e a parte musical esteve entregue a gente como José Mário Branco, David Fonseca, Pedro da Silva Martins, Nuno Rafael, Hélder Gonçalves e Filipe Raposo sendo “Baralho de cartas” de sua inteira autoria. Uma totalidade de dez belíssimas fotos/crónicas do quotidiano sob a batuta do seu normal sentido critico e crivo pessoal mas todas respirando energia , sensibilidade, homogeneidade e acima de tudo actualidade. CD Universal Music

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GREGORY PORTER

Date: 2018-02-03 00:10

É sem dúvida o maior acontecimento vocal da música soul/jazz dos últimos anos e uma das estrelas mais cintilantes da R&B e do jazz contemporâneos; chama-se Gregory Porter e o seu nome já surgiu por duas vezes associado nos últimos anos aos vencedores dos cobiçados galardões Grammy (2013 e 2016). Agora com um estatuto de celebridade que lhe é conferido pelos dois prémios obtidos está de volta com um álbum surpreendente onde homenageia a maior influência musical da sua vida- Nat King Cole:- “...é natural que vá às raízes da minha infância e essas raízes são a minha mãe, a musica gospel e...Nat King Cole.” – afirmou o cantor. Pela primeira vez a gravar com uma orquestra completa sob a direcção de Vince Mendoza vencedor de seis Grammies, que também produziu e fez os arranjos do disco Gregory faz deste modo em “Nat King Cole & me” uma homenagem ao seu mentor espiritual e musical, revisita e dá nova vida a 15 composições verdadeiramente inesquecíveis e imortais como são sem dúvida canções como “Mona Lisa”, “Smile”, “Quizas, quizas, quizas”,“Ballerina” ,etc. Quinze brilhantes novas versões que são acima de tudo um tributo sentido a um dos “monstros sagrados” da musica internacional através da voz intensa, sedutora e quente de Gregory Porter uma voz que transcende géneros, áreas e concepções musicais. CD Blue Note/Universal Music

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VIRGUL

Date: 2018-02-03 00:05

É bem verdade aquele ditado que diz que “a fé move montanhas”e isso está mais que comprovado em alguns casos particulares com o é o caso de Virgul. Agora a percorrer uma carreira a solo o ex-Da Weasel e ex-Nu Soul Family apostou inicialmente no poder das redes sociais para divulgar as suas criações musicais e depois posteriormente andou pelo País fazendo mais de uma centena de shows a dar a conhecer os temas que pretendia integrassem o seu primeiro álbum que recentemente viu a luz do dia; trata-se de “Saber aceitar”, um projecto surpreendentemente entusiasmante recheado de grande canções onde se incluem três parcerias com gente como Nelson Freitas, V-Tek, Tuniko Goulart e Ludmilla. E é precisamente este dueto com a mais recente coqueluche da musica funk brasileira- Ludmilla que juntamente com “I need this girl”constitui um dos pontos mais altos do disco em que Virgul mostra todo o seu valor mercê de grandes capacidades criativas como compositor e interprete que fazem dele um rapper dinâmico e imaginativo, um criativo acima da média e fundamentalmente um musico talentoso, que se acreditar ainda mais nas suas capacidades musicais vai no futuro voar bem alto! CD Parlophone/Warner Music

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