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JOSÉ BARROS/NAVEGANTE

Há um velho ditado popular que diz que “ vale mais cair em graça, que ser engraçado!” Estranhamente, ou talvez não, nada é mais apropriado para se falar de um disco de musica popular tradicional , agora editado – “À´baladiça”, em que o seu autor é o mais perfeito exemplo de uma personalidade musical que, vá-se lá saber porquê, nunca conseguiu cair nas boas graças da maioria do grupo dos que “mandam”na música em Portugal, quer isso seja visto sob o prisma de editoras, de rádio, imprensa ou de televisão... Frequentemente, e já para não se falar das amaldiçoadas e cada vez mais discutíveis playlists, ouvem-se nas rádios, ditas portuguesas, canções e vozes de artistas a solo ou grupos, a quem nem com muito boa vontade se lhes pode reconhecer um mínimo de qualidade exigível para o tempo de antena que lhes é concedido, muitas vezes dia após dia, semana após semana, mês após mês... Vários artistas ou grupos atingem muitas vezes um patamar de sucesso alguns, mercê de cunhas ou conhecimentos, outros por terem umas carinhas larocas ( e aqui entram sem duvida em acção directa as preferências de beleza por parte das teenagers nacionais, que quase sempre enchem os locais dos concertos ao vivo) outros por esquisitos esquemas de marketing; se até para vários canais de televisão basta ter um corpinho engraçado ou uma cara bonita, ser ou ter sido modelo, para se tentar e muitas vezes conseguir-se ser candidato(a) a apresentador(a) imagine-se, como tudo seria se também em alguns casos existisse algum talento e não houvesse necessidade de usar as famigeradas cunhas, nem compadrios... pois a classe bastava... Por outro lado os chamados festivais de música, especialmente os de verão, regra geral tem-se preocupado em abrilhantar os seus lautos menus contratando grupos ou artistas que se expressam em mais de 90% dos casos na língua de Shakespeare ostracizando assim conscientemente, não só a língua de Luís de Camões e de Fernando Pessoa, mas também consequentemente a cultura portuguesa, e que, pese embora eles não sejam propriamente o Ministério da Cultura tem por obrigação minimamente defender e assim, deste modo, ignorando especialmente a realidade nacional e o que por cá se vai fazendo de bom, musical e culturalmente e por isso é mesmo importante também, em termos de música tradicional, popular ou de musicas do Mundo e substituindo essas áreas por rock, rock e mais rock...estrangeiro! Claro que de vez em quando há umas excepções que fogem à regra, mas valha a verdade que os exemplos, infelizmente, contam-se pelos dedos das mãos! Há ainda quanto a mim ainda um caso mais grave e preocupante:- onde estão as inspecções sobre os tais 50% de passagem de musica em língua portuguesa, aprovados na AR e tornados obrigatórios por decreto nas rádios e TVs? Posso enganar-me mas acho que há muito tempo já que toda a gente deixou de se preocupar com isso ou então se esqueceu dessa “obrigatoriedade”; cabe portanto aqui um papel importantíssimo à SPA :-averiguar e informar-se se essa quota está ou não a ser cumprida por todos os media. E se não está, então é bom que comece a estar, para defesa da música portuguesa! Há quanto tempo não se ouvem nas rádios mais ouvidas...e não só composições de gente com provas dadas como Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Brigada Victor Jara, José Jorge Letria, Carlos Alberto Moniz, Carlos Paredes, Luís Goes, Maria Teresa de Noronha, Amélia Muge, Janita Salomé, Isabel Silvestre, Vitorino, Julio Pereira, Realejo, Jorge Tuna, Vai de Roda, Adriano Correia de Oliveira, GAC, António dos Santos, Né Ladeiras, Fernando Machado Soares, Maria da Fé, Pedro Caldeira Cabral, Argentina Santos ou até mesmo de Francisco José, qualquer um deles neste pequeno grupo de proscritos e esquecidos , “capítulos” importantes da história da música portuguesa dos últimos anos? Imagine-se que para que se possa ouvir fado, eleito Património Imaterial da Humanidade, é quase sempre necessário sintonizar-se a Rádio Amália pois nas outras estações vai vigorando um pouco a lei da moda e da novidade... Mas falemos do disco e do seu autor:- José Barros que já militou em vários projectos portugueses no domínio da música popular e tradicional nomeadamente no Bago de Milho, Cantesul, Romanças ou Quatro ao sul (prémio José Afonso de 2013) e “ilustrou” como instrumentista trabalhos de artistas como Fausto Bordalo Dias, Isabel Silvestre, Rao Kyao ou Amélia Muge, é um multi-instrumenista de reconhecidos méritos para alem de ser dono duma bela voz ( não foi impunemente que foi um dos escolhidos juntamente com João Afonso( sobrinho de Zeca Afonso) e Carlos Alberto Moniz para ser em palco um dos três convidados especiais na mais recente digressão do madrileno/basco Patxi Andion por Portugal apelidada de “Com Zeca no coração”com quem cantou em duo e a solo; para além de tudo o Zé Barros é um excelente cantautor com vários discos no curriculo –este mais recente por exemplo é o seu 11º a solo com os Navegante ( entre 1994 e 2017) e, contabilizando também as participações, o seu 22º já incluindo neste total o fabuloso projecto luso-italiano com o bandolinista Mimo Epifani. Mestre na arte de tocar vários instrumentos de corda portugueses tais como cavaquinho, viola campaniça, guitarra e braguesa, José Barros assina aqui o melhor e mais belo e coeso disco da sua carreira, acompanhado por um quinteto de músicos de inquestionável qualidade e, como se isso não bastasse, ainda esteve rodeado de ilustres convidados tais como o citado Mimo Epifani, José Manuel David e Rui Vaz( ambos ex- Gaiteiros de Lisboa), Armindo Neves, Mário Salvi, Miguel Veras, João Frade, Rao Kyao, Rui Junior, Samuel, Carlos Alberto Moniz e o Grupo de Cantadores da Aldeia de S.Bento que em conjunto, como uma verdadeira orquestra, lhe proporcionaram uma cama musical de grande requinte e excelência, única e surpreendente, que a sua voz agradeceu e a que deu o ênfase mais perfeito. A cantar melhor que nunca e a compor, inspiradíssimo, em pleno auge das suas inegáveis capacidades criativas ( assina sozinho em sete e em quatro parcerias os 11 temas do projecto ), o “navegante” construiu aqui uma obra genial, ao nível dos grandes discos dos mais conceituados cantautores portugueses... Recheado de inspiradas melodias “Á´baladiça” ( em alentejano significa para um grupo de amigos a última rodada de bebidas antes da partida e equivale ao famoso “saídeira” no Brasil) é um trabalho, estética, musical e tematicamente brilhante que tem, em minha opinião, em “Músicos, Cravos e Flores” o seu momento mais alto e orelhudo (que prazer ouvir aqui o sublime desempenho do grande José Manuel David)a lembrar o som dos irlandeses Chiefatins ou dos gaiteiros galegos Carlos Nuñez e Suzana Seivane; hoje a música em português está de parabéns por esta viagem musical inolvidável pelos meandros da MPP num barco chamado “Navegante” capitaneado pelo marinheiro encartado – José Barros !!! Um aviso final à navegação deste mar revolto que afinal é a música em Portugal:- não divulgar exaustivamente, e durante muito tempo, as canções deste projecto em todos os “media” é decididamente “um crime de lesa cultura”!!! CD Tradisom
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