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AS BRUXAS E A ÁGUA DO CU LAVADO

Autor: MARIA EVA MACHAHO

conto de Literatura de Tradição Oral

Este é um conto de Literatura de Tradição Oral, recriado por Maria Eva Machado e ilustrado por Margarete Barbosa, que se conta há muitos anos em Guimarães. No entanto, podemos dizer que ele é universal porque ainda hoje continua a viajar na mala de quem parte para outros lugares, outros países. Os contos de Tradição Oral não têm autoria definida nem local de nascimento. São pertença do Povo, de todos os Povos que os vão recriando e adaptando aos lugares e ao tempo. Por isso se diz que “quem conta um conto acrescenta um ponto…”. Esta história, “As bruxas e a água do cu lavado” recupera a crença popular na magia de certas águas, e nos poderes misteriosos das bruxas (ou mulher sábia, curandeira, vidente, sibila, xara, arreganhadentes…) que século após século, continuam a fascinar grandes e pequenos. As bruxas destes contos não se assemelham, por exemplo, à bruxa da Branca de Neve. Aqui, encontramos mulheres que o povo conhecia e muitas vezes consultava porque sabia onde viviam, tinham nome e eram reais… Diz o Povo que na Rua de S. Dâmaso viviam três mulheres que eram bruxas e que, além de outros poderes, conheciam uma poção mágica fortíssima capaz de provocar uma grande paixão a quem a ingerisse. Essa poção era feita com água do cu lavado. Como estas bruxas gostavam de um homem, que por ali andava, resolveram colocar a poção mágica no pão e convidá-lo para jantar. Ele, cheio de curiosidade, aceitou. Só que as coisas nem sempre correm como se programam e, afinal, quem comeu o pão não foi o homem mas…

As Bruxas e a água do cu lavado

14,00 €

A entrada das crianças no mundo é um momento cheio de mistério e magia, comportando uma sucessão de gestos e rituais, muito antigos, que se acredita podem ser benéficos para o futuro da criança. Estas práticas iniciam-se logo após o parto, destacando-se a importância do primeiro banho e da água utilizada – água do cu lavado.

Esta água é viva, pura e profetizadora. É por isso que, logo após o banho, não pode ser despejada de qualquer maneira. No dizer popular, o destino da criança é traçado pelo percurso da água enquanto se escoa. A água com que se lava, pela primeira vez, um rapaz deve ser deitada fora de casa, na rua ou no quintal. Já a água do primeiro banho de uma rapariga deve ser despejada dentro de casa, pelo soalho ou numa loja. Dizia-se então que a felicidade da mulher está em casa e a do homem fora de casa.

Um dos maiores terrores do povo, quando uma criança vinha ao mundo, era que a fala lhe tardasse. A crença nesta água mágica determinava que, nos primeiros dias de vida, as crianças deveriam beber água do cu lavado, afastando-se assim a possibilidade de ficarem mudas ou de começar a falar muito tarde. E, ao mesmo tempo que se dava a água a beber, repetia-se: “aguinha do cu lavado para falar cedo e declarado.”

Também se atribuíam poderes mágicos e de mau-olhado, visando tirar ou dar saúde física ou psicológica a terceiros, a uma poção feita com outras águas do cu lavado, que não a do primeiro banho dos bebés…

As expressões seguintes eram modos de explicação de males estranhos ou de invocações tendo em vista a realização de desejos ou amores apaixonados:

“ Ó homem, tens de ir ver o que se passa contigo, porque até parece que te deram a beber água de cú lavado".

“Bebe água do cu lavado que te livra do mau-olhado”.

“ Bebe água do cu lavado e verás que o teu desejo será realizado”.

“ Com água do cu lavado qualquer homem/mulher fica apaixonado”.

Actualmente, como a maior parte das crianças nasce em hospitais, perdeu-se o rasto a esta água milagrosa. No entanto, falando com as pessoas mais idosas e afastadas das grandes cidades, fácil é comprovar que a crença no poder das águas continua bem viva na sua memória.

 

Síntese biográfica - 2014

Maria Eva da Cunha Machado nasceu e cresceu em Guimarães. Concluiu o curso do Magistério Primário tendo depois leccionado em várias escolas do ensino básico. A par do percurso profissional foi desenvolvendo estudos na área da Literatura Infantil, numa perspectiva de melhor apetrechamento e actualização científico - pedagógica.

Curso de Estudos Superiores Especializados na Universidade do Minho- Braga, em Educação Básica Inicial – Língua Portuguesa / Literatura Infantil

Bolseira do programa Sócrates / Erasmus para Formação de Professores, na área de Bibliotecas Escolares com frequência na Universidade de Derby, em Inglaterra, para complemento de estudos pós-graduação, efectuados na Universidade do Minho, em Bibliotecas Escolares.

Mestrado em Análise Textual e Literatura Infantil, na Universidade do Minho – Braga com a tese “Contributo para uma análise de contos de Alexandre Parafita – Deusas e Bruxas”.

Colaboradora do Jornal O Povo de Guimarães.

Responsável de Biblioteca Escolar do Ensino Básico no concelho de Guimarães, de 1998 a 2001.

Colaboradora na Sociedade Martins Sarmento em actividades desenvolvidas no âmbito do Serviço Educativo.

Convidada como oradora/formadora em várias palestras/encontros orientados para a literatura infantil principalmente na vertente fadas, deusas e bruxas, questões de género literacia, métodos de ensino e escrita criativa.

Co-autora do livro “A Magia do Mundo Literário na Literatura Infantil” com coordenação de Armindo Mesquita da UTAD, editado em 2012.

Autora do livro “As bruxas e a água do cu lavado” editado em 2014.

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